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MACHU PICCHU

ONDE VOCÊ ESTÁ MAIS PERTO DO CÉU

  ANTÔNIO INÁCIO RIBEIRO



Qual é o país cujo nome é um bicho e a capital é uma fruta? Quase todos da minha geração e região responderam a esta pergunta. Lima - Peru diziam rápido os mais sabidos. De tanto escutá-la fiquei com a curiosidade de conhecer este país por aproximadamente 40 anos. E tinha a certeza que um dia chegaria lá. Posteriormente tive uma overdose de motivação com os relatos de meus pais, que lá estiveram e contavam as maravilhas deste país andino e da cidade dos incas, falando que tinham usado todos os meios de transporte na viagem: avião, ônibus, trem, barco, automóvel, bicicleta e canoa de índios. Seus relatos me enchiam ainda mais de curiosidade para com este país diferente e tão próximo. Sim, porque Lima dista três horas e meia de vôo desde São Paulo, pouco se comparados às 10 ou 15 horas das outras maravilhas, além de, por não ser um ponto tão procurado quanto os outros e ter um preço bem mais convidativo.
A passagem por Lima permite-nos conhecer uma das cidades mais diferentes da América Latina. Lá não chove quase nunca, a maioria das casas não tem telhado e toda a característica da cidade se faz diferente a partir deste fator. Não deixe de visitar: a Plaza de Armas, onde estão o palácio do governo, a catedral, o palácio episcopal e a prefeitura, todos com arquitetura própria do Peru e que impressionam. Preste atenção nos balcões dos prédios mais antigos, que são uma característica da capital peruana. Atração diferente é visitar o convento de São Francisco, onde além de um interessante museu, se pode visitar as catacumbas, onde eram enterradas a maioria das pessoas, antes que se começasse a colocá-las em cemitérios. Todo o local foi produzido turisticamente, transformando-se em verdadeira atração. Um passeio a pé até a Praça San Martin, onde se realizam as principais manifestações populares, se feita pelo calçadão, dão uma boa idéia do centro de Lima. Bairro que não pode deixar de ser visitado é Miraflores, parte alta e nova da cidade, na encosta do Pacífico, onde se localizam as melhores casas e edifícios da cidade.

Como nosso objetivo e destino é Machu Picchu, não nos delongamos nem na visita, nem na descrição de Lima, voando logo para Cusco, capital do departamento (estado) do mesmo nome onde se localiza a Cidade Inca. Um cuidado é escolher bem a companhia aérea, porque os vôos para Cusco só se realizam pela manhã pelas condições geográficas e climáticas que caracterizam a região, e porque o aeroporto se localiza no fundo de um vale, no meio da cordilheira. Outra recomendação é não alimentar-se antes da viagem, não ingerir bebidas alcoólicas no dia anterior e chegando a Cusco, tomar um mate de coca e deitar-se por duas ou três horas.

Tudo ista para adaptar-se ao terrível efeito da elevada altitude e rarefação do ar, que provocam nos visitantes o soroche, um mal estar típico das alturas, mas nada grave a ponto de atrapalhar seu passeio, desde que tomadas as relatadas precauções. Não tendo optado por um pacote turístico que inclua toda a programação (são bem mais caros), procure logo adquirir as passagens para o trem que leva a Machu Picchu, porque estes sempre têm bastante procura e se não perde-se um ou dois dias. Caso isto aconteça, existem alguns outros passeios a ruínas que poderão ser feitos. O trem e todo o trajeto até Aquas Calientes (lugarejo no pé da montanha da Cidade Inca) são bastante pitorescos.

Percorre-se o vale dourado dos incas, nas margens do rio Urubamba com beleza e presença de muitos índios,  inclusive com paradas para comprar comidas, roupas e objetos típicos, por aproximadamente quatro horas. A chegada à estação final é cinematográfica e a subida em micro-ônibus até a parte alta é emocionante, até porque a estrada só comporta um veículo de cada vez e os cruzamentos obrigam sempre a arriscadas manobras em marcha a ré a cerca de três mil metros de altura. Acabou-se a mordomia, daqui para frente são três horas de caminhada, em subidas e descidas, mas com a compensação assegurada desde as primeiras visões já daqui de baixo de uma paisagem e vistas impressionantes.

Talvez por termos lido algo e visto fotos de Machu Picchu antes de chegar ate ela a partir do momento da subida, as emoções são fortes, belas e marcantes a cada novo ângulo dos cerca de trinta hectares que compõe os dais setores: agrícola e urbano. O solo em base granítica alterna artísticamente rochas e vegetação, permitindo fotos dignas dos grandes mestres das câmaras. Por precaução compre antes de subir de três a cinco rolos de filme com 36 poses. Logo na entrada do parque fotografe e veja um monumento a Hiram Bingham que em 1911 descobriu Machu Picchu e um quadro com os pontos principais desta cidade em ruínas que devem ser visitados. O ideal é fazer todo o percurso com um guia local não para seguir-se pelos caminhos certos, mas principalmente para se ter um descritivo e identificação de cada detalhe.
Algumas das ruínas estão em tão perfeito estado de conservação, nos fazendo pensar que seus antigos habitantes as tenham deixado há apenas alguns anos antes e não centenas como supõe os estudiosos. Outras tem tal grandiosidade arquitetônica, que nos levam a pensar ter sido efetivamente um povo diferenciado que lá viveu. Nesta condição estão o Templo do Sol, as Fontes, o Templo Principal, as Portas, o Mausoléo e a Rocha Sagrada, dando-nos de imediato a dimensão do místico que envolve o lugar. Quase todas as edificações do setor urbano se encontram em bom estado ou foram criteriosamente restauradas dando ao todo um verdadeiro aspecto de monumento. Afora isto as praças, por sua estratégia de localização e por suas dimensões levam-nos a imaginar que quem as construiu estava em adiantado estado de evolução social para os conceitos relativos da época, chegando a detalhes como uma área destinada presumivelmente a presos e outras preparadas meticulosamente para a produção de alimentos, alem de inteligentes processos de captação e distribuição de áqua.
Aos que programarem dois ou três dias para a visitação (há um hotel bom na parte alta e pousadas na parte baixa) é possível visitar além dos pontos mais importantes, outras construções fora do plano principal da cidade, tais como o cemitério, o posto de vigilância e a porta de ingresso no caminho a Intipunku e Waynapicchu, palavra que na lingua quéchua significa a parte de cima jóvem, enquanto Machu Picchu em contraposição significa a parte de cima velha. Trata-se de uma outra parte da cidade inca em uma montanha adjacente avistada desde a cidade velha. Estes são passeios alternativos para os que apreciam caminhadas e aventura, como pode ser o próprio acesso a Machu Picchu que se pode fazer pela trilha dos Incas, a começar pela estação do trem imediatamente anterior a Aguas Calientes.
De toda a beleza de Machu Picchu, o mais certo é que a mão do homem, neste caso representada pelo não tão primitivos Incas, soube magistralmente identificar um ponto alto da natureza, em todos os seus sentidos, e nêle edificar e representar toda a sua capacidade criadora e construtiva. Esta idéia nos parece ainda mais sublime na medida em que imaginamos que na cidade sagrada dos Incas tudo se fez para estar-se mais próximo de algo superior. Toda esta linha mística se completa na incerteza quanto ao destino que teve o povo que habitou esta fenomenal cidade. Não existem registros do acontecido, muito embora os indicadores garantam não se tratar de época muito distante. Se poderia, na linha mística de raciocínio supor que este povo tenha desaparecido por ter encontrado o caminho para os céus, até por ter vivido muito mais próximo do mesmo que as demais civilizações.
Melhor aproveitando o investimento da viagem se pode sair de Cusco em trem para Puno, quando se cruzará o desfiladeiro mais alto do mundo, a cerca de quatro mil metros de altitude, ver vulcões com neve eterna e depois de um dia de viagem por diferentes paisagens chegar a fronteira com a Bolívia, onde o programa mais indicado seria pegar um dos muitos barcos a beira do lago Titicaca, indo até ao conjunto das ilhas de Uros. Imperdível é uma parada em uma das inúmeras ilhas flutuantes construídas e habitadas pelos nativos totalmente em totora (palha de junco), onde vivem de duas a cinco famílias. Faça também um passeio de uma hora nas balsas construídas pelos uros em totora e movidas por uma vara e destreza do oporador.
De Puno, uma opção é ir para Arequipa, a segunda cidade do Peru. Pode-se ir em trem (a noite) ou em ônibus (de dia) tendo-se dez horas para apreciar o deserto, o ponto mais alto a cinco mil metros de altitude e muitas llamas, o animal típico do Peru. Escolher o ônibus e trem para turistas é primordial, pois o local além de muitas paradas oferece condições não muito boas no tocante a conforto e alimentação. Arequipa tem toda a influência espanhola, quer em seu povo como em suas edificações, Subindo um morro, chega-se ao aeroporto de onde se sai com destino a Lima, não sair antes de ver mais um show de paisagens das cordilheiras, outro autêntico cartão postal do país cujo nome é um animal e a capital uma fruta e onde todos os meios de transporte o levam ao alto e ao passado.
 

PUBLICADO NO JAO Nº 16 EM SET/OUT DE 1999
 

 

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