DAQUI NÃO SAIO,
DAQUI NINGUÉM ME TIRA!
Os que usam óculos para
corrigir miopia para longe, sabem o quão comum é ver um
cordeiro sem óculos e ao colocá-los espantar-se com o lobo
que temos a nossa frente. Nem sempre isto é questão de
lentes, muitas vezes é a própria realidade, de pessoas que
numa circunstância são uma e noutra se modificam
radicalmente. E o gato virou fera!
Gato, talvez pela boa pinta,
fala mansa e pela maneira quase dócil, em seu estado normal.
O fato, como muitos outros, aconteceu num dos quase
cinqüenta grupos de dentistas brasileiros que foram à
Argentina aprender a implantar. Para lá iam a maioria, como
foi o Lair, obviamente um pseudônimo, para não comprometer o
próprio e sem querem envolver o gênio da neurolinguística de
mesmo nome, até porque seu sobrenome é Ribeiro, como eu. Ele
foi só, como de resto esta era a impressão que passava: ser
muito só.
Vânia e Betina eram amigas
por trabalharem num mesmo edifício. Acho até que Betina foi
à Argentina mais por influência de Vânia, porque dela mais
nada sei, talvez pela confusão que esta estória foi lhe
aprontar. Bil, também amigo de Vânia, levou seu amigo Gui,
um dos dez mais em sua cidade, digasse por justiça uma
grande cidade. Todos casados, com seus respectivos e
respectivas, que não são nenhum dos anteriormente citados.
Mas a encrenca iria envolvê-los. E como.
Vânia é do tipo mignon,
bonita, simpática e bem sucedida. Inclusive no cuidado com a
aparência. Betina, ao contrário era do alta, magra, mas sem
dar muita atenção para os que estão em volta. Tinha
aparência de uma mulher bem casada, no que se assemelhava a
Gui. Este sempre bem vestido, cabelos cuidadosamente bem
penteados e em tudo combinando cores. Era alto,
diferentemente de Bil, que tinha a estatura proxima de
Vânia.
Os quatro formavam um grupo
a parte, entre os vinte e cinco brasileiros pela
aconchegante Rosario. Na verdade, se completavam e se davam
tão bem que só conversavam entre eles, chegando em algumas
vezes a ocuparem uma mesa em separado, o que não era normal
naquelas viagens em que todos além de aprender, buscavam
divertir-se e fazer novas amizades. Obviamente logo
começaram os comentários e o mais comum entre os maldosos
que haviam sido preteridos pela duas únicas representantes
do sexo antigamente conhecido por frágil, era comentar que
os altos fariam par entre sí e os baixos idem.
Como todos já tinham mais de
trinta, a única coisa que restava aos demais era fazer
fofoca. Menos para Lair, que sem comentar nada com ninguém e
sem que percebêssemos, apaixonou-se por Betina. E tinha
altura para isto. E por conta disto e pelo fato dela não lhe
dar atenção, poz-se a beber. Como bebem os que perderam um
grande amor, talvez potencializando a perda por ter a
pretendida quase a sua frente, na companhia daquele que
imaginávamos fosse o seu par de viagem. Pelo quanto bebia,
poderíamos ter-nos dado conta do tamanho da sua dor de
cotovelo. Só que não sabíamos a razão de tamanhos porres.
Nem ele contava e muito menos poderíamos imaginar.
Na segunda noite, voltei
mais cedo para o hotel. O mesmo fizeram Vânia, Betina, Bil e
Gui, para delírio dos fofoqueiros que continuaram
desfrutando do bom e barato vinho argentino. Deitei-me e
quando meu sono já ia profundo, soa o telefone e me desperto
sobressaltado, pensando no que poderia estar acontecendo.
Era Vânia, que com muita calma pediu desculpas por ter me
acordado. Com a mesma calma perguntou se eu poderia descer
ao apartamento delas. Nem acreditei ! Na verdade nem pensei
direito. Arrumei-me o melhor que pude e fui, tentando
imaginar o que poderia me acontecer.
Ao entrar, acordei e fui
forçado a cair na real. Sentada na cama, Betina chorava
compulsivamente. E Vânia foi logo relatando o que havia
acontecido. Meia hora antes, Lair, sim ele mesmo, tocara a
campainha e por tratar-se de um colega, Betina abriu a
porta. Bêbado, foi direto a sua intenção: daqui só saio
depois de ficar com as duas. Passado o susto inicial, Vânia
, mais experiente, conseguiu acalmar Lair dizendo-lhe que
até entendia seus propósitos, salientando que não ficaria
bem naquele momento, porque Betina era recém casada , mas
que ela como recém separada concordaria, desde que ele
providenciasse um apartamento de casal para as duas noites
que o grupo ficaria em Buenos Aires e na condição de não
comentar nada, para não ter a ira de Bil e Gui, que no
apartamento ao lado dormiam sem nem imaginar o que estava
acontecendo.
Lair concordou e depois de
ter recusado uma cerveja, recolheu-se , talvez para imaginar
o que lhe esperava na capital do tango. E eu depois de ouvir
a estória e prometer providências, também voltei ao merecido
sono dos justos, não sem antes garantir às duas que nada
iria acontecer. Na verdade, não tinha àquele momento a
mínima idéia do que poderia fazer, o que só foi me ocorrer
no dia seguinte, que era justo o último dia do curso e
tínhamos programado um jantar de encerramento.
Durante o dia, tratei de
contar discretamente o acontecido e pedir ajuda para o caso
dela vir a ser necessária. Todos se surpreendiam e o
resultado foi um total isolamento, imposto sem combinação ao
nosso anti-heroi. Em Buenos Aires combinei com Vânia e
Betina para que ficassem no apartamento que na listagem da
portaria aparecia em nome de Bil e Gui, imaginando a
surpresa de Lair ao ver um dos dois abrindo a porta. A
armadilha foi bem planejada, mas não precisou ser testada,
porque o lobo com cara de cordeiro não apareceu. Na verdade
nunca mais me procurou, muito embora lhe tenha feito
cortesias em implantes, a que ele se submeteu como paciente,
os quais espero estejam bem integrados.
MÃOS E BRAÇOS É DEMAIS
Depois de quatro ou cinco
dias de bom e frutífero convívio na Argentina, nosso
relacionamento entre os participantes do grupo era mais do
que amizade. Sei de alguns que de amigos feitos nos cursos
da Fundação, se tornaram compadres, outros viajaram juntos,
alguns foram pescar, outros se encontram até hoje. Tem
alguns que pela amizade lá acontecida, hoje ministram aula,
enfim só não tivemos casamento, talvez porque poucas eram as
cursantes do sexo feminino ou pela pouca habilidade do que
esteve perto, optando pela tentativa de estupro.
O clima dos colegas de
viagem, normalmente prima pela camaradagem, otimizado pelo
fato de serem de distintas procedências e todos estarem
atrás do mesmo objetivo: fazer sucesso na profissão,
aproveitando-se da ótima alavanca que para isto os implantes
proporcionavam. Com eles não haviam segredos, bem pelo
contrário, alguns por estarem diante de colegas distantes e
que por isso nada comentariam, aproveitavam para abrir seus
segredos, profissionais e até particulares. Assim foi em
quase todos os grupos, me fazendo inclusive pensar em grupo
de reencontro para Buenos Aires, quando estarei completando
trinta anos de comércio odontológico.
Completando parcialmente o
clima, o "gran finale" das nossas viagens era o show do
Tango Mio, num ambiente romântico-nostálgico de forte apelo
emocional, onde Fernando Soler, o maior cantor de tangos da
atualidade, tirava como mestre, toda a emoção de quem,
estando longe de seu país, transfere ao país irmão, nos
momentos de maior emoção.
Não posso esquecer também de
outro combustível, inflamável, largamente consumido naquela
tangueria, potencializado nas doses por ser grátis, ou
melhor, estar incluído no pacote pré-pago no Brasil.
Realmente bebíamos muito, pela saudade, pela beleza do
espetáculo e pela boa qualidade do vinho argentino.
Tentávamos cortar um pouco alternando água com gás, um
truque que na Argentina aprendi. Mas a atração e tentação
pelo vinho sempre era maior.
Complementando, a direção
artística do Tango Mio dosava momentos de espetáculo,
nostalgia e sensualidade, colocando quatro lindas e bem
dotadas bailarinas, a pouca luz e com fumaça de gelo,
completando o clima, num momento de máxima excitação para os
desacompanhados, principalmente. Como já conhecia o show de
olhos fechados, neste momento oportuno, decidi fazer uma
brincadeira com o Nei, um cuiabano que mora em Goiânia,
sentado ao meu lado. Discreta e sutilmente, coloquei meu
braço sobre a sua cadeira e com a mão, comecei alisar seu
braço, do outro lado da cadeira. Surpreendeu-me, que mesmo
com um pouco mais de idade e já um pouco mamado pelo bom
vinho, Nei não reagisse vigorosamente contra a brincadeira.
O que não podia imaginar e que só vim a saber depois é que o
outro colega, sentado a sua esquerda tivesse tido a mesma
idéia, só que docemente passando a mão em sua perna,
procurando disfarçar o autor da brincadeira, olhando
concentradamente para o show.
Nei, que vacilara por alguns
instantes, talvez entrado de cabeça no clima do show, justo
no momento de maior silêncio do espetáculo, pula da cadeira
brabo e gritando diz: "mãos e braços é demais", fazendo com
que as quase quinhentas pessoas que assistiam o show se
voltassem para ele. A maioria não entendeu nada e os
brasileiros ao me verem ao lado de quem gritara, logo
imaginaram que alguma coisa havia partido de mim. Só o
Valdir, o co-autor da brincadeira não entendera o ímpeto da
reação.
AQUI TEM ARROZ ?
Existem pessoas que fazem
loucuras para conseguir o que querem, e às vezes não
conseguem. Saoru Kamurai, embora o nome não pareça é
descendente de japoneses e tem duas grandes paixões
confessas na vida. As outras ele não confessa. A primeira é
uma boa pescaria. De tão louco por ela, junto com parentes e
amigos, todos japoneses, mas sem discriminação para com
outras raças, saem uma vez por mês de São Paulo, rodam pouco
mais de mil quilômetros até Ituzango, um lugarejo com fama
de fazer o melhor carnaval da região. Pelo nome e pela
distância, já deu para imaginar que não é Brasil. Sim, fica
perto de Posadas, capital da província de Missiones,
nordeste argentino.
Depois de tanta estrada, o
lugar tem que ter algo especial. Não é o carnaval, nem o
lugar, que ficou conhecido na Argentina por ter sido a
cidade onde construíram outra cidade quando da construção de
Yacireta, a Itaipu dos argentinos. Também no rio Paraná,
também fronteira com o Paraguai e igualmente em consórcio
com os paraguaios. Não é por nada que os mercados mundiais
tremem quando um dos dois países tem algum resfriado
financeiro. Temos tendência histórica de um repetir o outro,
nas coisas boas e ruins. Voltando a Ituzango, o que lá tem
de bom é o peixe. Ou melhor, os peixes, segundo a abundância
relatada por Saoru e outros que vim a conhecer depois, que
concordam com ele.
Eu mesmo, anos depois,
andando pela região com meus pais para conhecer as Missões
argentinas e paraguaias que estão próximas, tive
oportunidade de ver nos hotéis e restaurantes da cidade,
fotos de peixe, algumas que só a foto pesava mais de dez
quilos. Lamento informar aos pescadores do Brasil, não ser
sobre esta paixão de Kamurai que iremos tratar.
A outra também é de comer,
bem mais barata, encontrada em qualquer lugar do Brasil e na
maior parte do mundo. Em alguns lugares gosta de dar no
seco, outros no molhado. Uns preferem mais soltinho, outros
mais grudadinho. Uns comem só, outros acompanhado. Alguns
não dormem ou melhor, não vivem sem. Antes que outros
comecem a pensar bobagem por não terem lido o título com
atenção, estamos falando do arroz, uma preferência nacional
no Japão e se misturar com um pretinho, no Brasil e outros
lugares mais, também. Quem acostuma, não tem jeito, não
dormem sem ele. Foi o caso do Saoru.
Não em Ituzango, que por ser
quase fronteira com o Brasil tem arroz, mas em Rosario,
quando o professor de cirurgia foi fazer curso de implantes,
influenciado pelo compadre Washington. Chegamos depois das
nove e Saoru tinha fome, não de comida, de arroz, porque nos
três trechos do vôo da Aerolíneas Argentinas não serviram
arroz uma única vez. Sem saber do problema, entramos no
restaurante mais perto do hotel e nosso amigo nissei teve a
primeira decepção: não tinha arroz no restaurante. Passou a
primeira noite sem.
Dia seguinte ao meio dia,
fomos numa churrascaria e nem perguntamos. Todos sentaram e
Saoru correu o cardápio de ponta a ponta e não encontrou.
Comeu muita carne e nenhum arroz. À noite a maioria decidiu
ir a uma cantina e Saoru não quis ser diferente e passou a
segunda noite sem. No terceiro dia, para não arriscar, Kaoru
saiu só em outra direção a procurar um lugar que servisse
arroz. Imagino a cena: chegava na porta, perguntava se aqui
tem arroz. O terrível é que dependendo do lugar, eles nem
sabem o que é. Depois de caminhar por mais de meia hora
desistiu e parou em uma lanchonete e pediu um xis sarada, ao
melhor estilo paulista.
No terceiro dia do curso,
houve lanche no horário do almoço e de noite a programação
era o jantar de encerramento. Desnecessário dizer que no
cardápio não tinha arroz. Mais uma noite sem. Dia seguinte
saímos às dez e meia com destino a Buenos Aires. Lanche no
avião, sem arroz e o mesmo ônibus que nos pegou no
aeroporto, nos levou para uma tarde de “citty tour”.
Chegamos ao hotel ao anoitecer, com orientação de em meia
hora estarmos no saguão para sairmos ao programa especial do
dia: um show de tango. Na melhor refeição da viagem teve
tudo. Música, vinho, show em cima do palco e fora deste,
carne, sobremesas e ia esquecendo o arroz. Não teve. Quarta
noite sem. A esta altura o tema já ganhara ares de gozação,
com todos perguntando aos garçons e até no café da manhã se
tinha arroz. Saoru estava quase louco.
Dia seguinte, saímos cedo
para aeroporto e São Paulo. Os que arriscaram arroz no
cardápio erraram. Não tinha, muito embora a maioria do grupo
perguntasse por ele a todas que lhes serviam. Em vão. No
aeroporto em São Paulo, despedidas, promessas de se
encontrar de novo e para Saoru uma pergunta feita por todos:
aonde vais agora? A resposta todos sabem. Vou subir a escada
e comer arroz no primeiro restaurante que encontrar.
SEM WHISKY NÃO SOBE
Terto mora em uma cidade
próxima a Florianópolis, histórica e boa de praia. Queria
ser o melhor implantodontista da cidade, até porque lá não
havia nenhum. Como nunca tinha andado de avião tomou uns
whiskys a mais do que o normal e talvez pelo bafo, a
funcionária do aeroporto de Porto Alegre esqueceu de
perguntar se ele tinha identidade. Não a personalidade, o
documento. Assim ele embarcou, com sua alegre esposa numa
segunda lua de mel programada há anos. Chegando a Buenos
Aires, depois de três whiskys, deu-se conta que a identidade
do CFO não servia como documento internacional. Malandro
espeto, se adiantou: não tem problema seu guarda, tenho aqui
meu passaporte. Seu guarda olhou e foi direto na validade.
Direto na mosca: estava vencido. Em vão todos os argumentos,
teve que voltar no mesmo avião, sem pagar passagem, nem os
whiskys, voltando para Santa Catarina. A esposa, que tinha
identidade, ficou com o grupo.
Tinha certeza que sua
identidade estava numa pasta que havia deixado no carro. Com
as pernas meio bambas foi até o estacionamento e depois de
tudo revirar, a constatação: a identidade não estava ali.
Ligou para casa e ficou brabo, porque a sogra que
gentilmente ficara tomando conta das crianças, perguntou
direto: você bebeu de novo? Teve que ir até sua cidade e
perdeu o avião daquela noite e a tão sonhada comemoração da
segunda lua de mel. O grupo, todo masculino, em consideração
ao colega, nem perguntou a ela o que tinha programado fazer
naquele dia especial. Para completar a encrenca, chegou em
casa e encheu mais um copo, já que a cara estava cheia e a
dela, a sogra, fechada. Pegou a identidade e voltou, talvez
até para fugir da sogra. Como o avião era cedo, dormiu no
carro, dentro de um estacionamento, perto do aeroporto. E só
voltou a tomar no café da manhã, que teve uma empada como
acompanhamento do tradicional scoth.
Serviço de bordo e mais um
whisky, por favor, até chegar ao ponto que o simples toque
da campainha da aeromoça já era código: ela nem vinha
perguntar, já trazia outro whisky. Na imigração argentina, o
mesmo funcionário do dia anterior, reconheceu-o não pela
foto e sim pelo ar etílico. Perguntou o que viera fazer na
Argentina e a resposta foi um curso de implantes. Se tivesse
dito que era beber teria sido mais honesto. Tomou os quatro
dias. Para aproveitar o costume local e para não passar o
tempo todo tomando whisky, passou a alterná-lo com vinho.
Bastante vinho, que segundo ele era meio fraco e por isso
tinha que beber bastante, para fazer o mesmo efeito.
Fez o curso anestesiado e
anestesiou alguns colegas que próximos, tinham que responder
a suas perguntas. Para não ficar só no hotel, sua esposa o
acompanhava durante o curso. Mesmo não sendo dentista,
alguns colegas maldosos disseram que ela aprendeu mais do
que ele, muito embora não tivesse tido oportunidade de por a
prova seus conhecimentos implantológicos, até porque pelo
que sei, Terto não se animou a colocar os implantes. Nem nos
argentinos que todos os anos enchem as praias de seu estado.
Que bom, o vinho argentino.
SAPATO NA LAREIRA APAGADA
A cinderela ficou
mundialmente famosa por ter encontrado um pezinho para o
sapatinho pequeno. Nosso cinderelo tupiniquim às avessas,
gaúcho, ficou conhecido pelo “oi bota aqui o seu pezinho”.
Como muitos tem o hábito de fazer, Jorjão, durante o curso
tirava os sapatos, talvez por serem novos e terem sido
comprados para a viagem, buscando mais comodidade. Como não
houvessem reclamações, muito embora o normal nestas ocasiões
seja o odor desagradável, Jorjão no segundo dia circulava
pelas dependências da fundação só de meias e ninguém lhe
olhava os pés. Sentia-se à vontade.
Como éramos muitos em seu
grupo, mais de uma vez os sapatos andaram sendo
involuntariamente empurrados. Ou será que voluntariamente
por algum incomodado? O certo é que quando o buscava, sempre
tinha que dar uma busca por toda a grande sala onde se
encontravam mais de trinta pessoas. Assim foi no primeiro
dia e na manhã do segundo, sem que pudesse ocorrer na cabeça
de Jorjão a possibilidade de um seqüestro, que naquele tempo
tinham saído um pouco de moda em nosso país. Talvez porque o
resgate a ser solicitado não poderia ser muito alto. Mas foi
o que acabou acontecendo, o sumiço dos sapatos, não o
seqüestro.
Tamanho 43, Jorjão logo
afastou a hipótese de algum colega ter pegado para uso
posterior. Com a ajuda de alguns colegas e risos disfarçados
de outros, os procurou por quase uma hora em vão. O delito
havia ocorrido no antes do último intervalo do curso e por
este detalhe deduzo que fora cuidadosamente planejado e
executado. Durante a última etapa do curso, o gauchão olhava
para todos os colegas, tentando com o olhar, descobrir quem
tinha jeito de ser o aprontador. Alguns com olhar sério
faziam sinal que não, outros riam, mas sem ter ar suspeito,
o que dificultava as investigações. Os professores e
funcionários somavam com Jorjão, porque na Argentina não tem
o hábito e a prática da sacanagem. Nem sabem o que a palavra
significa. Todos, ou quase todos ajudavam a procurar. O
curso terminou e Jorjão foi receber o certificado descalço.
Todos riam muito e depois
que alguns se tinham ido, os que ficaram dedicavam-se à
tarefa de "sherloquiar" o par de sapatos, que para complicar
eram pretos, como os cantos escuros da sala e a parte abaixo
de mesas e cadeiras. Talvez o mal cheiro que poderia ajudar
no seu farejamento se tivesse ido. Talvez algum colega mais
radical o tivesse levado. O certo é que Jorjão estava
ficando cada vez mais nervoso do alto de seus um metro e
noventa. E ninguém queria ficar embaixo de seus mais de cem
quilos. Parecia terem escolhido mal a vítima para a
brincadeira, não fosse o coração e o humor de Jorjão tão
grandes como seu pé. Reviramos tudo. Até dentro da privada
olharam. Liguei para o hotel e perguntei para os que já
haviam chego se havia algum comentário do paradeiro dos
sapatos e nada.
O crime tinha sido perfeito.
Chegamos a pensar que Jorjão sonâmbulo tivesse vindo
descalço para o curso. Quando estávamos por desistir, uma
funcionária antiga da fundação perguntou se tínhamos
procurado na lareira, que no verão não era acesa. Por ser
verão, colocavam uma tampa bonita como forma de embelezar o
ambiente e diminuir os lugares de limpeza. Aberta, os dez
pares de olhos que a miravam, incrédulos puderam ver os dois
sapatos, colocados lado a lado, com cuidado, como a indicar
que o criminoso tivera tido tempo e facilidade para
perpetrar seu golpe. Não foi preciso Jorjão calçá-los para
provar que eram seus. O tamanho da lancha não animava
ninguém a postular sua propriedade. Não só o dos sapatos,
mas o de Jorjão também. Perguntei ao Jorjão se ele queria ir
para o hotel a pé pelo calçadão e ele fechando a cara optou
por irmos de táxi. Cruzava os pés como que com medo de que o
taxista pudesse roubar-lhe os sapatos. Digo o taxista,
porque estávamos só ele e eu. E duvidei que ele pudesse
imaginar que eu, depois de duas horas procurando, pudesse
entrar no rol dos suspeitos.
À noite, no jantar, todos
olhavam para os pés do gaúcho, que por segurança decidira
calçar botas que além de tudo eram mais difíceis de serem
tiradas. Perguntou um a um: foi você. Todos diziam que não e
no fim da noite tiveram a infeliz idéia de perguntar a
Jorjão onde estavam e quem os tinha encontrado. Falou o
lugar e disse que eu os encontrara. Para que, todos passaram
a dizer que eu era o golpista, até por ser gaúcho como ele e
colorado, que no Rio Grande é quem mais apronta com
gremistas. Foi a conta para Jorjão virar-se contra mim e
perder o jeitão amistoso que caracterizara nosso
relacionamento. De bom sujeito, virei vilão. E não tinha um
único álibi. Não desconfiava de ninguém, sequer tinha uma
pista. Até hoje pensa que fui eu. Vou aproveitar para
dizer-lhe por escrito, que diferente de todos os que
falaram, eu escrevo: Não fui eu.
CHOPP NA CALÇADA
No Rio de Janeiro de onde
vem o nosso amigo Puccini, é normal. Melhor, é obrigatório.
Depois de um dia de trabalho (não vou falar meio para não
dizerem que implico com cariocas), nada melhor do que
encontrar os amigos e por todo o amargor do dia para fora.
Falar mal dos clientes chatos, chingar os que deram o cano,
quer faltando, como não pagando ou simplesmente falar bem da
vida alheia. Isto mesmo, falar bem, porque diferentemente de
muitos lugares, onde mais de dois se encontram é para falar
mal, no Rio de Janeiro o que mais se faz é falar bem: olha o
popozão daquela ali, olha a boquinha daquela lá, olha a
curva desta aqui, e assim afora.
Na Argentina é diferente. O
clima é frio, cerveja só se toma em ambientes fechados e
ficar olhando para a anatomia alheia não é hábito. Pelo
menos não comentam. E foi lá que o chopp rolou pela primeira
vez na calçada. Puccini tinha ido fazer o curso na fundação,
e já nos dois dias de turismo e compras em Buenos Aires,
depois de muito caminhar, decidimos sentar na esquina famosa
da Corrientes e Nove de Julho, bem em frente ao Obelisco.
Tinha levado duas colegas para fazerem o curso: uma mais
feia e outra mais bonita. Resolveu dar uma paqueradinha na
mais feia, que talvez por isto fosse muito ciumenta, mesmo
num simples flerte.
Mesmo não estando no Rio,
Puccini não perdia seu jeito galanteador, ele um autêntico
galã grisalho. A conversa corria solta, embalada com as
garrafas de um litro de cerveja comuns na Argentina e mais
fortes que as brasileiras, talvez pelo próprio clima frio do
país irmão, quando Puccini resolveu fazer um comentário,
quase galanteio acerca da colega mais bonita, que provocou
ira da colega menos bonita. Puccini, talvez querendo dar a
entender para os colegas que não estava tendo nada com a
colega, fez pouco caso do comentário da ofendida que ficou
ainda mais revoltada, não falando, mas dando a perceber.
Para arrematar, Puccini comentou a meia voz com o amigo, que
com ele era assim, gostou, gostou, não gostou azar de quem.
A colega, sem nenhum comentário, levantou-se e com o copo na
mão despejou-o todo no galã.
Sem entender o que estava
acontecendo, ficamos todos meio sem jeito e sem saber o que
dizer ou perguntar. Por mais de um minuto ninguém falou nada
e o clima ficou gozado demais, sem comentários. Não perdendo
a característica de carioca, Puccini pediu mais um chopp
para o garçom, dizendo que aquele, o que fora para o chão
não dava mais para tomar, porque a esta altura já estaria
quente, lembrando de frizar, bem gelado, por favor, sem
considerar que a temperatura aquela hora já andava perto da
terça parte do que costuma estar na mesmo horário no Rio de
Janeiro. Se bem que alguns minutos antes tivesse estado
quente. Como é próprio dos cariocas, encontrei Puccini em um
congresso de implantes, tranqüilamente conversando com quem
lhe dera o banho. Quando lhe perguntei se estava tudo bem,
ele me respondeu: coisas da implantodontia. Noventa e oito
por cento de sucesso, dois por cento de insucesso. Então,
para comemorar, mais um chopp por favor.
CERVEJITA EM ESPANHOL
O espanhol e o português têm
no latim sua origem comum. Em muito se parecem, se bem que
quando divergem, às vezes traduzem situações diametralmente
opostas. Esquisito para nós é algo meio estranho, para eles
especial. Cola para eles não cola porque é bum bum e moço
pode ser velho, quando se tratar de um garçom. Dá-me um rato
lá é comum, porque lá é um tempo. Copo é vaso e vaso,
inodoro. Cabelo é pelo e careca é pelado. Duro de entender.
Mas todos em viagem pela Argentina faziam força para falar
um pouquinho de portunhol, mesmo que algumas vezes passassem
por situações divertidas. Foi o que aconteceu.
Uma maneira que a maioria
adotava para se comunicar em espanhol era colocar a
terminação ito ou ita nas palavras, respeitando seu gênero.
Algumas vezes quebravam a cara porque algumas coisas que
aqui são masculinas, lá são femininas. João pegou fácil o
esquema: pratito, garfito, copito, faquita, cervijita,
notita. Embora imaginando que o garçom entendesse todas,
este não entendia nenhuma, embora muitas vezes se esforçasse
para tratar bem. Sempre que eu estava por perto, fazia o
possível para se entenderem, outras vinham me perguntar o
que tinham falado.
João com pressa para tomar
uma, mal chegara no restaurante, pediu: por favor, me traz
uma cervejita rápido, por favor. O garçom foi e voltou. Como
a cervejita não chegava, já passados cinco minutos, João
chamou novamente o garçom e perguntou-lhe porque não
trouxera a cervejita que havia lhe solicitado. O garçom
solícito disse que a trouxera e João perguntou onde estava.
O garçom apontando a mesa disse-lhe: aqui está. João achando
que ele estava lhe gozando, começou a ficar brabo e para não
perder o humor, pediu-lhe que lhe trouxesse outra. O garçom
foi e voltou com um pratito e falou: aqui está senhor. João
sem entender e já brabo, perguntou: qual é hein? Tá gozando
da minha cara. O garçom percebendo o desgosto e o perigo da
situação veio me perguntar o que estava acontecendo.
Contou-me a estória e antes
que terminasse comecei a rir. Disse-lhe que o que João
queria era "una cerveza". Trouxe e quando tudo estava mais
calmo expliquei: cervejeta em espanhol é guardanapo e João
tinha dois em sua frente. Todos riram muito, inclusive o
garçom, que mesmo não entendendo porque João pedira por
guardanapos assim que chegara. Entendeu menos ainda quando
pediu mais guardanapos, mas para não desagradar o freguês,
trouxe. Foi justamente o que o revoltou. E quase que o
garçom teve que comer guardanapos. E João tomar uma
cervejita. No vaso. Esquisita em um rato.
LONDRES EM 52 MINUTOS
Santos Dumont inventou o
avião, os americanos o evoluíram. Das mais de dez horas de
percurso Brasil Inglaterra, os ingleses em consórcio com os
franceses reduziram para cerca de quatro, usando o Concorde.
Alguns mais apressados já estarão pensando que outro
brasileiro diminuiu para menos de uma hora. Não foi bem
assim, mas o tempo foi mesmo o recorde de 52 minutos para
Londres.
César que já participara de
outra viagem nossa, onde na imaginação de uma pianista tinha
jeito para bailarino, nesta foi novamente traído por sua
tendência a galã. Não satisfeito em ter uma esposa em
litígio e uma secretária em serviços especiais, César ainda
mantinha um outro amor do outro lado do mundo, mais
precisamente no velho mundo, mesmo ele não sendo tão velho
assim.
Alguns mais ligados estarão
se questionando como pode, se na estória em Los Angeles ele
nem arranhava o inglês e agora tem uma namorada em Londres.
Elementar Watson e outros caros. A namorada desta vez é uma
brasileira que mora atualmente em Londres, mas que
diferentemente de nosso herói, fala bem o inglês com os
habitantes da ilha e português com os do outro lado mundo.
Além da paixão por várias
mulheres, César tem outra que às vezes o atrapalha: o gosto
por um scoth a mais e mais um para aproveitar que tomou o
primeiro e o último, do bar por que em casa ou no hotel
sempre toma mais um. Esperto, tanto nos Estados Unidos como
na Argentina, comprou whisky no “free shop” e levou para o
apartamento para ter o entradeiro. Sim porque no bar ou no
restaurante ele toma o saideiro e em casa e no apartamento
ele toma o entradeiro, que pode ser o do lençol.
Foi o que aconteceu. Depois
de muitos e já com o corpo meio mole de tanto caminhar e
beber deitou, sem esquecer de levar para a cama um copo com
gelo e aquela que poderia ser a última dose do dia, ou da
noite se já passasse da meia noite. Tomou-a e a distância
das amadas decidiu tomar mais outra. Depois de tantas,
resolveu ligar para a mais distante. Estudou bem como fazer
para não errar e pagar ligações em excesso e pôs-se a discar
aquela série interminável de números. Incrível o que o amor
faz nas pessoas. Acertou na primeira, não esposa, tentativa.
Arriscou um “good night” e
parou por ai. Como foi corrigido, continuou falando em
português. Contou que o curso era puxado e que só terminara
tarde da noite e que por conta disto esta cansado.
Contestado pelo horário, esquivou-se dizendo que os amigos o
haviam levado para jantar. E para beber emendou ela do outro
lado do mundo. Só um, disse ele. Só uns disse ela. Mas estou
bem. Bem bêbado, ouviu-se do outro lado. Quem, euuuu?
Tomando mais um gole. A ligação estava tão boa que ela
escutou o barulho do gelo batendo no fundo do copo. E
continua bebendo.
Talvez com a seqüência de
golpes fortes, César tenha sido nocauteado, por que deste
minuto em diante Elisabete, que na Inglaterra era conhecida
como Elisabeth, não mais escutou a voz de seu amado mamado.
Gritou sem medo de acordar os vizinhos, mas não adiantou. Já
o conhecendo bem concluiu que tivesse pego no sono. Lembrou
que a conta poderia ser grande demais e tratou de ligar para
a portaria do hotel e pedir para que fossem ao apartamento
de César e pedissem para que desligasse o telefone. Talvez
pelo fato de as relações entre a Inglaterra e Argentina não
estarem muito boas à época, por causa da guerra das
Falklands/Malvinas, não conseguia completar a ligação. Achou
que César para fugir de uma ligação de confirmação tivesse
fornecido o número errado do hotel. Que maldade! Meia hora
depois e com os dedos gastos de tanto tentar conseguiu.
Inicialmente pediu que
ligassem para o apartamento 51(um bom número para quem
gosta) e não respondia. Com medo de que brabo César tivesse
saído para beber, perguntou a telefonista que horas eram no
verão argentino. Três da manhã, bem diferente do frio
londrino, mesmo ao meio dia. Contou o que havia acontecido e
implorou para que mandassem um mensageiro ao 51 ver o que
estava acontecendo e pedir para desligar o telefone. Depois
de muito tocar, César abriu a porta, muito sonolento,
bastante lento e o mensageiro, sem ter entendido bem a
mensagem, pediu para desligar o telefone. Entrou, foi até a
cabeceira, pegou o fone do chão e o colocou no aparelho.
César, inteiro boracho achou que estava vendo coisas e o
mensageiro saiu, sem nem esperar receber uma propina.
César, mais brabo ainda, mas
sem forças para entender o que havia acontecido, o único que
conseguiu fazer foi dormir. Não atendeu ao chamado da
recepção que lhe daria conta do ocorrido pensando ser
ligação da Bete, melhor da Beth. Às seis tocou de novo o
telefone. Era o despertar, pois às oito voltaríamos para o
Brasil. Na hora de pagar a conta, a minha dera U$3, visto
que todos tinham o hotel incluído no pacote e a do César
U$204, com o que eu logo reclamei: está errada. César
concordou e o gerente trouxe o discriminativo. César olhou e
disse: está certa. Não entendi nada, até que ele me contou
toda esta estória enquanto voltávamos para São Paulo.
No “free shop” ele comprou
uma caixa de whisky 12 anos e nem ligou. Para o preço.
GIRANDO AO REDOR DA
PISCINA
Barnardo, o mesmo que na
Argentina me acordou de madrugada e contra todas as
evidências, conseguiu provar não ter bebido, em outra viagem
me aprontou de novo. Desta vez durante o dia, menos mal para
mim, mais mal para ele.
Obcecado pela idéia de
implantes, fomos com outro grupo fazer o curso do IMZ.
Barnardo, eu e mais vinte e seis. Michael Onstad e Renzo
Casselini garantiam a qualidade do curso, fazendo com que a
platéia não levantasse, nem para ir ao banheiro. Nos
momentos de “coffe break”, alguns ainda ficavam rodeando os
professores com mais perguntas e com jeito tentava levar a
todos para a área destinada ao intervalo, de forma que os
professores pudessem desfrutar também das delícias servidas
em um hotel cinco estrelas.
Era outra maneira de
desfrutar dos U$ 1.500 pagos pelo curso, sem direito a
hotel, mas com o almoço incluso. Todos continuavam
aproveitando o máximo, dos professores, dos almoços e “coffe
breaks”, que tinham de tudo, até café e para nossa sorte
duravam meia hora. Menos Barnardo que insistia em ficar
dando voltas na piscina. Isto mesmo, durante o curso e nos
“breaks” também.
Preocupado com sua
prolongada ausência fui saber dele o que acontecia. Porque
estava ali a dar voltas e mais voltas na piscina, que por
ser em um hotel internacional era de cinema, com cascatas,
jardins, lindas folhagens, até tipos de palmeiras tinha.
Para não ser vulgar perguntando se era uma crise existencial
ou sentimental, perguntei-lhe se ele tinha bebido de novo.
Sem responder ele riu bastante e não contava o verdadeiro
motivo. Como ele já tinha rodado na piscina pela manhã e
rodava de novo à tarde, fiquei preocupado que a noite
voltasse e de tanto rodar caísse dentro e morresse afogado.
Riu de novo e insisti para que me contasse o motivo.
Continuei rodando com ele e
quando eu já estava quase tonto ele me contou. Era pressão.
Perguntei se não seria impressão dele, com o que riu outra
vez. Sugeri para ele ir ao banheiro que passava e ele riu
novamente. Inclusive aceitando minha sugestão. Aguardei-o
por mais de quinze minutos e ele voltou curado. Até seu
semblante estava melhor. Voltamos para o curso e assistimos
até o fim.
À noite foram todos jantar
em um lugar fino, menos Barnardo. Na volta liguei para seu
apartamento e perguntei como ele estava. Me respondeu:
deitado e de pijama, rimos muito e fomos dormir. Cada um na
sua. Não consegui ficar preocupado, até porque em instantes
estava dormindo. Relaxei e no dia seguinte estava inteiro,
inclusive porque por conta da viagem, na noite anterior não
havia dormido.
O curso continuou ótimo como
no dia anterior e todos elogiavam maravilhados, imaginando o
que poderiam fazer a seus pacientes, com aquela nova
técnica. Estávamos tão ligados que não nos demos conta da
falta de Barnardo, inclusive porque no café da manhã, que
não era tão bom e completo como o nosso “coffe break” ele
compareceu. Nem liguei para seu apartamento. Fui direto
procurá-lo na piscina. Lá estava ele como num filme de
Felini, rodando sem parar ao redor da piscina. A velocidade
não era a mesma do dia anterior e já não olhava mais a
beleza ao redor, estava cabisbaixo e preocupado.
Perguntei-lhe se era a pressão e ele me respondeu que era a
outra. Embora fossemos amigos há muitos anos, não sabia que
ele tinha a outra. Perguntei o que tinha acontecido e ele
disse que era a outra pressão, a da saudade de um filho.
Entendi e não brinquei como no dia anterior. O abracei como
pai e demos uma ou duas voltas assim na piscina. Hoje lembro
e fico imaginando o que não pensavam os hóspedes, já que
todas as janelas davam para a linda piscina.
Relaxado, Barnardo voltou ao
curso, mas já não conseguia pegar o fio da meada, como já
acontecera da vez anterior na Argentina. Para compensar-lhe,
garanti que num próximo curso ele não pagaria. Deu sorte
porque numa vez veio Salvador Jaef e na outra Axel Kirsch,
ambos a Curitiba, nossa cidade e ele fez os dois cursos sem
sair de casa. À noite. Para evitar de beber e ficar rodado
na piscina.
Hoje fico pensando se aquela
meditação não fez bem, dando-lhe uma over dose de motivação
para com os implantes, porque hoje Barnardo é sem dúvida uma
das maiores casuísticas brasileiras da implantodontia. E
mesmo não bebendo, mantém um bar em sua clínica, para os que
bebem, com o sugestivo nome de Bar Nardo.
VAMOS DAR UMA VOLTINHA
Que os brasileiros são
conhecidos e reconhecidos ao redor do mundo pela alegria
sadia e pelo barulho que fazem, todos nos sabemos. E onde
houver um campo de futebol, um autódromo de Fórmula 1 ou
Indy ou mais recentemente uma quadra de tênis, os gringos
sabem também. Mas algumas vezes a coisa acontece fora dos
estádios e autódromos. Foi o que aconteceu com um dos
primeiros grupos de brasileiros para curso de habilitação em
implantes nos Estados Unidos.
O curso durou três dias e a
viagem vinte, com direito a conhecer a costa leste e a costa
oeste e fazer alguns estágios e visitas científicas também.
Não muitas, para sobrar algum tempo para o turismo e um
pouco de bagunça. Dentre muitas aprontadas, uma das mais
emocionantes e arriscadas teve como protagonizador Salim, um
respeitável professor e presidente de ABO. Salim, além de
ser bom nos líquidos mostrou ser bom nos sólidos (ou seria
bólidos) também.
Tinham passado a manhã em um
ônibus alugado com motorista e tudo e voltado para o almoço.
Para não desagradar a uma parte do grupo, estabeleceu-se que
recomeçariam o passeio às três da tarde, dando tempo para
todos, inclusive ao motorista, tirar uma soneca depois do
almoço, hábito comum em todos os países que tiveram
influência espanhola em sua colonização, o que não aconteceu
muito nos Estados Unidos, mas com o motorista sim.
Salim ia de um em um dos
acordados e de alguns mais chegados dos que dormiam também,
convidando para darem uma voltinha. A cada um que
perguntava, vamos dar uma voltinha? Mais crescia o grupo dos
que o seguiam. Quando o grupo estava grande saíram todos
para a tal voltinha. O que não desconfiavam era do plano que
Salim tinha na cabeça. Saíram do hotel e caminhando se
dirigiram até onde estava o ônibus. Salim abriu a porta e
todos entraram, imaginando que logo chegaria o motorista.
Salim fechou a porta e como ônibus não precisa de chave para
dar a partida, pôs aquele bólido de dez toneladas em
movimento. Alguns ficaram surpresos, algumas gritaram e uma
pediu para descer. Salim falou que logo ela iria descer, só
não completando a idéia que tinha para não assustas as
outras. Iria descer a lomba que subiram para chegar ao
hotel.
Mesmo não conhecendo muito a
cidade que nunca visitara antes, como de resto era sua
primeira vez na terra do tio Sam, nem sabendo qual era a
penalidade por conduzir um ônibus, não sendo habilitado,
sabia exatamente o que dizer se fosse interpelado pelos
guardas americanos: diria que no Brasil era motorista de
ônibus e mostraria sua carteira de habilitação, toda escrita
em português, mas com foto em inglês e traduziria os
dizeres, fazendo as necessárias adaptações e se preciso
fosse, chamando seu fiel amigo, Túlio, que já morara nos
Estados Unidos, para as necessárias confirmações e
testemunho. Deu sorte, nenhum guarda apareceu por todo o
percurso da cidade.
Para maior pavor de Santa,
que insistia em descer, fez menção de parar em um ponto de
ônibus para que descesse, não deixando de lhe perguntar se
sabia falar inglês para voltar ao hotel. Santa ficou mais
apavorada e decidiu continuar com o grupo e nenhum dos que
na parada aguardavam o ônibus se animaram a subir, talvez
por não confiarem muito na cara do motorista ou por um dos
brasileiros, com sotaque, ter colocado a cabeça para fora e
gritado "free".
Depois de uma hora e pouco o
ônibus, conduzido por Salim, voltavam ao hotel onde
apavorado o verdadeiro motorista já providenciava para dar
queixa do roubo. Ao vê-lo, a única coisa que lembrou de
gritar foi "pega o ladrão" que mesmo dito em inglês, todos
os que não falavam inglês dentro do ônibus, entenderam.
Dadas às explicações de praxe, alegando necessidade imediata
de socorrer Santa que agora estava mais desmaiada do que
nunca, foi feita a troca de motorista e o passeio recomeçou.
Sem a emoção do anterior,
exceto para Santa que aos poucos foi recobrando os sentidos,
mas que mesmo assim não aceitou mais os convites de Salim,
para dar uma voltinha.
PERNA E CARA DE PAU
Os grupos para a Argentina
se encontravam sempre em São Paulo e de lá saiam para Buenos
Aires, mesmo para os de Santa Catarina e Paraná, que tinham
de voltar a São Paulo para depois ir. Era meio estranho, mas
tinha que ser assim por causa do trecho a Rosario, que se
não voássemos Aerolíneas nos sairia mais caro se comprado
isoladamente. Voando com a mesma companhia, pagávamos só as
taxas de embarque.
Três de Brasília resolveram
montar uma programação diferente por causa de horário para
conexão em São Paulo e a conexão não deu certo em Buenos
Aires. O vôo atrasou e eles chegaram muito tarde em Ezeiza,
o aeroporto internacional e ainda tinham que ir para o
aeroporto doméstico pegar o avião para Rosario. Não
conseguiram. Lembraram que na volta iriam ficar dois dias em
Buenos Aires e pegaram um táxi para este hotel. Como estava
acontecendo uma grande feira na capital argentina, o hotel
estava lotado.
Como Miguel estava com a
perna engessada, os outros dois saíram pelo centro de Buenos
Aires em busca de outro hotel. Não só porque não conheciam a
cidade, mas porque a feira era grande, não conseguiram.
Voltaram e Miguel tinha feito amizade com o gerente do
hotel, que se compadeceu de seus problemas com a perna e
ligou para mais de vinte hotéis, em vão. Não havia uma vaga
sequer em hotéis, de nível, sem nível, pensões e até motel
tentou. Como já passara da uma da manhã, a alternativa
proposta pelo gerente, mesmo se tratando de um hotel quatro
estrelas, foi arredar umas poltronas para um lugar mais
reservado e as ofereceu para ali passarem a noite, visto que
pela manhã teriam vôo para Rosario. Saíram cedo e como não
tinham reserva, o primeiro vôo estava lotado, por causa dos
que voltavam da feira. Conseguiram lista da espera para o
segundo e voaram junto com dois professores da fundação, que
depois os reconheceram pelo que usava muletas.
Perderam a primeira manhã do
curso, que por ser introdutória não era tão importante. Mas
não se conformavam de ter perdido o avião e terem que dormir
no saguão do hotel em Buenos Aires. E mais, achavam que a
culpa da perda era falta de previsão da agência do Brasil
para com o possível atraso que terminou acontecendo. Como
diziam que eu era o responsável, perdi o jantar com os
demais componentes do grupo, explicando-lhes por mais de
duas horas como funcionavam os grupos e que para a agência
também é ruim quando passageiros voam fora do grupo, porque
os descontos são dados quando todos estão no mesmo avião e
que a exceção fora aberta para eles, porque eles não queriam
gastar uma noite a mais de hotel em São Paulo, a fim de
estarem às dez e meia para embarque, como fizeram os demais,
diga-se de passagem, por mais de quarenta vezes, em todos os
grupos que organizei, sem que um único tivesse perdido a
conexão para Rosario por este motivo. Jantei com eles em
separado, no próprio hotel, por causa das muletas do Miguel
e achei que tudo havia ficado esclarecido.
No dia seguinte pela manhã,
perguntaram-me se haveria algum veículo especial para levar
Miguel. Falei que todos iam a pé, por ser perto e
sugerí-lhes um táxi. No intervalo do curso me pediram para
perguntar como ficaria a situação deles com a agência
brasileira. Não entendi e eles disseram que queriam uma
indenização da mesma pela perda do vôo. Falei com a dona da
agência por telefone, que me disse ter sua funcionária
alertado do risco, face ao ajuste de horários para traslado
de um aeroporto a outro e terem eles optado em tomar um táxi
ao invés do serviço de remises oferecido, ficando a partir
daí por responsabilidade deles. Ofereceu-se para reembolsar
a noite não usada em Rosario, embora o apartamento tenha
ficado a disposição dos mesmos.
Alguns estarão se
perguntando onde está a graça desta estória que até aqui só
teve desgraça. Logo chegará. Queriam desconto sobre o valor
do curso, por não terem assistido a primeira manhã e
consegui que pagassem cem dólares a menos que os demais. Um
dos que participava do grupo, no dia seguinte veio me pedir
devolução de cem dólares também, porque tomara um porre e
perdera a manhã do segundo dia do curso. Óbvio que nem levei
ao conhecimento da fundação tão descabida pretensão, embora
o interessado viesse me perguntar por duas vezes se já tinha
solução para o caso dele. Quase lhe falei: tenho sim, pare
de beber, mas por respeito e para não fazer mais confusão,
decidi não comentar. No terceiro dia os três ainda me
perturbavam sobre o tal reembolso, inclusive ameaçando de
não pagar as restantes parcelas do pacote, que haviam
financiado.
Chegou a hora de comprar os
kits e eles me pediram se eu poderia conseguir um preço
especial, por tudo o que lhes havia acontecido. Disse-lhes
que a fundação nada tinha com a companhia de turismo, que
ademais era brasileira, mas prometi tentar. Antes disto,
perguntei, para facilitar a negociação, como pretendiam
pagar. Disseram que não tinham trazido dinheiro e que só
poderiam pagar no Brasil. Com muita negociação, consegui que
fizessem os dois kits em 30 e 60, sem entrada, quando o
normal era com e ainda uma cortesia de quatro implantes como
incentivo da fundação para os primeiros casos poderem ser
feitos em forma de demonstração, sem custo para os primeiros
pacientes.
Voltamos para o Brasil e
quando fui cobrar de um a parcela do kit, este me falou que
estava com outro. Falei com o segundo, que disse estar o kit
com o terceiro. Falei com o terceiro, que disse não ter
comprado e que os responsáveis eram os outros. O tempo
passou, um mudou de telefone, o outro de endereço e mesmo
conseguindo localizá-los não houve como receber uma única
parcela dos dois, muito embora um amigo deles me tivesse
pedido componentes para fazer uma prótese em cima dos
implantes feitos por um deles.
Certamente vão me perguntar
onde está a graça da estória que a esta altura está para lá
de dolorosa. Está nos kits. Ficaram de graça, embora eu por
alguns anos ficasse sem graça quando me perguntavam pelo
pagamento daqueles dois kits. Pela muleta, o perna de pau,
pelo não pagamento, a cara de pau.
PRESA NA VACA LOUCA
Temos algumas coisas em
comum com os americanos, além do fato de vivermos na mesma
América. Algumas por influência, outras por imitação, outras
por coincidência. Sem se preocupar ao certo quem influenciou
quem, o certo é que de há muito temos a nossa música
caipira, que em alguns lugares é conhecida como rancheira,
noutros nativista, também chamada com charme de música de
raízes. A verdade é que nossa música de rodeios ganhou
embalo quando passou a ser conhecida como música "country",
que traduzido para o bom português é interior, caipira,
rancheiro. Nossos peões ficaram mais espertos e começaram a
ganhar muito dinheiro montando, quando adotaram o tipo "cowboy",
de vestir, andar e até falar. E os rodeios viraram
acontecimento quando apropriaram um bom marketing das boas
coisas que sempre teve a vida no interior. Até as camionetes
viraram moda por aqui.
Tudo isto para contar que
quando fomos para o Texas, com um grupo de brasileiros, um
programa imperdível no dizer de brasileiros que moravam lá
era ir a Fort Worth, a capital boiadeira do mais caipira dos
estados americanos e assistir ao vivo um rodeio. Fomos e na
verdade o que vimos foi uma bem montada maneira de tomar
dinheiro dos turistas. Lógico que haviam cavalos enormes e
homens de mais de dois metros, que talvez chamassem a
atenção das meninas que nos acompanhavam. Uma delas, mineira
e por coincidência a mais baixinha, conhecida no grupo por
Belina, ficou encantada por um daqueles americanos
descomunais. Inocente, ela não percebeu sua intenção, que
longe das más intenções que pensam os aqui de longe, era
somente tomar-lhe dez dólares para montar a vaca louca, uma
vaca de madeira que com um sistema hidráulico, corcoveava ao
controle de um outro funcionário, que de acordo com a
habilidade ou biotipo do candidato, punha mais ou menos
velocidade no animal.
Para deixar a mineirinha
mais apaixonada, o grandão olhou para o baixinho, de um
metro e setenta, que controlava a geringonça, ordenando-lhe
com um olhar par que colocasse a vaca no mínimo. Os
candidatos e candidatas que antecederam Belina, não duraram
nem dez segundos, voando de cara e coragem para o chão,
providencialmente dotado de espessa espuma. E na sua vez,
Belina foi ovacionada. A vaca sacudia mais devagar, o que a
torcida brasileira não percebia por tanto vibrar. A proposta
era um prêmio de cem dólares para quem conseguisse ficar um
minuto em cima da vaca louca sem cair. Betina estava com
quase cinqüenta segundos, quando uma colega paulista que
identificaremos somente por Beleza, para não ter problemas
com a alfândega, acenou-lhe com a máquina fotográfica para
gravar a cena para posteridade. Vaidosa, Belina quis fazer
pose e esqueceu-se por alguns segundos de segurar firme a
rédea. O flash disparou e num piscar de olhos, Belina bateu
de cara no chão, bem protegido, mas sem direito aos cem
dólares que já imaginava ganho.
Como consolo, pode posar
junto com o de dois metros, dono da vaca, justo ela que mal
alcançava um e meio. Para melhorar o enquadramento da foto,
ele a tomou com uma mão e a colocou na outra, que de tão
grande, alcançava para sentar todo o seu bumbum, que como
ela era tão pequeno e leve, não fazendo no rosto do gigante
americano qualquer expressão de força para suportá-la por
mais de um minuto. Terminada a sessão de fotos, o bem
humorado americano perguntou se ele ganharia os cem dólares,
por ter ficado mais de um minuto com ela na mão. Mais bem
humorada foi uma amiga da mineirinha que de pronto respondeu
que ganharia os cem dólares para ficar o resto da vida com
ela.
Como a mineirinha era casada
e o marido muito ciumento nem a foto ficou para documentar a
primeira vaca louca que se teve notícia no Brasil.
Todas quiseram andar na vaca
louca, que não simpatizou com nenhuma, derrubando-as em
poucos segundos. Para nos vingarmos, decidimos comer a
aparente e apetitosa costela anunciada ao estilo brasileiro
como a melhor do mundo. Fomos todos de boca, inclusive
porque a esta altura a fome era grande, sem termos o cuidado
de pedir uma para provar o sabor. Todos pediram a costela,
que saiu para todos ao mesmo tempo. Na primeira dentada a
decepção: até na costela eles colocam aquele tempero
adocicado característico da comida americana, que nem com
mostarda e sal conseguimos tirar. Acho hoje que foi por isso
que ninguém quer comer a tal da vaca louca. O jeito foi
pedir um Hot Dog para enganar a fome. Justo contra o
cachorro que além de melhor amigo do homem, não tinha nos
feito nada.
DANÇANDO EM CIMA DA MESA
Costume na maioria dos
países do mundo, a gorjeta está tão associada aos garçons
como a bola para os futebolistas, o dinheiro para os
banqueiros e o aperto de mão para os políticos. Fica difícil
dissociar um do outro, ou mesmo imaginá-los sem.
Na maioria dos restaurantes
diurnos, de tão enraizada, ela já foi apropriada, dando
lugar aos 10% que em muitos lugares são de lei. Nos
noturnos, bem como em casas de shows, ainda estão mais
próximos da origem, onde sua paga é sinal de satisfação e
contentamento do cliente pela qualidade do serviço prestado
ou da atenção que lhe foi dada. Aonde se incluem shows
artísticos ou musicais, tendo os artistas, que dificilmente
ganham propina, como rivais, os garçons precisam se esmerar
ao máximo para se fazerem merecedores da propina, chegando a
extremos como o relatado ao final desta estória.
Marud, que além do nome
tinha as feições a denunciar sua descendência árabe, talvez
exatamente por isso, foi alvo de atenção especial de um mozo,
que é como os garçons são chamados na Argentina, se bem que
as guias de turismo vivem pegando brasileiros com uma
pegadinha a respeito. Perguntam como se chama garçom no
Brasil. Os mais apressados dizem que é garçom mesmo, ao que
ela responde que na Argentina se chamam com um estralar de
dedos. Alem de suas feições, tinha ainda em contra a sua
composição de tipo, o tamanho que pouco passava de um metro
e cinqüenta, sentado ou em pé. Por conta disto, sua primeira
cliente, depois de formado, marcou consulta e nunca mais
apareceu. Estava ele sentado na sala de espera e quando dita
subiu a escadaria de seu consultório, recém aberto. Ele
levantou e a paciente perguntou: O dentista está? Inseguro
diante da pergunta, e por não terem lhe ensinado saída para
esta inusitada situação durante os quatro anos de faculdade,
respondeu: O dentista sou eu. Igualmente surpresa e já não
mais dando a entender sua vontade de ser atendida naquele
momento, disse que queria marcar uma hora. A hora foi
marcada e ela nunca mais apareceu.
Bom marqueteiro, Marud
desconfiou que sua cara de adolescente e a pouca estatura o
denunciavam. Não teve dúvidas, deixou a barba crescer e
passou a usar sapatos com saltos altos. Conquistou muitos
clientes e uma mulher mais alta do que ele, quando tirava os
sapatos. Agora mais maduro e com uns fios de cabelos
brancos, poderia tirar a barba, mas por não poder tirar o
salto, acha melhor ir deixando os dois.
A empatia de Marud pelo
garçom e vice versa, foi instantânea. Marud voltava do WC
quando Gabriel, o garçom, chegava. Miraram-se e viram que
conversavam de igual para igual, sem que Gabriel
desconfiasse do salto alto que as calças mais longas de
Marud escondiam. Até aperto de mão aconteceu, coisa rara
entre as rígidas regras de comportamento dos homens de
gravata borboleta, aconteceu.
Esperto, escolado e
escaldado, Marud comentou com o grupo que se dessem a
gorjeta antes, ao invés de fazê-lo depois, como faz a
maioria, receberiam atendimento de reis. Sugeriu cinco
dólares, uns deram dois, outros deram um e um que já tinha
tomado mais e que ainda não tinha dominado a matemática do
câmbio, deu dez e alguns com a língua mais afiada disseram
que por conta disto, Marud não deu nenhum. Mas foi ele o
responsável pela entrega da coleta feita entre os dez
participantes da mesa, que resultou em pouco mais de trinta
dólares, um abraço e um beijo do garçom.
Desnecessário dizer que com
um golpe de mestre destes, o atendimento àquela mesa passou
a ser mais do que privilegiado, foi personalizado, mesmo
tendo o angelical Gabriel, outras quatro mesas por atender.
O vinho estava pela metade e outro já chegava para
completar, se o bife de chorizo do colega em frente tinha
cara melhor do que o espetinho solicitado, não tinha
problema, mesmo contra o regulamento da casa se
providenciava a troca, sobremesa nunca deu direito à
repetição, até porque não era em pratinhos e sim num pratão,
menos naquela noite, pois para os amigos de Marud tudo era
possível para Gabriel.
Tudo foi ficando tão
descarado, que Fernando Soler, o dono do Tango Mio, mesmo
tendo a seu encargo a direção musical do show e alguns
números de canto e dança, apercebeu-se das deferências e no
clímax do show, fez um convite a Gabriel.
Já que gostara tanto dos
brasileiros daquela mesa, que pelos sorrisos exagerados não
conseguiam disfarçar o excesso de vinho e que por propina
fazia qualquer coisa, porque não aproveitava que agora não
havia mais pratos sobre a mesa, para subir na mesma e no
melhor estilo dançasse flamenco sobre ela. Alguns já meio
passados riam imaginando ter a dança algo a ver com o
Flamengo, que dias antes derrotara o River, um dos melhores
times argentinos.
Quem mais ria, sem dar a
perceber era Marud, que sabendo o nome do garçom, percebera
a troca de nomes feita por Fernando Soler, que
confundindo-se quanto ao garçom que atendera a mesa,
chamou-o de Angel, que por ter mais de cem quilos,
apressou-se em responder:
Melhor não, por que a mesa
quebra e a propina não alcança para pagá-la. Com tamanha
destreza em responder, aproveitando o deslize do patrão, o
show continuou, até porque estava prestes por terminar.
Gabriel agradeceu a Marud pela propina e nas outras mais de
vinte vezes que voltei à casa, levando outros grupos de
dentistas, pelo menos em dez, ele me perguntou por Marud. O
Tango Mio, mudou de endereço, mudou de nome, passando a
chamar-se Senhor Tango, e Gabriel continuava lá, trabalhando
bem para a casa e para o seu bolso também. Até dançando
flamenco em cima da mesa, se preciso fosse, por que com seus
pouco mais de cinqüenta quilos, a mesa agüentaria.
PLANCHAR E PASSAR
Três dentistas de Brasília,
que pelo impecável da indumentária mais pareciam três
deputados, pelo tipo a maioria poderia imaginar que fossem
atores de cinema, que pelos perfumes mais se aproximavam de
estandes de demonstração de perfumes do free shop e pelas
jóias e outras peças de ouro, tratarem-se de herdeiros de
algum emirado árabe, ou os próprios, foram a Argentina para
aprender implantes e alguma coisa mais. Retornaram cem por
cento realizados e com algumas estórias para contar.
As malas dos três ocuparam
um elevador de tal forma que para levá-las ao apartamento só
coube o mensageiro dentro do mesmo, quando o hábito na
Argentina é o hóspede acompanhar sua mala. Também com o que
levaram de roupa, os três para passarem cinco dias, se
poderia montar todo o guarda roupa de uma peça teatral, com
mais de dez mudas por ator.
A primeira hora em Rosário,
foi gasta pelos três para desfazer a mala e pendurar ou
dobrar peça por peça, função desempenhada por todos
simultaneamente, já que nenhum deles queria perder um minuto
sequer de tão curta permanência. Queriam curtir. Obviamente
precisariam de mais cabides. Muitos mais. Evaldo ligou para
a recepção e perguntou como fazer para conseguir mais
cabides (que em espanhol se fala colgadores). Mais o que?
perguntou, sem entender, quem o atendeu. Depois de algumas
vezes explicar para que serviam os tais cabides, foi-lhe
recomendado falar com a mucama (camareira). Que cama senhor,
o que eu quero são ca-bi-des! Si es ella quien le puede
lograr (conseguir)! Eu não quero ser logrado, respondeu
Evaldo.
Não conseguindo estabelecer
comunicação, o responsável pela recepção me chama. Traduzo
para o português as palavras chaves e este volta para o
hóspede exigente, que agora parece entendê-lo melhor. Le
paso (transfiro), no corte (não desligue) , si si perde la
línea, aguarde un rato (instante), que vuelvo a llamar. Ai
conteste, pues va ser la mucama. Mejor, va tocar su timbre
(campainha). Evaldo que por não entender nada, passara o
fone para Cidão, ficara só olhando a cara de espanto que
este fazia. Gente este pessoal fala grego, exclamou ao
final.
Neste instante toca a
campainha.Soy la mucama de ustedes! Que passa (que está
acontecendo)? Quero passar isto aqui, responde Cidão. Hable
despacio (devagar), diz a mucama, tentando entende-lo. Acho
que eu vou mandar esta maluca para o espaço. La prancho
pronto (rápido) y vuelvo. Querendo ser gentil a mucama
pergunta: Queres que pranche tambien su saco (casaco)? Ai os
três piraram de vez. Como ela pegou o casaco (saco) na mão,
eles concordaram. Y su pantolon (calça), se puede? Leve,
leve tudo o que quiser, que eu não agüento mais. A saída,
olhando para Luciano, que espantado, talvez meio recaído
pelos whiskys e que até agora não pronunciara uma só
palavra, diz: Lindos guantes (luvas)! Ele entendendo outra
coisa, responde-lhe: não, eu sou solteiro. Neste momento os
três decidem descer e cancelar sua participação no curso,
por nada entenderem do fácil castelhano que eu prometera.
Para contemporizar,
disse-lhes que este pessoal da área de serviços do hotel
falava muita gíria, por isso não entendiam e que os
ministradores, além de falarem um espanhol mais correto,
falavam devagar e sempre que necessário, usavam um portunhol
nas palavras mais diferentes. Eles compreenderam o que eu
falara e decidiram voltar e esperar a camareira com a
camisa, calça e paletó que levara para passar.
No dia seguinte de manhã,
desciam os três para tomar o café e Luciano perguntava para
Cidão quanto poderia ter sido o resultado do jogo Brasil e
Argentina que acontecera na noite anterior, em São Paulo.
Por coincidência, o garçom que os receberia para o café da
manhã, percebendo que eles iam em direção a recepção e não
do restaurante, perguntou-lhes: Desayuno, señor? (café da
manhã), ao que os três entenderam como resposta a pergunta
pelo placar do futebol (acreditando ter escutado dez a um).
Evaldo arrematou: Não tem jeito, eles são todos loucos,
mesmo.
Em tempo, o resultado foi um
a zero, para o Brasil.
DUAS METADES VALEM UMA
INTEIRA
Nei nos dá de novo o prazer
de compartilhar momentos curiosos, não na viagem mas sim já
antes dela começar. Lembro bem dele, por ter-me ligado pelo
menos por cinco vezes perguntando as coisas mais diferentes,
de uma maneira a me deixar na dúvida algumas vezes, se
estava realmente me perguntando ou se me testava ou mesmo me
gozava.
Uma das que lembro, era se
os mesmos U$ 500 que poderia trazer de compras da Argentina
eram os mesmos U$ 500 que poderia comprar no free shop?
Respondi-lhe, brincando, não existirem notas de U$ 500 e
como tal teria que providenciá-los em notas menores, ainda
que todas as notas de dólares tinham o mesmo tamanho (pouco
antes tivemos notas de cruzeiros ou cruzados em tamanhos
diferentes para os distintos valores). Acho que lhe
compliquei mais ainda dizendo que ele deveria levar mais U$
500 para outras despesas de viagem, ao que ele me respondeu
não serem necessários, visto que ele não era chegado nestas
coisas. Falei-lhe de almoço e jantar, alguma lembrancinha....
Isto sim vou precisar. Acho que vou levar três notas de
quinhentos. Resolvi deixar para quem lhe fosse vender os
dólares a missão de explicar-lhe melhor a respeito das
cédulas da moeda americana.
A segunda pergunta
referia-se ao tempo na Argentina, que também com bom humor,
foi respondida como sendo igual ao que temos aqui: dia com
vinte e quatro horas, a hora com sessenta minutos....Isso eu
sei que é assim, respondeu ele sério, sem entender a
brincadeira. O que eu quero saber é do outro tempo, aquele
que fala na televisão, se é igual. Para não correr risco de
uma resposta duvidosa, disse-lhe que não era como o daí e
sim como o daqui, exemplificando como o de Goiânia e o de
Curitiba. Fiquei surpreso quando ele me respondeu que se era
como o daqui estava bom e pelas dúvidas, disse-lhe que era
bom levar algum agasalho, por que lá o tempo costumava
virar. Aqui também, ele respondeu.
A terceira, quanto à
distância, ele mesmo se encarregou de exemplificar, querendo
saber se à distância até a Argentina era como a distância
daqui até São Paulo. Como eu estava em Curitiba, disse-lhe
que a distância daqui até São Paulo era menor, mas que a até
a Argentina poderia ser menor porque tem a até Puerto
Iguassu (que fica do lado de lá das Cataratas do Iguaçu),
assim como tem a distância até Buenos Aires e como o curso
seria em Rosário, a viagem seria maior, mas que se a gente
pudesse ir direto a Rosario seria menor. Compliquei! Por
conta disto, ele passou a querer ir direto a Rosario, não
adiantando meus argumentos que o problema eram as escalas
que o avião fazia. Então vou pegar um vôo sem escalas.
A quarta versava sobre a
moeda Argentina. Perguntou-me quanto valia um peso.
Disse-lhe que valia menos que um cruzado, que por sua vez
valia menos que um dólar. Então não vale nada. Gostei da
resposta bem humorada e imaginei que ele tivesse entendido
bem a questão. Mudei de idéia em seguida, quando ele aplicou
a lei do Gerson (aquela de levar vantagem em tudo), dizendo
que então ele só iria comprar pesos. Para alertá-lo,
disse-lhe que para algumas coisas seria melhor se ele
tivesse dólares. Eles estão pensando que eu sou burro? Vou
comprar só pesos e o que for com preço em dólares, eu não
compro. De novo achei melhor deixar para a casa de câmbio, o
esclarecimento destas questões não pertinentes.
Na quinta, pelo fato de
entrarmos por Puerto Iguassu e sairmos por Buenos Aires,
comentei faríamos a imigração por um lugar e a emigração por
outro. Perguntou-me se não poderíamos fazer tudo só pela
Argentina. Comentei que as duas eram na Argentina e ele
rápido me corrigiu. Então é como eu falei. Isto sem contar
que lhe comentei que pelo fuso horário lá é uma hora menos e
que pelo fato de eles não terem adotado o horário de verão
como no Brasil, a diferença são duas horas. Então acho
melhor eu ir no inverno, porque assim não pego diferença
nenhuma. De fato ele ficou confuso horário.
Para completar, resolvi
alertar-lhe para com um problema que já havia acontecido com
outros colegas em grupos anteriores. Como parte do acordo
entre os dois países, não é necessário o passaporte,
bastando a identidade. Mas que não serviria a identidade
emitida pelo CFO, que como diz a inscrição nela impressa,
vale em todo território nacional, não servindo para viagens
ao exterior. Depois de me dizer que até fiado ele comprava
com ela, orientei-lhe para levar também a identidade civil.
Respondeu-me que não tinha duas identidades. Expliquei-lhe
qual era a outra e ele me comentou que pelo fato de ser
muito antiga estava em duas identidades. Não entendi
direito, mas falei para ele levar assim mesmo.
No momento de fazer a
passagem pela Polícia Federal é que vim a entender o que
eram as duas identidades. Como a civil tinha mais de trinta
anos, velha (a identidade, por que a foto era de um garoto)
e muito usada no passado, tinha descolado e se partido em
duas, com o que não concordava em aceitá-la o funcionário.
Para meu espanto, Nei argumentava que duas metades valem uma
inteira. Quer ver! E saiu porta afora, indo até um guichê de
plastificar malas, que havia na entrada do aeroporto,
pedindo para o funcionário plastificar as duas metades
daquele documento, o que foi feito com bastante capricho.
Voltou e exibiu-a ao mesmo que minutos antes dissera que
aquela não valia, por estar em duas metades. O funcionário
entendendo o que acontecera e o que havia sido feito e para
não complicar com a foto mais antiga que o próprio
documento, sugeriu-lhe para que da próxima vez,
providenciasse para pintar os cabelos.
O que foi feito na vez
seguinte, quando ele voltou a Argentina, para no curso,
receber sete implantes, de dentes não de cabelos. Optou por
fazer na Argentina não porque o seriam feitos pela mão do
mestre Salvador e sim porque escutou durante o primeiro
curso, que nos implantes colocados durante o mesmo, os
pacientes não pagavam. Com os cabelos pintados e com a nova
prótese colocada sobre os implantes, com certeza está
merecendo uma identidade nova, que pelos dois novos
adicionais, certamente valerá por duas.
O MESMO QUARTO A MESMA
CAMA
Nas quarenta e três turmas
que organizamos para o curso da fundação, passei por muitas
e boas, algumas que só fui entender depois. Outras bem
depois como esta, por exemplo, que só foi me parecer
diferente quando Ronaldo decidiu voltar a Argentina,
aproveitando-se que a fundação não cobrava a inscrição ao
curso quando tratava de retorno, vantagem que terminou
beneficiando a mais de cem profissionais que sabiamente
voltavam para fazer uma reciclagem e um ano depois acabavam
por fazer um novo curso totalmente diferente.
Não podia imaginar que
Ronaldo era casado e que a pretexto de sua atendente dominar
melhor a parte de instrumentação e esterilização em
implantodontia e num reconhecimento pelos relevantes
serviços prestados por sua atendente, resolveu
contemplar-lhe com uma viagem a Argentina. De início já
tinha dificuldade de entender, por que ele, antes de viajar
perguntava se atendente e protético pagariam o curso.
Disse-lhe que não e ele me comentou que levaria o seu
protético. Fez a reserva para os dois, ele e o protético e
assim ficamos até o embarque.
Quando nos apresentamos e vi
que era uma acompanhante feminina, perguntei-lhe se era a
sua protética, mesmo imaginando-a muito jovem para as
responsabilidades das próteses sobre implantes. Ele sem
gaguejar respondeu que o protético tinha tido um contratempo
de última hora e por conta disto não poderia viajar, motivo
pelo qual decidira colocar a sua atendente no lugar, para
não perder a passagem paga. Tudo bem, se bem que achei
estranho ele me pedir para não mudar a opção por duas camas
de solteiro no apartamento, conforme a solicitação de quando
seria o protético o seu acompanhante.
Durante o curso, a situação
continuava estranha por conta da atitude dos dois, que se
sentavam longe um do outro, não se falavam durante o curso,
dando a entender que sua ligação era estritamente
profissional, tal qual as respostas que ambos davam quando
alguém inocente ou intencionalmente perguntava algo sobre a
ligação dos dois. Isto porque entre os demais do grupo, o
fuxico já corresse solto, por conta da constatação de que
além de trabalharem juntos, estavam viajando tal qual.
Não sei se o grupo os isolou
ou se eles mesmos se isolaram do grupo, por conta de que
afora o jantar de encerramento e o show do Tango Mio, todas
as outras refeições que o grupo fazia questão de ter em
conjunto, não só para desfrutar das novas amizades, mas
também para continuar as acaloradas discussões sobre o novo
que representavam os implantes, eles faziam em separado.
Para completar, Ronaldo tentando explicar a um colega o
motivo de sua ausência nos nossos almoços e jantares, alegou
que era por razão de economia, preferindo comer um
sanduíche. Alguns achavam que ele tinha levado o sanduíche
para o restaurante.
Obviamente, desconfiei de
alguma coisa entre os dois, mas ele era tão enfático para
negar a hipótese mais lógica, que terminei por achar que não
havia nada entre eles, até porque ele em suas argumentações
dizia que ela poderia ser sua filha. Como não era da minha
conta, nada mais fiz para buscar a verdade. Só lembro de ter
comentado com alguns mais jovens que insistiam em paquerar a
bela e jovem atendente, para que fossem mais discretos, a
fim de não virmos a ter problemas de relacionamento no
grupo. Por isto ou pelo fato dela não dar muita atenção aos
candidatos, a viagem terminou sem incidentes e sem provas de
algo mais. E sem fatos e sem provas não pode haver
condenação.
Só voltei a lembrar do
acontecido, um ano depois, quando Ronaldo perguntou-me se
poderia voltar a Rosario e fazer o curso. Disse-lhe que sim
e ele sem rodeios confirmou sua ida e a da atendente, sem o
disfarce da reserva em nome do protético, como no ano
anterior. Não tive o cuidado de atentar, que pelo fato da
maioria das viagens tentarmos usar feriados, para os dias de
curso, nesta nova ida, as datas correspondiam exatamente com
as do ano anterior, ótimas para comemorar um ano de alguma
coisa.
Somente em Rosario vim a
perceber alguma coisa, quando a gerente do hotel, que depois
de tantos anos ficara minha amiga, comentou-me com surpresa
que um dos componentes do grupo ligara do Brasil,
condicionando sua participação no grupo à mudança do
apartamento 211 de duas camas de solteiro para uma de casal.
Ela me relatou o fato por achar estranho como um hóspede
saberia que um determinado apartamento do hotel era de
solteiro. Como havia disponibilidade técnica para a troca e
o passageiro colocara como condição, atendeu. De posse da
informação, comentei o fato com um amigo que já viajara
comigo outras vezes e com quem estava dividindo apartamento
e este não se mostrando surpreso, disse-me que a fofoca da
vinda tinha sido o doutor maduro com esforço em deixar sua
imagem mais jovial, ter ficado a viagem toda desde São Paulo
até Rosario, no último banco do avião, trocando abraços,
beijos e outras carícias com a digamos, nova namorada.
Já promovida em relação ao
cargo apresentado na viagem anterior, a condição de namorada
ou já tendo aprendido tudo o que precisava aprender no
primeiro curso, nesta nova viagem ela não se apresentou um
dia sequer para o curso. Ele, talvez para ser mais discreto,
não comparecia no período da manhã, chegando somente à
tarde, depois do almoço. Contrariando a prática da primeira
turma, nesta segunda, todos os dias o casal jantava com o
grupo, nada dando a comentar, exceto por um pedido inusitado
do Ronaldo, no último dia do curso: um certificado em nome
da acompanhante, por ter freqüentado o curso. Como na
fundação eles eram muito rigorosos na emissão de
certificados e pelo fato de ela não estar inscrita e nem ter
participado de nenhum dos dias do curso, eles não estavam
querendo emiti-lo. Fui forçado a contar toda a estória da
primeira vinda da pretendente a Argentina e mencionando que
daquela vez ela fez e não levou, desta que não fez poderia
levar. Entenderam a situação e com o argumento de que
provavelmente poderia se tratar de um aniversário de lua de
mel forçada ou não programada, ela mereceria.
O certificado foi feito e só
não lembrei de tirá-lo da relação dos que seriam entregues
solenemente, no jantar de encerramento. À noite com a pompa
de estilo, fui chamando um a um dos cursantes e promovendo a
entrega do que fizeram jus, até que, já tendo pronunciado o
primeiro nome, dou-me por conta tratar-se da ex-atendente,
não tendo mais condições de retroceder. Meio sem jeito, ela
levanta, vem até a mesa e percebe os olhares surpresos de
todos, professores e alunos, que não a haviam visto um dia
sequer entre eles e para não dizer que o espanto era geral,
alguns podem ter imaginado que a estava chamando para
receber o certificado em nome dele. A hipótese não se
sustentou muito, porque a seguir o chamado era justamente o
próprio. Segui-se o silêncio natural do não entendimento,
que Ronaldo quis quebrar, na volta para a mesa, quando ainda
caminhando comentou: é que ela fez na vez anterior e não
tinha recebido. Todos fizeram como se tivessem entendido e a
fofoca rolou solta, até porque o meu amigo a quem eu fizera
a confidência é chegado numa estória e não resistiu à
oportunidade de ser o único dentre os sentados a saber da
verdadeira estória e contou-a a profusão.
NEM TODOS OS GATOS SÃO
PARDOS
Quem ri por último, ri
melhor! Passei minha infância inteira escutando e muitas
vezes dizendo esta frase, sem entender bem o seu
significado. O mesmo aconteceu com a nem todos os gatos são
pardos, talvez por nunca me ter colocado a pensar, qual
seria o sentido da palavra pardo. De qualquer forma, achava
as frases fortes, mesmo sem entendê-las.
Vanda não era propriamente
linda. Seus cabelos negros, tinham mais magia que beleza, em
um rosto que não era propriamente bonito, mas expressivo.
Nenhuma das partes do seu corpo se sobressaia
individualmente, mas seu conjunto agradava. Não era uma
miss, mas muitas marcas de cerveja a contratariam para uma
propaganda de sucesso. Era uma gostosona.
Chamava tanta atenção que
até entre os professores se comentava algo a seu respeito
além de que alguns, quando solicitados por perguntas,
davam-lhe atenção especial. Outros comentavam que ela tinha
uma queda especial pelo Salvador. Para falar a verdade, em
dois a três cursos que ele ministrou no Brasil, lembro de a
ter encontrado. Verdade também que imaginei algo mais com o
presidente da fundação, muito mais do que com algumas que
ostensivamente se ofereciam.
Desnecessário dizer que
entre os colegas do grupo, ela merecia algo mais do que uma
atenção especial. Na cabeça de alguns, muito mais. Na de
outros o fascínio era tão grande que não conseguiam nem
expressá-lo, ficando tímidos ou inebriados com sua presença.
Seguidor da máxima onde se busca o pão para comer, não se
come carne, ficava só apreciando a luta escondida,
disfarçada ou ostensiva por sua captura.
Bastava um ter ficado a seu
lado em um almoço, para ficar bobo como se tivesse tido algo
mais. Outros disputavam sentar-se a sua frente, para com ela
ter oportunidade de conversar. Outros se contentavam em
ficar num ângulo tal que pudessem apreciá-la melhor ou com
mais detalhes. Inteligente e providencial ela cuidava para
não repetir a companhia, não permitindo imaginarmos
interesse por este ou por aquele.
Mas algo me dizia que num
grupo de mais de vinte profissionais bem sucedidos, alguns
bem apessoados, outros hábeis e inteligentes, alguma coisa
teria de acontecer, até porque ela era assumidamente
solteira, talvez até para potencializar o desejo, e porque
sempre brincava com os componentes do grupo, que pela lei
argentina todos os não casados em seu solo, eram perante
ela, solteiros.
O suspense se prorrogou até
a ultima noite, se bem que na penúltima eu começasse a
desconfiar de um que ao invés de dar-lhe atenção especial,
recebia. Ao invés de demonstrar interesse carnal, quando a
ela se dirigia, o fazia em termos de interesse profissional
e diferente dos demais, que quando conseguiam um minuto de
sua atenção, queriam perpetuá-lo, ele lhe dedicava o
estritamente necessário ao assunto. Conversavam pouco, a
gostosona e o meu suspeito, mas observava que a ele ela
recorria com constância, algumas vezes até para refugiar-se
de algum ataque mais fulminante.
Foi assim na derradeira
noite, a do Tango Mio, quando pela ambientação nostálgica e
sensual, da típica dança Argentina, quando muitos decidiram
dar suas tacadas definitivas, fazendo Vanda seguidas vezes
buscar em Nildo amparo, inclusive por que alguns com um
pouco mais de vinho se tornassem mais incisivos ou
inconvenientes. Por mais incrível possa parecer, no ônibus
que nos trouxe de volta do show, ela estava só em uma
poltrona e todos que tentaram dela aproximar-se, já se
haviam dado por derrotados ou por suas contundentes
investidas terem resultado em solenes nãos ou fracassos.
Algo me soava estranho, mas muitas vezes, os excessivamente
lindos terminam prisioneiros de sua beleza, quando não
solitários em sua vaidade, alguns inclusive chegando a
extremos de desvios sexuais incorrigíveis. Acreditei por
instantes que algo no estilo estivesse acontecendo.
O que mais me intrigava era
o fato de mesmo sentado no lado oposto, Nildo estava a duas
cadeiras de distância de Vanda, durante todo o período de
quase quatro horas que durou o jantar e o show, não tomou um
cálice sequer do delicioso vinho argentino, que deleitava os
demais. O mesmo fizera Vanda, que dizia ser a bebida
responsável por rugas e celulite. Olhado para seu corpo,
logo se imaginava serem sábias suas palavras a respeito do
mais antigo dos vícios. Mas como a liberdade de um começa
onde termina a liberdade do outro, tivemos que aceitar a
abstinência aparentemente não combinada de ambos, como
expressão de uma vontade maior.
Não chegou a ser surpresa o
fato de no saguão do hotel, Vanda ter se despedido de todos
e subido para seu apartamento, que como única representante
do sexo feminino era exclusivamente seu. Surpreso ficaria se
Nildo declinasse do convite ao derradeiro chope da
Argentina. Aceitou, foi e tomou. Quando todos pediram mais
um, Nildo despediu-se e manifestando sono, foi dormir.
Passava da uma da manhã e nosso avião partiria as oito,
obrigando-nos a acordar as cinco e meia, motivo também para
ninguém imaginar nada a respeito de algo com Vanda, que por
seu vestido, sapatos, perfume e maquiagem continuava o
assunto da noite.
Acordei meia hora antes que
o grupo e com a lista de apartamentos na mão, fui
acompanhando a descida de todos, que embora tendo a diária
incluída no pacote, precisavam acertar o consumo do Frigobar
ou telefonemas. Quando perguntei a Jorge, companheiro de
apartamento de Nildo, se havia consumo ou chamadas
telefônicas, ele vaticinou em responder, dizendo que não,
mas não dando certeza. Perguntei por Nildo e ele disse que
não sabia. Preocupado com a hora da partida, insisti e ele
discreto e quase ao pé da orelha, me disse que Nildo não
havia passado a noite no apartamento. Matei a charada, e
como bom coordenador de grupo fiquei quieto. Numa fração de
segundos desce Nildo só e noutra fração chega Vanda, com
olhar cansado, para quem tinha sido a primeira a deitar.
Novamente discreto ajudei a fechar a conta de seu
apartamento, que apresentava consumo em qualidade e
quantidade superior ao de se esperar para alguém que com
aventado sono se recolhera mais cedo. Nada comentei, nem com
ele, nem com ela.
Já no aeroporto em São
Paulo, depois das despedidas da maioria e aguardando meu vôo
para Curitiba e com Nildo aguardando o seu, encontrei-o e
sem rodeios disse-lhe: quem ri por último, ri melhor. Ele
deu um sorriso discreto, nem confirmando, nem desmentindo.
Para os que não entenderam a
segunda frase, nem todos os gatos são pardos, é a senha para
descobrirem com inteligência o felizardo.
DENTISTA APAGOU
O fim de tarde na Argentina
tem um sabor especial, principalmente no verão. Os que
fizeram o curso de implantes na Fundacion Basílio Jaef
lembram bem dos argentinos caminhando pelas “peatonais”
(calçadões) após o expediente, aproveitando o formato plano
das cidades e a temperatura agradável. Neste clima, saiam os
dentistas brasileiros de mais um dia prolongado de curso,
que se iniciava as 8 da manhã e quase sempre se prolongava
até as 8 da tarde (por ser horário de verão, como no
Brasil).
Os grupos voltavam
caminhando para o hotel, aproveitando as pouco mais de dez
quadras para conhecer melhor a segunda cidade Argentina,
Rosário. Antes de chegar ao destino, alguns paravam para uma
cerveja nos bares de calçada típica do país vizinho. Foi o
que fez Hamilton Barcelos, obviamente um nome adaptado para
não implicar ainda mais o nosso herói de hoje, junto com um
grupo de seis ou sete colegas. Depois de quatro ou cinco
garrafas, que diga-se de passagem são bem maiores lá do que
aqui, o comentário que me lembro ter escutado, dava conta do
fato de a cerveja Argentina ser bem mais forte do que a
brasileira. Como não entendo muito de bebidas aceitei sem
questionar. Ainda assim, três grupos decidiram ir a outro
lugar, tomar um (ou seriam uns) uísque antes de ir para o
hotel. E foram.
Depois de um relaxante
banho, descemos para o saguão a fim de encontrarmos o
restante do grupo para o jantar. Íamos quase saindo quando
entrou o trio que trocou a saideira pelo uísque. Para
surpresa de todos, eles ao invés de subirem ao apartamento,
decidiram imediatamente sair com o grupo para jantar. No
restaurante uns pediram sucos, outros refrigerantes e alguns
pediram cerveja. Três pediram vinho. Desnecessário dizer que
tratavam-se dos mesmos três que vêem juntos desde o início
de nossa pequena estória. Pelo jeito o vinho era muito bom,
pois pediram mais uma garrafa antes que o prato principal
fosse servido.
Terminado o jantar, não sem
antes ter que apaziguar um pequeno debate do grupo, acerca
de se o vinho deveria fazer parte da conta, ou cobrado em
separado, dos três que o consumiram. Venceu a maioria.
Talvez por isso is três mosqueteiros decidiram por outro
trajeto para voltar ao hotel como fez o grupo aproveitando a
noite estrelada e temperatura convidativa, além do fato de
talvez por ser sexta feira, os argentinos estarem quase
todos na rua, a pé.
Hamilton e seu grupo, como
apurei no dia seguinte foi tomar a saideira, tanto que mesmo
tendo ficado conversando com alguns do grupo por cerca de
meia hora e já serem mais de uma da manhã, ainda não haviam
chegado. Subi para descansar, pois sabia que o dia seguinte
seria igualmente puxado.
Passava um pouco das quatro
da manhã, quando o telefone tocou. Meio dormindo fiquei
sabendo que me chamavam da portaria do hotel para resolver
um problema com um do grupo dos dentistas brasileiros.
Vesti-me e desci pensando: deve ser o Hamilton. E era. Ao
regressar por volta das três da manhã, não foi direto para o
apartamento como fizeram os outros dois colegas. Depois de
convidá-los para mais uma saideira e tendo ficado sozinho
foi para o bar do hotel, que desde a meia noite esta
fechado. Em um portunhol convincente fez com que o porteiro
o abrisse e lhe servisse uma única cerveja. Já na segunda e
agora com um novo amigo, conseguiu que este lhe preparasse
um sanduíche, frio para não dar muito trabalho ao novo
amigo.
Ao descer encontro o
funcionário do hotel com cara de espanto, que depois de me
relatar o acima contou da sua preocupação, visto que já eram
quase cinco horas e o pessoal da cozinha estava por chegar
para preparar o café da manhã, além do que relatou-me não
ter autorização para abrir o bar, tendo a chave para casos
de alguma emergência. Completando a estória, disse-me que ao
chegar para servir o sanduíche encontrou Hamilton dormindo
na mesa, apenas apoiando a cabeça com a mão calçando o
queixo e que foram em vão as tentativas para acordá-lo.
Inúteis foram também as minhas, mesmo depois de sacudi-lo
com força a ponto dele ter perdido o apoio do queixo e ter
se inclinado sobre a mesa.
Que fazer? Meu manual de
“tour conductor” amador não me acenava com nada a este
respeito e nunca tinha me imaginado ficar frente a uma
situação destas. Numa fração de segundos, como um raio
veio-me a idéia salvadora: levá-lo para o apartamento.
Porteiro-quase-garçom de um lado e eu do outro colocamos o
Hamilton em pé e imaginamos termos o problema resolvido.
Grande ilusão! Quem disse que conseguíamos mantê-lo ereto?
Era impossível, talvez pelo peso adicional da bebida. Depois
de duas tentativas paramos para pensar e única idéia que me
ocorreu foi levá-lo com cadeira e tudo. Foi o que fizemos,
embora a dificuldade de entrar com um quase defunto no
elevador. Ao chegarmos na porta do apartamento lembrei que
não tínhamos a chave. O porteiro desceu enquanto eu fazia a
derradeira tentativa para acordá-lo, obviamente sem
resultado.
De todos os desdobramentos
desta tarefa mais própria para o Corpo de Bombeiros, a cena
que melhor tenho gravada na mente (são passados quase dez
anos do ocorrido) é a cara de espanto do colega que dividia
o apartamento com Hamilton. Para melhor imaginá-la
considerem uma porta se abrindo no meio da madruga, em um
hotel no exterior, com dois tipos trazendo uma cadeira com
um quase morto com a cabeça caída para traz, adicionando um
detalhe importante: ele não era um dos três que participara
da via sacra etílica e, portanto nada sabia. Só lembrando de
ter lhe dito: fique tranqüilo, por que ele está vivo, só
esta um pouco apagado!
VINHO ABRIU A BLUSA
Muito já se falou das
propriedades do vinho, tomado contínua e moderadamente ao
longo da vida. Alguns entendidos argumentam seus benefícios
à saúde, outros vão mais longe, considerando-o o elixir da
juventude, entendendo que o vinho colabora com algumas
atividades típicas do estado jovem, como o despertar da
sexualidade. Foi o que deve ter acontecido com Helena, não a
de Tróia, para quem foi aberto um cavalo de onde saíram
muitos soldados, mas a esposa César, não o conquistador, mas
sim o que conquistou Helena e que na Argentina era apenas um
interessado a mais em aproveitar as vantagens que os
implantes estavam acenando.
Helena, não é dentista. Como
Vera, sua amiga e acompanhante, foi a Argentina na condição
de esposa de cursante, aproveitando a viagem para conhecer
melhor a terra do tango, em especial Buenos Aires, a mais
européia das capitais sul-americanas. Uma linda cidade. Das
amigas, algumas diferenças confirmam a máxima de que os
diferentes se atraem.Helena é extrovertida, alegre e fala
alto, como boa parte das cariocas da nova geração e Vera é
discreta, fala no tom de voz mínimo para o entendimento,
além de vestir-se com sobriedade e discrição, caracterizando
o estilo da mulher clássica típica da sociedade carioca,
avessa a escândalos e exibicionismos.
Os maridos de ambas, também
guardavam diferenças. Grande na idade, quase permitindo um
ser pai do outro, um se barbeando todos os dias, inclusive
nos sábados e domingos e outro nunca, portando espessa
barba. Pelo menos na Argentina, César bebeu bastante, talvez
compensando o que Juarez não bebeu. No que era acompanhado
por Vera, que bebiam socialmente, não passando da taça por
refeição, diferentemente de César e Helena que consumiam
normalmente um litro, duas vezes ao dia.
Exceto na noite do show de
tango, que como o vinho estava incluído no valor do show, o
casal já atraído, resolveu ser igual no consumo da mais
antiga e nobre das bebidas. Com uma diferença: César, talvez
por ser mais curtido, absorveu melhor os efeitos do vinho, o
que decididamente não aconteceu com Helena, que para espanto
e decepção de Vera, de vez em quando, nos momentos mais
inesperados, demonstrava os estragos da bebida. Levantava-se
e solitária em alto e bom som, dizia a tantos quantos
quisessem ouvir: mais um. Alguns imaginando tratar-se de um
pedido de bis para o último número, aplaudiam, não
imaginando o real sentido do mais um. Na verdade seria mais
uma garrafa de vinho. Quando o marido tentava dissuadi-la,
ela levantava da cadeira e novamente, a plena voz gritava:
bravo. Assim que o marido a puxava pela calça para baixo,
ela complementava: meu marido está bravo. Alguns riam antes,
outros riam depois, cada um rindo de uma coisa. O certo é
que a situação começava a ficar cômica.
Quando o show estava nos
momentos mais românticos, Helena levantou e justo quando
ninguém fazia um único ruído ela gritou: agora eu vou. O
marido a puxou e ela complementou e lá se foram os dois,
para os toaletes. Bêbados, mas cada um para o seu lugar. Na
volta, sozinha, Helena errou a mesa e quase ia sentando em
outra onde também havia um barbudo com uma cadeira vazia ao
lado. O barbudo a reconhecendo como sendo a pessoa que de
vez em quando gritava, indicou o caminho da sua mesa, como
que não querendo aproveitar a companhia da pinguça. Trocaram
os atores e agora quatro sensuais bailarinas levavam o
público ao delírio, com momentos de alta sensualidade.
Quando o número estava perto do clímax, Helena se levanta e
no escuro da platéia, com voz de locutora e língua de
bêbado, diz: César, conta pra eles que eu faço mais que
elas. O marido, não tão afetado pelos efeitos do álcool, e
para delírio dos colegas de curso sentados a mesma mesa,
responde: não é mais, o que elas estão fazendo é melhor. Sem
contar que no quesito qualidade, as quatro bailarinas
levavam nítida vantagem sobre Helena.
O show terminou e César
temendo pelo pior, decide esperar que as quase quinhentas
pessoas que se encontravam no Tango Mio, saíssem, para
depois levar Helena, que de tanto levantar durante o show,
já não agüentava ficar muito tempo em pé. Saíram abraçados,
mais por necessidade, do que por demonstração de amor de
César para com sua colega de Baco. Fernando Soler, que
cumprimentava uma a uma as damas a saída, deixando sua linda
esposa, Soledad, fazer o mesmo com os cavalheiros,
reconheceu Helena como aquela que levantava e dizia coisas
que ele não entendia, por serem ditas em português e por
algumas serem pronunciadas mais por força do etílico, do que
pela lógica do pensamento. Olhou para o marido que a
abraçava e polido comentou: Pelo jeito ela gostou do show.
César não perdeu a chance: gostou muito, mas acho que gostou
mais ainda do vinho. Fernando entendeu e fomos para o
ônibus, onde a esta altura nos aguardavam trinta ansiosos
colegas para a partida.
Ao entrarmos, César como bom
cavalheiro, mesmo nos momentos de alta dosagem, deu a Helena
a preferência para entrar. Helena entrou, e como já se
haviam passado mais de quinze minutos de espera, todos
aplaudiram a chegada dos faltantes. Helena levantou os
braços como os capitães brasileiros nas quatro copas que
ganhamos, dizendo: eu sabia que ia agradar. As palmas
aumentaram muito, sem que César, que vinha atrás no corredor
do ônibus, percebesse o motivo: a blusa de Helena as abrira
deixando a vista a modernidade da mulher carioca, que em
muitas ocasiões não usa mais sutiã. Dos participantes do
grupo, quem poderia alertá-la do que estava acontecendo era
Vera, que de vergonha em ver a amiga entrar naquele estado,
encostara o rosto no ombro de Juarez, que terno correspondeu
à esposa no gesto, nem se apercebendo do desdobramento
emocionante da cena.
Quando César deu-se conta da
gravidade e providencialmente fechou a blusa de Helena, foi
vaiado demoradamente. Estavam todos altos, a exceção de
Juarez e Vera. César, que talvez não entendendo o motivo da
vaia, vaiou também, talvez imaginando que a vaia fosse para
ela por ter bebido demais.
No dia seguinte, todos sãos
saíram cedo do hotel em direção ao aeroporto. Inclusive
Helena, que além de séria, estava vestida de modo sóbrio,
talvez dando a entender a dura que levara ou ainda pela
própria mudança de quem sai de momentos de descontração e
começa a enfrentar a dura realidade da rotina de trabalho.
Era segunda feira e no Brasil seria dia de branco, com
pacientes esperando.
E a vida continua. ATÉ A
PRÓXIMA VIAGEM!
MENSAGEM FINAL
Estou
terminando esta primeira edição, onde estipulamos contar
cinqüenta estórias e comentando o livro com alguns amigos
que me ligaram no decorrer do tempo que levei para
escrevê-lo e já tenho quatro novas para uma segunda edição.
Todas que eu havia esquecido, quando elaborei a lista das
que fariam parte desta.
Certamente, você que me deu o prazer da companhia em alguma
de nossas inesquecíveis viagens, tem uma ou mais estórias
que tenham acontecido e que não estejam relacionadas aqui.
Ligue-me ou escreva, para irmos organizando e preparando
novas para próximas edições ou mesmo para um outro livro.
Em tom de
brincadeira digo que entrar neste livro é fazer parte da
estória da implantodontia. Como sempre mudo o nome do
personagem para preservá-lo, não se constranja em contar-me
a sua própria estória ou a de um amigo próximo, porque sua
identificação será impossível, exceto para você, que se não
quiser identificá-lo, já pode me passar a estória com o nome
alterado.
Da vida
não se leva nada e o prazer de ter vivido alegremente é uma
das forças que nos movem permitindo melhor viver. E para
viver bem, rir é o melhor remédio, nem que seja de nós
mesmos. Aos que conseguirem chegar a este estágio, a certeza
de que ficamos mais leves quando sublimamos e conseguimos
rir dos nossos próprios defeitos.
Custei a
dar-me conta disto, levando muitas questões muito a sério
por um longo tempo da minha existência e hoje me divirto dos
que tentaram me aprontar ou prejudicar-me, rindo do tempo
que perderam. Acho graça dos meus defeitos e limitações, que
no passado me causavam vergonha ou constrangimento.
Agora que
você se divertiu com as estórias engraçadas dos outros,
tente você também aliviar sua consciência, tirando um peso
da sua vida, fazendo motivo de risadas as coisas que não
merecem lhe fazer perder uma noite de sono. Não se leve tão
a sério para que a vida não fique meio sem graça, como tem
sido a de muitos nos dias competitivos dos nossos tempos.
Seja diferente, encontrando um ângulo cômico no seu dia a
dia, procurando marcar suas coisas pelo bom humor. Assim foi
com o tumor, que depois de extirpado, virou ODONT’HUMOR.
Antônio Inácio Ribeiro
ribeiro@odontex.com.br
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