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ABRA, É A POLÍCIA!

A maioria dos 880 CD´s que foram à Argentina fazer curso de implantes, o fez exclusivamente com o propósito de aprender a nova especialidade e desvendar o mundo novo dos implantes. Alguns poucos tinham dupla intenção: estudar e se divertir. Um ou outro ia só para aprontar. Foi o que aconteceu com nosso amigo da estória que segue. No final do curso acabou comprando o kit, mas tanto quanto eu sei, nunca colocou um único implante. Inobstante, tem boas lembranças da Argentina e de um argentino em particular.

Doutor Figueiredo foi como optou ser chamado na apresentação inicial do curso. A ocupação: professor universitário, disse com toda seriedade que permitia sua aparência madura, acrescida de um par de óculos típico de cientista pesquisador. Para dar um tom verdadeiro a sua apresentação, finalizou com "um dentista nas horas vagas", provocando gargalhada geral.

Enquanto este iniciava sua apresentação adentrou ao recinto outro tipo raro, roupa que não combinava entre as peças, embora combinasse bem com a figura, ar distraído, cara de quem saiu da frente do microscópio há poucos minutos e não tem idéia exatamente de onde foi parar. Ao término da apresentação do Dr. Figueiredo, o Prof. Muñoz, inesquecível coordenador do grupo, como que adivinhando tratarem-se de almas gêmeas e fugindo a seqüência da apresentação, pede ao recém chegado para que se apresente.

Carlos de Ushuaia, falou sério com ar de quem tinha recém acordado. Mestre Muñoz emendou que ele havia sido muito modesto e achou por bem revelar que Carlos fora seu colega, como pesquisador e professor na cadeira de anatomia da Faculdade de Buenos Aires, a mesma que já tinha revelado para o mundo nomes como Aprile, Figun e Garino. Completou dizendo que depois de se aposentar, Carlos havia se mudado para Ushuaia, o que lhe garantia o título de implantodontista mais austral do mundo, com o que Figueiredo concordou balançando a cabeça, até por não saber o que isto significava.

Cientista coisa nenhuma, comentou Figueiredo com o colega ao lado, um seu amigo de trinta anos, desde os tempos dos bancos escolares. Ele é um tremendo aprontador, completou, sem nunca antes ter ouvido falar do colega argentino. Daí para frente, durante todo o transcorrer do curso, foi um querendo sacanear o outro. Tudo na maior seriedade, sem que muitos dos cursantes nem percebessem o que estava realmente acontecendo. Nos intervalos e nos horários de almoço os dois gozadores não se separavam, um querendo passar a perna no outro, ora contando uma piada, ora fazendo perguntas maldosas e embaraçosas. Além das coisas normais do tipo puxar a cadeira na hora do outro sentar, esconder o sapato do "inimigo", que relaxadamente os havia tirado, até o cúmulo de interromper o curso, para mostrar que o outro havia dormido ou esboçar uma vaia na hora do colega receber o certificado.

O curso terminou e os dois, agora inseparáveis, se despediram quase chorando, não sem antes de o brasileiro revelar que o grupo ficaria dois dias em Buenos Aires, terra natal do argentino, para turismo e compras. O argentino, já com más intenções, tratou de descobrir em que hotel se hospedariam os brasileiros. Troca de cartões, abraços e a promessa de um dia, quem sabe, voltarem a se ver.

A surpresa seguinte não demoraria em acontecer. Ao chegarmos no aeroporto de Rosário, para tomar o vôo para Buenos Aires, quem estava na fila? Acertou quem pensou no Dr. Ushuaia, apelido que Carlos ganhou durante o curso. Voaram juntos e é obvio que um tentou aprontar com o outro durante os cerca de quarenta minutos que durava o trecho. De mala na mão, o argentino se despediu dizendo que naquele mesmo aeroporto tomaria o avião para sua cidade.

Nem bem havíamos chegado ao hotel da capital portenha, enquanto o colega de turma, Paterson, tomava banho, Figueiredo atende ao telefone e apavorado comenta que era da portaria do hotel, dizendo que a Polícia Argentina estava buscando quem desacatara e faltara no decoro com a guia de turismo, dentro do ônibus que trouxera o grupo do aeroporto ao hotel. Como Figueiredo estava com a consciência pesada, por efetivamente ter aprontado com a guia, nem desconfiou.

Enquanto perguntava para a Paterson o que fazer, a campainha do apartamento tocou e batidas na porta foram ouvidas. É a policia, diziam com sotaque castelhano. Paterson abra a porta, disse Figueiredo completando com um... estou com medo. Paterson abriu e viu um tipo que ostentava acintosamente uma carteira com brasão, numa atitude típica de carteiraço, numa das mãos e um par de algemas na outra. Mal teve chance de abrir a porta e o tipo de terno escuro coberto por um sobretudo comum entre os países de clima frio, entrou porta adentro perguntando "donde esta el deliquente?" Figueiredo tremeu e nem ofereceu resistência ao tipo grande, que o pegou pelo braço e o foi levando corredor afora. Só foi se dar por conta do que acontecia, quando viu o Carlos de Ushuaia, sentado na escada do corredor, que de tanto rir não conseguia ficar em pé. Paterson também foi ao chão de tanto rir, enquanto o falso policial, primo de Carlos, ainda tentava por seriedade na prisão que acabara de efetuar.

Nossa atividade de despedida em Buenos Aires era o show do Tango Mio, a melhor e maior casa de tangos da capital portenha. Desnecessário dizer quem estava na porta, a recepcionar os dentistas brasileiros. Ele mesmo, o Dr. Ushuaia em pessoa, com o que o Figueiredo já não mais estranhou. Depois de um espetacular bife de chorizzo, um (ou seriam uns?) delicioso vinho argentino e um show digno das melhores casas de espetáculos do mundo, os novos amigos se despediram definitivamente. Ah! ia esquecendo de uma generosa dose de lactopurga colocada por Carlos no vinho de Figueiredo, que o quase fez desmaiar, dentre outras complicações estomacais, que não convém relatar.

Até aqui, vitória indiscutível do argentino, que sem querer, ou talvez querendo, acabou por propiciar a revanche. Semana seguinte aconteceria o congresso de Odontologia na cidade do brasileiro e vocês não irão acreditar: lá estava o argentino, que se informando com outros brasileiros do grupo, viajou pensando aprontar mais algumas. Ledo engano, o brasileiro jurou vingança: combinou com um amigo seu, dono de restaurante para dar uma surra de pimenta no peixe do convidado.

Acertou também com uma senhora da "sociedade", que fizera carreira na zona, para ciceronear o gringo enquanto este estivesse em solo brasileiro. Como a senhora tinha tomado um banho de loja e se comportava bem socialmente, a vítima nem se apercebeu da armadilha, embora todos os dentistas do congresso olhassem com espanto, visto ser a senhora muito conhecida na baixa noite da cidade.

Para completar, Figueiredo no dia do retorno de Ushuaia, atrasou propositadamente o relógio em uma hora, ficando com a mesma hora do fuso horário argentino e perto de meia hora antes do vôo perguntou ao argentino qual era a hora certa para estar no aeroporto. O gringo falou e o brasileiro gozador mostrou o relógio, dizendo que tinham menos de dez minutos para fechar o embarque e saiu em desabalada carreira, furando sinais, fazendo ultrapassagens arrojadas e curvas a la Ayrton Senna. Em menos de dez minutos estavam no aeroporto. Quando o Ushuaia olhou o grande relógio oficial do aeroporto, nem fez comentário, porque o bom cabrito não berra. Só aguarda a sua vez. Figueiredo sorriu maneiro. Estávamos vingados.

Os dois amigos continuam se encontrando, ora lá, ora cá, desfrutando a condição de aposentados, agora comum a ambos, sempre se respeitando, até porque ao mínimo descuido, lá vem outra aprontada. Das muitas amizades entre brasileiros e argentinos, por conta dos implantes, esta é sem dúvida a mais assídua e interessante. Como talvez presumira o Dr. Muñoz, efetivamente se tratavam de almas gêmeas. 

TRêS PRESOS E UM DESTINO

Mineiros, grisalhos e discretos, saídos pela primeira vez do Brasil, na última noite de Rosário, depois de tomarem muitas no jantar de encerramento do curso de implantes da Fundacion Basilio Jaef, no qual o vinho era livre por estar incluído no pacote turístico, decidiram sair para conhecer mais a noite rosarina e relaxar dos três dias de concentração total. Talvez não tivessem pensado no que pudesse e finalmente aconteceu.

Como não tivessem o hábito e além de já virem calibrados do hotel, terminaram por tomar todas e mais algumas, não chegando a cair porque em três se abraçavam bem, aumentado a base de equilíbrio, sem preocupação em dar vexame, até por que ninguém os conhecia naquela cidade. Antes disto, já tinham passado por uma situação quase, quase.

Bons mineiros que eram, pediram a conta e inicialmente a acharam alta, creditando esta ao desvalorizado dinheiro argentino, da época. Engano na moeda, mas acerto no tamanho da conta, que efetivamente estava muito alta. Considerando que não tinham idéia exata do que efetivamente tinham bebido, o único argumento que lhes sobrara foi o de que a conta era um roubo. Isto dito em alto e bom som, mesmo em português, terminou por irritar o proprietário, que para não se incomodar com bêbados estrangeiros, optou por chamar a polícia.

Assim que esta chegou, os três foram retirados do ambiente, da maneira que internacionalmente se conhece como tratamento a quem bebeu demais. Não adiantaram os argumentos de Milton, o mais grisalho, de que eram doutores e que no Brasil teriam tratamento diferenciado. O policial lembrou-lhe que ali era a Argentina e que para diminuir a acusação deveriam pagar a conta antes de retirar-se. Muito a contra gosto, pegaram umas notas de cinqüenta dólares, conquistadas arduamente em muitas restaurações e nem fizeram questão do troco, tal era a vontade de sair daquela situação de quase presos.

O caminho para a delegacia foi rápido e curto, porque os policiais gentilmente os colocaram na parte de traz da viatura. Falo assim porque nenhum dos três me descreveu com exatidão, se era o banco de traz ou aquele compartimento fechado, para delinqüentes de grande periculosidade. Lá chegando, ainda tiveram de aguardar que o delegado de plantão atendesse uma ocorrência ruidosa, resolvida depois de muitos gritos e ofensas de parte a parte dos dois representantes da boemia, bastante conhecidos das madrugadas: prostitutas e cafetões.

Decisão típica do país vizinho e com grandes resultados práticos, os dois foram levados para passar a noite no xadrez da delegacia, em selas diferentes e assim curarem suas bebedeiras.

Quando nossos três heróis foram introduzidos na sala do delegado, já não estavam mais tão bêbados, mas ainda com dificuldades para bem articular as palavras. Como se tivessem ensaiado por horas, os três disseram a uma só voz: somos doutores, como que querendo fugir da penalidade imposta ao casal anterior, a que eles tomaram conhecimento por ser a sala em que estavam, dividida da do delegado somente por uma parede de dois metros, num pé direito de quase cinco. O delegado não entendendo a razão da colocação, perguntou-lhes porque diziam aquilo, ao que Mário, o mais jovem dos três, de pronto respondeu que no Brasil os doutores não ficavam detidos e respondiam qualquer processo em liberdade.

Experiente o delegado fitou os três demoradamente, sem esboçar mínima palavra e por seu olhar demonstrava entender o que estava acontecendo, não sem dar a entender com os olhos, de que reprovava o estado lastimável em que os três doutores se encontravam. Depois de mais de dois minutos, olhando e pensando, perguntou se alguém era responsável por eles na Argentina. Milton, ágil e rápido, como se estivesse lúcido, falou que o Ribeiro era o responsável. O delegado quis saber onde poderia encontrar o tal Ribeiro e Mário como se estivesse são, respondeu: Hotel Plaza. O delegado imediatamente pegou o telefone e ligou. Da portaria do hotel informaram que não tinham ordem para acordar hóspedes àquele horário, visto serem quase quatro horas da madrugada. Insistiu que era grave, mas o porteiro assegurou que somente o gerente poderia autorizar a fazê-lo e que este só chegaria as sete.

O delegado agradeceu, desligou e voltou a dirigir seu olhar aos três que, a esta altura tinham postura similar à de uma criança que acabara de ser surpreendida por sua mãe, pegando um doce escondido da geladeira. Passando a mão pelo vasto bigode, parece ter sido tomado por um surto de benevolência ou ter se lembrado qual poderia ser a atitude de um colega brasileiro, tendo que atender similar ocorrência de argentinos no Brasil. Se já tivesse visitado Santa Catarina, certamente saberia que esta situação aqui é bastante comum. Optou por dispensar os três, não sem antes adverti-los de que a ocorrência ficaria registrada e que na reincidência teria que ser mais radical, com aplicação de penalidade. Desejou boa estada e liberou os três, que o agradeceram com apertado abraço, mais para pinguço aliviado do que para pecador arrependido.

Como não conheciam bem o caminho de volta, andaram algumas quadras perdidos e o único lugar familiar que viram foi um barzinho de fim de noite. Não resistiram e até por estarem perdidos, decidiram tomar a última em homenagem ao delegado. Tomaram algumas e antes que o sol nascesse, saíram, perguntando pela direção a seguir para chegarem ao Hotel Plaza. Identificaram o caminho e foram cantarolando pelas ruas desertas. Pela emoção ou talvez pelo inusitado da situação porque tinham terminado de passar e muito mais por tudo que já haviam bebido, em breve a pequena cantoria aumentou no volume, chegando ao que por aqui chamamos de algazarra.

Com a perturbação que faziam pela rua, logo alguém deve ter ligado para a polícia e denunciado. Imaginem quem foi designado para atender a ocorrência? Sim, ele mesmo, o tal policial que os havia, duas horas antes, levado para a delegacia. Explicações e desculpas não faltaram, tanto que o policial sensibilizou-se, aceitando os pedidos de não os levarem novamente a delegacia, para não serem presos. Como condição colocou a necessidade de levar-lhes na viatura até o hotel. Imaginando que àquela hora ninguém estaria acordado, aceitaram, até por não terem outra opção e autômatos entraram na viatura. Talvez no banco traseiro. Ao chegarem a primeira surpresa: na frente do hotel, um brasileiro que acordara mais cedo para fazer seu Cooper, escutava atentamente um relato do porteiro, dando conta de alguns brasileiros que teriam tido problemas com a polícia. Quando terminara de mencionar, eis que estaciona em frente ao hotel a viatura, e de dentro dela saem meio sem jeito os três sem destino.

Ao verem o colega que os identificara, de vergonha talvez, nem lembraram de pedir segredo e já na hora do café da manhã o assunto era a fofoca preferida dos participantes do grupo. Foram finalmente dormir, não sem antes, tentarem acordar o Ribeiro, o que depois de três ou quatro vezes, tocando o telefone, conseguiram. Atendi sonolento e uma voz grave e séria pedia-me que descesse, porque três brasileiros estavam presos dentro da viatura da polícia. Dada a gravidade do fato e da voz, desci rápido, vestido às pressas. Ao se abrir o elevador, os três, abraçados e perfilados, para melhor se equilibrarem, riam demoradamente, tentando dar a entender que haviam me enganado. Depois fiquei sabendo que não. Eles realmente estiveram presos e por pouco não os tive que tirar da carceragem.

Foram o comentário do resto da viagem e nos dias em que passamos em Buenos Aires, sempre que alguém enxergava uma viatura da polícia, mandavam os três se abaixarem, para não serem reconhecidos. E não beberam mais. Sãos, no show de tango onde o vinho também estava incluído, perguntaram por suco de laranja e na falta deste, tomaram Coca Cola. Na volta do Tango Mio, quando os colegas saíram para tomar a última cerveja da viagem, foram todos, menos os três, que decidiram subir para o apartamento, alegando que teriam de acordar cedo. Traduzindo: consciência pesada, já que no dia seguinte teriam de enfrentar as esposas no Brasil e precisavam melhorar a aparência, que ainda mantinha sinais de ressaca.

ETIQUETA É PARA QUEM TEM

Hamilton Barcelos é um personagem. Diferente, amigo e ligeiro. Inteligente, mas sempre mais diferente do que os demais. Viajei com ele três vezes, sempre tendo dele alguma estória para contar, alimentando o folclore que depois vim a saber, circula junto com sua fama de gênio. Posteriormente me inteirei que outra característica de sua marcante personalidade é a brabeza típica dos nordestinos que tem aquilo roxo. E percebi que todas as vezes que comentava estórias a seu respeito, estava correndo risco de vida.

Nossa amizade cresceu e já fui seis vezes ministrar cursos em sua cidade, além de outras tantas que levei ministradores estrangeiros, a ministrar cursos de implantes. Nossa camaradagem foi aumentando e numa das últimas vezes que dei curso em um dos seus concorridos congressos, ele apresentou-me como o autor de maior número de livros da Odontologia brasileira, quem mais vende livros no Brasil e, comentando que não sou dentista, perguntou o que a platéia achava disto. Aguardou alguns segundos e como ninguém se manifestou ele próprio deu sua opinião: "Para mim, deveria ser preso!", fazendo as mais de quatrocentas pessoas que esperavam para me assistir, virem ao delírio.

Daquele dia em diante senti-me mais confiante para incluir três, das suas muitas estórias neste livro, sem ficar com medo de encontrar com ele em algum congresso e ele puxar a peixeira. No fundo temos uma admiração mútua, pelo espírito empreendedor e coragem de sair do nada e chegar aonde chegamos. Mas isto não impede que deixe meus leitores sem boas estórias.

Sempre que viajamos ele aparece de roupa nova, contrastando com sua maneira casual de se vestir. Imaginava que a compra da roupa nova fosse obra de sua esposa, no intuito de melhorar seu marketing pessoal. Com o que aconteceu e que vai ser o relato de nossa estória a seguir, mudei de idéia e creio que vocês mudarão também.

Quase ao momento da apresentação, levo um choque visual ao vislumbrar, isto mesmo, vislumbrar é o termo certo para o Hamilton de terno, coisa rara, principalmente em se tratando de um dia quente, para um nordestino de sangue idem. E o terno era completo, com direito a colete, camisa, calça, paletó, gravata, cinto e sapatos. Tudo novinho, surpreendentemente bem combinado, nas cores e no estilo, se bem que algo me chamava a atenção, sem que eu me desse conta de imediato, do que poderia ser.

Cheguei mais perto e nos cumprimentamos com a cortesia e espontaneidade de sempre, fazendo com que os que estivessem a cem metros de distância se apercebessem que alguém novo e muito especial havia chegado. Mas desta vez estava sendo diferente: muitos olhavam para o Hamilton e continuavam olhando para ele como se ostentasse cem quilos de ouro ou que seu terno fosse vermelho com camisa verde, o que não era o caso, tanto que até comentamos o bom gosto de suas combinações naquele dia. E cada vez mais, mais olhavam para ele, a ponto de me colocar a examiná-lo mais atentamente.

Quando me apercebi da razão, comecei a rir e não mais conseguia parar, para contar-lhe do que. Ele ao invés de ficar brabo, ria também como se não fosse com ele. Só ficou sério quando lhe comentei o motivo de todos o estarem olhando: ele recém terminara de comprar o traje completo e imediatamente o colocou. Distraído e desligado como é, não se preocupou em tirar as etiquetas. Nem uma delas. E em algumas peças, para seu azar, haviam duas etiquetas, uma do fabricante e outra da loja que havia lhe vendido o belo terno, além de outra menor com o preço, que a pressa habitual de nosso comprador, tinha feito também o vendedor esquecer igualmente de retirar. Acho que inclusive alguns códigos de estoque e números ou identificadores de tamanho, também continuavam pendurados, por não muito discretas cordinhas, ou colados em lugar de fácil visualização.

Hamilton mais parecia um piloto famoso de fórmula 1, com todas aquelas propagandas em seu uniforme. Tanto parece, que vive correndo e a cada mês voa para um país diferente. Consegui freá-lo e uma a uma, fui tirando todas as etiquetas que o enfeitavam (ou enfeiavam). Quando finalmente terminei o trabalho, tinha mais de vinte me enchendo a mão, todas com os cordõezinhos pendurados, que juntos mais pareciam uma peruca de boneca. Sentamos e depois de muito rir, Hamilton, para relaxar cruzou as pernas em estilo e vi que ainda tinha uma etiqueta no sapato e outra na meia, melhor uma em cada sapato e uma em cada meia. Disse-lhe que não podia me rebaixar mais e que estas, ele teria que se encarregar de tirar. A muito custo, tirou só as das meias, dizendo que as dos sapatos ninguém iria ver. Também com todas aquelas etiquetas quem olharia para seus pés? Nem eu!

120 QUILOS LEVITANDO NO AVIÃO

Salustiano Magnobusto, que não sei porque prefere que lhe chamem de Sérgio, já havia desistido por três vezes, em cima da hora, de ir fazer o curso de implantes na Argentina. Finalmente na quarta, quando me confessou a verdadeira razão: medo de avião, consegui motivá-lo. Medo não, pavor, como ele mesmo diz. Com jeito consegui convencê-lo que avião, como meio de transporte, só perdia para o elevador, em matéria de segurança. Mas com uma condição: vir de sua cidade no interior de Minas de ônibus, porque não confiava muito nos pilotos e aviões brasileiros.

A viagem foi ótima, o vôo esplêndido e o pavor de avião se foi, tanto que Salustiano, ou melhor, Sérgio, decidiu um ano depois retornar para uma reciclagem, por sua livre e espontânea vontade, sem adiar uma única vez e sem fazer comentário do como era o serviço de manutenção dos aviões argentinos. Até de Minas, resolveu vir no mais pesado do que o ar. Talvez quem o visse, entendesse melhor o sentido do mais pesado do que o ar. Pois além de alto, grande e forte, tinha o peso um pouco acima do normal. Algo como uns, digamos, 80%. Além do que, tinha uma incrível semelhança com Karol Woytila, o que lhe valeu o apelido de "o papa dos implantes", logo abreviado para "papa implantes", tal foi a quantidade destes que comprou.

Divertido, quando não faziam piada com seu jeitão mescla de caipira com polonês do campo, contava umas, sempre divertidas. Engraçadas porque mesmo nas sem graça, ele ria tanto, que por solidariedade, ou sentimento religioso, não o partido político, caíamos na risada também.

Os dias passaram rápido e quando me dei por conta, estávamos a bordo dos novos (à época) MD 89 da Aerolíneas, recém chegados, fruto da privatização da companhia aérea argentina, talvez a primeira do continente e que iniciou um surto que viraria moda nos anos noventa, também em nosso país. A subida foi vigorosa, propulsionada pelas novas turbinas da legendária fábrica inglesa Rolls Royce. Quando me dei por conta, já havíamos cruzado o estuário do Rio da Prata, naquele ponto com mais de quarenta quilômetros. Em menos de meia hora, cruzou o Uruguai e como o céu estava de brigadeiro, logo avistei o Chuí e as lagoas Mirim e dos Patos, no meu estado natal. Quando o avião marcou o ponto em cima do aeroporto de Porto Alegre, o comandante, pelo microfone informou que poderíamos ter alguma turbulência no trecho até São Paulo. Salustiano, não consigo chamá-lo de Sérgio, que coincidentemente se sentara na poltrona da janela em frente a minha, virou-se e com um sorriso de quem está acostumado a voar, fez cara de que nem se preocupara.

Lembro de ter comentado que no começo da minha carreira, ainda morando em São Paulo, todos os meses vinha a Porto Alegre e que aquele trecho era bastante seguro, pela grande quantidade de bons aeroportos no trajeto, para o caso de uma eventual necessidade de pouso, em face de adversidades metereológicas, que não eram comuns naquela rota, pela existência do oceano, que dissipava os temporais. Não sei de onde tirei tanta bobagem, mas precisava acobertar um vôo Porto Alegre São Paulo que fizera anos antes a bordo de um novíssimo Airbus (também à época), também recém chegado, que depois de levantar vôo, começou a sacudir na turbulência, só parando de tremer quando baixou em São Paulo.

Voltando para bordo do nosso MD da Aerolíneas, assim que o comandante desligou o microfone, o pássaro de aço começou a sacudir, de início mais leve, para em seguida, começar a jogar a ponto das comissárias interromperem o serviço de bordo, para nosso azar uma fileira antes do Sérgio (consegui, Salustiano). Sacudia tanto, que nem em minhas experiências anteriores havia passado por algo igual. Às vezes chegava a ficar meio atravessado em relação ao eixo da direção imaginária de seu destino. Nunca vi nada igual. E olha que voei mais de cinqüenta vezes para a Argentina, sete para os Estados Unidos, três para a Europa e cruzado a Cordilheira dos Andes, uma vez para o Chile e outra para o Peru.

Quando parou de sacudir, Sérgio me olhou aliviado. Durante os quase trinta minutos que ficamos na turbulência, ele não olhara uma única vez para traz. Acho que não mechia nem os olhos. Comentei que já tinha passado e que logo voltariam a servir nosso almoço, já que estávamos em cima de Santa Catarina e ainda restava cerca de uma hora para São Paulo. Acho que a citação de comida o acalmou. Rimos e ele olhou para frente, como que a chamar pela aeromoça, que na Aerolíneas poderiam se chamar aerovelhas, tal era a média de suas idades. Não durou segundos nossa tranqüilidade e novamente o bólido da alta tecnologia voltou a tremer. Tremer não, agora corcoveava, como os cavalos e bois chucros, quando tem os peões em seu lombo. Mais saía da rota do que nela ficava, ora indo para a direita, ora indo para a esquerda, num movimento parecido com o que fazemos em dias de chuva, girando o volante para a esquerda, quando queremos que o carro vá para a direita. Isto mesmo, ao contrário do que queria o piloto, que a julgar por seus cabelos grisalhos, não dava mostras de beber em serviço. Quando finalmente conseguiu alinhar proa e popa em cima da rota, o susto maior.

Despencamos, isto mesmo, caímos três a quatro mil metros, dez mil pés como dizem os pilotos, três a quatro quilômetros para entenderem todos. Achei que era o fim. Foi tão rápido e violento que nem pude prestar atenção nas turbinas, para ver se funcionavam. A queda durou segundos e a sensação de vazio fez-me imaginar que seríamos enterrados com avião e tudo, mais ou menos a três ou quatro quilômetros, de profundidade, de forma que de nós nunca mais saberiam notícia. Nossa sorte, como me explicou depois um sobrinho que é piloto, foi que na queda, o avião não foi de bico para o buraco e sim manteve a posição cruzeiro, com ligeiro arriamento da cauda, o que nos ajudou na retomada.

Foram segundos. Não vi, mas creio que não chegou a um minuto. Certamente os segundos mais horripilantes de minha existência. Pensei em Deus, mas não tive tempo de rezar. Com a mesma rapidez com que se foi, estabilizou e em minutos estava em procedimento de subida e antes de cinco minutos, voltamos aos trinta mil pés, altitude de cruzeiro. E nenhuma sacudida mais. Nem de leve. Voamos até São Paulo como se o avião estivesse taxiando em uma auto pista alemã. Nem para aterrisar, se moveu.

Por segurança, como nos comentou o comandante logo que teve de volta o controle da aeronave, não continuariam o serviço de bordo. Para mim, que depois escutei uma aeromoça comentar com a outra que nunca havia escutado relato de nada igual, acho que o verdadeiro motivo foi falta de segurança, nas pernas delas que devem ter continuado a tremer por todo o resto do dia, como tremeram as nossas. Sérgio, que com o almoço se acalmaria, continuou imóvel, sem uma palavra, sem olhar para a janelinha, sem me fazer um único sinal. Sem ao menos dar sinal de vida. Justo ele, que pela falta de praia em sua cidade, já é meio branco, estava agora transparente. Também pudera, para quem tinha recém perdido o medo de avião, o mal era irreparável. É dele a cena de pavor, que melhor tenho em minha mente.

Como sua barriga era meio avantajada e ele provavelmente tenha tido vergonha de pedir as extensões do cinto de segurança, que os gordos usam para apertar o cinto, ele só o colocara por sobre as pernas, enganando a aeromoça no momento da conferência, pondo uma revista por cima da parte que não fechara. No momento que despencamos, por alerta do piloto, estávamos todos com os cintos, que na verdade existem para estas situações extremas, exceto um: Salustiano Magnobusto. O chamo assim para realçar seu peso. A cena é patética e terrorista, de terror, não de assalto, muito embora temi que ele fosse saltar justamente na minha poltrona. Saltar, porque durante os segundos que o avião despencou, ele com seus mais de 120 quilos declarados, levitou, isto mesmo, ficou parado no ar, como fazem os beija-flores, com o corpo pouco acima da poltrona, tendo somente as pernas para guardar seu acento. Em queda livre, diz a física, os corpos zeram seu peso. Aconteceu a experiência comprobatória bem a minha frente. Salustiano encostou a cabeça, ou foi a careca, no compartimento de bagagem de mão e quando o avião voltou a rota, a gravidade trouxe seu corpanzil de volta para a mesma poltrona, que em terra o haviam destinado.

Chegamos a São Paulo e ele continuava nada falando e sua cor continuava transparente. Despediu-se com um aceno, nem foi ao guichê pedir o reembolso da passagem aérea de São Paulo para sua terra natal e dirigiu-se para a rodoviária, onde de ônibus seguiu viagem. Depois disto, só nos falamos por telefone, nunca mais o encontrei em algum congresso, por serem longe de sua cidade e na única vez que toquei no assunto, ele pediu para mudarmos de conversa. Humanitariamente entendi e respeito. Acho que nem elevador ele está tomando.

FOMOS VER, ERA CASAL!

Implantodontia envolve cirurgia. Seus cursos de credenciamento, no início eram só no exterior. Seus custos iniciais elevados e a desconfiança, tola e machista dos pacientes, os afugentavam dos consultórios femininos, quando o motivo era implantes. Com raras, poucas e boas exceções. Assim foi que nos quarenta e três grupos para a Argentina, dos 880 participantes, menos de cinco por cento eram mulheres, sendo em muitos casos acompanhadas de seus zelosos maridos.

Desta forma, pouco nos preocupamos em todos os grupos, com palavrões, piadas fortes e lugares mais para homens, colaborando talvez para afugentar algumas outras candidatas, que contra todas as evidências, persistiram em buscar treinamento em implantes. Para falar a verdade, eu bem que insistia em ter mais presença feminina nos grupos, pois imaginava que assim eles se tornariam mais atraentes e divertidos. Mas pouco adiantou. Os grupos tinham mais barba e bigode. Muito embora, mesmo com tais características, ao menos uma vez ele esteve mais feminino.

Talvez pelas mesmas razões que afugentavam as mulheres, lembro de só em duas ou três ocasiões termos tido representantes do terceiro sexo. Pode ser que não tenha acertado nesta contagem, porque algumas vezes a coisa é tão bem enrustida, que nem percebemos, como ia acontecendo na estória a seguir, não fosse a perspicácia de um gaúcho que vive na fronteira, que por estes e outros atributos conseguiu desvendar um segredo bem guardado.

Por razões que vão desde a escolha de assentos no avião, até a distribuição das duplas nos apartamentos, normalmente se formavam duplas que se integravam e das quais tenho até hoje relatos de boas amizades, delas surgidas. Para caminhar nas calçadas, para sentar nas mesas dos restaurantes e em outras atividades como o treinamento cirúrgico no curso, tudo levava a formação e ativação das duplas. Mas nunca poderíamos imaginar que uma delas já viesse desde o Brasil, marcada por algo mais. Inclusive porque para não dar na vista, eles decidiram que para todas as atividades, seriam cada um por si e para tudo escolheram parceiros novos.

Bob, que não era bobo, como fazia só prótese e vendo seus pacientes migrarem para os novos implantodontistas, tratou de encontrar um cirurgião para colocar-lhe os implantes. Conheceu Pedro, com músculos de pedra, que fora transferido de outra cidade a trabalhar na sua. Conheceram-se e como Pedro não tinha consultório a cantada foi ao natural: na outra semana estavam juntos, trabalhando. No dizer de Bob, que em outras rodas era também conhecido como Rô, de Roberto, dizia que Pedro colocava muito bem os implantes. Creio que em uma de nossas conversas, Pedro comentou que Bob só não colocava implantes porque não queria, porque segundo ele, Bob daria para um bom implantodontista. Tudo no maior respeito, sem ninguém de nada desconfiar.

Embora passassem o dia todo separados e quase nem se falassem de dia, de noite compartilhavam o mesmo quarto, escolha feita na agência de São Paulo, que montava os grupos. Não sei se a pedido ou por coincidência. O que sei é que somente na recepção do hotel eram definidos os apartamentos de solteiro e os raros de casal, pelos motivos que comentamos no início. O certo é que não tínhamos acesso a esta informação, até porque em nada ela mudaria minha atuação de "tour condoctor", que por dez anos desempenhei.

Tudo terminaria bem, não fosse a distração do gaúcho da fronteira. Alguns depois comentaram que seu achado foi intencional, por já estar desconfiando de alguma coisa. Outros mais maldosos, diziam que ele havia ficado com ciúmes por ter sido preterido. Tudo maldade de parte a parte, por que no meu entender os dois não davam o menor sinal de algo mais e o participarem de todas as atividades com outros parceiros é prova de que eram discretos. Acho que foi pura coincidência e para que acreditem, nada melhor do que os fatos.

Fernando, o gaúcho, distraído, ao invés de anotar cinco no painel do elevador para chegar ao seu andar, anotou sem perceber quatro e no quarto desceu. Como todos os andares do hotel eram simétricos, introduziu a chave que abriu a porta. Até aí nada de mais. Só estranhou que a cama fosse de casal e por isso percebeu que estava em apartamento errado. Exceto por um detalhe, justo naquele grupo, não havia um único casal e sequer tínhamos uma única presença feminina que pudesse estar alojada em apartamento com cama de casal para sua maior comodidade. Para complicar, viu duas pastas pretas da Fundacion Basilio Jaef, inconfundíveis para quem estivesse fazendo o curso. De quem seriam? Com a dúvida, depois de dar-se conta de que estava no quarto andar, nem subiu para o quinto, descendo com o veneno na ponta da língua, logo pondo-se a perguntar quem eram os colegas que estavam no quarto andar. Como não conseguisse desvendar o mistério, foi a recepção e perguntou diretamente quem eram os brasileiros que estavam no 424? De posse da informação, voou com a fofoca bombástica que viria a ser o fuxico da viagem.

Uns acreditavam, outros não. Alguns chegaram a perguntar para a camareira, que na Argentina atende pelo estranho nome de "mucama", se era verdade que o 424 era apartamento de casal. A mucama, que no mundo todo são discretas e reservadas, não resistiu a um sorriso maroto, antes de responder que sim. Confirmada a bomba, alguns mais preconceituosos trocaram a dupla, outros passaram a evitar sentar-se ao lado de um dos dois, quer no curso, como em percurso ou em restaurantes. Mais ti ti ti que este, só as suposições desencontradas de quem seria "o" e quem seria "a". Alguns chegaram a apostar e pelo que sei, por falta de provas, não houve quem pagasse como perdedor. Por incrível que pareça, um usava barba e outro bigode e nenhum dos dois dava pinta de ser "uma". De certo, só que estavam juntos.

Os privilegiados que estavam no mesmo andar, ficavam indo e voltando pelo corredor, algumas vezes voltando ao apartamento, simulando terem esquecido de pegar alguma coisa, outras esquecendo propositalmente a própria pasta do curso, tudo para ver se davam de cara com a porta aberta. Um disse que viu, outro disse que bateu para avisar que estavam indo, mas sem uma única prova concreta, muito embora em nenhum pairasse qualquer dúvida de que formavam um casal diferente.

Todos tinham certeza e eu era o único que tinha dúvida. Justo eu que depois de algum tempo vim a conhecer a esposa e a família de um deles e passei a ter certeza que não era. Do outro, sem família, todos diziam que era, mas discretamente, sem provas. Outras, ou melhor, outros, dois ou três como muito, apareceram, mas nenhum com o glamour que a descoberta do gaúcho provocou. E até hoje não sei se o Fernando, foi sutil ou movido por ciúmes. Digo isto por ser gaúcho. Do contrário, não só poderiam me discriminar, como excomungar.

VIRANDO A PRÓPRIA MESA

Nas minhas estórias, para receber bis o sujeito tem que ser muito bom, ou ter ido mais de uma vez aos cursos que eu organizava. Foi o que aconteceu com Hamilton Barcelos. Foi três vezes ao curso, aprontou nas três e merece tris. Não sei se existe a expressão, para caracterizar o que fez uma vez mais que bis. Se não existir, fica valendo, porque eu que acompanhei a estória, escapei por um triz, de morrer, ser preso, ou alguma outra emoção do gênero. A coisa começou simples, com um erro, geográfico talvez e terminou complicada, quase com um incidente diplomático e com muita diplomacia.

O vinho, como combustível universal, não poderia deixar de estar presente. Por estarmos na Argentina, um show de tango, o palco ideal para nossa estória começar e as ruas da capital portenha, à noite, o lugar incerto para terminar. O show, como sempre, contagiava a platéia e Fernando Soler levava o público ao delírio, inclusive a Sugismundo, um boliviano, que por seu jeito bonachão, todos chamavam por Sug, sem nenhuma intenção de sugá-lo. Hamilton, que por sua brabeza e pavio curto, alguns chamavam de Bode, outros nem o chamavam, até para não dar. Tinham, por coincidência, sentado um em frente ao outro no restaurante onde acontecia o show de tango. Elogiaram a carne, o vinho, a nostalgia do lugar, a beleza das bailarinas, a sensualidade da cantora na versão para o espanhol do "Don't cry for me Argentina" e algumas coisas mais que não lembro.

Depois de muito tomarem, muito mais Hamilton que em nossas estórias é sabidamente forte, resistente e bom tomador, tiveram uma pequena diferença. Sug aplaudia demais o show, com o que implicou Hamilton: você fica puxando demais o saco destes argentinos, nem parece que foram eles que tomaram a saída para o mar do teu país. Sug retrucou dizendo terem sido os chilenos quem tomaram tal caminho. Hamilton disse que Sug não entendia nada de história, que devolveu dizendo que o problema era de geografia. E a guerra começou. Como as armas eram só palavras, sugeri ao Ademar que trocasse de lugar com Sug. Isto feito, Sug ficou em frente de Oscar, piloto de avião como Ademar, que ficou em frente de Hamilton. Que continuava brabo. Com dois pilotos, a guerra estava longe de terminar, estava apenas começando. Embora aquela batalha tivesse ali, por aquela simples e providencial troca, terminado.

No ônibus, de volta para o hotel, nova discussão. Ademar tentava acalmar Hamilton, ainda inconformado com a conivência do boliviano, sem ser argentino, e a todo o momento tentava voltar ao assunto, no que Ademar prontamente dissuadia. Hamilton, para retomar a polêmica, afirmou que Simon Bolivar, o proclamador da independência de vários países latino americanos, dentre eles, Chile, Perú e Bolívia, era um conquistador, com o que não concordou Sug, dizendo alto, de três poltronas atrás, tratar-se de um libertador. A confusão voltou a armar-se, sobrando para mim e para Oscar apaziguar as duas partes em litígio. A muito custo, com ajuda das poltronas do ônibus a separá-los, conseguimos.

Na portaria do hotel, como se tratava de nossa última noite na Argentina, alguns sugeriram tomar a última na confiteria ao lado. Depois de certificar-me que Sug já havia subido, para o apartamento, não no vinho, dei o OK e por garantia, decidi acompanhar o grupo, com medo de mais alguma do Hamilton, que surpreendentemente estava calmo e quieto. Sentamos e algumas cervejas depois, nosso herói que dava bode encrencou com Oscar, sentado a sua frente, que de semelhança com Ademar, só tinha o fato de ambos serem pilotos de avião, afirmando que ele defendera Sug, quando este na verdade, durante o show, simplesmente trocara de lugar com o boliviano, por sugestão minha, para tentar apaziguar ambos. Expliquei que tinha sido outro o contendor da polêmica do ônibus, mas não adiantou: Hamilton chamou-o de nazista, quando quem na verdade tinha alguma semelhança com Hitler era Ademar, o outro piloto, que a esta altura já deveria estar no segundo sono. Para se entender melhor a confusão, Ademar tinha cabelo na testa, usava óculos e ostentava um bigode estreito e espesso, enquanto Oscar era careca, não usava óculos, à época e tampouco tinha bigode. Oscar, como bom gaúcho, não levou desaforo para casa: disse que nazista era ele, Hamilton, que em menos de dois segundos armou, ou melhor, desarmou o cenário da confusão.

A confiteria, pequeno bar para se tomar café, deveria ter dez mesas e lugar para cerca de cinqüenta cadeiras. Como já eram mais de duas da manhã, outros funcionários já haviam sido dispensados, ficando somente o dono e um garçom, tanto que ao chegarmos foram logo nos avisando que só poderiam servir líquidos, visto que para sólidos, a cozinheira tinha saído a meia noite. Pequena, mas bem arrumada, típico ambiente para amigos conversarem amenidades. Com a chegada dos brasileiros, o tom de voz naturalmente aumentou e as cadeiras, antes simetricamente dispostas, mudaram rapidamente de lugar. Mas o que seu dono jamais imaginaria acontecer, aconteceu. Em menos de um minuto, não havia uma única garrafa das mais de trinta cervejas que havíamos tomado, de pé em cima da mesa. A bem da verdade não havia uma única mesa de pé assim como nenhuma cadeira resistira a total pancadaria que envolveu os cerca de vinte doutores que lá estavam. Na verdade dois querendo briga e dezoito querendo paz. A guerra venceu, e em segundos os copos que poderiam ser projéteis nas mãos de um, viraram todos cacos no chão daquela agora simples praça de guerra. Hamilton com um gargalo da garrafa que quebrara ao virar a própria mesa, estava possuído pelo demônio ou algo parecido.

Passados sessenta segundos e todos os dezoito haviam se retirado, levando Oscar para fora e tentando com isto interromper o combate. Ficamos eu e o Hamilton, isto mesmo, só nos dois, porque o dono e o garçom que contaram depois para os que voltaram para pagar a conta, nunca terem visto em seus trinta anos de bar, nada nem parecido, haviam entrado para a cozinha, se escondendo, com medo que alguma garrafa viesse em sua direção, dada a rapidez com que a confusão se armou. Só lembro de ter abraçado Hamilton com força e saído pela esquerda, não só pelo fato de que o hotel era a direita, como também numa tentativa de não encontrar Oscar. Caminhamos uma quadra e pude escutar ao longe o barulho da sirene da polícia chegando. Dobrei a direita e entrei para a Calle (rua) Suipacha, saindo da Corrientes, que anos antes ficara famosa por seu número 348, imortalizado em um tango. E eu ali, só contra a fera, que a todo custo queria voltar para o bar e ensinar aquele nazista, quem fora Simon Bolivar.

Caminhamos mais de uma hora e quando imaginei que ele estava mais calmo, ele sismou que havia visto um grupo de brasileiros bebendo num bar. De medo que fosse Oscar e o resto da turma, desconversei e saí para o outro lado. No total, andamos mais de duas horas até que a fera se acalmasse. Para minha sorte, com o retorno antecipado de dois do grupo que não fizeram a parte de Buenos Aires da viagem, por serem repetentes, o Hamilton dividiria o apartamento comigo. Pelo grupo, ficava mais tranqüilo, por mim ficava mais preocupado, porque a qualquer momento a fera poderia ter outro acesso de raiva e voltar-se contra mim. Até por algum motivo fútil, tal como o fato de para contê-lo ter que levá-lo abraçado por mais de duas horas pelas ruas movimentadas da capital portenha, ou qualquer outra interpretação que pudesse dar ao fato de ter trocado de lugar o Sug ou me acusar de ter eu feito a troca dos dois pilotos intencionalmente.

Quando tudo estava mais calmo, decidimos voltar. Eram quase cinco da manhã, estávamos chegando nas imediações e tudo parecia em paz, quando Hamilton cismou que teria que voltar ao bar, antes conhecido como confiteria, para tomar a última e pagar a conta, visto que havia saído sem pagar. Aparentemente estava consciente e lúcido, tanto que lembrou da conta a pagar. Para minha sorte o bar estava fechado e pela proximidade consegui botar o Hamilton para dentro do hotel e dormir. Dormir não, encostar a carcaça, já que às sete teríamos que sair para o aeroporto e começar a volta para o Brasil.

Depois de pagar o pato e a conta, trinta cervejas, sem ter tomado uma sequer, e ter meu copo quebrado antes de terminá-lo, dei graças a Deus que o dono do bar aceitou as desculpas do bom samaritano, que voltou para pagá-lo e este não quis cobrar os copos e garrafas quebradas, dizendo que brigas são normais em todas as famílias, acreditando que éramos todos irmãos, como são na verdade argentinos, chilenos, bolivianos, uruguaios, paraguaios ou brasileiros, ainda que de vez em quando falemos uma língua diferente. Mas este é assunto para outra briga, se por acaso o Hamilton estiver por perto. Para todos os efeitos o problema entre o Chile e a Bolívia foi histórico e Simon Bolivar um conquistador, até para eu poder dormir uma hora antes do próximo embarque. Por que nesta, eu embarquei bem.

O CERTIFICADO ESTAVA ERRADO

João era um dentista de uma cidadezinha perto de uma pequena cidade do sul de Minas, sujeito bom demais da conta sô e que depois de adiar umas três ou quatro vezes sua ida ao curso da Fundação, me disse com naturalidade e calma típica de quem acredita em tudo e em todos: "vo pega esse trem e vo la ver no luga". Traduzindo: vou comprar a passagem do avião e vou assistir este curso ao vivo. Aproveito para pedir ao revisor para não me corrigir algumas palavras que parecem estar erradas, mas que estão certas no idioma oficial do sul de Minas.

De brincadeira lhe contei, ao encontrá-lo no aeroporto, que era um prazer falar com ele sem chiado. Ele não entendeu e lhe expliquei. Sempre que lhe ligava, escutava um barulho de oceano ou de roda de carro de boi, no fundo da ligação (porque na cidade dele, a estação telefônica é das antigas e a transmissão toda feita por fios e cabos). Ele entendeu a brincadeira e do seu jeito brincalhão disse que deveria ser baruio de boi, porque na terra dele não tem mar.

Por falar em boi, esta era sua atividade principal: fazendas, sendo a Odontologia sua terapia, para esquecer um pouco o trabalho e a vida dura das fazendas. Exatamente o inverso da maioria. Na verdade, sempre dizia que só trabaiava no consultório para mantê ativo, enquanto os dois fios não se formasse dentista, tal qual ele mesmo falou. Por falar em filhos, a filha acompanhou-o na viagem, até para ir pegando jeito com este negócio de imprante, que parece está pegando. Justiça seja feita, mesmo estando longe da civilização, João estava sempre perto da atualização, participando dos principais congressos e marcando presença nos melhores cursos.

Da filha, o lado pitoresco foi a coincidência de pela primeira vez que aceitamos um acadêmico no curso, foram dois, um porque era candidato ao mestrado em Araçatuba, já tendo definido a cirurgia como sua especialidade e ela também acadêmica de Odontologia pelo simples motivo de, em sendo filha do Dr. João, ninguém lembrou de perguntar se era formada. Ele, que de início ganhou apelido de "Baby Implant" logo marcou tento, conquistando o coração da filha do fazendeiro. Em comum o fato de ser também mineiro, que mesmo sendo da outra ponta de Minas, também falava o idioma uai. As más línguas dizem que quando ele soube do tamanho real das fazendas, desistiu do namoro, por saber da equivalência do hectare de terra em Minas, que aos incautos, às vezes, acaba justificando um grande amor.

Andar de avião foi uma alegria para João, um desconfiado mais dado ao transporte com roda no chão. Nem em cima dágua gosto de anda. E oia que a represa de Furnas cola nas mias fazenda. Esse trem de avião é bão memo. E dá-lhe fotografia, para poder mostrar na cidade e provar que era ele mesmo. Amigo, sempre convidava os colegas para sairem nas fotos, que foram a diversão do grupo durante toda a viagem, porque a linda mineirinha, até aquele momento ainda não havia sido flechada pelo ar de moço bom do outro mineirinho.

O cavalo de aço corcoveou um pouco pelo caminho, dando a impressão de que ia pulando as cercas para não ter que abrir as cancelas. Um comentário que lembro do culto João dava conta que Santos Dumont, que também nasceu no sul de Minas, bem que podia ter inventado o avião, mas para andar em cima dos trilhos. Seria bem meió e ele nunca ia sai da linha. Ainda mais agora que a Maria não solta mais fumaça e anda com força (trem elétrico), não ia ter nem o pobrema da poluição. Falei da economia de combustível e le me corrigiu que a poluição referida era a sonora. O mineirinho além de tudo era ecológico.

Durante o curso foi um dos alunos mais aplicados, interessados e perguntador. Mais perguntador do que interessado e aplicado. A cada cinco minutos fazia uma pergunta. Queria saber se véio podia ponha imprante. Por que o imprante era tão caro. De que se fazia o imprante. Quantos imprante precisa para por três dentes? Tanto perguntou que já no segundo dia, os próprios colegas, quando perguntavam, falavam só imprante. Sérios sem rirem, em consideração ao João, que cada vez mais se mostrava um bom sujeito, caindo logo na simpatia de todos. No terceiro dia ninguém mais reparava ou fuxicava quando ele falava imprante.

Só fomos nos dar por conta da mudança, na hora da entrega dos certificados. Como sempre acontecia, Salvador Jaef, presidente da Fundação, fazia questão de por uma pompa na cerimônia, fazendo-a no período em que o curso era em Rosario, no jantar de encerramento do curso, ou ao final em Buenos Aires, perfilando os professores e alternando-os na entrega, como aconteceu nesta turma. Sempre ele me pedia para ir variando o incumbido. Quando chamei o João Filho, ele pulou: este é meu. Como bom subordinado entreguei-lhe o certificado e ele com o Dr. João em seus cabelos branco azulados, parado à sua frente, me chama dizendo para providenciar outro certificado, já que aquele estava errado. Ponderei-lhe que o entregasse assim e que depois a secretária se incumbiria de trocá-lo. Salvador, sério e ríspido disse que assim não dava.

Meio sem jeito e já um tanto constrangido pela desagradável situação, tentei contornar, lendo o certificado, não encontrando erro algum. Comentei-lhe disto e ele em alto e bom som, disse: Como não, se aqui está escrito implante e o curso que ele fez foi de imprante. Imediatamente imaginei uma cena desagradável para o João, que junto de todo o grupo, desandou em gostosa, alta e prolongada gargalhada, sendo acompanhado com desprendimento pela filha e pelo candidato a genro.

Para quebrar o gelo, perguntei para o João se ele fazia questão que trocássemos o certificado ou se podia ficar como implante mesmo. Mineiro esperto e inteligente ele me deu uma ganhada que até hoje não esqueço: "para mim é imprante, mas como o que eu vou colocar é o de vocês, pode deixar implante, que é como vocês o chamam". Tão inteligente que ao invés de usar o tom de voz mais discreto, tal qual eu usei, ele respondeu em voz alta, para todos escutarem e provocando nova gargalhada geral, bem ao estilo populista mineiro. Anos depois fui dar um curso em uma cidade próxima a dele e ele me deu a honra de assistir-me sentado na primeira fila.

Terminado o curso, fomos com uns amigos dele tomar um chopp, onde fiquei sabendo que ele já tinha sido vereador e só não foi deputado porque iria atrapalhá-lo na administração das fazendas. Com esta informação, só depois de uns três chopps, criei coragem e perguntei se ele me autorizava a contar esta estória aos amigos que nos acompanhavam. Respondeu rápido: se você não contar eu conto. Novamente me ganhou.

 RACHARAM A CONTA E  QUEBRARAM A CARA

Quatro colegas, que fizeram amizade em um dos primeiros grupos, passaram no final da viagem por uma situação não muito prazerosa, pelo menos para alguns deles. Nas primeiras turmas ao curso da fundação, além dos quatro dias para curso em Rosário, ficávamos três dias em Buenos Aires, para conhecer melhor a cidade, sendo um dia inteiramente dedicado para compras. Do grupo, os quatro que mais compraram, incluindo-se entre eles o cursante que mais comprou em toda a estória dos quarenta e três cursos de habilitação aos osseointegrados da Fundacion Basilio Jaef, foram justamente os que mais compraram no dia de compras, aproveitando-se da conveniência altamente favorável aos brasileiros, no final dos anos oitenta. Cheguei a temer por problemas na alfândega, que naquela época era mais generosa, mas que dificilmente aceitaria o excesso de compras e bagagens, daqueles que além de motores, contra ângulos e kits, tinham comprado roupas em grande quantidade, eletrônicos, perfumes, tênis, jaquetas e outros.

Como lhes sobrasse talvez algum dinheiro, decidiram fazer da última noite argentina algo especial. Ao invés de irem a uma churrascaria, como foram os demais, optaram por uma casa onde normalmente se encontram as meninas boas de famílias más, com os meninos maus de famílias boas. Não sem antes de tomarem alguns uísques, a ponto de um deles mais afoito, olhar para um tipo de cinzeiro em forma de cilindro, com um orifício lateral para se colocar lixo e insinuar que aquele seria um bom desenho para um implante. Paradoxalmente, um deles depois veio a se tornar fabricante de implantes, com um modelo que em muito se assemelhava àquela lixeira.

Na casa noturna, os dois mais experientes sugeriram que todos se divertissem cada um por sua conta e que à uma hora da madrugada todos se encontrassem na  saída de forma que não tivessem problema com alguma possível exploração na conta. Dois comeram e dois só beberam. Não que os que comeram não tenham bebido. Beberam e muito, mas como eram mais experientes, ao final da noitada estavam atentos e lúcidos. Não que os que só beberam tenham bebido muito, até porque pelo que conheço deles até hoje, não são de muito beber. Nem de comer fora de casa, exceto em bons restaurantes. Ficaram só olhando, até porque tinham limitação no idioma, coisa que não acontecia com os outros dois, que se preciso fosse, seriam capazes de cantar um tango até o final, sem deslizar na letra.

Como combinado e até um pouco antes da hora, lá estavam os dois mais comportados a esperar os outros dois mais ligeiros. No final, os mais comportados até refrigerante estavam tomando, com medo da conta que poderia vir. Não deu outra, quando se completou o quarteto e a conta foi pedida o montante era estratosférico. Incluía a bebida e os serviços, que pelo sistema da casa era cobrado junto da conta. Não lembro exato o valor, por que são passados mais de dez anos e não arrisco a perguntar para um dos dois que só beberam, até para não aborrecê-los com a lembrança e não perder os dois bons clientes em que ambos se transformaram. Desnecessário dizer que os outros dois não são meus clientes. Voltando para a conta, tinha sido entre quatrocentos e oitocentos dólares, com certeza, porque o valor que tocou a cada um era superior a cem dólares e inferior a duzentos.

Como de início haviam combinado rachar a conta, antes que a mesma fosse apresentada, o loiro e o mulato, cortesmente se propuseram a dividir, até para fazer média com os dois novos amigos mais malandros e assim talvez fazerem parte de seu círculo no Brasil. Quando chegou a dolorosa, e aqui o apelido cai muito bem, tanto que descreve a sensação que teve a dupla mais acanhada. Estes assim que viram o tamanho do pepino e perceberam o quanto lhes ia tocar por uma ou duas doses de uísque e um ou dois refrigerantes, iam esboçar um argumento para refazer o trato inicial, quando foram surpreendidos pelos mais ligeiros, falando quase ao mesmo tempo, quase a mesma coisa: eu não tenho dinheiro para pagar tudo isto!

Os dois mais comedidos, talvez exatamente por isto, o tinham, como continuam tendo mais, muito mais até hoje, por ter e para honrar a palavra empenhada, pagaram mais duzentos dólares cada um, não sem sentir o gosto amargo da noite. Os dois mais escaldados começaram a elevar o tom de voz com o gerente da casa que foi chamado para endossar a exatidão dos valores, quando este de maneira polida e segura perguntou se eles queriam que se chamasse a polícia para resolver o impasse. Como não houve contestação, contentaram-se com um último drink servido pelo gerente, este cortesia da casa. Os dois mais comedidos nem provaram. E como não haviam bebido, tiveram que enfrentar outro amargor no dia seguinte em São Paulo: não poder comprar tudo o que desejavam no "free shop", por falta absoluta de numerário e por naquele tempo não ser possível se pagar compras de loja franca com cartão de crédito, mesmo que internacional.

A estória me foi detalhadamente relatada pelo loiro e antes de escrevê-la confirmei com o mulato e não arrisco a colocar-lhes algum nome, ainda que trocado, como faço na maioria das estórias deste livro, para que os dois tenham garantido o anonimato. Os dois mais malandros são identificados pelas vítimas como os "véios" e tampouco arrisco discretamente descrevê-los, porque chegaram a ficar famosos, obviamente por outros motivos, muito embora hoje estejam um pouco fora de cena, sem estarem tão "véios" assim.

O que não sei e não me atrevo a conjeturar é se de alguma maneira o acerto de contas entre ambos foi feito ou se ficou elas por elas, mesmo eles não tendo tocado nelas.

BAR NARDO NÃO BEBEU

Em minha experiência, acompanhando mais de mil Cirurgiões-dentistas brasileiros a cursos de implantes na Argentina, Estados Unidos e Alemanha, passei por várias situações envolvendo o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Várias normais, outras extremas e algumas pitorescas. Justamente uma destas últimas é tema de nossa estória de humor tristeza.

Diferentemente das anteriores, onde buscamos nomes fictícios para não comprometer os envolvidos, nesta usaremos o nome real do nosso personagem, que para os que o conhecem é verdadeiramente uma figura diferente e criativa, tanto que deu o nome de Bar Nardo para uma mini lanchonete que mantém em sua clínica. Bernardo é seu nome e fico na dúvida se é o nome do bar que rima com o Bernardo ou se é o Bernardo que rima com o bar. Para apimentar a estória, nosso herói de hoje serve bebidas alcoólicas aos amigos, freqüentadores de seu bar.

Era a primeira vez que Bernardo saía do país, na verdade a primeira vez que se afastava da esposa e dos três filhos. Até então as pequenas viagens que fizera sempre eram com a família. Foi a revolução que os implantes estavam fazendo na Odontologia do fim dos anos oitenta que levou Bernardo a um vôo pelas terras portenhas em busca do novo. Para mim, que não o conhecia direito, chamava a atenção seu jeito brincalhão, alegre e a maneira diferente de tratar a todos por "Matéria", justificando ser isto, tudo o que somos. Tem tanta razão, que até hoje não consigo chamá-lo pelo nome, só por Matéria. Como ele é periodontalmente conhecido, embora hoje ele seja também um hábil implantodontista. Talvez porque os implantes em última análise sejam também matéria.

Já na viagem, Matéria (nem ele, nem eu conseguimos nos referir a sua pessoa de outra forma) estava alto. Alto em astral, alto em humor, divertindo e fazendo a todos rirem com seu jeito e brincadeiras. No hotel tocou-lhe outro periodontista como companheiro de apartamento, de forma que puderam conversar bastante sobre a matéria que mais os fascinava até então: gengiva e osso. Acho que tinham muito assunto, já que não se separavam nem para dormir. Era Matéria para cá, Matéria para lá, que não acabava mais.

Outra matéria que o pessoal abusava um pouco na Argentina, além da bebida, era a comida. E nesta, Matéria e seu colega periodontista de dia e noite, Alfonsin, eram bons. Para mim eram bons de ambas, até porque em grupos de quase trinta pessoas eu não podia preocupar-me com o quanto de comida e bebida cada um estava consumindo. Mais pela segunda. Só quando algum problema ocorria, minha atenção se voltava para este particular.

Foi o que ocorreu na primeira noite do Matéria fora do Brasil. Eram três ou quatro da manhã e eu ainda estava no primeiro sono, depois de quase três mil quilômetros voados, quatro escalas, uma mudança de idioma, trinta passageiros para ocupar-me e a tensão normal pela preocupação de dar tudo certo, até porque era ainda um dos meus primeiros grupos. Soa insistentemente o telefone. Se fosse na minha casa, certamente iria creditar ao "seu" engano. Era engano meu. Chamavam da portaria, por conta de um "brasileño" que passava mal. Como não pedi detalhes, imaginei do que se tratava, porque também havia degustado o precioso e barato vinho argentino. Coloquei a primeira roupa e desci com pressa.

Matéria, logo ele, estava com uma compressa na cabeça, literalmente arriado numa cadeira desconfortável do restaurante do hotel. A cena era tão característica que nem perguntei o que havia acontecido e ato contínuo pedi ao funcionário do hotel um Engov. Este, pela diferença de país e idioma não entendeu o que eu pedia, inclusive porque Alfonsin insistia em dizer que Matéria não havia bebido. Olhei para a cara de sono do colega de apartamento do dono do Bar Nardo e disse-lhe: você também bebeu, ao que ele me respondeu categórico. Eu não bebo! Pela cara e estado dos dois nem lhe dei bola. Matéria nem falava, de tão plantado que estava. Insistia com o funcionário por Hepatoviz e outras marcas do gênero que me vinham à mente.  Alfonsin insistia que o quase morto não havia bebido. Como não conseguíamos a medicação, optei por tentar escutar a vítima, que até então não havia pronunciado uma palavra sequer.

Enfim ele falou: Eu não bebo, foi tudo o que conseguiu dizer. Muito embora a cena fosse mais para jogar uns bons baldes de água nos dois, passei a considerar a hipótese do problema ter sido causado por algo sólido e não líquido como dava a entender. Uma hora depois de afrouxar roupa, passar toalha úmida, tirar sapato, desapertar cinto, colocar em um sofá e outras tentativas que não recordo bem, decidimos levar o Matéria, ou seria a matéria, para o apartamento. Tentamos em dois e foi em vão. A matéria estava mole demais para suspendermos. Em três conseguimos e depois de muito esforço a matéria foi colocada na horizontal. E falou de novo: Estou bem.

Este foi o meu fim de noite, porque de volta a portaria, sai em busca de ajuda médica e por não ter um seguro internacional de saúde, tudo o que consegui foi um enfermeiro de plantão em uma farmácia vinte e quatro horas. Tirou pressão, temperatura e depois de muita apalpação, uma conclusão: estresse. Disse-me que com a experiência de trabalhar na madrugada, podia afirmar que nossa vítima não havia bebido. Aceitei e fui tomar um banho porque já era quase hora dos demais integrantes do grupo descerem para o primeiro dia de curso.

Para falar a verdade só me convenci de que o nosso Bar Nardo não havia bebido quando um dos participantes que eu conhecia, me assegurou que sentara em frente ao Matéria e Alfonsin e que os dois foram muito provocados pelo grupo por não aceitarem uma cerveja sequer. Talvez se tivessem bebido, teriam relaxado e o estresse não acontecido. E eu dormido!

Bernardo, o Matéria, assistiu ao dia inteiro de curso, provando que não havia bebido.

SANTA BÊBADA NO SHOW DE TANGO

Santa era do tipo mignon, sem muito filé, magra e pequena, completando seu tipo diferente com uma timidez quase imperceptível, já que pouco falava e na maioria do tempo passasse desapercebida. Era fria no trato, embora viesse de um lugar quente, e seca nas palavras, não dando a mínima impressão que bebesse. E bebeu. Por ser pequenina, talvez lhe tenha sido mais fácil entrar para dentro da garrafa, o que quase literalmente aconteceu. Ou melhor, quase entrasse pelo cano. Por pouco, muito pouco mesmo, não entramos nós pelo cano, com um cadáver para trazer de Buenos Aires.

Indiscutivelmente o Tango Mio era o ponto alto e "gran finale" de nossa viagem, sendo por muitos lembrado até hoje, quando encontro alguns dos quase novecentos que comigo lá estiveram. Não são poucos os que relatam lá depois terem voltado com as esposas, para matar a saudade e curtir a dois o clima romântico e nostálgico, que sozinho ou sozinha era difícil de agüentar. Foi o que deve ter acontecido com a Santa, que se escrito com letra minúscula, não altera muito a identificação de nossa personagem, que talvez por ser recém casada e estivesse viajando sem o maridão, pouco falava com os demais colegas do grupo, reservando seus reservados comentários a uma única e também reservada colega.

Como de costume, aproveitei o sistema de som do ônibus que levava os quase trinta participantes do grupo em nossa derradeira noite na Argentina, para comentar que deveriam dar preferência e escolher o bife de chorizo dentre as três carnes que seriam oferecidas no jantar e que o vinho estava incluso. Sempre comentava com os que quisessem dele aproveitar melhor, que deveriam consumi-lo durante o jantar e solicitar outro ao garçom, antes de iniciar o show, visto que após este iniciado, os garçons não mais o serviriam ou ainda, sugeri que o jeitinho brasileiro era entregar ao garçom U$ 10 ou 20, segundo o tamanho da mesa, pois assim procedendo, teriam um vinho extra ou ainda um balde de gelo, com garrafa adicional colocada, embaixo da mesa. Dizia também que tudo estava incluso, exceto a gratificação dos garçons, porque é comum entre os brasileiros no exterior a esquecerem, imaginando que como nunca mais voltarão aquele lugar, se faz desnecessário gratificar. Para mexer com a sensibilidade de todos, propunha que se o show fosse bom, todos dessem a nossa famosa caixinha e que se o show fosse ruim, estariam dispensados. Não lembro de vez que não tenham deixado pomposa gorjeta. Exceto Santa, que gostou do jantar, amou o vinho e não assistiu ao show e como tal ficou dispensada da gratificação. Até porque mesmo que quisesse, não teria como dar, visto que não conseguia mexer nem os olhos.

O clima era alegre, inclusive porque alguns aproveitando a satisfação do bom curso, da boa viagem, dos bons novos amigos conquistados e bebiam durante o saboroso jantar, com direito a entrada, prato principal e sobremesa, juntamente com o vinho, tudo incluso, dando-lhe um sabor ainda mais especial. Até Santa, que imagino nunca ter bebido gota de álcool até então. Pelo clima ou por algum outro motivo que desconheço, sem demonstrar ou que percebêssemos, pôz-se a beber, taça apos taça. Tão quieta bebia, que nem percebemos algo estranho quando discreta e silenciosamente se retirou para ir ao toalete. Só nos demos conta de sua falta quando o show estava por começar e ela não havia voltado. A colega de copo, um pouco mais resistente, deu por sua falta, e comentou que ela havia ido já faziam mais de quinze minutos. Esperamos mais um pouco e como não voltava, Fátima a acompanhante que não tinha cara de santa, aceitou minha sugestão de ir até o toalete ver o que se passava.

Como se passaram mais de dez minutos e nenhuma das duas retornasse e o show já tivesse começado, com algum esforço, consegui convencer outra alma caridosa a entrar onde eu não podia e voltar pronto me relatando o que de tão grave acontecia lá dentro. Rápido voltou e branca me disse que ela estava lá dentro. Respondi que isto eu já sabia ao que me corrigiu, não dentro do toalete e sim dentro da pia, com a torneira correndo, desde quando Fátima a encontrou e que mesmo em duas não conseguiam retirá-la de tão incomoda e arriscada posição. Providenciei reforço entre o pessoal da casa, interrompeu-se por alguns minutos a entrada ao toalete e em quatro conseguiram tirar a que não ficava de quatro, da pia. Para não expô-la ao ridículo entre os colegas, já que além de bêbada, estava inteira molhada, Fátima decidiu colocá-la sentada na única coisa similar a uma cadeira, que havia naquele recinto.

Assim ficou Santa até que o show terminasse e para não dizer que o fato passara em branco, ao terminar o show, seu estado era mais comentado do que o desempenho das boas bailarinas. Boas nos dois sentidos, muito embora quem tivesse dançado tenha sido Fátima, que pelo serviço de pronto socorro internacional, tenha perdido o show. Alguns, maldosamente diziam que havia assistido a outro, se não tão belo, igualmente emocionante. O show já terminou, os assistentes se iam, todos ganhando beijos de Fernando Soler ou de Soledad, sua linda e simpática esposa. Menos Santa, que para não chamar a atenção foi retirada por uma porta lateral, por onde entravam e saiam os artistas, ela também artista, por ter feito arte durante o show. Semidesmaiada ou quase em coma alcoólica foi colocada numa poltrona especial e pedi ao motorista para que não corresse muito, pois assim poderia fazer a cabeça da nossa Santa girar.

Muitos não concordaram, argumentando que ela já tinha rodado tudo o que tinha direito, cabeça, corpo e membros, tal era a deplorável posição e estado em que se encontrava, sentada-deitada, além de dizerem que Santa estava devendo um show de tango para Fátima. Não sei se pagou, mas a cena não se apagou da minha memória, como na de outros que a presenciaram. Na minha talvez mais, porque a vivi e na de Santa nem tanto, por ter sobrevivido e no dia seguinte afirmar que nada recordava. Melhor para nós que recordamos sempre das inesquecíveis noites passadas no Tango Mio. Inclusive esta.

DOUTOR TRAVADO, PERDIODENTISTA

Isto mesmo, embora ele seja periodontista, eu quase perdi o dentista. Nos grupos de brasileiros aos cursos de implantes da Fundacion Basilio Jaef, éramos quase sempre brasileiros, muito embora em todos os cursos houvesse sempre argentinos e outros colegas procedentes dos vários paises da América do Sul, quando não algum paraguaio, boliviano ou uruguaio, residentes no Brasil, infiltrados em nosso grupo. Tanto na primeira como na segunda situação os gringos, como carinhosamente e com todo o respeito, os chamávamos, quase sempre faziam a alegria do grupo pelos mais variados motivos. Um deles por vários motivos que veremos a seguir.

Por razões que desconheço por inteiro e que não me atrevo a descrever em mais detalhes, para não correr o risco de identificá-lo, nosso personagem ficou mais conhecido, de início, no grupo como canibal, embora não fosse muito chegado em comer carne e nem casado era. Ao final, sabiamente, seu apelido mudou para Dr. Travado, visto que durante toda viagem, até o último minuto inclusive, se mostrou mais chegado nos líquidos, que nos sólidos. Sujeito bacana, bom de conviver, como a maioria dos que gostam de sorver líquidos etílicos, tanto fermentados quanto destilados, o Dr. Canibal, Made in Paraguay, isto mesmo com "y" para comprovar ser importado legítimo, até porque ele quando não erra, fala corretamente o português, sempre foi mais chegado nas coisas abstratas, do que nas concretas, tanto que optou por fazer doutorado em ciência política, mesmo sendo mestre e especialista em periodontia.

Especialista em prótese, prefere mais mexer com as gengivas, talvez por serem estas mais molinhas. De osso, mesmo sabendo colocar implantes, prefere raspar. Ultimamente tem se dedicado mais à oclusão. Como vêem, uma pessoa bem definida! Quanto mais mole melhor, tanto que por cerca de vinte anos, teve visto de estudante no Brasil e alguns mais chegados, maldosamente afirmavam, trabalhar nem pensar. Maldosamente porque pensar ele até pensava, mas deixava para depois. Maldosamente porque hoje ele até trabalha, se bem que já seja agora, um quase brasileiro.

Mas deixemos a descrição de lado porque a viagem é longa e a estória idem. Para começar, quando todos saíam de São Paulo, pela Aerolíneas, ele, sábio, saiu por Asuncion, aproveitando para renovar o visto, pelo visto. Chegou só a Buenos Aires. Só, não sóbrio, tanto que se desencontrou do grupo no aeroporto, tendo que tomar um táxi até o hotel. Tomou o táxi e aproveitou para tomar "otras cositas mas". Também pudera, chegamos num aeroporto (Aeroparque) e ele chegou noutro (Ezeiza). Mas o hotel era o mesmo, onde nos encontramos, se bem que no estado em que ele se encontrava, ele já não era mais o mesmo. Ainda não estava travado, mas a língua, o órgão não o idioma, tinha um freio de mão puxado. Depois de instalados no hotel, ele de pronto aproveitou um drinque de boas vindas. Saímos para jantar e depois de olhar a carne mal passada de um bife de chorizo que havia pedido, comentou que não estava com muita fome, já que haviam lhe servido um lanche na LAP. Para os que não conheceram, Lineas Aereas Paraguayas, hoje TAM, Transportes Aéreos Del Mercosur. E pediu um vinho. Sentado próximo, lhe comentei: mas estás tomando cerveja! Este é para depois me respondeu, enquanto o colega, de grupo, não de bebida, me comentava que antes de pedir o bife, tomou dois uísques, para facilitar a decisão, digamos.

O vinho foi tomado ali mesmo, e antes de chegarmos ao hotel, paramos para tomar a saideira. Por sugestão de quem? Acertou! Saideira, porque a última foi uma latinha no frigobar. Ele, sábio, sabia que lá tinha. Tomou e dormiu. Melhor desmaiou. Eram duas e trinta da manhã e às seis e trinta teríamos que levantar para o curso. Pela dificuldade para acordá-lo, não desmaiou, morreu, sendo necessários mais de dez minutos para acordá-lo.

Inacreditavelmente, às oito ele estava no curso, sem óculos escuros, inteiro. Inteiro sóbrio, já que na noite anterior estava inteiro também, só que inteiro "borracho", como dizem os castelhanos. Assistiu ao curso, fez perguntas, participou, só não ganhando nota dez, por que na fundação eles serviam só sucos e refrigerantes, o que o levou, algumas vezes, a ter de sair pára tomar um ar, acompanhado de alguma coisa mais, porque ninguém é de ferro. E por que água enferruja.

Quando saímos para voltar ao hotel, fomos quase todos a pé, para conhecer a cidade e espairecer, depois de doze horas de imersão total. O doutor, que ainda não estava travado, pegou um táxi, com dois amigos para ganharem tempo. Quando chegamos ao hotel, eles já tinham tomado duas. Cada um! Subimos para trocar de roupa e eles não perderam tempo. Tomaram mais uma. Cada um. Foram na frente, já que o restaurante era a uma quadra do hotel e pediram um aperitivo, para nos esperarem. Como alguns demoraram, pediram outro. Era uísque, para não repetir a dose, já que nos "intervalos" do curso e no hotel haviam tomado cerveja. Pela demora, repetiram e para não misturar, durante o jantar, tomaram só vinho, como manda a etiqueta, social, não o rótulo, que na Argentina, como os cigarros no Brasil, trazem uma advertência do ministério da saúde: Beber esta bebida em excesso faz mal à saúde. Por isto eles alternavam, cerveja, uísque, vinho, para não fazer mal à saúde.

Para não embriagar o leitor, com a descrição dos outros dois dias de curso, estes foram iguais ao primeiro, com apenas duas alterações: pela manhã chegou um pouco atrasado no segundo dia e não compareceu na manhã do terceiro. Também pudera, a saideira após o jantar. Minto, no segundo dia, como não tinha fome, decidiu, com os outros dois, saírem só para beber. No terceiro dia, acontecia o jantar de encerramento, já pago no pacote e com vinho liberado e incluído. Não era de primeira, mas a esta altura isto era apenas um detalhe. Deram dez dólares para o garçom e ficaram amigos, de tanto que este trouxe vinho para aquela mesa, onde só sentaram os três, por afinidades.

Desnecessário dizer, que apesar dos esforços, os acompanhantes não conseguiam acompanhar o Doutor Travado (aqui já havia trocado o apelido). Mesmo quando serviram champagne para o brinde final. Porque ele decididamente tomou a garrafa das mãos do garçom, quando este percorria as mesas servindo taça por taça, dizendo: deixa que eu me sirvo. O garçom esperou e embora a garrafa estivesse quase cheia, comentou: pode buscar outra que esta terminou. O garçom, educadamente obedeceu e em alguns minutos trouxe outra garrafa mais, sem deixar de comentar: esta é só para você, motivo que ele alegou para não dividi-la com os dois colegas, a esta hora, de infortúnio. Sim porque enquanto os demais participantes do curso sorviam lentamente, degustando sua champagne, procedíamos a entrega dos certificados.

Lembro bem de quando chamei o Doutor Travado por seu nome verdadeiro, ninguém levantou. O imaginei no banheiro e um silêncio se fez, logo irrompido por uma vez carregada: estáaaaa aaaaaqui! Era o colega de mesa já que o Doutor Travado a esta altura nem falava. Tentaram em vão levantá-lo e para não interromper a pompa do cerimonial, dirigi-me até sua mesa, entregando-lhe o certificado, pelo que todos batiam palmas. Enquanto voltava para minha posição original, o grupo inteiro e uníssono gritava: Travado! Travado! Travado! A festa acabou e o Doutor Travado, depois que todos tinham se retirado, tomou mais uma e foi levado em triunfo, pelos braços, para seu apartamento, sem forças para pedir a saideira.

O "day after" era domingo e acordamos as dez horas para não perder o café continental servido pelo hotel. Menos o Doutor Travado, que foi tirado da cama depois do meio dia, até porque o ônibus que nos levaria até o aeroporto estava aguardando. Menos de uma hora de vôo e chegamos a Beunos Aires. Talvez o Doutor Travado não soubesse, mas ficamos quatro dias em Rosario. A tarde de domingo era reservada ao "citty tour" que Travado dispensou, alegando já conhecer a cidade. Não sei se ficou dormindo ou bebendo, mas se tivesse que apostar, colocaria todas as fichas na segunda hipótese.

Nossa última noite reservava uma programação de gala. Show no Tango Mio, hoje Senhor Tango com o maior cantor de tangos dos tempos modernos: Fernando Soler. E um detalhe que para Travado era fundamental: vinho incluído no preço já pago e à vontade. Para melhorar o serviço, novamente dez dólares antecipados na mão do garçom e serviço de primeira, principalmente na parte líquida. Não lembro que comentário o Doutor Travado fez do show, mas os demais acharam ótimo, inesquecível até. Se bem me lembro, ele nem mais falava, além de ter trazido embaixo do casaco a derradeira garrafa, que lhe dera o novo amigo garçom.

Excepcionalmente naquele grupo, voaríamos de volta para o Brasil ao meio dia, diferentemente dos demais grupos que saíam cedo. Sorte do Doutor Travado, que mesmo depois de uma noite mal dormida, continuava mais travado do que nunca. Fechamos a conta para ele e me chamou a atenção que mesmo com o vinho que trouxe do Tango Mio e com uma única noite em Buenos Aires, ele só no apartamento, por ter que sair mais cedo, ainda tinha três cervejas para pagar. Como não conseguisse se coordenar direito tive que pegar dinheiro em sua carteira para pagar o extra do hotel. Tomei-o pelo braço, coloquei-o em um táxi imaginando despachá-lo para o aeroporto. Como ele não conseguia dizer ao motorista, para que aeroporto iria, decidi acompanhá-lo, mesmo ficando com meu horário um pouco ajustado. Lá chegando, ele se revelou um pouco triste por ter que ir embora e enquanto eu providencia seu "check in" ele fazia "check out" tomando duas saideiras. No portão de embarque, ao entregá-lo para a aeromoça, comentei que era inofensivo, não falava alto embora estivesse, estava com nostalgia de casa e que pela dúvida o amarrasse bem com o cinto de segurança para não cair da poltrona e que se por acaso tivesse algum enjôo, que não lhe desse comprimidos e sim uma bebida.

O encontrei são algumas semanas depois e ele disse que não lembrava da viagem. Tornei a perguntar pelo vôo Buenos Aires a Asuncion e ele disse que não se lembrava era da viagem inteira, contando Rosario e Buenos Aires. Também pudera!

MIGUEL!!!  VOCÊ AQUI!

Durante mais de sete anos, todos os meses a exceção de janeiro e fevereiro, levava turmas de brasileiros a um curso de habilitação em implantes osseointegrados, que foram à sensação do final da década oitenta e da primeira metade da década noventa. Eram grupos de cerca de 25 a 30 pessoas, contando com as esposas, que quatro ou cinco do grupo levavam para fazer turismo. Normalmente sempre ficávamos no mesmo hotel, por conveniência de preços e localização. Sempre divulgava o nome, endereço e o telefone do hotel, com antecedência, para que os participantes pudessem informar a seus familiares onde ficariam hospedados.

Algumas vezes tentamos mudar de hotel, por busca de algo melhor, outras por melhores preços e numa das vezes anunciamos um hotel e um dia antes do embarque tivemos que mudar, por erro da agência que não tinha encaminhado com a devida antecedência a lista de passageiros e como tal não havia lugares para tantos hóspedes. Optamos de última hora pelo hotel que até a vez anterior habitualmente nos servia, sem ter tempo hábil de comunicar por carta a mudança de última hora. Só não podíamos imaginar a situação embaraçosa que esta mudança repentina terminou provocando.

Um dos participantes do grupo, que por sinal estava indo pela segunda vez ao curso, aproveitou para levar a esposa a fim de conhecer e desfrutar da inesquecível Buenos Aires. Em parte havia decidido ir porque seu melhor amigo e compadre se decidira finalmente fazer o curso e igualmente levar a esposa, para juntos conhecerem a capital dos argentinos.

Faltando dois dias para o embarque, o que nunca havia feito o curso, inexplicavelmente comunicou sua desistência a mim e ao que já havia feito o curso. Pela decisão de última hora de Miguel, Domingos não teve como alterar sua programação, até porque a viagem tinha uma significação especial para comemoração de uma data idem com a esposa. E lá se foram em clima de lua de mel, aproveitando o curso e o aspecto romântico da cidade portenha. Talvez só tivessem a lamentar o trágico ou grave acontecimento, que tinha feito repentinamente Miguel mudar os planos do quarteto acostumado a viajar juntos.

O que não poderiam os dois amigos imaginar é que com a mudança de hotel feita na véspera, suas vidas fossem se cruzar num lugar tão distante e de uma maneira tão constrangedora. Foi o que aconteceu. O motivo da desistência de Miguel não foi doença como imaginávamos e sim ter optado por aproveitar o feriado e a idéia de passar estes dias com uma...., vamos dizer namorada para não complicar ainda mais a estória, que vai terminar para lá de complicada. Para não dar na vista do amigo e não correr risco, Miguel optou por fazer o pacote de viagem com outra agência de turismo, tendo o cuidado de fazer a ressalva de não ficar em hipótese alguma no Hotel Las Naciones, onde por carta eu havia anunciado, com duas semanas de antecedência, inclusive para ele, que iríamos ficar.

Obviamente, Miguel optou por não se inscrever no curso, para não dar na vista de Domingos e por conseguinte de sua esposa, que fiquei sabendo depois do fatídico acontecimento, era não só comadre da esposa de Miguel, como também seu parente, em grau mais afastado.

Embora Buenos Aires seja uma cidade grande, dispondo talvez de meio milhar de hotéis, os que costumam trabalhar com grupos e que aceitam os barulhentos brasileiros e exigentes no baixo preço das diárias e no café da manhã farto, sejam bem menos, não poderiam nunca imaginar que o caprichoso destino estava prestes a coloca-los frente a frente. A cena foi patética. O corredor de acesso ao "lobby" era longo e estreito. Para complicar, escassamente iluminado, não permitindo a quem nele entrasse, divisar perfeitamente quem na outra ponta estivesse começando a sair. Nenhuma porta para uma loja, banheiro ou balcão de agência de viagens, todos comuns nos grandes hotéis e que pudesse servir como saída ou parada estratégica para disfarce no inevitável cruzamento dos dois compadres.

O que você está imaginando está prestes a acontecer. Domingos, depois de um dia puchado de curso recebe a esposa no saguão da sede da Fundação Basílio Jaef e iniciam a pé o trajeto de volta ao hotel, com programação marcada para um show de tango a noite. Várias coisas poderiam acontecer no trajeto para retardar o percurso: uma parada para um lanche, desnecessária pelo jantar programado, uma entrada em uma loja para sua esposa fazer alguma compra, desnecessária porque esta já havia passado o dia vendo lojas e feito algumas compras, uma mudança de itinerário para ela mostrar a ele algum lugar pitoresco ou atrativo da cidade, desnecessário porque ele já havia feito o curso no ano anterior e conhecido bem a cidade na quase uma semana que nela permaneceu. Nada aconteceu e a entrada no hotel, pelo horário de verão também adotado pelos argentinos, se deu poucos minutos antes das oito horas, com dia claro ainda.

Numa ponta, Domingos e a esposa, decididos a entrar logo para não se atrasar para a saída ao tango, na outra seu compadre, distraído e descuidado com a nova namorada, se é que se pode falar assim. À distância entre ambos diminuindo na velocidade dos passos multiplicada por dois, já que caminhavam em direções opostas, até que à distância encurtada os fez reconhecer um ao outro. Domingos torceu para que a esposa olhasse, ou melhor, se decidisse por ver uma jaqueta de couro e umas blusas de cachemir, lindamente colocadas em um mostrador de fabrica, numa vitrine do corredor, mas esta, como que antevendo, e aqui a palavra se aplica maravilhosamente bem, o pior que estaria por acontecer, nem desviou o olhar, continuando célere em direção ao final do corredor. Quase que na metade do percurso deste, o encontro foi inevitável, como um encontro de dois trens trafegando na mesma linha. Domingos viu Miguel, que viu Domingos e a esposa. Só a namorada não viu nada, ou melhor, viu e não entendeu a troca de olhares que se sucedeu. Embaraçado pelo inusitado, Miguel não cumprimentou o compadre, talvez tentando dar a entender ser um sósia quem pela comadre estivesse cruzando, que com a espontaneidade impulsiva das mulheres e talvez pela distração que caracteriza algumas ou pela mente perspicaz que identifica outras, ao cruzar soltou um espontâneo Miguellllllllll! Que ecoou por todo o corredor e por todo o canal auricular do próprio, fazendo com que o olhar e o cumprimento típico brasileiro, oi, o denunciasse.

Somente na fração de segundo seguinte, ao virar tentando entender por que ele, estando tão distante de sua terra natal, não parara para convenientemente saudá-los, entendeu que a acompanhante, que as mãos dadas denunciavam algo mais, era loira e não morena como a esposa, sua comadre e prima em segundo grau. Na velocidade do som, do Miguelllllll! Pronunciado com espontaneidade, Miguel desapareceu no corredor e nas minhas relações, embora antes de mim ele já tivesse estado na Fundação e conhecesse e comprasse de Salvador Jaef, antes deste se tornar famoso, nunca mais me comprando nada. Domingos, que depois da primeira viagem era um de meus bons clientes em seu estado, após a segunda pelo que lembro não me comprou mais e não me atendeu em alguns telefonemas que lhe fiz, tentando retorná-lo como cliente.

Talvez pensem que a mudança de hotel foi intencionalmente minha e causadora do desagradável encontro. Justo eu, que como Domingos, desejava sua ida para ter nele mais um cliente, acabei perdendo um. O outro por causa da outra.

 MAIS BRANCO A BRANCURA

Sempre gostei muito de viajar, tanto que entre congressos, cursos, familiares e a passeio contabilizo com certeza mais de 500 viagens, sendo quase 100 para o exterior. A vida me brindou profissionalmente com o que mais gosto, dando-me a oportunidade de exercer meu trabalho compartilhado com o prazer de viajar.

Outra coisa que sempre gostei foi alegrar, distrair, divertir as pessoas. Não só contando piadas, mas também fazendo brincadeiras, palhaçadas às vezes, outras simplesmente inventando trocadilhos para coisas do trivial. Quem com fogo brinca um dia tem que se queimar.

Num dos quase 50 grupos que levei para a Argentina a fim participarem do curso de implantes, me esforçava, já desde o encontro do grupo no aeroporto de São Paulo ou no próprio vôo, para integrar e relaxar os participantes, a maioria dos quais nunca tinha viajado ao exterior; acabei encontrando um que achou por bem devolver-me algumas brincadeiras que fiz, na verdade tão corriqueira que nem lembro qual. Não esqueço a que me fizeram. E foi bem feito.

Todos se inteiravam, na primeira noite, do sistema de despertar utilizado à época nos hotéis da Argentina, onde um computador programado com os horários solicitados pelos hóspedes fazia-os acordar tocando o telefone na hora solicitada. O sistema por si só já era divertido, pois alguns, desconhecendo-o, antes de desligar, gentilmente agradeciam ao computador. Outros ligavam para a portaria para saber quem havia ligado ou porque caíra a ligação sem que pudessem atender. Alguns mais espirituosos ao aperceberem-se do sistema simplesmente passavam o telefone para o colega de quarto, dizendo com ar sério: é para você. E ia para o banheiro rir das dificuldades do colega tentando falar com a máquina que nada falava. O mais esperto do grupo bolou uma maneira de divertir-se ás minhas custas.

Como de costume e para desfrutar de amizades recém feitas e oriundas dos mais longínquos pontos do Brasil saíamos, sempre juntos, todos os do grupo para jantar, o que nem sempre acontecia no regresso. Alguns aproveitavam a efêmera liberdade ou o fato de estarem em um país onde não eram conhecidos para descobrir o que tinha de diferente a noite portenha ou simplesmente para beber com os novos amigos.

Sempre enfileirava com os que voltavam direto do restaurante para o hotel porque no dia seguinte tinha que estar bem descansado para coordenar o grupo e o curso, de sorte que tudo saísse a contento e que houvesse satisfação geral com a viagem e o aprendido. Além do que, minha rotina, embora em viagem não aparentasse me levava a um estresse constante, até porque os grupos em sua maioria eram em número superior a vinte participantes.

Lembro-me de ter retornado ao hotel, como de costume pouco depois da meia noite, de forma que perto da uma hora já estava dormindo, profundamente. Como já conhecia bem o sistema de despertar do hotel, o telefone tocou, atendi, ninguém respondeu, era hora de levantar. Ainda com uma sensação de não ter dormido o suficiente, decidi ir para baixo do chuveiro para despertar a preguiça e o sono. Fiz um banho mais prolongado do que o de costume e demorei mais até para coisas do meu cotidiano, como fazer barba, vestir o terno e gravata. Até para escovar os dentes e calçar os sapatos demorei mais do que o normal. Parecia que ainda não estava bem acordado, mas organizei as tarefas do dia em minha pasta e com vagar dirigi-me para o café da manhã. Ao chegar no saguão não prestei atenção para o fato de não haver ninguém por lá, até porque sempre acordava mais cedo que o grupo para checar algum detalhe ou para somente dar bom dia a todos na medida em que fossem descendo.

Só dei-me por conta de que algo não estava certo quando percebi espanto no funcionário da recepção. Ele perguntou-me se havia acontecido algo e ao indagar-lhe porque ele me respondeu que eram 3 horas da madrugada. E eu, como um tonto, bobo ou palhaço, de terno e gravata pensando em café da manhã. Não escreverei o palavrão que soltei, embora pelas circunstâncias a maioria poderá imaginá-lo.

Refeito do susto, ele esboçou um meio sorriso, o que me fez imaginar que alguém tinha me aprontado. Na condição de alimentador do hotel com cerca de 25 hóspedes a cada 30 dias fiz com que ele me contasse quem tinha sido o autor da brincadeira. Disse que não sabia e a única coisa que lembrava foi ter um dos brasileiros, perguntado-lhe o número do meu apartamento, antes de subir para o seu. Sem muito esforço identifiquei o engenhoso, porque somente dois haviam entrado no hotel por volta das 3 horas.

Passei o dia inteiro do curso dando a entender que nada havia acontecido, ou melhor, que não havia me perturbado, muito embora vez ou outra percebia um sorriso maroto no canto do lábio de alguns dos brasileiros. O bom cabrito não berra, aguarda apenas a hora da réplica. Passou o dia e à noite levei o grupo para um outro restaurante e a pretexto de jantar com o grupo dos professores argentinos, deixei-os sem fazer o meu jantar. Voltei para o hotel, pedi a chave do apartamento do que me aprontara e nem reclamei do fato da recepcionista não perceber que a chave solicitada não era a do meu apartamento. Subi já com umas idéias na cabeça que me aplicavam no tempo de adolescente, na colônia de férias do colégio em que estudei. E decidi dar o trote do envelope.

Consiste em tirar cuidadosamente o cobertor da cama da vítima, tirar o lençol de cima (colocá-lo em baixo da cama para que não se apercebam da sobra), tirar de baixo do colchão a parte do lençol de baixo, que corresponde aos pés, e cuidadosamente trazê-la para cima do travesseiro. Colocar novamente o cobertor e dobrar a sobra do lençol que está em cima do travesseiro para cima do cobertor, como fazem as camareiras para dar-lhe uma boa aparência. Cheguei ao extremo de dobrar, no lado em que a pessoa normalmente costuma puxar o lençol e cobertor para entrar na cama. O resultado ficou tão perfeito que ninguém perceberia a adulteração.

Para coroar com estilo a minha resposta, fui ao banheiro e peguei a pasta de dentes da vítima e a do seu colega também e quase as esvaziei dentro do lençol, exatamente no lugar onde ele entraria. Deixei um pouco de pasta para cada um para que, como dentistas, não dessem por falta do produto antes de deitar e desconfiassem de alguma coisa. Calmamente saí, devolvi a chave na portaria e fui fazer um lanche. No dia seguinte, o colega de apartamento do azarado me contou entre gargalhadas as cenas patéticas que presenciou. Antes de deitar-se ele tentou novamente acordar-me tocando o telefone. Escaldado não atendi. Como tinha tomado bastante, o limiar de lucidez dele estava um pouco mais baixo e a cena das repetidas tentativas para entrar no lençol eram dignas de uma comédia dos Trapalhões. Tentou, insistiu por três ou quatro vezes e a bebida o impedia de sentir que a pasta de dentes espalhava-se rapidamente por suas pernas. Finalmente, depois de muito tentar entrar no envelope-lençol, acendeu a luz e entre palavrões e o meu nome deu-se conta da brutal mudança de cor de suas pernas. Aí entendi porque Kolynos dá mais branco à brancura.

E somos amigos até hoje e nos respeitamos toda vez em que nos aproximamos um do outro.

YES, PARA O GARÇON ARGENTINO

Margareth estudara dez anos de inglês, sonhando um dia abafar no exterior. Aconteceu o que imaginava nunca acontecer. Ao invés de Estados Unidos, Inglaterra, ou outro país da Europa, sua primeira viagem ao exterior foi para a Argentina. Mesmo conhecendo noções básicas de espanhol, ela imaginava poder usar seu gramatical e bem pronunciado inglês. Talvez no avião, ou em um ponto turístico, um restaurante fino. Qualquer lugar valia, desde que pudesse praticá-lo de verdade.

No avião, realmente haviam muitos estrangeiros, mas todos da Argentina, que já antes da guerra das Malvinas, não eram muito chegados no idioma de Shaekespeare. Para não dizer que não escutou outra língua além do familiar espanhol, havia um casal que provavelmente falava alemão, entre si, mas quando se dirigiam aos comissários o faziam em perfeito espanhol, dando idéia de viverem há muito na Argentina. Outra exceção não confirmada foi uma família que desceu na escala da Puerto Iguassu e deve ter ido ver as cataratas, pois não mais retornou. Falavam francês.

Após o avião descer, descemos todos a convite do piloto, com a orientação de cumprirmos com as obrigações migratórias, o que fizemos depois que um dos tripulantes desfilou por todo o corredor do avião, espalhando um spray que nos disseram ser determinação do ministério da saúde. Como naquele tempo ainda não tínhamos a vaca louca, deve ter sido para não ficarmos dengosos. Margareth apressou-se para descer, acreditando estar ali uma possibilidade de deslizar seu afiado inglês. Ledo engano, já que os funcionários da polícia de fronteiras argentinas, ao invés de falarem espanhol, só pelo olhar identificavam o passageiro brasileiro e automaticamente falavam português.

Duas horas depois descemos em Buenos Aires e o Free Shop estava fechado. Margareth perguntou porque já que vínhamos do Brasil e lhe explicaram que o nosso vôo havia nacionalizado com a escala em Puerto Iguassu. Ela não entendeu direito, mas mesmo assim foi apanhar sua mala na esteira, chateada talvez mais por não poder praticar seu inglês, do que por não poder fazer uma comprinha. O serviço de aduana na Argentina era sempre generoso com os brasileiros. Bastava dizer boa tarde em pronúncia clara e o policial dizia: passe, passe. Falar inglês para que. Perguntou onde carimbariam seu passaporte e expliquei-lhe que a apresentação da identidade e aquele pequeno papel branco da imigração valiam como carimbo do passaporte. Ela ficou ainda mais aborrecida, pois contava com a viagem para dar sua primeira carimbada.

Dali mesmo embarcamos em outro avião para Rosario, e o único sinal de inglês eram as instruções aos passageiros, dadas no idioma da Madonna e em espanhol. Compreendendo sua frustração, sinalizei-lhe os auto falantes, quando do anúncio do nosso próximo embarque, anunciado em inglês e ela não entendendo veio ate onde eu estava perguntando-me o que eu desejava. Contei-lhe da chamada em inglês e ela falou que assim não tinha graça, dizendo que era igual a que temos no Brasil. Para brincar disse-lhe que era diferente porque lá eles anunciavam em inglês e português. Ao invés de rir, se retirou, fechando a cara.

Na Fundação o curso era ministrado em portunhol e os participantes estrangeiros eram dois chilenos, um uruguaio e um paraguaio. De inglês nada, tanto que até esquecemos do assunto por três dias, tempo que durou o curso. Só voltaríamos a lembrar do idioma no último dia, durante o jantar de encerramento, realizado em um restaurante fino para os padrões argentinos e com o sugestivo nome de Aduana, por localizar-se em frente à Aduana do porto de Rosario, que no passado fora internacional, fruto de um acordo com a Bolívia, que o usava como sua saída para o Atlântico, aproveitando-se dos rios Paraguay e Paraná, para acessá-lo por chatas, não mulheres e sim barcas de baixo calado, que traziam produtos agrícolas para ali embarcarem para a Europa.

Durante o jantar aconteceu o fato inusitado, que é motivo desta estória. O garçom, que na Argentina é conhecido como mozo, muito embora a maioria já tenha mais de sessenta, conveniente e solenemente trajado de "smoking" branco anotava o pedido de Margareth, perguntando em espanhol se ela aceitaria a sugestão do "chef" para o jantar. Ela distraída ou intencionalmente, respondeu um solene "yes". O garçom, que a todos perguntava se preferiam o bife de chorizzo ao ponto, preferência da maioria, não deixou por menos e a ela perguntou automaticamente "midle", recebendo um novo "yes" como resposta, aí terminando o inglês de Margareth.

Todos perceberam, alguns entenderam, outros não, mas o certo que sua estréia no idioma dos Beatles havia sido monossilábica, ao que um dos mais viajados, que compunha o grupo, concluiu: é a síndrome da primeira vez e é melhor passá-la aqui do que numa situação de necessidade em outra parte do mundo. A partir deste momento, tudo que o garçom perguntasse, todos os brasileiros respondiam "yes", fazendo a cada vez, que Margareth ficasse ainda mais vermelha. "Red" talvez.

BARBADOS NO BAILE

Nas mais de 50 viagens que fiz à Argentina, levando dentistas brasileiros para o primeiro curso de credenciamento em implantes osseointegrados da América Latina, ficamos em muitos hotéis diferentes, quer em Rosário, quer em Buenos Aires. Uns bonitos, outros bons, alguns antigos, um ou outro moderno, até porque a característica dos hotéis naquele País é o estilo clássico. Algumas vezes ficamos em hotéis pequenos, a maioria em hotéis grandes. Não erro dizendo que experimentei cerca de 30 diferentes hotéis, entre as duas cidades. Quando o trinômio preço, qualidade e localização convinha, repetíamos, quando não, trocávamos.

Dentre todos, o mais comum, mais mediano e que não se enquadra em nenhuma das classificações acima é justamente o que guardo a maior lembrança. Não tanto pelo hotel, que tinha marca de cigarro e que para não fazer propaganda de ambos, deixaremos de mencionar. De comum, tinha apenas a aparência, por ser um prédio igual a maioria dos prédios argentinos. Estava localizado em uma rua transversal não muito conhecida, com o conforto comum dos bons hotéis de uma cidade que está no roteiro das grandes cidades do mundo. De diferente, tinha apenas o café da manhã, que a bem da verdade era bom, mas desagradava os participantes do grupo porque ao final o garçon vinha pedir que assinássemos a nota de alguma coisa fora do menu tradicional do café da manhã, que lá diferentemente daqui, é bem restrito. Obviamente, a maioria dos brasileiros vinha comigo reclamar e depois de muito argumentar, a gerência concordou em liberar-nos do pagamento dos extras.

Em Buenos Aires, nas noites de sábado, fazíamos sempre a atração turística maior da viagem: o show de Fernando Soler no Tango Mio, hoje Señor Tango, onde um jantar com bife de chorizo e vinho ajudavam a aguardar a atração principal, que dentre todos os espetáculos que tenho asssistido em minhas viagens ainda é o melhor que já vi. A volta ao hotel, em ônibus especial, era marcada por cantorias, piadas e até discursos eufóricos de alguns que haviam exagerado na bebida, sendo que alguns pediam para ficar pelo caminho em algum bar ou lugar de maior concentração.

Dentro do grupo que retornava ao hotel, dois se destacavam, por não fazerem nada do que os demais faziam e pela diferença de idade entre ambos. No final da estória, vim a saber que estavam no mesmo apartamento e que eram de duas regiões bem distantes entre si. Guimarães, de mais idade e mais sóbrio no vestir aparentava cinqüenta anos ou menos e tinha um sotaque bem carregado e característico, estava sentado ao lado de Antônio, com ar de recém formado e cara de pouca experiência, vestia-se de maneira jovial com predominância do jeans. Dificilmente poderíamos acreditar que eles seriam dupla para alguma coisa, qualquer que fosse.

Chegamos para o merecido descanso pouco depois da uma da manhã e a maioria apenas pegou a chave e dirigiu-se aos apartamentos, quase nem dando muita atenção para um baile, que embora no intervalo dos músicos, corria solto, onde em poucas horas, iríamos tomar nosso café da manhã. Lembro de ter ido dar uma olhada para saber o que estava acontecendo e para certificar-me se aquela música não iria atrapalhar o descanso dos nossos colegas. Chamou-me a atenção que a maioria das “moças” que freqüentavam o salão, embora muito bem conservadas e vestidas, tinham idade superior a cinqüenta anos.

Porém, não foi por este detalhe que o hotel ficou em minha mente. Foi algo bem mais inusitado e grave. O espaçoso salão do café da manhã transformara-se em baile nostalgia, com muito tango e músicas da época. Algumas mesas foram afastadas para dar lugar à uma pista de dança e o lugar do buffet era ocupado por uma orquestra típica argentina, com bandoneons, violinos e músicos de cabelos brancos. Alguns quadros de Gardel e outros ídolos, foram colocados nas paredes para compor melhor o ambiente, criando um clima convidativo.

Como estava cansado, depois de cinco dias de concentração para que tudo saísse bem durante a viagem, decidi subir e descansar, nem percebendo que dois brasileiros haviam decidido ficar. Sim, justo eles: Guimarães e Antônio. Ao invés de comerem, decidiram continuar bebendo. As “moças” com quem decidiram tentar conversar e dançar, também bebiam. E não pouco; e como eles, beberam muito mais.

Como era praxe da casa, rigorosamente as quatro da manhã, a música parou e o baile também. As “moças” se foram e a confusão só começou quando o garçom, o mesmo que pela manhã tentara cobrar extras, apresentou aos nossos dois amigos a conta da noitada: 160 dólares para cada um. Mesmo “altos” por causa da bebida, perceberam que a conta estava muito alta. Reclamaram e o garçon explicou que o motivo era o que haviam consumido as moças que os acompanhavam. Os dois tentaram argumentar que as “moças” não estavam com eles e que somente conversaram com elas. Não adiantou e depois de muito bate boca sem que se entendessem, inclusive pela limitação do idioma, a polícia foi chamada e a única solução que lhes veio a cabeça foi chamar-me.

Sabendo que a polícia estava querendo levá-los, desci às pressas e depois de muita diplomacia, consegui convencer o gerente do restaurante a deixar o caso para ser resolvido no dia seguinte com a gerência do hotel. A polícia se foi e os brasileiros subiram para dormir.

Poucas horas depois, com as malas prontas, todo o grupo estava no saguão, para embarcar no ônibus que nos levaria até o aeroporto. Não sem antes resolvermos o impasse dos 320 dólares da conta não paga. Depois de usar todos os meus argumentos e ir perdendo minha tradicional diplomacia e perceber que havia certa má intenção, tanto do garçom como do gerente, começei a ser mais radical e incisivo em minhas colocações, chegando a levantar significativamente a voz, momento em que o gerente do hotel, num gesto que depois de alguns anos se tornaria famoso pelas mãos do apresentador Ratinho, tirou de dentro do balcão um cacetete dos que os policiais usam e o golpeou com força no balcão, gritando algumas palavras que meu espanhol não alcançava. Diante de tão diferente argumento, não me coube outra alternativa que pagar a tal conta, inclusive para não perdermos o ônibus e avião.

Evidentemente, cobrei de Guimarães e Antônio o reembolso da conta da noitada, que a princípio não quiseram pagar. Depois de ponderações de Antônio, o fizeram. Antônio amadureceu, casou e continua meu cliente até hoje e de Guimarães, passados quase dez anos, nunca mais me comprou nada e dele não tenho mais notícias. Consegui reaver meu dinheiro, mas perdi o cliente. Sem nem ao menos ter dançado com algumas das “moças”. Nunca mais voltei àquele hotel, como nunca mais esqueci da primeira vez que falei com a polícia argentina.

ACORDADO NA BATUTA

Era nosso primeiro grupo para o novo mundo dos osseointegrados e para ele concorreram profissionais de São Paulo, Rio, Minas, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Brasília e até do Maranhão, além de algum estado que doze anos passados me fazem esquecer. Comparados com os quarenta mil dólares que os pioneiros que foram a Suécia dizem terem gasto e com os dezessete mil que os pioneiros que trouxeram kits dos Estados Unidos, quatro mil, entre passagem, estadia, curso e kit com dez implantes era uma pechincha. Por este motivo em menos de dez anos, quarenta e três turmas foram à Argentina, num total de mais de oitocentos e oitenta, seguiram minha descoberta de um caminho mais barato para o mundo moderno dos implantes, fazendo com que eu me considere um precursor de tudo de bom que veio a acontecer, inclusive com mais de dez fabricantes brasileiros de implantes, que aprenderam os segredos de montar cursos e sistemas junto com Salvador Jaef, este sim um verdadeiro injustiçado da implantodontia latino americana.

Mesmo com este valor, comparativamente baixo, achava o valor do curso (quatrocentos dólares) alto para nossos padrões terceiro mundistas. Muitos concordavam comigo, menos Túlio, um periodontista de Brasília, que mais dormia do que se mantinha acordado. Não resolviam as constantes despertadas, nas mais variadas formas, executadas por seu amigo Salustião Pinheiro, bem mais interessado em aprender tudo sobre implantes, que conseguia não só acompanhar o curso, como fiscalizar o amigo, que de quando em quando pendia ora para frente, ora para o lado, ora para traz, em movimentos difíceis de prever.

Imaginei que fosse um notívago e pelas informações que me passaram não era, só se driblava bem o restante dos colegas que depois do jantar e de uma caminhada pelas belas e floridas (com belas rosarinas) ruas de Rosario, iam todos para o hotel repousar.

Poderia ser sido o fuso horário e o acordar bem cedo para pegar o avião a tempo de chegar em São Paulo antes das onze e quarenta e cinco, horário de partida para Buenos Aires. Poderia ser, mas que dizer do dia seguinte, quando novamente foram mais de trinta ou quarenta acordadas. O idioma, a distância de casa, o curso das oito às vinte, tudo poderia ser, mas por que só com ele, enquanto os outros vinte e dois se mantinham despertos como corujas, tentando absorver o máximo. Confesso que não entendia, assim como não entendiam os professores, todos contemplados com a desagradável sensação de falar para alguém dormindo, ainda que fosse apenas um.

Sugerimos lavar o rosto, um café, um cigarro, caminhar um pouco, coca cola, ir lá fora e outras tantas que já não lembro mais. Tudo em vão. Ele continuava dormindo. Quase o tempo todo. E quando comentávamos: Túlio estás dormindo, ele com a maior cara de pau, respondia, não só fechei os olhos um poucadinho. O curso continuou e no terceiro dia, cansado de tanto tentarem acordá-lo, Salvador, ele próprio decidiu fazer a derradeira tentativa. Algo como dar um susto em quem tem soluço. Dizem que funciona. A julgar pelo combate a sonolência funciona. Num momento em que a cabeça de Túlio cambaleava livre pelo espaço, Salvador pegou a vareta com que apontava os slides e a percutiu violentamente sobre a mesa, provocando enorme susto em Túlio e em todos quantos estava ao seu entorno. Funcionou. Durante todo o restante do dia, Túlio não cochilou uma só vez. Nem depois do almoço , no sábado, que em qualquer lugar do mundo costuma dar sonolência, ainda mais para quem comia carnes e tomava umas cervejinhas, coisa comum entre os brasileiros.

Salvador, nas quase cinqüenta vezes que ministrou cursos no Brasil, sempre perguntava por aquele que dormia todo o tempo no curso, dizendo; "Ribeiro, como é o nome daquele que acordei para os implantes na batuta?" Túlio continua até hoje nos implantes e pelo que sei, bem acordado e muito vivo.

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