ABRA, É A POLÍCIA!
A maioria dos 880 CD´s que
foram à Argentina fazer curso de implantes, o fez
exclusivamente com o propósito de aprender a nova
especialidade e desvendar o mundo novo dos implantes. Alguns
poucos tinham dupla intenção: estudar e se divertir. Um ou
outro ia só para aprontar. Foi o que aconteceu com nosso
amigo da estória que segue. No final do curso acabou
comprando o kit, mas tanto quanto eu sei, nunca colocou um
único implante. Inobstante, tem boas lembranças da Argentina
e de um argentino em particular.
Doutor Figueiredo foi como
optou ser chamado na apresentação inicial do curso. A
ocupação: professor universitário, disse com toda seriedade
que permitia sua aparência madura, acrescida de um par de
óculos típico de cientista pesquisador. Para dar um tom
verdadeiro a sua apresentação, finalizou com "um dentista
nas horas vagas", provocando gargalhada geral.
Enquanto este iniciava sua
apresentação adentrou ao recinto outro tipo raro, roupa que
não combinava entre as peças, embora combinasse bem com a
figura, ar distraído, cara de quem saiu da frente do
microscópio há poucos minutos e não tem idéia exatamente de
onde foi parar. Ao término da apresentação do Dr.
Figueiredo, o Prof. Muñoz, inesquecível coordenador do
grupo, como que adivinhando tratarem-se de almas gêmeas e
fugindo a seqüência da apresentação, pede ao recém chegado
para que se apresente.
Carlos de Ushuaia, falou
sério com ar de quem tinha recém acordado. Mestre Muñoz
emendou que ele havia sido muito modesto e achou por bem
revelar que Carlos fora seu colega, como pesquisador e
professor na cadeira de anatomia da Faculdade de Buenos
Aires, a mesma que já tinha revelado para o mundo nomes como
Aprile, Figun e Garino. Completou dizendo que depois de se
aposentar, Carlos havia se mudado para Ushuaia, o que lhe
garantia o título de implantodontista mais austral do mundo,
com o que Figueiredo concordou balançando a cabeça, até por
não saber o que isto significava.
Cientista coisa nenhuma,
comentou Figueiredo com o colega ao lado, um seu amigo de
trinta anos, desde os tempos dos bancos escolares. Ele é um
tremendo aprontador, completou, sem nunca antes ter ouvido
falar do colega argentino. Daí para frente, durante todo o
transcorrer do curso, foi um querendo sacanear o outro. Tudo
na maior seriedade, sem que muitos dos cursantes nem
percebessem o que estava realmente acontecendo. Nos
intervalos e nos horários de almoço os dois gozadores não se
separavam, um querendo passar a perna no outro, ora contando
uma piada, ora fazendo perguntas maldosas e embaraçosas.
Além das coisas normais do tipo puxar a cadeira na hora do
outro sentar, esconder o sapato do "inimigo", que
relaxadamente os havia tirado, até o cúmulo de interromper o
curso, para mostrar que o outro havia dormido ou esboçar uma
vaia na hora do colega receber o certificado.
O curso terminou e os dois,
agora inseparáveis, se despediram quase chorando, não sem
antes de o brasileiro revelar que o grupo ficaria dois dias
em Buenos Aires, terra natal do argentino, para turismo e
compras. O argentino, já com más intenções, tratou de
descobrir em que hotel se hospedariam os brasileiros. Troca
de cartões, abraços e a promessa de um dia, quem sabe,
voltarem a se ver.
A surpresa seguinte não
demoraria em acontecer. Ao chegarmos no aeroporto de
Rosário, para tomar o vôo para Buenos Aires, quem estava na
fila? Acertou quem pensou no Dr. Ushuaia, apelido que Carlos
ganhou durante o curso. Voaram juntos e é obvio que um
tentou aprontar com o outro durante os cerca de quarenta
minutos que durava o trecho. De mala na mão, o argentino se
despediu dizendo que naquele mesmo aeroporto tomaria o avião
para sua cidade.
Nem bem havíamos chegado ao
hotel da capital portenha, enquanto o colega de turma,
Paterson, tomava banho, Figueiredo atende ao telefone e
apavorado comenta que era da portaria do hotel, dizendo que
a Polícia Argentina estava buscando quem desacatara e
faltara no decoro com a guia de turismo, dentro do ônibus
que trouxera o grupo do aeroporto ao hotel. Como Figueiredo
estava com a consciência pesada, por efetivamente ter
aprontado com a guia, nem desconfiou.
Enquanto perguntava para a
Paterson o que fazer, a campainha do apartamento tocou e
batidas na porta foram ouvidas. É a policia, diziam com
sotaque castelhano. Paterson abra a porta, disse Figueiredo
completando com um... estou com medo. Paterson abriu e viu
um tipo que ostentava acintosamente uma carteira com brasão,
numa atitude típica de carteiraço, numa das mãos e um par de
algemas na outra. Mal teve chance de abrir a porta e o tipo
de terno escuro coberto por um sobretudo comum entre os
países de clima frio, entrou porta adentro perguntando
"donde esta el deliquente?" Figueiredo tremeu e nem ofereceu
resistência ao tipo grande, que o pegou pelo braço e o foi
levando corredor afora. Só foi se dar por conta do que
acontecia, quando viu o Carlos de Ushuaia, sentado na escada
do corredor, que de tanto rir não conseguia ficar em pé.
Paterson também foi ao chão de tanto rir, enquanto o falso
policial, primo de Carlos, ainda tentava por seriedade na
prisão que acabara de efetuar.
Nossa atividade de despedida
em Buenos Aires era o show do Tango Mio, a melhor e maior
casa de tangos da capital portenha. Desnecessário dizer quem
estava na porta, a recepcionar os dentistas brasileiros. Ele
mesmo, o Dr. Ushuaia em pessoa, com o que o Figueiredo já
não mais estranhou. Depois de um espetacular bife de
chorizzo, um (ou seriam uns?) delicioso vinho argentino e um
show digno das melhores casas de espetáculos do mundo, os
novos amigos se despediram definitivamente. Ah! ia
esquecendo de uma generosa dose de lactopurga colocada por
Carlos no vinho de Figueiredo, que o quase fez desmaiar,
dentre outras complicações estomacais, que não convém
relatar.
Até aqui, vitória
indiscutível do argentino, que sem querer, ou talvez
querendo, acabou por propiciar a revanche. Semana seguinte
aconteceria o congresso de Odontologia na cidade do
brasileiro e vocês não irão acreditar: lá estava o
argentino, que se informando com outros brasileiros do
grupo, viajou pensando aprontar mais algumas. Ledo engano, o
brasileiro jurou vingança: combinou com um amigo seu, dono
de restaurante para dar uma surra de pimenta no peixe do
convidado.
Acertou também com uma
senhora da "sociedade", que fizera carreira na zona, para
ciceronear o gringo enquanto este estivesse em solo
brasileiro. Como a senhora tinha tomado um banho de loja e
se comportava bem socialmente, a vítima nem se apercebeu da
armadilha, embora todos os dentistas do congresso olhassem
com espanto, visto ser a senhora muito conhecida na baixa
noite da cidade.
Para completar, Figueiredo no
dia do retorno de Ushuaia, atrasou propositadamente o
relógio em uma hora, ficando com a mesma hora do fuso
horário argentino e perto de meia hora antes do vôo
perguntou ao argentino qual era a hora certa para estar no
aeroporto. O gringo falou e o brasileiro gozador mostrou o
relógio, dizendo que tinham menos de dez minutos para fechar
o embarque e saiu em desabalada carreira, furando sinais,
fazendo ultrapassagens arrojadas e curvas a la Ayrton Senna.
Em menos de dez minutos estavam no aeroporto. Quando o
Ushuaia olhou o grande relógio oficial do aeroporto, nem fez
comentário, porque o bom cabrito não berra. Só aguarda a sua
vez. Figueiredo sorriu maneiro. Estávamos vingados.
Os dois amigos continuam se
encontrando, ora lá, ora cá, desfrutando a condição de
aposentados, agora comum a ambos, sempre se respeitando, até
porque ao mínimo descuido, lá vem outra aprontada. Das
muitas amizades entre brasileiros e argentinos, por conta
dos implantes, esta é sem dúvida a mais assídua e
interessante. Como talvez presumira o Dr. Muñoz,
efetivamente se tratavam de almas gêmeas.
TRêS PRESOS E UM DESTINO
Mineiros, grisalhos e
discretos, saídos pela primeira vez do Brasil, na última
noite de Rosário, depois de tomarem muitas no jantar de
encerramento do curso de implantes da Fundacion Basilio Jaef,
no qual o vinho era livre por estar incluído no pacote
turístico, decidiram sair para conhecer mais a noite
rosarina e relaxar dos três dias de concentração total.
Talvez não tivessem pensado no que pudesse e finalmente
aconteceu.
Como não tivessem o hábito e
além de já virem calibrados do hotel, terminaram por tomar
todas e mais algumas, não chegando a cair porque em três se
abraçavam bem, aumentado a base de equilíbrio, sem
preocupação em dar vexame, até por que ninguém os conhecia
naquela cidade. Antes disto, já tinham passado por uma
situação quase, quase.
Bons mineiros que eram,
pediram a conta e inicialmente a acharam alta, creditando
esta ao desvalorizado dinheiro argentino, da época. Engano
na moeda, mas acerto no tamanho da conta, que efetivamente
estava muito alta. Considerando que não tinham idéia exata
do que efetivamente tinham bebido, o único argumento que
lhes sobrara foi o de que a conta era um roubo. Isto dito em
alto e bom som, mesmo em português, terminou por irritar o
proprietário, que para não se incomodar com bêbados
estrangeiros, optou por chamar a polícia.
Assim que esta chegou, os
três foram retirados do ambiente, da maneira que
internacionalmente se conhece como tratamento a quem bebeu
demais. Não adiantaram os argumentos de Milton, o mais
grisalho, de que eram doutores e que no Brasil teriam
tratamento diferenciado. O policial lembrou-lhe que ali era
a Argentina e que para diminuir a acusação deveriam pagar a
conta antes de retirar-se. Muito a contra gosto, pegaram
umas notas de cinqüenta dólares, conquistadas arduamente em
muitas restaurações e nem fizeram questão do troco, tal era
a vontade de sair daquela situação de quase presos.
O caminho para a delegacia
foi rápido e curto, porque os policiais gentilmente os
colocaram na parte de traz da viatura. Falo assim porque
nenhum dos três me descreveu com exatidão, se era o banco de
traz ou aquele compartimento fechado, para delinqüentes de
grande periculosidade. Lá chegando, ainda tiveram de
aguardar que o delegado de plantão atendesse uma ocorrência
ruidosa, resolvida depois de muitos gritos e ofensas de
parte a parte dos dois representantes da boemia, bastante
conhecidos das madrugadas: prostitutas e cafetões.
Decisão típica do país
vizinho e com grandes resultados práticos, os dois foram
levados para passar a noite no xadrez da delegacia, em selas
diferentes e assim curarem suas bebedeiras.
Quando nossos três heróis
foram introduzidos na sala do delegado, já não estavam mais
tão bêbados, mas ainda com dificuldades para bem articular
as palavras. Como se tivessem ensaiado por horas, os três
disseram a uma só voz: somos doutores, como que querendo
fugir da penalidade imposta ao casal anterior, a que eles
tomaram conhecimento por ser a sala em que estavam, dividida
da do delegado somente por uma parede de dois metros, num pé
direito de quase cinco. O delegado não entendendo a razão da
colocação, perguntou-lhes porque diziam aquilo, ao que
Mário, o mais jovem dos três, de pronto respondeu que no
Brasil os doutores não ficavam detidos e respondiam qualquer
processo em liberdade.
Experiente o delegado fitou
os três demoradamente, sem esboçar mínima palavra e por seu
olhar demonstrava entender o que estava acontecendo, não sem
dar a entender com os olhos, de que reprovava o estado
lastimável em que os três doutores se encontravam. Depois de
mais de dois minutos, olhando e pensando, perguntou se
alguém era responsável por eles na Argentina. Milton, ágil e
rápido, como se estivesse lúcido, falou que o Ribeiro era o
responsável. O delegado quis saber onde poderia encontrar o
tal Ribeiro e Mário como se estivesse são, respondeu: Hotel
Plaza. O delegado imediatamente pegou o telefone e ligou. Da
portaria do hotel informaram que não tinham ordem para
acordar hóspedes àquele horário, visto serem quase quatro
horas da madrugada. Insistiu que era grave, mas o porteiro
assegurou que somente o gerente poderia autorizar a fazê-lo
e que este só chegaria as sete.
O delegado agradeceu,
desligou e voltou a dirigir seu olhar aos três que, a esta
altura tinham postura similar à de uma criança que acabara
de ser surpreendida por sua mãe, pegando um doce escondido
da geladeira. Passando a mão pelo vasto bigode, parece ter
sido tomado por um surto de benevolência ou ter se lembrado
qual poderia ser a atitude de um colega brasileiro, tendo
que atender similar ocorrência de argentinos no Brasil. Se
já tivesse visitado Santa Catarina, certamente saberia que
esta situação aqui é bastante comum. Optou por dispensar os
três, não sem antes adverti-los de que a ocorrência ficaria
registrada e que na reincidência teria que ser mais radical,
com aplicação de penalidade. Desejou boa estada e liberou os
três, que o agradeceram com apertado abraço, mais para
pinguço aliviado do que para pecador arrependido.
Como não conheciam bem o
caminho de volta, andaram algumas quadras perdidos e o único
lugar familiar que viram foi um barzinho de fim de noite.
Não resistiram e até por estarem perdidos, decidiram tomar a
última em homenagem ao delegado. Tomaram algumas e antes que
o sol nascesse, saíram, perguntando pela direção a seguir
para chegarem ao Hotel Plaza. Identificaram o caminho e
foram cantarolando pelas ruas desertas. Pela emoção ou
talvez pelo inusitado da situação porque tinham terminado de
passar e muito mais por tudo que já haviam bebido, em breve
a pequena cantoria aumentou no volume, chegando ao que por
aqui chamamos de algazarra.
Com a perturbação que faziam
pela rua, logo alguém deve ter ligado para a polícia e
denunciado. Imaginem quem foi designado para atender a
ocorrência? Sim, ele mesmo, o tal policial que os havia,
duas horas antes, levado para a delegacia. Explicações e
desculpas não faltaram, tanto que o policial
sensibilizou-se, aceitando os pedidos de não os levarem
novamente a delegacia, para não serem presos. Como condição
colocou a necessidade de levar-lhes na viatura até o hotel.
Imaginando que àquela hora ninguém estaria acordado,
aceitaram, até por não terem outra opção e autômatos
entraram na viatura. Talvez no banco traseiro. Ao chegarem a
primeira surpresa: na frente do hotel, um brasileiro que
acordara mais cedo para fazer seu Cooper, escutava
atentamente um relato do porteiro, dando conta de alguns
brasileiros que teriam tido problemas com a polícia. Quando
terminara de mencionar, eis que estaciona em frente ao hotel
a viatura, e de dentro dela saem meio sem jeito os três sem
destino.
Ao verem o colega que os
identificara, de vergonha talvez, nem lembraram de pedir
segredo e já na hora do café da manhã o assunto era a fofoca
preferida dos participantes do grupo. Foram finalmente
dormir, não sem antes, tentarem acordar o Ribeiro, o que
depois de três ou quatro vezes, tocando o telefone,
conseguiram. Atendi sonolento e uma voz grave e séria
pedia-me que descesse, porque três brasileiros estavam
presos dentro da viatura da polícia. Dada a gravidade do
fato e da voz, desci rápido, vestido às pressas. Ao se abrir
o elevador, os três, abraçados e perfilados, para melhor se
equilibrarem, riam demoradamente, tentando dar a entender
que haviam me enganado. Depois fiquei sabendo que não. Eles
realmente estiveram presos e por pouco não os tive que tirar
da carceragem.
Foram o comentário do resto
da viagem e nos dias em que passamos em Buenos Aires, sempre
que alguém enxergava uma viatura da polícia, mandavam os
três se abaixarem, para não serem reconhecidos. E não
beberam mais. Sãos, no show de tango onde o vinho também
estava incluído, perguntaram por suco de laranja e na falta
deste, tomaram Coca Cola. Na volta do Tango Mio, quando os
colegas saíram para tomar a última cerveja da viagem, foram
todos, menos os três, que decidiram subir para o
apartamento, alegando que teriam de acordar cedo.
Traduzindo: consciência pesada, já que no dia seguinte
teriam de enfrentar as esposas no Brasil e precisavam
melhorar a aparência, que ainda mantinha sinais de ressaca.
ETIQUETA É PARA QUEM TEM
Hamilton Barcelos é um
personagem. Diferente, amigo e ligeiro. Inteligente, mas
sempre mais diferente do que os demais. Viajei com ele três
vezes, sempre tendo dele alguma estória para contar,
alimentando o folclore que depois vim a saber, circula junto
com sua fama de gênio. Posteriormente me inteirei que outra
característica de sua marcante personalidade é a brabeza
típica dos nordestinos que tem aquilo roxo. E percebi que
todas as vezes que comentava estórias a seu respeito, estava
correndo risco de vida.
Nossa amizade cresceu e já
fui seis vezes ministrar cursos em sua cidade, além de
outras tantas que levei ministradores estrangeiros, a
ministrar cursos de implantes. Nossa camaradagem foi
aumentando e numa das últimas vezes que dei curso em um dos
seus concorridos congressos, ele apresentou-me como o autor
de maior número de livros da Odontologia brasileira, quem
mais vende livros no Brasil e, comentando que não sou
dentista, perguntou o que a platéia achava disto. Aguardou
alguns segundos e como ninguém se manifestou ele próprio deu
sua opinião: "Para mim, deveria ser preso!", fazendo as mais
de quatrocentas pessoas que esperavam para me assistir,
virem ao delírio.
Daquele dia em diante
senti-me mais confiante para incluir três, das suas muitas
estórias neste livro, sem ficar com medo de encontrar com
ele em algum congresso e ele puxar a peixeira. No fundo
temos uma admiração mútua, pelo espírito empreendedor e
coragem de sair do nada e chegar aonde chegamos. Mas isto
não impede que deixe meus leitores sem boas estórias.
Sempre que viajamos ele
aparece de roupa nova, contrastando com sua maneira casual
de se vestir. Imaginava que a compra da roupa nova fosse
obra de sua esposa, no intuito de melhorar seu marketing
pessoal. Com o que aconteceu e que vai ser o relato de nossa
estória a seguir, mudei de idéia e creio que vocês mudarão
também.
Quase ao momento da
apresentação, levo um choque visual ao vislumbrar, isto
mesmo, vislumbrar é o termo certo para o Hamilton de terno,
coisa rara, principalmente em se tratando de um dia quente,
para um nordestino de sangue idem. E o terno era completo,
com direito a colete, camisa, calça, paletó, gravata, cinto
e sapatos. Tudo novinho, surpreendentemente bem combinado,
nas cores e no estilo, se bem que algo me chamava a atenção,
sem que eu me desse conta de imediato, do que poderia ser.
Cheguei mais perto e nos
cumprimentamos com a cortesia e espontaneidade de sempre,
fazendo com que os que estivessem a cem metros de distância
se apercebessem que alguém novo e muito especial havia
chegado. Mas desta vez estava sendo diferente: muitos
olhavam para o Hamilton e continuavam olhando para ele como
se ostentasse cem quilos de ouro ou que seu terno fosse
vermelho com camisa verde, o que não era o caso, tanto que
até comentamos o bom gosto de suas combinações naquele dia.
E cada vez mais, mais olhavam para ele, a ponto de me
colocar a examiná-lo mais atentamente.
Quando me apercebi da razão,
comecei a rir e não mais conseguia parar, para contar-lhe do
que. Ele ao invés de ficar brabo, ria também como se não
fosse com ele. Só ficou sério quando lhe comentei o motivo
de todos o estarem olhando: ele recém terminara de comprar o
traje completo e imediatamente o colocou. Distraído e
desligado como é, não se preocupou em tirar as etiquetas.
Nem uma delas. E em algumas peças, para seu azar, haviam
duas etiquetas, uma do fabricante e outra da loja que havia
lhe vendido o belo terno, além de outra menor com o preço,
que a pressa habitual de nosso comprador, tinha feito também
o vendedor esquecer igualmente de retirar. Acho que
inclusive alguns códigos de estoque e números ou
identificadores de tamanho, também continuavam pendurados,
por não muito discretas cordinhas, ou colados em lugar de
fácil visualização.
Hamilton mais parecia um
piloto famoso de fórmula 1, com todas aquelas propagandas em
seu uniforme. Tanto parece, que vive correndo e a cada mês
voa para um país diferente. Consegui freá-lo e uma a uma,
fui tirando todas as etiquetas que o enfeitavam (ou
enfeiavam). Quando finalmente terminei o trabalho, tinha
mais de vinte me enchendo a mão, todas com os cordõezinhos
pendurados, que juntos mais pareciam uma peruca de boneca.
Sentamos e depois de muito rir, Hamilton, para relaxar
cruzou as pernas em estilo e vi que ainda tinha uma etiqueta
no sapato e outra na meia, melhor uma em cada sapato e uma
em cada meia. Disse-lhe que não podia me rebaixar mais e que
estas, ele teria que se encarregar de tirar. A muito custo,
tirou só as das meias, dizendo que as dos sapatos ninguém
iria ver. Também com todas aquelas etiquetas quem olharia
para seus pés? Nem eu!
120 QUILOS LEVITANDO NO
AVIÃO
Salustiano Magnobusto, que
não sei porque prefere que lhe chamem de Sérgio, já havia
desistido por três vezes, em cima da hora, de ir fazer o
curso de implantes na Argentina. Finalmente na quarta,
quando me confessou a verdadeira razão: medo de avião,
consegui motivá-lo. Medo não, pavor, como ele mesmo diz. Com
jeito consegui convencê-lo que avião, como meio de
transporte, só perdia para o elevador, em matéria de
segurança. Mas com uma condição: vir de sua cidade no
interior de Minas de ônibus, porque não confiava muito nos
pilotos e aviões brasileiros.
A viagem foi ótima, o vôo
esplêndido e o pavor de avião se foi, tanto que Salustiano,
ou melhor, Sérgio, decidiu um ano depois retornar para uma
reciclagem, por sua livre e espontânea vontade, sem adiar
uma única vez e sem fazer comentário do como era o serviço
de manutenção dos aviões argentinos. Até de Minas, resolveu
vir no mais pesado do que o ar. Talvez quem o visse,
entendesse melhor o sentido do mais pesado do que o ar. Pois
além de alto, grande e forte, tinha o peso um pouco acima do
normal. Algo como uns, digamos, 80%. Além do que, tinha uma
incrível semelhança com Karol Woytila, o que lhe valeu o
apelido de "o papa dos implantes", logo abreviado para "papa
implantes", tal foi a quantidade destes que comprou.
Divertido, quando não faziam
piada com seu jeitão mescla de caipira com polonês do campo,
contava umas, sempre divertidas. Engraçadas porque mesmo nas
sem graça, ele ria tanto, que por solidariedade, ou
sentimento religioso, não o partido político, caíamos na
risada também.
Os dias passaram rápido e
quando me dei por conta, estávamos a bordo dos novos (à
época) MD 89 da Aerolíneas, recém chegados, fruto da
privatização da companhia aérea argentina, talvez a primeira
do continente e que iniciou um surto que viraria moda nos
anos noventa, também em nosso país. A subida foi vigorosa,
propulsionada pelas novas turbinas da legendária fábrica
inglesa Rolls Royce. Quando me dei por conta, já havíamos
cruzado o estuário do Rio da Prata, naquele ponto com mais
de quarenta quilômetros. Em menos de meia hora, cruzou o
Uruguai e como o céu estava de brigadeiro, logo avistei o
Chuí e as lagoas Mirim e dos Patos, no meu estado natal.
Quando o avião marcou o ponto em cima do aeroporto de Porto
Alegre, o comandante, pelo microfone informou que poderíamos
ter alguma turbulência no trecho até São Paulo. Salustiano,
não consigo chamá-lo de Sérgio, que coincidentemente se
sentara na poltrona da janela em frente a minha, virou-se e
com um sorriso de quem está acostumado a voar, fez cara de
que nem se preocupara.
Lembro de ter comentado que
no começo da minha carreira, ainda morando em São Paulo,
todos os meses vinha a Porto Alegre e que aquele trecho era
bastante seguro, pela grande quantidade de bons aeroportos
no trajeto, para o caso de uma eventual necessidade de
pouso, em face de adversidades metereológicas, que não eram
comuns naquela rota, pela existência do oceano, que
dissipava os temporais. Não sei de onde tirei tanta bobagem,
mas precisava acobertar um vôo Porto Alegre São Paulo que
fizera anos antes a bordo de um novíssimo Airbus (também à
época), também recém chegado, que depois de levantar vôo,
começou a sacudir na turbulência, só parando de tremer
quando baixou em São Paulo.
Voltando para bordo do nosso
MD da Aerolíneas, assim que o comandante desligou o
microfone, o pássaro de aço começou a sacudir, de início
mais leve, para em seguida, começar a jogar a ponto das
comissárias interromperem o serviço de bordo, para nosso
azar uma fileira antes do Sérgio (consegui, Salustiano).
Sacudia tanto, que nem em minhas experiências anteriores
havia passado por algo igual. Às vezes chegava a ficar meio
atravessado em relação ao eixo da direção imaginária de seu
destino. Nunca vi nada igual. E olha que voei mais de
cinqüenta vezes para a Argentina, sete para os Estados
Unidos, três para a Europa e cruzado a Cordilheira dos
Andes, uma vez para o Chile e outra para o Peru.
Quando parou de sacudir,
Sérgio me olhou aliviado. Durante os quase trinta minutos
que ficamos na turbulência, ele não olhara uma única vez
para traz. Acho que não mechia nem os olhos. Comentei que já
tinha passado e que logo voltariam a servir nosso almoço, já
que estávamos em cima de Santa Catarina e ainda restava
cerca de uma hora para São Paulo. Acho que a citação de
comida o acalmou. Rimos e ele olhou para frente, como que a
chamar pela aeromoça, que na Aerolíneas poderiam se chamar
aerovelhas, tal era a média de suas idades. Não durou
segundos nossa tranqüilidade e novamente o bólido da alta
tecnologia voltou a tremer. Tremer não, agora corcoveava,
como os cavalos e bois chucros, quando tem os peões em seu
lombo. Mais saía da rota do que nela ficava, ora indo para a
direita, ora indo para a esquerda, num movimento parecido
com o que fazemos em dias de chuva, girando o volante para a
esquerda, quando queremos que o carro vá para a direita.
Isto mesmo, ao contrário do que queria o piloto, que a
julgar por seus cabelos grisalhos, não dava mostras de beber
em serviço. Quando finalmente conseguiu alinhar proa e popa
em cima da rota, o susto maior.
Despencamos, isto mesmo,
caímos três a quatro mil metros, dez mil pés como dizem os
pilotos, três a quatro quilômetros para entenderem todos.
Achei que era o fim. Foi tão rápido e violento que nem pude
prestar atenção nas turbinas, para ver se funcionavam. A
queda durou segundos e a sensação de vazio fez-me imaginar
que seríamos enterrados com avião e tudo, mais ou menos a
três ou quatro quilômetros, de profundidade, de forma que de
nós nunca mais saberiam notícia. Nossa sorte, como me
explicou depois um sobrinho que é piloto, foi que na queda,
o avião não foi de bico para o buraco e sim manteve a
posição cruzeiro, com ligeiro arriamento da cauda, o que nos
ajudou na retomada.
Foram segundos. Não vi, mas
creio que não chegou a um minuto. Certamente os segundos
mais horripilantes de minha existência. Pensei em Deus, mas
não tive tempo de rezar. Com a mesma rapidez com que se foi,
estabilizou e em minutos estava em procedimento de subida e
antes de cinco minutos, voltamos aos trinta mil pés,
altitude de cruzeiro. E nenhuma sacudida mais. Nem de leve.
Voamos até São Paulo como se o avião estivesse taxiando em
uma auto pista alemã. Nem para aterrisar, se moveu.
Por segurança, como nos
comentou o comandante logo que teve de volta o controle da
aeronave, não continuariam o serviço de bordo. Para mim, que
depois escutei uma aeromoça comentar com a outra que nunca
havia escutado relato de nada igual, acho que o verdadeiro
motivo foi falta de segurança, nas pernas delas que devem
ter continuado a tremer por todo o resto do dia, como
tremeram as nossas. Sérgio, que com o almoço se acalmaria,
continuou imóvel, sem uma palavra, sem olhar para a
janelinha, sem me fazer um único sinal. Sem ao menos dar
sinal de vida. Justo ele, que pela falta de praia em sua
cidade, já é meio branco, estava agora transparente. Também
pudera, para quem tinha recém perdido o medo de avião, o mal
era irreparável. É dele a cena de pavor, que melhor tenho em
minha mente.
Como sua barriga era meio
avantajada e ele provavelmente tenha tido vergonha de pedir
as extensões do cinto de segurança, que os gordos usam para
apertar o cinto, ele só o colocara por sobre as pernas,
enganando a aeromoça no momento da conferência, pondo uma
revista por cima da parte que não fechara. No momento que
despencamos, por alerta do piloto, estávamos todos com os
cintos, que na verdade existem para estas situações
extremas, exceto um: Salustiano Magnobusto. O chamo assim
para realçar seu peso. A cena é patética e terrorista, de
terror, não de assalto, muito embora temi que ele fosse
saltar justamente na minha poltrona. Saltar, porque durante
os segundos que o avião despencou, ele com seus mais de 120
quilos declarados, levitou, isto mesmo, ficou parado no ar,
como fazem os beija-flores, com o corpo pouco acima da
poltrona, tendo somente as pernas para guardar seu acento.
Em queda livre, diz a física, os corpos zeram seu peso.
Aconteceu a experiência comprobatória bem a minha frente.
Salustiano encostou a cabeça, ou foi a careca, no
compartimento de bagagem de mão e quando o avião voltou a
rota, a gravidade trouxe seu corpanzil de volta para a mesma
poltrona, que em terra o haviam destinado.
Chegamos a São Paulo e ele
continuava nada falando e sua cor continuava transparente.
Despediu-se com um aceno, nem foi ao guichê pedir o
reembolso da passagem aérea de São Paulo para sua terra
natal e dirigiu-se para a rodoviária, onde de ônibus seguiu
viagem. Depois disto, só nos falamos por telefone, nunca
mais o encontrei em algum congresso, por serem longe de sua
cidade e na única vez que toquei no assunto, ele pediu para
mudarmos de conversa. Humanitariamente entendi e respeito.
Acho que nem elevador ele está tomando.
FOMOS VER, ERA CASAL!
Implantodontia envolve
cirurgia. Seus cursos de credenciamento, no início eram só
no exterior. Seus custos iniciais elevados e a desconfiança,
tola e machista dos pacientes, os afugentavam dos
consultórios femininos, quando o motivo era implantes. Com
raras, poucas e boas exceções. Assim foi que nos quarenta e
três grupos para a Argentina, dos 880 participantes, menos
de cinco por cento eram mulheres, sendo em muitos casos
acompanhadas de seus zelosos maridos.
Desta forma, pouco nos
preocupamos em todos os grupos, com palavrões, piadas fortes
e lugares mais para homens, colaborando talvez para
afugentar algumas outras candidatas, que contra todas as
evidências, persistiram em buscar treinamento em implantes.
Para falar a verdade, eu bem que insistia em ter mais
presença feminina nos grupos, pois imaginava que assim eles
se tornariam mais atraentes e divertidos. Mas pouco
adiantou. Os grupos tinham mais barba e bigode. Muito
embora, mesmo com tais características, ao menos uma vez ele
esteve mais feminino.
Talvez pelas mesmas razões
que afugentavam as mulheres, lembro de só em duas ou três
ocasiões termos tido representantes do terceiro sexo. Pode
ser que não tenha acertado nesta contagem, porque algumas
vezes a coisa é tão bem enrustida, que nem percebemos, como
ia acontecendo na estória a seguir, não fosse a perspicácia
de um gaúcho que vive na fronteira, que por estes e outros
atributos conseguiu desvendar um segredo bem guardado.
Por razões que vão desde a
escolha de assentos no avião, até a distribuição das duplas
nos apartamentos, normalmente se formavam duplas que se
integravam e das quais tenho até hoje relatos de boas
amizades, delas surgidas. Para caminhar nas calçadas, para
sentar nas mesas dos restaurantes e em outras atividades
como o treinamento cirúrgico no curso, tudo levava a
formação e ativação das duplas. Mas nunca poderíamos
imaginar que uma delas já viesse desde o Brasil, marcada por
algo mais. Inclusive porque para não dar na vista, eles
decidiram que para todas as atividades, seriam cada um por
si e para tudo escolheram parceiros novos.
Bob, que não era bobo, como
fazia só prótese e vendo seus pacientes migrarem para os
novos implantodontistas, tratou de encontrar um cirurgião
para colocar-lhe os implantes. Conheceu Pedro, com músculos
de pedra, que fora transferido de outra cidade a trabalhar
na sua. Conheceram-se e como Pedro não tinha consultório a
cantada foi ao natural: na outra semana estavam juntos,
trabalhando. No dizer de Bob, que em outras rodas era também
conhecido como Rô, de Roberto, dizia que Pedro colocava
muito bem os implantes. Creio que em uma de nossas
conversas, Pedro comentou que Bob só não colocava implantes
porque não queria, porque segundo ele, Bob daria para um bom
implantodontista. Tudo no maior respeito, sem ninguém de
nada desconfiar.
Embora passassem o dia todo
separados e quase nem se falassem de dia, de noite
compartilhavam o mesmo quarto, escolha feita na agência de
São Paulo, que montava os grupos. Não sei se a pedido ou por
coincidência. O que sei é que somente na recepção do hotel
eram definidos os apartamentos de solteiro e os raros de
casal, pelos motivos que comentamos no início. O certo é que
não tínhamos acesso a esta informação, até porque em nada
ela mudaria minha atuação de "tour condoctor", que por dez
anos desempenhei.
Tudo terminaria bem, não
fosse a distração do gaúcho da fronteira. Alguns depois
comentaram que seu achado foi intencional, por já estar
desconfiando de alguma coisa. Outros mais maldosos, diziam
que ele havia ficado com ciúmes por ter sido preterido. Tudo
maldade de parte a parte, por que no meu entender os dois
não davam o menor sinal de algo mais e o participarem de
todas as atividades com outros parceiros é prova de que eram
discretos. Acho que foi pura coincidência e para que
acreditem, nada melhor do que os fatos.
Fernando, o gaúcho,
distraído, ao invés de anotar cinco no painel do elevador
para chegar ao seu andar, anotou sem perceber quatro e no
quarto desceu. Como todos os andares do hotel eram
simétricos, introduziu a chave que abriu a porta. Até aí
nada de mais. Só estranhou que a cama fosse de casal e por
isso percebeu que estava em apartamento errado. Exceto por
um detalhe, justo naquele grupo, não havia um único casal e
sequer tínhamos uma única presença feminina que pudesse
estar alojada em apartamento com cama de casal para sua
maior comodidade. Para complicar, viu duas pastas pretas da
Fundacion Basilio Jaef, inconfundíveis para quem estivesse
fazendo o curso. De quem seriam? Com a dúvida, depois de
dar-se conta de que estava no quarto andar, nem subiu para o
quinto, descendo com o veneno na ponta da língua, logo
pondo-se a perguntar quem eram os colegas que estavam no
quarto andar. Como não conseguisse desvendar o mistério, foi
a recepção e perguntou diretamente quem eram os brasileiros
que estavam no 424? De posse da informação, voou com a
fofoca bombástica que viria a ser o fuxico da viagem.
Uns acreditavam, outros não.
Alguns chegaram a perguntar para a camareira, que na
Argentina atende pelo estranho nome de "mucama", se era
verdade que o 424 era apartamento de casal. A mucama, que no
mundo todo são discretas e reservadas, não resistiu a um
sorriso maroto, antes de responder que sim. Confirmada a
bomba, alguns mais preconceituosos trocaram a dupla, outros
passaram a evitar sentar-se ao lado de um dos dois, quer no
curso, como em percurso ou em restaurantes. Mais ti ti ti
que este, só as suposições desencontradas de quem seria "o"
e quem seria "a". Alguns chegaram a apostar e pelo que sei,
por falta de provas, não houve quem pagasse como perdedor.
Por incrível que pareça, um usava barba e outro bigode e
nenhum dos dois dava pinta de ser "uma". De certo, só que
estavam juntos.
Os privilegiados que estavam
no mesmo andar, ficavam indo e voltando pelo corredor,
algumas vezes voltando ao apartamento, simulando terem
esquecido de pegar alguma coisa, outras esquecendo
propositalmente a própria pasta do curso, tudo para ver se
davam de cara com a porta aberta. Um disse que viu, outro
disse que bateu para avisar que estavam indo, mas sem uma
única prova concreta, muito embora em nenhum pairasse
qualquer dúvida de que formavam um casal diferente.
Todos tinham certeza e eu era
o único que tinha dúvida. Justo eu que depois de algum tempo
vim a conhecer a esposa e a família de um deles e passei a
ter certeza que não era. Do outro, sem família, todos diziam
que era, mas discretamente, sem provas. Outras, ou melhor,
outros, dois ou três como muito, apareceram, mas nenhum com
o glamour que a descoberta do gaúcho provocou. E até hoje
não sei se o Fernando, foi sutil ou movido por ciúmes. Digo
isto por ser gaúcho. Do contrário, não só poderiam me
discriminar, como excomungar.
VIRANDO A PRÓPRIA MESA
Nas minhas estórias, para
receber bis o sujeito tem que ser muito bom, ou ter ido mais
de uma vez aos cursos que eu organizava. Foi o que aconteceu
com Hamilton Barcelos. Foi três vezes ao curso, aprontou nas
três e merece tris. Não sei se existe a expressão, para
caracterizar o que fez uma vez mais que bis. Se não existir,
fica valendo, porque eu que acompanhei a estória, escapei
por um triz, de morrer, ser preso, ou alguma outra emoção do
gênero. A coisa começou simples, com um erro, geográfico
talvez e terminou complicada, quase com um incidente
diplomático e com muita diplomacia.
O vinho, como combustível
universal, não poderia deixar de estar presente. Por
estarmos na Argentina, um show de tango, o palco ideal para
nossa estória começar e as ruas da capital portenha, à
noite, o lugar incerto para terminar. O show, como sempre,
contagiava a platéia e Fernando Soler levava o público ao
delírio, inclusive a Sugismundo, um boliviano, que por seu
jeito bonachão, todos chamavam por Sug, sem nenhuma intenção
de sugá-lo. Hamilton, que por sua brabeza e pavio curto,
alguns chamavam de Bode, outros nem o chamavam, até para não
dar. Tinham, por coincidência, sentado um em frente ao outro
no restaurante onde acontecia o show de tango. Elogiaram a
carne, o vinho, a nostalgia do lugar, a beleza das
bailarinas, a sensualidade da cantora na versão para o
espanhol do "Don't cry for me Argentina" e algumas coisas
mais que não lembro.
Depois de muito tomarem,
muito mais Hamilton que em nossas estórias é sabidamente
forte, resistente e bom tomador, tiveram uma pequena
diferença. Sug aplaudia demais o show, com o que implicou
Hamilton: você fica puxando demais o saco destes argentinos,
nem parece que foram eles que tomaram a saída para o mar do
teu país. Sug retrucou dizendo terem sido os chilenos quem
tomaram tal caminho. Hamilton disse que Sug não entendia
nada de história, que devolveu dizendo que o problema era de
geografia. E a guerra começou. Como as armas eram só
palavras, sugeri ao Ademar que trocasse de lugar com Sug.
Isto feito, Sug ficou em frente de Oscar, piloto de avião
como Ademar, que ficou em frente de Hamilton. Que continuava
brabo. Com dois pilotos, a guerra estava longe de terminar,
estava apenas começando. Embora aquela batalha tivesse ali,
por aquela simples e providencial troca, terminado.
No ônibus, de volta para o
hotel, nova discussão. Ademar tentava acalmar Hamilton,
ainda inconformado com a conivência do boliviano, sem ser
argentino, e a todo o momento tentava voltar ao assunto, no
que Ademar prontamente dissuadia. Hamilton, para retomar a
polêmica, afirmou que Simon Bolivar, o proclamador da
independência de vários países latino americanos, dentre
eles, Chile, Perú e Bolívia, era um conquistador, com o que
não concordou Sug, dizendo alto, de três poltronas atrás,
tratar-se de um libertador. A confusão voltou a armar-se,
sobrando para mim e para Oscar apaziguar as duas partes em
litígio. A muito custo, com ajuda das poltronas do ônibus a
separá-los, conseguimos.
Na portaria do hotel, como se
tratava de nossa última noite na Argentina, alguns sugeriram
tomar a última na confiteria ao lado. Depois de
certificar-me que Sug já havia subido, para o apartamento,
não no vinho, dei o OK e por garantia, decidi acompanhar o
grupo, com medo de mais alguma do Hamilton, que
surpreendentemente estava calmo e quieto. Sentamos e algumas
cervejas depois, nosso herói que dava bode encrencou com
Oscar, sentado a sua frente, que de semelhança com Ademar,
só tinha o fato de ambos serem pilotos de avião, afirmando
que ele defendera Sug, quando este na verdade, durante o
show, simplesmente trocara de lugar com o boliviano, por
sugestão minha, para tentar apaziguar ambos. Expliquei que
tinha sido outro o contendor da polêmica do ônibus, mas não
adiantou: Hamilton chamou-o de nazista, quando quem na
verdade tinha alguma semelhança com Hitler era Ademar, o
outro piloto, que a esta altura já deveria estar no segundo
sono. Para se entender melhor a confusão, Ademar tinha
cabelo na testa, usava óculos e ostentava um bigode estreito
e espesso, enquanto Oscar era careca, não usava óculos, à
época e tampouco tinha bigode. Oscar, como bom gaúcho, não
levou desaforo para casa: disse que nazista era ele,
Hamilton, que em menos de dois segundos armou, ou melhor,
desarmou o cenário da confusão.
A confiteria, pequeno bar
para se tomar café, deveria ter dez mesas e lugar para cerca
de cinqüenta cadeiras. Como já eram mais de duas da manhã,
outros funcionários já haviam sido dispensados, ficando
somente o dono e um garçom, tanto que ao chegarmos foram
logo nos avisando que só poderiam servir líquidos, visto que
para sólidos, a cozinheira tinha saído a meia noite.
Pequena, mas bem arrumada, típico ambiente para amigos
conversarem amenidades. Com a chegada dos brasileiros, o tom
de voz naturalmente aumentou e as cadeiras, antes
simetricamente dispostas, mudaram rapidamente de lugar. Mas
o que seu dono jamais imaginaria acontecer, aconteceu. Em
menos de um minuto, não havia uma única garrafa das mais de
trinta cervejas que havíamos tomado, de pé em cima da mesa.
A bem da verdade não havia uma única mesa de pé assim como
nenhuma cadeira resistira a total pancadaria que envolveu os
cerca de vinte doutores que lá estavam. Na verdade dois
querendo briga e dezoito querendo paz. A guerra venceu, e em
segundos os copos que poderiam ser projéteis nas mãos de um,
viraram todos cacos no chão daquela agora simples praça de
guerra. Hamilton com um gargalo da garrafa que quebrara ao
virar a própria mesa, estava possuído pelo demônio ou algo
parecido.
Passados sessenta segundos e
todos os dezoito haviam se retirado, levando Oscar para fora
e tentando com isto interromper o combate. Ficamos eu e o
Hamilton, isto mesmo, só nos dois, porque o dono e o garçom
que contaram depois para os que voltaram para pagar a conta,
nunca terem visto em seus trinta anos de bar, nada nem
parecido, haviam entrado para a cozinha, se escondendo, com
medo que alguma garrafa viesse em sua direção, dada a
rapidez com que a confusão se armou. Só lembro de ter
abraçado Hamilton com força e saído pela esquerda, não só
pelo fato de que o hotel era a direita, como também numa
tentativa de não encontrar Oscar. Caminhamos uma quadra e
pude escutar ao longe o barulho da sirene da polícia
chegando. Dobrei a direita e entrei para a Calle (rua)
Suipacha, saindo da Corrientes, que anos antes ficara famosa
por seu número 348, imortalizado em um tango. E eu ali, só
contra a fera, que a todo custo queria voltar para o bar e
ensinar aquele nazista, quem fora Simon Bolivar.
Caminhamos mais de uma hora e
quando imaginei que ele estava mais calmo, ele sismou que
havia visto um grupo de brasileiros bebendo num bar. De medo
que fosse Oscar e o resto da turma, desconversei e saí para
o outro lado. No total, andamos mais de duas horas até que a
fera se acalmasse. Para minha sorte, com o retorno
antecipado de dois do grupo que não fizeram a parte de
Buenos Aires da viagem, por serem repetentes, o Hamilton
dividiria o apartamento comigo. Pelo grupo, ficava mais
tranqüilo, por mim ficava mais preocupado, porque a qualquer
momento a fera poderia ter outro acesso de raiva e voltar-se
contra mim. Até por algum motivo fútil, tal como o fato de
para contê-lo ter que levá-lo abraçado por mais de duas
horas pelas ruas movimentadas da capital portenha, ou
qualquer outra interpretação que pudesse dar ao fato de ter
trocado de lugar o Sug ou me acusar de ter eu feito a troca
dos dois pilotos intencionalmente.
Quando tudo estava mais
calmo, decidimos voltar. Eram quase cinco da manhã,
estávamos chegando nas imediações e tudo parecia em paz,
quando Hamilton cismou que teria que voltar ao bar, antes
conhecido como confiteria, para tomar a última e pagar a
conta, visto que havia saído sem pagar. Aparentemente estava
consciente e lúcido, tanto que lembrou da conta a pagar.
Para minha sorte o bar estava fechado e pela proximidade
consegui botar o Hamilton para dentro do hotel e dormir.
Dormir não, encostar a carcaça, já que às sete teríamos que
sair para o aeroporto e começar a volta para o Brasil.
Depois de pagar o pato e a
conta, trinta cervejas, sem ter tomado uma sequer, e ter meu
copo quebrado antes de terminá-lo, dei graças a Deus que o
dono do bar aceitou as desculpas do bom samaritano, que
voltou para pagá-lo e este não quis cobrar os copos e
garrafas quebradas, dizendo que brigas são normais em todas
as famílias, acreditando que éramos todos irmãos, como são
na verdade argentinos, chilenos, bolivianos, uruguaios,
paraguaios ou brasileiros, ainda que de vez em quando
falemos uma língua diferente. Mas este é assunto para outra
briga, se por acaso o Hamilton estiver por perto. Para todos
os efeitos o problema entre o Chile e a Bolívia foi
histórico e Simon Bolivar um conquistador, até para eu poder
dormir uma hora antes do próximo embarque. Por que nesta, eu
embarquei bem.
O CERTIFICADO ESTAVA
ERRADO
João era um dentista de uma
cidadezinha perto de uma pequena cidade do sul de Minas,
sujeito bom demais da conta sô e que depois de adiar umas
três ou quatro vezes sua ida ao curso da Fundação, me disse
com naturalidade e calma típica de quem acredita em tudo e
em todos: "vo pega esse trem e vo la ver no luga".
Traduzindo: vou comprar a passagem do avião e vou assistir
este curso ao vivo. Aproveito para pedir ao revisor para não
me corrigir algumas palavras que parecem estar erradas, mas
que estão certas no idioma oficial do sul de Minas.
De brincadeira lhe contei, ao
encontrá-lo no aeroporto, que era um prazer falar com ele
sem chiado. Ele não entendeu e lhe expliquei. Sempre que lhe
ligava, escutava um barulho de oceano ou de roda de carro de
boi, no fundo da ligação (porque na cidade dele, a estação
telefônica é das antigas e a transmissão toda feita por fios
e cabos). Ele entendeu a brincadeira e do seu jeito
brincalhão disse que deveria ser baruio de boi, porque na
terra dele não tem mar.
Por falar em boi, esta era
sua atividade principal: fazendas, sendo a Odontologia sua
terapia, para esquecer um pouco o trabalho e a vida dura das
fazendas. Exatamente o inverso da maioria. Na verdade,
sempre dizia que só trabaiava no consultório para mantê
ativo, enquanto os dois fios não se formasse dentista, tal
qual ele mesmo falou. Por falar em filhos, a filha
acompanhou-o na viagem, até para ir pegando jeito com este
negócio de imprante, que parece está pegando. Justiça seja
feita, mesmo estando longe da civilização, João estava
sempre perto da atualização, participando dos principais
congressos e marcando presença nos melhores cursos.
Da filha, o lado pitoresco
foi a coincidência de pela primeira vez que aceitamos um
acadêmico no curso, foram dois, um porque era candidato ao
mestrado em Araçatuba, já tendo definido a cirurgia como sua
especialidade e ela também acadêmica de Odontologia pelo
simples motivo de, em sendo filha do Dr. João, ninguém
lembrou de perguntar se era formada. Ele, que de início
ganhou apelido de "Baby Implant" logo marcou tento,
conquistando o coração da filha do fazendeiro. Em comum o
fato de ser também mineiro, que mesmo sendo da outra ponta
de Minas, também falava o idioma uai. As más línguas dizem
que quando ele soube do tamanho real das fazendas, desistiu
do namoro, por saber da equivalência do hectare de terra em
Minas, que aos incautos, às vezes, acaba justificando um
grande amor.
Andar de avião foi uma
alegria para João, um desconfiado mais dado ao transporte
com roda no chão. Nem em cima dágua gosto de anda. E oia que
a represa de Furnas cola nas mias fazenda. Esse trem de
avião é bão memo. E dá-lhe fotografia, para poder mostrar na
cidade e provar que era ele mesmo. Amigo, sempre convidava
os colegas para sairem nas fotos, que foram a diversão do
grupo durante toda a viagem, porque a linda mineirinha, até
aquele momento ainda não havia sido flechada pelo ar de moço
bom do outro mineirinho.
O cavalo de aço corcoveou um
pouco pelo caminho, dando a impressão de que ia pulando as
cercas para não ter que abrir as cancelas. Um comentário que
lembro do culto João dava conta que Santos Dumont, que
também nasceu no sul de Minas, bem que podia ter inventado o
avião, mas para andar em cima dos trilhos. Seria bem meió e
ele nunca ia sai da linha. Ainda mais agora que a Maria não
solta mais fumaça e anda com força (trem elétrico), não ia
ter nem o pobrema da poluição. Falei da economia de
combustível e le me corrigiu que a poluição referida era a
sonora. O mineirinho além de tudo era ecológico.
Durante o curso foi um dos
alunos mais aplicados, interessados e perguntador. Mais
perguntador do que interessado e aplicado. A cada cinco
minutos fazia uma pergunta. Queria saber se véio podia ponha
imprante. Por que o imprante era tão caro. De que se fazia o
imprante. Quantos imprante precisa para por três dentes?
Tanto perguntou que já no segundo dia, os próprios colegas,
quando perguntavam, falavam só imprante. Sérios sem rirem,
em consideração ao João, que cada vez mais se mostrava um
bom sujeito, caindo logo na simpatia de todos. No terceiro
dia ninguém mais reparava ou fuxicava quando ele falava
imprante.
Só fomos nos dar por conta da
mudança, na hora da entrega dos certificados. Como sempre
acontecia, Salvador Jaef, presidente da Fundação, fazia
questão de por uma pompa na cerimônia, fazendo-a no período
em que o curso era em Rosario, no jantar de encerramento do
curso, ou ao final em Buenos Aires, perfilando os
professores e alternando-os na entrega, como aconteceu nesta
turma. Sempre ele me pedia para ir variando o incumbido.
Quando chamei o João Filho, ele pulou: este é meu. Como bom
subordinado entreguei-lhe o certificado e ele com o Dr. João
em seus cabelos branco azulados, parado à sua frente, me
chama dizendo para providenciar outro certificado, já que
aquele estava errado. Ponderei-lhe que o entregasse assim e
que depois a secretária se incumbiria de trocá-lo. Salvador,
sério e ríspido disse que assim não dava.
Meio sem jeito e já um tanto
constrangido pela desagradável situação, tentei contornar,
lendo o certificado, não encontrando erro algum.
Comentei-lhe disto e ele em alto e bom som, disse: Como não,
se aqui está escrito implante e o curso que ele fez foi de
imprante. Imediatamente imaginei uma cena desagradável para
o João, que junto de todo o grupo, desandou em gostosa, alta
e prolongada gargalhada, sendo acompanhado com
desprendimento pela filha e pelo candidato a genro.
Para quebrar o gelo,
perguntei para o João se ele fazia questão que trocássemos o
certificado ou se podia ficar como implante mesmo. Mineiro
esperto e inteligente ele me deu uma ganhada que até hoje
não esqueço: "para mim é imprante, mas como o que eu vou
colocar é o de vocês, pode deixar implante, que é como vocês
o chamam". Tão inteligente que ao invés de usar o tom de voz
mais discreto, tal qual eu usei, ele respondeu em voz alta,
para todos escutarem e provocando nova gargalhada geral, bem
ao estilo populista mineiro. Anos depois fui dar um curso em
uma cidade próxima a dele e ele me deu a honra de
assistir-me sentado na primeira fila.
Terminado o curso, fomos com
uns amigos dele tomar um chopp, onde fiquei sabendo que ele
já tinha sido vereador e só não foi deputado porque iria
atrapalhá-lo na administração das fazendas. Com esta
informação, só depois de uns três chopps, criei coragem e
perguntei se ele me autorizava a contar esta estória aos
amigos que nos acompanhavam. Respondeu rápido: se você não
contar eu conto. Novamente me ganhou.
RACHARAM A CONTA E QUEBRARAM A CARA
Quatro colegas, que fizeram
amizade em um dos primeiros grupos, passaram no final da
viagem por uma situação não muito prazerosa, pelo menos para
alguns deles. Nas primeiras turmas ao curso da fundação,
além dos quatro dias para curso em Rosário, ficávamos três
dias em Buenos Aires, para conhecer melhor a cidade, sendo
um dia inteiramente dedicado para compras. Do grupo, os
quatro que mais compraram, incluindo-se entre eles o
cursante que mais comprou em toda a estória dos quarenta e
três cursos de habilitação aos osseointegrados da Fundacion
Basilio Jaef, foram justamente os que mais compraram no dia
de compras, aproveitando-se da conveniência altamente
favorável aos brasileiros, no final dos anos oitenta.
Cheguei a temer por problemas na alfândega, que naquela
época era mais generosa, mas que dificilmente aceitaria o
excesso de compras e bagagens, daqueles que além de motores,
contra ângulos e kits, tinham comprado roupas em grande
quantidade, eletrônicos, perfumes, tênis, jaquetas e outros.
Como lhes sobrasse talvez
algum dinheiro, decidiram fazer da última noite argentina
algo especial. Ao invés de irem a uma churrascaria, como
foram os demais, optaram por uma casa onde normalmente se
encontram as meninas boas de famílias más, com os meninos
maus de famílias boas. Não sem antes de tomarem alguns
uísques, a ponto de um deles mais afoito, olhar para um tipo
de cinzeiro em forma de cilindro, com um orifício lateral
para se colocar lixo e insinuar que aquele seria um bom
desenho para um implante. Paradoxalmente, um deles depois
veio a se tornar fabricante de implantes, com um modelo que
em muito se assemelhava àquela lixeira.
Na casa noturna, os dois mais
experientes sugeriram que todos se divertissem cada um por
sua conta e que à uma hora da madrugada todos se
encontrassem na saída de forma que não tivessem problema
com alguma possível exploração na conta. Dois comeram e dois
só beberam. Não que os que comeram não tenham bebido.
Beberam e muito, mas como eram mais experientes, ao final da
noitada estavam atentos e lúcidos. Não que os que só beberam
tenham bebido muito, até porque pelo que conheço deles até
hoje, não são de muito beber. Nem de comer fora de casa,
exceto em bons restaurantes. Ficaram só olhando, até porque
tinham limitação no idioma, coisa que não acontecia com os
outros dois, que se preciso fosse, seriam capazes de cantar
um tango até o final, sem deslizar na letra.
Como combinado e até um pouco
antes da hora, lá estavam os dois mais comportados a esperar
os outros dois mais ligeiros. No final, os mais comportados
até refrigerante estavam tomando, com medo da conta que
poderia vir. Não deu outra, quando se completou o quarteto e
a conta foi pedida o montante era estratosférico. Incluía a
bebida e os serviços, que pelo sistema da casa era cobrado
junto da conta. Não lembro exato o valor, por que são
passados mais de dez anos e não arrisco a perguntar para um
dos dois que só beberam, até para não aborrecê-los com a
lembrança e não perder os dois bons clientes em que ambos se
transformaram. Desnecessário dizer que os outros dois não
são meus clientes. Voltando para a conta, tinha sido entre
quatrocentos e oitocentos dólares, com certeza, porque o
valor que tocou a cada um era superior a cem dólares e
inferior a duzentos.
Como de início haviam
combinado rachar a conta, antes que a mesma fosse
apresentada, o loiro e o mulato, cortesmente se propuseram a
dividir, até para fazer média com os dois novos amigos mais
malandros e assim talvez fazerem parte de seu círculo no
Brasil. Quando chegou a dolorosa, e aqui o apelido cai muito
bem, tanto que descreve a sensação que teve a dupla mais
acanhada. Estes assim que viram o tamanho do pepino e
perceberam o quanto lhes ia tocar por uma ou duas doses de
uísque e um ou dois refrigerantes, iam esboçar um argumento
para refazer o trato inicial, quando foram surpreendidos
pelos mais ligeiros, falando quase ao mesmo tempo, quase a
mesma coisa: eu não tenho dinheiro para pagar tudo isto!
Os dois mais comedidos,
talvez exatamente por isto, o tinham, como continuam tendo
mais, muito mais até hoje, por ter e para honrar a palavra
empenhada, pagaram mais duzentos dólares cada um, não sem
sentir o gosto amargo da noite. Os dois mais escaldados
começaram a elevar o tom de voz com o gerente da casa que
foi chamado para endossar a exatidão dos valores, quando
este de maneira polida e segura perguntou se eles queriam
que se chamasse a polícia para resolver o impasse. Como não
houve contestação, contentaram-se com um último drink
servido pelo gerente, este cortesia da casa. Os dois mais
comedidos nem provaram. E como não haviam bebido, tiveram
que enfrentar outro amargor no dia seguinte em São Paulo:
não poder comprar tudo o que desejavam no "free shop", por
falta absoluta de numerário e por naquele tempo não ser
possível se pagar compras de loja franca com cartão de
crédito, mesmo que internacional.
A estória me foi
detalhadamente relatada pelo loiro e antes de escrevê-la
confirmei com o mulato e não arrisco a colocar-lhes algum
nome, ainda que trocado, como faço na maioria das estórias
deste livro, para que os dois tenham garantido o anonimato.
Os dois mais malandros são identificados pelas vítimas como
os "véios" e tampouco arrisco discretamente descrevê-los,
porque chegaram a ficar famosos, obviamente por outros
motivos, muito embora hoje estejam um pouco fora de cena,
sem estarem tão "véios" assim.
O que não sei e não me atrevo
a conjeturar é se de alguma maneira o acerto de contas entre
ambos foi feito ou se ficou elas por elas, mesmo eles não
tendo tocado nelas.
BAR NARDO NÃO BEBEU
Em minha experiência,
acompanhando mais de mil Cirurgiões-dentistas brasileiros a
cursos de implantes na Argentina, Estados Unidos e Alemanha,
passei por várias situações envolvendo o consumo excessivo
de bebidas alcoólicas. Várias normais, outras extremas e
algumas pitorescas. Justamente uma destas últimas é tema de
nossa estória de humor tristeza.
Diferentemente das
anteriores, onde buscamos nomes fictícios para não
comprometer os envolvidos, nesta usaremos o nome real do
nosso personagem, que para os que o conhecem é
verdadeiramente uma figura diferente e criativa, tanto que
deu o nome de Bar Nardo para uma mini lanchonete que mantém
em sua clínica. Bernardo é seu nome e fico na dúvida se é o
nome do bar que rima com o Bernardo ou se é o Bernardo que
rima com o bar. Para apimentar a estória, nosso herói de
hoje serve bebidas alcoólicas aos amigos, freqüentadores de
seu bar.
Era a primeira vez que
Bernardo saía do país, na verdade a primeira vez que se
afastava da esposa e dos três filhos. Até então as pequenas
viagens que fizera sempre eram com a família. Foi a
revolução que os implantes estavam fazendo na Odontologia do
fim dos anos oitenta que levou Bernardo a um vôo pelas
terras portenhas em busca do novo. Para mim, que não o
conhecia direito, chamava a atenção seu jeito brincalhão,
alegre e a maneira diferente de tratar a todos por
"Matéria", justificando ser isto, tudo o que somos. Tem
tanta razão, que até hoje não consigo chamá-lo pelo nome, só
por Matéria. Como ele é periodontalmente conhecido, embora
hoje ele seja também um hábil implantodontista. Talvez
porque os implantes em última análise sejam também matéria.
Já na viagem, Matéria (nem
ele, nem eu conseguimos nos referir a sua pessoa de outra
forma) estava alto. Alto em astral, alto em humor,
divertindo e fazendo a todos rirem com seu jeito e
brincadeiras. No hotel tocou-lhe outro periodontista como
companheiro de apartamento, de forma que puderam conversar
bastante sobre a matéria que mais os fascinava até então:
gengiva e osso. Acho que tinham muito assunto, já que não se
separavam nem para dormir. Era Matéria para cá, Matéria para
lá, que não acabava mais.
Outra matéria que o pessoal
abusava um pouco na Argentina, além da bebida, era a comida.
E nesta, Matéria e seu colega periodontista de dia e noite,
Alfonsin, eram bons. Para mim eram bons de ambas, até porque
em grupos de quase trinta pessoas eu não podia preocupar-me
com o quanto de comida e bebida cada um estava consumindo.
Mais pela segunda. Só quando algum problema ocorria, minha
atenção se voltava para este particular.
Foi o que ocorreu na primeira
noite do Matéria fora do Brasil. Eram três ou quatro da
manhã e eu ainda estava no primeiro sono, depois de quase
três mil quilômetros voados, quatro escalas, uma mudança de
idioma, trinta passageiros para ocupar-me e a tensão normal
pela preocupação de dar tudo certo, até porque era ainda um
dos meus primeiros grupos. Soa insistentemente o telefone.
Se fosse na minha casa, certamente iria creditar ao "seu"
engano. Era engano meu. Chamavam da portaria, por conta de
um "brasileño" que passava mal. Como não pedi detalhes,
imaginei do que se tratava, porque também havia degustado o
precioso e barato vinho argentino. Coloquei a primeira roupa
e desci com pressa.
Matéria, logo ele, estava com
uma compressa na cabeça, literalmente arriado numa cadeira
desconfortável do restaurante do hotel. A cena era tão
característica que nem perguntei o que havia acontecido e
ato contínuo pedi ao funcionário do hotel um Engov. Este,
pela diferença de país e idioma não entendeu o que eu pedia,
inclusive porque Alfonsin insistia em dizer que Matéria não
havia bebido. Olhei para a cara de sono do colega de
apartamento do dono do Bar Nardo e disse-lhe: você também
bebeu, ao que ele me respondeu categórico. Eu não bebo! Pela
cara e estado dos dois nem lhe dei bola. Matéria nem falava,
de tão plantado que estava. Insistia com o funcionário por
Hepatoviz e outras marcas do gênero que me vinham à mente.
Alfonsin insistia que o quase morto não havia bebido. Como
não conseguíamos a medicação, optei por tentar escutar a
vítima, que até então não havia pronunciado uma palavra
sequer.
Enfim ele falou: Eu não bebo,
foi tudo o que conseguiu dizer. Muito embora a cena fosse
mais para jogar uns bons baldes de água nos dois, passei a
considerar a hipótese do problema ter sido causado por algo
sólido e não líquido como dava a entender. Uma hora depois
de afrouxar roupa, passar toalha úmida, tirar sapato,
desapertar cinto, colocar em um sofá e outras tentativas que
não recordo bem, decidimos levar o Matéria, ou seria a
matéria, para o apartamento. Tentamos em dois e foi em vão.
A matéria estava mole demais para suspendermos. Em três
conseguimos e depois de muito esforço a matéria foi colocada
na horizontal. E falou de novo: Estou bem.
Este foi o meu fim de noite,
porque de volta a portaria, sai em busca de ajuda médica e
por não ter um seguro internacional de saúde, tudo o que
consegui foi um enfermeiro de plantão em uma farmácia vinte
e quatro horas. Tirou pressão, temperatura e depois de muita
apalpação, uma conclusão: estresse. Disse-me que com a
experiência de trabalhar na madrugada, podia afirmar que
nossa vítima não havia bebido. Aceitei e fui tomar um banho
porque já era quase hora dos demais integrantes do grupo
descerem para o primeiro dia de curso.
Para falar a verdade só me
convenci de que o nosso Bar Nardo não havia bebido quando um
dos participantes que eu conhecia, me assegurou que sentara
em frente ao Matéria e Alfonsin e que os dois foram muito
provocados pelo grupo por não aceitarem uma cerveja sequer.
Talvez se tivessem bebido, teriam relaxado e o estresse não
acontecido. E eu dormido!
Bernardo, o Matéria, assistiu
ao dia inteiro de curso, provando que não havia bebido.
SANTA BÊBADA NO SHOW DE
TANGO
Santa era do tipo mignon, sem
muito filé, magra e pequena, completando seu tipo diferente
com uma timidez quase imperceptível, já que pouco falava e
na maioria do tempo passasse desapercebida. Era fria no
trato, embora viesse de um lugar quente, e seca nas
palavras, não dando a mínima impressão que bebesse. E bebeu.
Por ser pequenina, talvez lhe tenha sido mais fácil entrar
para dentro da garrafa, o que quase literalmente aconteceu.
Ou melhor, quase entrasse pelo cano. Por pouco, muito pouco
mesmo, não entramos nós pelo cano, com um cadáver para
trazer de Buenos Aires.
Indiscutivelmente o Tango Mio
era o ponto alto e "gran finale" de nossa viagem, sendo por
muitos lembrado até hoje, quando encontro alguns dos quase
novecentos que comigo lá estiveram. Não são poucos os que
relatam lá depois terem voltado com as esposas, para matar a
saudade e curtir a dois o clima romântico e nostálgico, que
sozinho ou sozinha era difícil de agüentar. Foi o que deve
ter acontecido com a Santa, que se escrito com letra
minúscula, não altera muito a identificação de nossa
personagem, que talvez por ser recém casada e estivesse
viajando sem o maridão, pouco falava com os demais colegas
do grupo, reservando seus reservados comentários a uma única
e também reservada colega.
Como de costume, aproveitei o
sistema de som do ônibus que levava os quase trinta
participantes do grupo em nossa derradeira noite na
Argentina, para comentar que deveriam dar preferência e
escolher o bife de chorizo dentre as três carnes que seriam
oferecidas no jantar e que o vinho estava incluso. Sempre
comentava com os que quisessem dele aproveitar melhor, que
deveriam consumi-lo durante o jantar e solicitar outro ao
garçom, antes de iniciar o show, visto que após este
iniciado, os garçons não mais o serviriam ou ainda, sugeri
que o jeitinho brasileiro era entregar ao garçom U$ 10 ou
20, segundo o tamanho da mesa, pois assim procedendo, teriam
um vinho extra ou ainda um balde de gelo, com garrafa
adicional colocada, embaixo da mesa. Dizia também que tudo
estava incluso, exceto a gratificação dos garçons, porque é
comum entre os brasileiros no exterior a esquecerem,
imaginando que como nunca mais voltarão aquele lugar, se faz
desnecessário gratificar. Para mexer com a sensibilidade de
todos, propunha que se o show fosse bom, todos dessem a
nossa famosa caixinha e que se o show fosse ruim, estariam
dispensados. Não lembro de vez que não tenham deixado
pomposa gorjeta. Exceto Santa, que gostou do jantar, amou o
vinho e não assistiu ao show e como tal ficou dispensada da
gratificação. Até porque mesmo que quisesse, não teria como
dar, visto que não conseguia mexer nem os olhos.
O clima era alegre, inclusive
porque alguns aproveitando a satisfação do bom curso, da boa
viagem, dos bons novos amigos conquistados e bebiam durante
o saboroso jantar, com direito a entrada, prato principal e
sobremesa, juntamente com o vinho, tudo incluso, dando-lhe
um sabor ainda mais especial. Até Santa, que imagino nunca
ter bebido gota de álcool até então. Pelo clima ou por algum
outro motivo que desconheço, sem demonstrar ou que
percebêssemos, pôz-se a beber, taça apos taça. Tão quieta
bebia, que nem percebemos algo estranho quando discreta e
silenciosamente se retirou para ir ao toalete. Só nos demos
conta de sua falta quando o show estava por começar e ela
não havia voltado. A colega de copo, um pouco mais
resistente, deu por sua falta, e comentou que ela havia ido
já faziam mais de quinze minutos. Esperamos mais um pouco e
como não voltava, Fátima a acompanhante que não tinha cara
de santa, aceitou minha sugestão de ir até o toalete ver o
que se passava.
Como se passaram mais de dez
minutos e nenhuma das duas retornasse e o show já tivesse
começado, com algum esforço, consegui convencer outra alma
caridosa a entrar onde eu não podia e voltar pronto me
relatando o que de tão grave acontecia lá dentro. Rápido
voltou e branca me disse que ela estava lá dentro. Respondi
que isto eu já sabia ao que me corrigiu, não dentro do
toalete e sim dentro da pia, com a torneira correndo, desde
quando Fátima a encontrou e que mesmo em duas não conseguiam
retirá-la de tão incomoda e arriscada posição. Providenciei
reforço entre o pessoal da casa, interrompeu-se por alguns
minutos a entrada ao toalete e em quatro conseguiram tirar a
que não ficava de quatro, da pia. Para não expô-la ao
ridículo entre os colegas, já que além de bêbada, estava
inteira molhada, Fátima decidiu colocá-la sentada na única
coisa similar a uma cadeira, que havia naquele recinto.
Assim ficou Santa até que o
show terminasse e para não dizer que o fato passara em
branco, ao terminar o show, seu estado era mais comentado do
que o desempenho das boas bailarinas. Boas nos dois
sentidos, muito embora quem tivesse dançado tenha sido
Fátima, que pelo serviço de pronto socorro internacional,
tenha perdido o show. Alguns, maldosamente diziam que havia
assistido a outro, se não tão belo, igualmente emocionante.
O show já terminou, os assistentes se iam, todos ganhando
beijos de Fernando Soler ou de Soledad, sua linda e
simpática esposa. Menos Santa, que para não chamar a atenção
foi retirada por uma porta lateral, por onde entravam e
saiam os artistas, ela também artista, por ter feito arte
durante o show. Semidesmaiada ou quase em coma alcoólica foi
colocada numa poltrona especial e pedi ao motorista para que
não corresse muito, pois assim poderia fazer a cabeça da
nossa Santa girar.
Muitos não concordaram,
argumentando que ela já tinha rodado tudo o que tinha
direito, cabeça, corpo e membros, tal era a deplorável
posição e estado em que se encontrava, sentada-deitada, além
de dizerem que Santa estava devendo um show de tango para
Fátima. Não sei se pagou, mas a cena não se apagou da minha
memória, como na de outros que a presenciaram. Na minha
talvez mais, porque a vivi e na de Santa nem tanto, por ter
sobrevivido e no dia seguinte afirmar que nada recordava.
Melhor para nós que recordamos sempre das inesquecíveis
noites passadas no Tango Mio. Inclusive esta.
DOUTOR TRAVADO,
PERDIODENTISTA
Isto mesmo, embora ele seja
periodontista, eu quase perdi o dentista. Nos grupos de
brasileiros aos cursos de implantes da Fundacion Basilio
Jaef, éramos quase sempre brasileiros, muito embora em todos
os cursos houvesse sempre argentinos e outros colegas
procedentes dos vários paises da América do Sul, quando não
algum paraguaio, boliviano ou uruguaio, residentes no
Brasil, infiltrados em nosso grupo. Tanto na primeira como
na segunda situação os gringos, como carinhosamente e com
todo o respeito, os chamávamos, quase sempre faziam a
alegria do grupo pelos mais variados motivos. Um deles por
vários motivos que veremos a seguir.
Por razões que desconheço por
inteiro e que não me atrevo a descrever em mais detalhes,
para não correr o risco de identificá-lo, nosso personagem
ficou mais conhecido, de início, no grupo como canibal,
embora não fosse muito chegado em comer carne e nem casado
era. Ao final, sabiamente, seu apelido mudou para Dr.
Travado, visto que durante toda viagem, até o último minuto
inclusive, se mostrou mais chegado nos líquidos, que nos
sólidos. Sujeito bacana, bom de conviver, como a maioria dos
que gostam de sorver líquidos etílicos, tanto fermentados
quanto destilados, o Dr. Canibal, Made in Paraguay, isto
mesmo com "y" para comprovar ser importado legítimo, até
porque ele quando não erra, fala corretamente o português,
sempre foi mais chegado nas coisas abstratas, do que nas
concretas, tanto que optou por fazer doutorado em ciência
política, mesmo sendo mestre e especialista em periodontia.
Especialista em prótese,
prefere mais mexer com as gengivas, talvez por serem estas
mais molinhas. De osso, mesmo sabendo colocar implantes,
prefere raspar. Ultimamente tem se dedicado mais à oclusão.
Como vêem, uma pessoa bem definida! Quanto mais mole melhor,
tanto que por cerca de vinte anos, teve visto de estudante
no Brasil e alguns mais chegados, maldosamente afirmavam,
trabalhar nem pensar. Maldosamente porque pensar ele até
pensava, mas deixava para depois. Maldosamente porque hoje
ele até trabalha, se bem que já seja agora, um quase
brasileiro.
Mas deixemos a descrição de
lado porque a viagem é longa e a estória idem. Para começar,
quando todos saíam de São Paulo, pela Aerolíneas, ele,
sábio, saiu por Asuncion, aproveitando para renovar o visto,
pelo visto. Chegou só a Buenos Aires. Só, não sóbrio, tanto
que se desencontrou do grupo no aeroporto, tendo que tomar
um táxi até o hotel. Tomou o táxi e aproveitou para tomar "otras
cositas mas". Também pudera, chegamos num aeroporto (Aeroparque)
e ele chegou noutro (Ezeiza). Mas o hotel era o mesmo, onde
nos encontramos, se bem que no estado em que ele se
encontrava, ele já não era mais o mesmo. Ainda não estava
travado, mas a língua, o órgão não o idioma, tinha um freio
de mão puxado. Depois de instalados no hotel, ele de pronto
aproveitou um drinque de boas vindas. Saímos para jantar e
depois de olhar a carne mal passada de um bife de chorizo
que havia pedido, comentou que não estava com muita fome, já
que haviam lhe servido um lanche na LAP. Para os que não
conheceram, Lineas Aereas Paraguayas, hoje TAM, Transportes
Aéreos Del Mercosur. E pediu um vinho. Sentado próximo, lhe
comentei: mas estás tomando cerveja! Este é para depois me
respondeu, enquanto o colega, de grupo, não de bebida, me
comentava que antes de pedir o bife, tomou dois uísques,
para facilitar a decisão, digamos.
O vinho foi tomado ali mesmo,
e antes de chegarmos ao hotel, paramos para tomar a saideira.
Por sugestão de quem? Acertou! Saideira, porque a última foi
uma latinha no frigobar. Ele, sábio, sabia que lá tinha.
Tomou e dormiu. Melhor desmaiou. Eram duas e trinta da manhã
e às seis e trinta teríamos que levantar para o curso. Pela
dificuldade para acordá-lo, não desmaiou, morreu, sendo
necessários mais de dez minutos para acordá-lo.
Inacreditavelmente, às oito
ele estava no curso, sem óculos escuros, inteiro. Inteiro
sóbrio, já que na noite anterior estava inteiro também, só
que inteiro "borracho", como dizem os castelhanos. Assistiu
ao curso, fez perguntas, participou, só não ganhando nota
dez, por que na fundação eles serviam só sucos e
refrigerantes, o que o levou, algumas vezes, a ter de sair
pára tomar um ar, acompanhado de alguma coisa mais, porque
ninguém é de ferro. E por que água enferruja.
Quando saímos para voltar ao
hotel, fomos quase todos a pé, para conhecer a cidade e
espairecer, depois de doze horas de imersão total. O doutor,
que ainda não estava travado, pegou um táxi, com dois amigos
para ganharem tempo. Quando chegamos ao hotel, eles já
tinham tomado duas. Cada um! Subimos para trocar de roupa e
eles não perderam tempo. Tomaram mais uma. Cada um. Foram na
frente, já que o restaurante era a uma quadra do hotel e
pediram um aperitivo, para nos esperarem. Como alguns
demoraram, pediram outro. Era uísque, para não repetir a
dose, já que nos "intervalos" do curso e no hotel haviam
tomado cerveja. Pela demora, repetiram e para não misturar,
durante o jantar, tomaram só vinho, como manda a etiqueta,
social, não o rótulo, que na Argentina, como os cigarros no
Brasil, trazem uma advertência do ministério da saúde: Beber
esta bebida em excesso faz mal à saúde. Por isto eles
alternavam, cerveja, uísque, vinho, para não fazer mal à
saúde.
Para não embriagar o leitor,
com a descrição dos outros dois dias de curso, estes foram
iguais ao primeiro, com apenas duas alterações: pela manhã
chegou um pouco atrasado no segundo dia e não compareceu na
manhã do terceiro. Também pudera, a saideira após o jantar.
Minto, no segundo dia, como não tinha fome, decidiu, com os
outros dois, saírem só para beber. No terceiro dia,
acontecia o jantar de encerramento, já pago no pacote e com
vinho liberado e incluído. Não era de primeira, mas a esta
altura isto era apenas um detalhe. Deram dez dólares para o
garçom e ficaram amigos, de tanto que este trouxe vinho para
aquela mesa, onde só sentaram os três, por afinidades.
Desnecessário dizer, que
apesar dos esforços, os acompanhantes não conseguiam
acompanhar o Doutor Travado (aqui já havia trocado o
apelido). Mesmo quando serviram champagne para o brinde
final. Porque ele decididamente tomou a garrafa das mãos do
garçom, quando este percorria as mesas servindo taça por
taça, dizendo: deixa que eu me sirvo. O garçom esperou e
embora a garrafa estivesse quase cheia, comentou: pode
buscar outra que esta terminou. O garçom, educadamente
obedeceu e em alguns minutos trouxe outra garrafa mais, sem
deixar de comentar: esta é só para você, motivo que ele
alegou para não dividi-la com os dois colegas, a esta hora,
de infortúnio. Sim porque enquanto os demais participantes
do curso sorviam lentamente, degustando sua champagne,
procedíamos a entrega dos certificados.
Lembro bem de quando chamei o
Doutor Travado por seu nome verdadeiro, ninguém levantou. O
imaginei no banheiro e um silêncio se fez, logo irrompido
por uma vez carregada: estáaaaa aaaaaqui! Era o colega de
mesa já que o Doutor Travado a esta altura nem falava.
Tentaram em vão levantá-lo e para não interromper a pompa do
cerimonial, dirigi-me até sua mesa, entregando-lhe o
certificado, pelo que todos batiam palmas. Enquanto voltava
para minha posição original, o grupo inteiro e uníssono
gritava: Travado! Travado! Travado! A festa acabou e o
Doutor Travado, depois que todos tinham se retirado, tomou
mais uma e foi levado em triunfo, pelos braços, para seu
apartamento, sem forças para pedir a saideira.
O "day after" era domingo e
acordamos as dez horas para não perder o café continental
servido pelo hotel. Menos o Doutor Travado, que foi tirado
da cama depois do meio dia, até porque o ônibus que nos
levaria até o aeroporto estava aguardando. Menos de uma hora
de vôo e chegamos a Beunos Aires. Talvez o Doutor Travado
não soubesse, mas ficamos quatro dias em Rosario. A tarde de
domingo era reservada ao "citty tour" que Travado dispensou,
alegando já conhecer a cidade. Não sei se ficou dormindo ou
bebendo, mas se tivesse que apostar, colocaria todas as
fichas na segunda hipótese.
Nossa última noite reservava
uma programação de gala. Show no Tango Mio, hoje Senhor
Tango com o maior cantor de tangos dos tempos modernos:
Fernando Soler. E um detalhe que para Travado era
fundamental: vinho incluído no preço já pago e à vontade.
Para melhorar o serviço, novamente dez dólares antecipados
na mão do garçom e serviço de primeira, principalmente na
parte líquida. Não lembro que comentário o Doutor Travado
fez do show, mas os demais acharam ótimo, inesquecível até.
Se bem me lembro, ele nem mais falava, além de ter trazido
embaixo do casaco a derradeira garrafa, que lhe dera o novo
amigo garçom.
Excepcionalmente naquele
grupo, voaríamos de volta para o Brasil ao meio dia,
diferentemente dos demais grupos que saíam cedo. Sorte do
Doutor Travado, que mesmo depois de uma noite mal dormida,
continuava mais travado do que nunca. Fechamos a conta para
ele e me chamou a atenção que mesmo com o vinho que trouxe
do Tango Mio e com uma única noite em Buenos Aires, ele só
no apartamento, por ter que sair mais cedo, ainda tinha três
cervejas para pagar. Como não conseguisse se coordenar
direito tive que pegar dinheiro em sua carteira para pagar o
extra do hotel. Tomei-o pelo braço, coloquei-o em um táxi
imaginando despachá-lo para o aeroporto. Como ele não
conseguia dizer ao motorista, para que aeroporto iria,
decidi acompanhá-lo, mesmo ficando com meu horário um pouco
ajustado. Lá chegando, ele se revelou um pouco triste por
ter que ir embora e enquanto eu providencia seu "check in"
ele fazia "check out" tomando duas saideiras. No portão de
embarque, ao entregá-lo para a aeromoça, comentei que era
inofensivo, não falava alto embora estivesse, estava com
nostalgia de casa e que pela dúvida o amarrasse bem com o
cinto de segurança para não cair da poltrona e que se por
acaso tivesse algum enjôo, que não lhe desse comprimidos e
sim uma bebida.
O encontrei são algumas
semanas depois e ele disse que não lembrava da viagem.
Tornei a perguntar pelo vôo Buenos Aires a Asuncion e ele
disse que não se lembrava era da viagem inteira, contando
Rosario e Buenos Aires. Também pudera!
MIGUEL!!! VOCÊ AQUI!
Durante mais de sete anos,
todos os meses a exceção de janeiro e fevereiro, levava
turmas de brasileiros a um curso de habilitação em implantes
osseointegrados, que foram à sensação do final da década
oitenta e da primeira metade da década noventa. Eram grupos
de cerca de 25 a 30 pessoas, contando com as esposas, que
quatro ou cinco do grupo levavam para fazer turismo.
Normalmente sempre ficávamos no mesmo hotel, por
conveniência de preços e localização. Sempre divulgava o
nome, endereço e o telefone do hotel, com antecedência, para
que os participantes pudessem informar a seus familiares
onde ficariam hospedados.
Algumas vezes tentamos mudar
de hotel, por busca de algo melhor, outras por melhores
preços e numa das vezes anunciamos um hotel e um dia antes
do embarque tivemos que mudar, por erro da agência que não
tinha encaminhado com a devida antecedência a lista de
passageiros e como tal não havia lugares para tantos
hóspedes. Optamos de última hora pelo hotel que até a vez
anterior habitualmente nos servia, sem ter tempo hábil de
comunicar por carta a mudança de última hora. Só não
podíamos imaginar a situação embaraçosa que esta mudança
repentina terminou provocando.
Um dos participantes do
grupo, que por sinal estava indo pela segunda vez ao curso,
aproveitou para levar a esposa a fim de conhecer e desfrutar
da inesquecível Buenos Aires. Em parte havia decidido ir
porque seu melhor amigo e compadre se decidira finalmente
fazer o curso e igualmente levar a esposa, para juntos
conhecerem a capital dos argentinos.
Faltando dois dias para o
embarque, o que nunca havia feito o curso, inexplicavelmente
comunicou sua desistência a mim e ao que já havia feito o
curso. Pela decisão de última hora de Miguel, Domingos não
teve como alterar sua programação, até porque a viagem tinha
uma significação especial para comemoração de uma data idem
com a esposa. E lá se foram em clima de lua de mel,
aproveitando o curso e o aspecto romântico da cidade
portenha. Talvez só tivessem a lamentar o trágico ou grave
acontecimento, que tinha feito repentinamente Miguel mudar
os planos do quarteto acostumado a viajar juntos.
O que não poderiam os dois
amigos imaginar é que com a mudança de hotel feita na
véspera, suas vidas fossem se cruzar num lugar tão distante
e de uma maneira tão constrangedora. Foi o que aconteceu. O
motivo da desistência de Miguel não foi doença como
imaginávamos e sim ter optado por aproveitar o feriado e a
idéia de passar estes dias com uma...., vamos dizer namorada
para não complicar ainda mais a estória, que vai terminar
para lá de complicada. Para não dar na vista do amigo e não
correr risco, Miguel optou por fazer o pacote de viagem com
outra agência de turismo, tendo o cuidado de fazer a
ressalva de não ficar em hipótese alguma no Hotel Las
Naciones, onde por carta eu havia anunciado, com duas
semanas de antecedência, inclusive para ele, que iríamos
ficar.
Obviamente, Miguel optou por
não se inscrever no curso, para não dar na vista de Domingos
e por conseguinte de sua esposa, que fiquei sabendo depois
do fatídico acontecimento, era não só comadre da esposa de
Miguel, como também seu parente, em grau mais afastado.
Embora Buenos Aires seja uma
cidade grande, dispondo talvez de meio milhar de hotéis, os
que costumam trabalhar com grupos e que aceitam os
barulhentos brasileiros e exigentes no baixo preço das
diárias e no café da manhã farto, sejam bem menos, não
poderiam nunca imaginar que o caprichoso destino estava
prestes a coloca-los frente a frente. A cena foi patética. O
corredor de acesso ao "lobby" era longo e estreito. Para
complicar, escassamente iluminado, não permitindo a quem
nele entrasse, divisar perfeitamente quem na outra ponta
estivesse começando a sair. Nenhuma porta para uma loja,
banheiro ou balcão de agência de viagens, todos comuns nos
grandes hotéis e que pudesse servir como saída ou parada
estratégica para disfarce no inevitável cruzamento dos dois
compadres.
O que você está imaginando
está prestes a acontecer. Domingos, depois de um dia puchado
de curso recebe a esposa no saguão da sede da Fundação
Basílio Jaef e iniciam a pé o trajeto de volta ao hotel, com
programação marcada para um show de tango a noite. Várias
coisas poderiam acontecer no trajeto para retardar o
percurso: uma parada para um lanche, desnecessária pelo
jantar programado, uma entrada em uma loja para sua esposa
fazer alguma compra, desnecessária porque esta já havia
passado o dia vendo lojas e feito algumas compras, uma
mudança de itinerário para ela mostrar a ele algum lugar
pitoresco ou atrativo da cidade, desnecessário porque ele já
havia feito o curso no ano anterior e conhecido bem a cidade
na quase uma semana que nela permaneceu. Nada aconteceu e a
entrada no hotel, pelo horário de verão também adotado pelos
argentinos, se deu poucos minutos antes das oito horas, com
dia claro ainda.
Numa ponta, Domingos e a
esposa, decididos a entrar logo para não se atrasar para a
saída ao tango, na outra seu compadre, distraído e
descuidado com a nova namorada, se é que se pode falar
assim. À distância entre ambos diminuindo na velocidade dos
passos multiplicada por dois, já que caminhavam em direções
opostas, até que à distância encurtada os fez reconhecer um
ao outro. Domingos torceu para que a esposa olhasse, ou
melhor, se decidisse por ver uma jaqueta de couro e umas
blusas de cachemir, lindamente colocadas em um mostrador de
fabrica, numa vitrine do corredor, mas esta, como que
antevendo, e aqui a palavra se aplica maravilhosamente bem,
o pior que estaria por acontecer, nem desviou o olhar,
continuando célere em direção ao final do corredor. Quase
que na metade do percurso deste, o encontro foi inevitável,
como um encontro de dois trens trafegando na mesma linha.
Domingos viu Miguel, que viu Domingos e a esposa. Só a
namorada não viu nada, ou melhor, viu e não entendeu a troca
de olhares que se sucedeu. Embaraçado pelo inusitado, Miguel
não cumprimentou o compadre, talvez tentando dar a entender
ser um sósia quem pela comadre estivesse cruzando, que com a
espontaneidade impulsiva das mulheres e talvez pela
distração que caracteriza algumas ou pela mente perspicaz
que identifica outras, ao cruzar soltou um espontâneo
Miguellllllllll! Que ecoou por todo o corredor e por todo o
canal auricular do próprio, fazendo com que o olhar e o
cumprimento típico brasileiro, oi, o denunciasse.
Somente na fração de segundo
seguinte, ao virar tentando entender por que ele, estando
tão distante de sua terra natal, não parara para
convenientemente saudá-los, entendeu que a acompanhante, que
as mãos dadas denunciavam algo mais, era loira e não morena
como a esposa, sua comadre e prima em segundo grau. Na
velocidade do som, do Miguelllllll! Pronunciado com
espontaneidade, Miguel desapareceu no corredor e nas minhas
relações, embora antes de mim ele já tivesse estado na
Fundação e conhecesse e comprasse de Salvador Jaef, antes
deste se tornar famoso, nunca mais me comprando nada.
Domingos, que depois da primeira viagem era um de meus bons
clientes em seu estado, após a segunda pelo que lembro não
me comprou mais e não me atendeu em alguns telefonemas que
lhe fiz, tentando retorná-lo como cliente.
Talvez pensem que a mudança
de hotel foi intencionalmente minha e causadora do
desagradável encontro. Justo eu, que como Domingos, desejava
sua ida para ter nele mais um cliente, acabei perdendo um. O
outro por causa da outra.
MAIS BRANCO A BRANCURA
Sempre gostei muito de
viajar, tanto que entre congressos, cursos, familiares e a
passeio contabilizo com certeza mais de 500 viagens, sendo
quase 100 para o exterior. A vida me brindou
profissionalmente com o que mais gosto, dando-me a
oportunidade de exercer meu trabalho compartilhado com o
prazer de viajar.
Outra coisa que sempre gostei
foi alegrar, distrair, divertir as pessoas. Não só contando
piadas, mas também fazendo brincadeiras, palhaçadas às
vezes, outras simplesmente inventando trocadilhos para
coisas do trivial. Quem com fogo brinca um dia tem que se
queimar.
Num dos quase 50 grupos que
levei para a Argentina a fim participarem do curso de
implantes, me esforçava, já desde o encontro do grupo no
aeroporto de São Paulo ou no próprio vôo, para integrar e
relaxar os participantes, a maioria dos quais nunca tinha
viajado ao exterior; acabei encontrando um que achou por bem
devolver-me algumas brincadeiras que fiz, na verdade tão
corriqueira que nem lembro qual. Não esqueço a que me
fizeram. E foi bem feito.
Todos se inteiravam, na
primeira noite, do sistema de despertar utilizado à época
nos hotéis da Argentina, onde um computador programado com
os horários solicitados pelos hóspedes fazia-os acordar
tocando o telefone na hora solicitada. O sistema por si só
já era divertido, pois alguns, desconhecendo-o, antes de
desligar, gentilmente agradeciam ao computador. Outros
ligavam para a portaria para saber quem havia ligado ou
porque caíra a ligação sem que pudessem atender. Alguns mais
espirituosos ao aperceberem-se do sistema simplesmente
passavam o telefone para o colega de quarto, dizendo com ar
sério: é para você. E ia para o banheiro rir das
dificuldades do colega tentando falar com a máquina que nada
falava. O mais esperto do grupo bolou uma maneira de
divertir-se ás minhas custas.
Como de costume e para
desfrutar de amizades recém feitas e oriundas dos mais
longínquos pontos do Brasil saíamos, sempre juntos, todos os
do grupo para jantar, o que nem sempre acontecia no
regresso. Alguns aproveitavam a efêmera liberdade ou o fato
de estarem em um país onde não eram conhecidos para
descobrir o que tinha de diferente a noite portenha ou
simplesmente para beber com os novos amigos.
Sempre enfileirava com os que
voltavam direto do restaurante para o hotel porque no dia
seguinte tinha que estar bem descansado para coordenar o
grupo e o curso, de sorte que tudo saísse a contento e que
houvesse satisfação geral com a viagem e o aprendido. Além
do que, minha rotina, embora em viagem não aparentasse me
levava a um estresse constante, até porque os grupos em sua
maioria eram em número superior a vinte participantes.
Lembro-me de ter retornado ao
hotel, como de costume pouco depois da meia noite, de forma
que perto da uma hora já estava dormindo, profundamente.
Como já conhecia bem o sistema de despertar do hotel, o
telefone tocou, atendi, ninguém respondeu, era hora de
levantar. Ainda com uma sensação de não ter dormido o
suficiente, decidi ir para baixo do chuveiro para despertar
a preguiça e o sono. Fiz um banho mais prolongado do que o
de costume e demorei mais até para coisas do meu cotidiano,
como fazer barba, vestir o terno e gravata. Até para escovar
os dentes e calçar os sapatos demorei mais do que o normal.
Parecia que ainda não estava bem acordado, mas organizei as
tarefas do dia em minha pasta e com vagar dirigi-me para o
café da manhã. Ao chegar no saguão não prestei atenção para
o fato de não haver ninguém por lá, até porque sempre
acordava mais cedo que o grupo para checar algum detalhe ou
para somente dar bom dia a todos na medida em que fossem
descendo.
Só dei-me por conta de que
algo não estava certo quando percebi espanto no funcionário
da recepção. Ele perguntou-me se havia acontecido algo e ao
indagar-lhe porque ele me respondeu que eram 3 horas da
madrugada. E eu, como um tonto, bobo ou palhaço, de terno e
gravata pensando em café da manhã. Não escreverei o palavrão
que soltei, embora pelas circunstâncias a maioria poderá
imaginá-lo.
Refeito do susto, ele esboçou
um meio sorriso, o que me fez imaginar que alguém tinha me
aprontado. Na condição de alimentador do hotel com cerca de
25 hóspedes a cada 30 dias fiz com que ele me contasse quem
tinha sido o autor da brincadeira. Disse que não sabia e a
única coisa que lembrava foi ter um dos brasileiros,
perguntado-lhe o número do meu apartamento, antes de subir
para o seu. Sem muito esforço identifiquei o engenhoso,
porque somente dois haviam entrado no hotel por volta das 3
horas.
Passei o dia inteiro do curso
dando a entender que nada havia acontecido, ou melhor, que
não havia me perturbado, muito embora vez ou outra percebia
um sorriso maroto no canto do lábio de alguns dos
brasileiros. O bom cabrito não berra, aguarda apenas a hora
da réplica. Passou o dia e à noite levei o grupo para um
outro restaurante e a pretexto de jantar com o grupo dos
professores argentinos, deixei-os sem fazer o meu jantar.
Voltei para o hotel, pedi a chave do apartamento do que me
aprontara e nem reclamei do fato da recepcionista não
perceber que a chave solicitada não era a do meu
apartamento. Subi já com umas idéias na cabeça que me
aplicavam no tempo de adolescente, na colônia de férias do
colégio em que estudei. E decidi dar o trote do envelope.
Consiste em tirar
cuidadosamente o cobertor da cama da vítima, tirar o lençol
de cima (colocá-lo em baixo da cama para que não se
apercebam da sobra), tirar de baixo do colchão a parte do
lençol de baixo, que corresponde aos pés, e cuidadosamente
trazê-la para cima do travesseiro. Colocar novamente o
cobertor e dobrar a sobra do lençol que está em cima do
travesseiro para cima do cobertor, como fazem as camareiras
para dar-lhe uma boa aparência. Cheguei ao extremo de
dobrar, no lado em que a pessoa normalmente costuma puxar o
lençol e cobertor para entrar na cama. O resultado ficou tão
perfeito que ninguém perceberia a adulteração.
Para coroar com estilo a
minha resposta, fui ao banheiro e peguei a pasta de dentes
da vítima e a do seu colega também e quase as esvaziei
dentro do lençol, exatamente no lugar onde ele entraria.
Deixei um pouco de pasta para cada um para que, como
dentistas, não dessem por falta do produto antes de deitar e
desconfiassem de alguma coisa. Calmamente saí, devolvi a
chave na portaria e fui fazer um lanche. No dia seguinte, o
colega de apartamento do azarado me contou entre gargalhadas
as cenas patéticas que presenciou. Antes de deitar-se ele
tentou novamente acordar-me tocando o telefone. Escaldado
não atendi. Como tinha tomado bastante, o limiar de lucidez
dele estava um pouco mais baixo e a cena das repetidas
tentativas para entrar no lençol eram dignas de uma comédia
dos Trapalhões. Tentou, insistiu por três ou quatro vezes e
a bebida o impedia de sentir que a pasta de dentes
espalhava-se rapidamente por suas pernas. Finalmente, depois
de muito tentar entrar no envelope-lençol, acendeu a luz e
entre palavrões e o meu nome deu-se conta da brutal mudança
de cor de suas pernas. Aí entendi porque Kolynos dá mais
branco à brancura.
E somos amigos até hoje e nos
respeitamos toda vez em que nos aproximamos um do outro.
YES, PARA O GARÇON ARGENTINO
Margareth estudara dez anos
de inglês, sonhando um dia abafar no exterior. Aconteceu o
que imaginava nunca acontecer. Ao invés de Estados Unidos,
Inglaterra, ou outro país da Europa, sua primeira viagem ao
exterior foi para a Argentina. Mesmo conhecendo noções
básicas de espanhol, ela imaginava poder usar seu gramatical
e bem pronunciado inglês. Talvez no avião, ou em um ponto
turístico, um restaurante fino. Qualquer lugar valia, desde
que pudesse praticá-lo de verdade.
No avião, realmente haviam
muitos estrangeiros, mas todos da Argentina, que já antes da
guerra das Malvinas, não eram muito chegados no idioma de
Shaekespeare. Para não dizer que não escutou outra língua
além do familiar espanhol, havia um casal que provavelmente
falava alemão, entre si, mas quando se dirigiam aos
comissários o faziam em perfeito espanhol, dando idéia de
viverem há muito na Argentina. Outra exceção não confirmada
foi uma família que desceu na escala da Puerto Iguassu e
deve ter ido ver as cataratas, pois não mais retornou.
Falavam francês.
Após o avião descer, descemos
todos a convite do piloto, com a orientação de cumprirmos
com as obrigações migratórias, o que fizemos depois que um
dos tripulantes desfilou por todo o corredor do avião,
espalhando um spray que nos disseram ser determinação do
ministério da saúde. Como naquele tempo ainda não tínhamos a
vaca louca, deve ter sido para não ficarmos dengosos.
Margareth apressou-se para descer, acreditando estar ali uma
possibilidade de deslizar seu afiado inglês. Ledo engano, já
que os funcionários da polícia de fronteiras argentinas, ao
invés de falarem espanhol, só pelo olhar identificavam o
passageiro brasileiro e automaticamente falavam português.
Duas horas depois descemos em
Buenos Aires e o Free Shop estava fechado. Margareth
perguntou porque já que vínhamos do Brasil e lhe explicaram
que o nosso vôo havia nacionalizado com a escala em Puerto
Iguassu. Ela não entendeu direito, mas mesmo assim foi
apanhar sua mala na esteira, chateada talvez mais por não
poder praticar seu inglês, do que por não poder fazer uma
comprinha. O serviço de aduana na Argentina era sempre
generoso com os brasileiros. Bastava dizer boa tarde em
pronúncia clara e o policial dizia: passe, passe. Falar
inglês para que. Perguntou onde carimbariam seu passaporte e
expliquei-lhe que a apresentação da identidade e aquele
pequeno papel branco da imigração valiam como carimbo do
passaporte. Ela ficou ainda mais aborrecida, pois contava
com a viagem para dar sua primeira carimbada.
Dali mesmo embarcamos em
outro avião para Rosario, e o único sinal de inglês eram as
instruções aos passageiros, dadas no idioma da Madonna e em
espanhol. Compreendendo sua frustração, sinalizei-lhe os
auto falantes, quando do anúncio do nosso próximo embarque,
anunciado em inglês e ela não entendendo veio ate onde eu
estava perguntando-me o que eu desejava. Contei-lhe da
chamada em inglês e ela falou que assim não tinha graça,
dizendo que era igual a que temos no Brasil. Para brincar
disse-lhe que era diferente porque lá eles anunciavam em
inglês e português. Ao invés de rir, se retirou, fechando a
cara.
Na Fundação o curso era
ministrado em portunhol e os participantes estrangeiros eram
dois chilenos, um uruguaio e um paraguaio. De inglês nada,
tanto que até esquecemos do assunto por três dias, tempo que
durou o curso. Só voltaríamos a lembrar do idioma no último
dia, durante o jantar de encerramento, realizado em um
restaurante fino para os padrões argentinos e com o
sugestivo nome de Aduana, por localizar-se em frente à
Aduana do porto de Rosario, que no passado fora
internacional, fruto de um acordo com a Bolívia, que o usava
como sua saída para o Atlântico, aproveitando-se dos rios
Paraguay e Paraná, para acessá-lo por chatas, não mulheres e
sim barcas de baixo calado, que traziam produtos agrícolas
para ali embarcarem para a Europa.
Durante o jantar aconteceu o
fato inusitado, que é motivo desta estória. O garçom, que na
Argentina é conhecido como mozo, muito embora a maioria já
tenha mais de sessenta, conveniente e solenemente trajado de
"smoking" branco anotava o pedido de Margareth, perguntando
em espanhol se ela aceitaria a sugestão do "chef" para o
jantar. Ela distraída ou intencionalmente, respondeu um
solene "yes". O garçom, que a todos perguntava se preferiam
o bife de chorizzo ao ponto, preferência da maioria, não
deixou por menos e a ela perguntou automaticamente "midle",
recebendo um novo "yes" como resposta, aí terminando o
inglês de Margareth.
Todos perceberam, alguns
entenderam, outros não, mas o certo que sua estréia no
idioma dos Beatles havia sido monossilábica, ao que um dos
mais viajados, que compunha o grupo, concluiu: é a síndrome
da primeira vez e é melhor passá-la aqui do que numa
situação de necessidade em outra parte do mundo. A partir
deste momento, tudo que o garçom perguntasse, todos os
brasileiros respondiam "yes", fazendo a cada vez, que
Margareth ficasse ainda mais vermelha. "Red" talvez.
BARBADOS NO BAILE
Nas mais de 50 viagens que
fiz à Argentina, levando dentistas brasileiros para o
primeiro curso de credenciamento em implantes
osseointegrados da América Latina, ficamos em muitos hotéis
diferentes, quer em Rosário, quer em Buenos Aires. Uns
bonitos, outros bons, alguns antigos, um ou outro moderno,
até porque a característica dos hotéis naquele País é o
estilo clássico. Algumas vezes ficamos em hotéis pequenos, a
maioria em hotéis grandes. Não erro dizendo que experimentei
cerca de 30 diferentes hotéis, entre as duas cidades. Quando
o trinômio preço, qualidade e localização convinha,
repetíamos, quando não, trocávamos.
Dentre todos, o mais comum,
mais mediano e que não se enquadra em nenhuma das
classificações acima é justamente o que guardo a maior
lembrança. Não tanto pelo hotel, que tinha marca de cigarro
e que para não fazer propaganda de ambos, deixaremos de
mencionar. De comum, tinha apenas a aparência, por ser um
prédio igual a maioria dos prédios argentinos. Estava
localizado em uma rua transversal não muito conhecida, com o
conforto comum dos bons hotéis de uma cidade que está no
roteiro das grandes cidades do mundo. De diferente, tinha
apenas o café da manhã, que a bem da verdade era bom, mas
desagradava os participantes do grupo porque ao final o
garçon vinha pedir que assinássemos a nota de alguma coisa
fora do menu tradicional do café da manhã, que lá
diferentemente daqui, é bem restrito. Obviamente, a maioria
dos brasileiros vinha comigo reclamar e depois de muito
argumentar, a gerência concordou em liberar-nos do pagamento
dos extras.
Em Buenos Aires, nas noites
de sábado, fazíamos sempre a atração turística maior da
viagem: o show de Fernando Soler no Tango Mio, hoje Señor
Tango, onde um jantar com bife de chorizo e vinho ajudavam a
aguardar a atração principal, que dentre todos os
espetáculos que tenho asssistido em minhas viagens ainda é o
melhor que já vi. A volta ao hotel, em ônibus especial, era
marcada por cantorias, piadas e até discursos eufóricos de
alguns que haviam exagerado na bebida, sendo que alguns
pediam para ficar pelo caminho em algum bar ou lugar de
maior concentração.
Dentro do grupo que retornava
ao hotel, dois se destacavam, por não fazerem nada do que os
demais faziam e pela diferença de idade entre ambos. No
final da estória, vim a saber que estavam no mesmo
apartamento e que eram de duas regiões bem distantes entre
si. Guimarães, de mais idade e mais sóbrio no vestir
aparentava cinqüenta anos ou menos e tinha um sotaque bem
carregado e característico, estava sentado ao lado de
Antônio, com ar de recém formado e cara de pouca
experiência, vestia-se de maneira jovial com predominância
do jeans. Dificilmente poderíamos acreditar que eles seriam
dupla para alguma coisa, qualquer que fosse.
Chegamos para o merecido
descanso pouco depois da uma da manhã e a maioria apenas
pegou a chave e dirigiu-se aos apartamentos, quase nem dando
muita atenção para um baile, que embora no intervalo dos
músicos, corria solto, onde em poucas horas, iríamos tomar
nosso café da manhã. Lembro de ter ido dar uma olhada para
saber o que estava acontecendo e para certificar-me se
aquela música não iria atrapalhar o descanso dos nossos
colegas. Chamou-me a atenção que a maioria das “moças” que
freqüentavam o salão, embora muito bem conservadas e
vestidas, tinham idade superior a cinqüenta anos.
Porém, não foi por este
detalhe que o hotel ficou em minha mente. Foi algo bem mais
inusitado e grave. O espaçoso salão do café da manhã
transformara-se em baile nostalgia, com muito tango e
músicas da época. Algumas mesas foram afastadas para dar
lugar à uma pista de dança e o lugar do buffet era ocupado
por uma orquestra típica argentina, com bandoneons, violinos
e músicos de cabelos brancos. Alguns quadros de Gardel e
outros ídolos, foram colocados nas paredes para compor
melhor o ambiente, criando um clima convidativo.
Como estava cansado, depois
de cinco dias de concentração para que tudo saísse bem
durante a viagem, decidi subir e descansar, nem percebendo
que dois brasileiros haviam decidido ficar. Sim, justo eles:
Guimarães e Antônio. Ao invés de comerem, decidiram
continuar bebendo. As “moças” com quem decidiram tentar
conversar e dançar, também bebiam. E não pouco; e como eles,
beberam muito mais.
Como era praxe da casa,
rigorosamente as quatro da manhã, a música parou e o baile
também. As “moças” se foram e a confusão só começou quando o
garçom, o mesmo que pela manhã tentara cobrar extras,
apresentou aos nossos dois amigos a conta da noitada: 160
dólares para cada um. Mesmo “altos” por causa da bebida,
perceberam que a conta estava muito alta. Reclamaram e o
garçon explicou que o motivo era o que haviam consumido as
moças que os acompanhavam. Os dois tentaram argumentar que
as “moças” não estavam com eles e que somente conversaram
com elas. Não adiantou e depois de muito bate boca sem que
se entendessem, inclusive pela limitação do idioma, a
polícia foi chamada e a única solução que lhes veio a cabeça
foi chamar-me.
Sabendo que a polícia estava
querendo levá-los, desci às pressas e depois de muita
diplomacia, consegui convencer o gerente do restaurante a
deixar o caso para ser resolvido no dia seguinte com a
gerência do hotel. A polícia se foi e os brasileiros subiram
para dormir.
Poucas horas depois, com as
malas prontas, todo o grupo estava no saguão, para embarcar
no ônibus que nos levaria até o aeroporto. Não sem antes
resolvermos o impasse dos 320 dólares da conta não paga.
Depois de usar todos os meus argumentos e ir perdendo minha
tradicional diplomacia e perceber que havia certa má
intenção, tanto do garçom como do gerente, começei a ser
mais radical e incisivo em minhas colocações, chegando a
levantar significativamente a voz, momento em que o gerente
do hotel, num gesto que depois de alguns anos se tornaria
famoso pelas mãos do apresentador Ratinho, tirou de dentro
do balcão um cacetete dos que os policiais usam e o golpeou
com força no balcão, gritando algumas palavras que meu
espanhol não alcançava. Diante de tão diferente argumento,
não me coube outra alternativa que pagar a tal conta,
inclusive para não perdermos o ônibus e avião.
Evidentemente, cobrei de
Guimarães e Antônio o reembolso da conta da noitada, que a
princípio não quiseram pagar. Depois de ponderações de
Antônio, o fizeram. Antônio amadureceu, casou e continua meu
cliente até hoje e de Guimarães, passados quase dez anos,
nunca mais me comprou nada e dele não tenho mais notícias.
Consegui reaver meu dinheiro, mas perdi o cliente. Sem nem
ao menos ter dançado com algumas das “moças”. Nunca mais
voltei àquele hotel, como nunca mais esqueci da primeira vez
que falei com a polícia argentina.
ACORDADO NA BATUTA
Era nosso primeiro grupo para
o novo mundo dos osseointegrados e para ele concorreram
profissionais de São Paulo, Rio, Minas, Paraná, Santa
Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Brasília e até do
Maranhão, além de algum estado que doze anos passados me
fazem esquecer. Comparados com os quarenta mil dólares que
os pioneiros que foram a Suécia dizem terem gasto e com os
dezessete mil que os pioneiros que trouxeram kits dos
Estados Unidos, quatro mil, entre passagem, estadia, curso e
kit com dez implantes era uma pechincha. Por este motivo em
menos de dez anos, quarenta e três turmas foram à Argentina,
num total de mais de oitocentos e oitenta, seguiram minha
descoberta de um caminho mais barato para o mundo moderno
dos implantes, fazendo com que eu me considere um precursor
de tudo de bom que veio a acontecer, inclusive com mais de
dez fabricantes brasileiros de implantes, que aprenderam os
segredos de montar cursos e sistemas junto com Salvador Jaef,
este sim um verdadeiro injustiçado da implantodontia latino
americana.
Mesmo com este valor,
comparativamente baixo, achava o valor do curso
(quatrocentos dólares) alto para nossos padrões terceiro
mundistas. Muitos concordavam comigo, menos Túlio, um
periodontista de Brasília, que mais dormia do que se
mantinha acordado. Não resolviam as constantes despertadas,
nas mais variadas formas, executadas por seu amigo Salustião
Pinheiro, bem mais interessado em aprender tudo sobre
implantes, que conseguia não só acompanhar o curso, como
fiscalizar o amigo, que de quando em quando pendia ora para
frente, ora para o lado, ora para traz, em movimentos
difíceis de prever.
Imaginei que fosse um
notívago e pelas informações que me passaram não era, só se
driblava bem o restante dos colegas que depois do jantar e
de uma caminhada pelas belas e floridas (com belas rosarinas)
ruas de Rosario, iam todos para o hotel repousar.
Poderia ser sido o fuso
horário e o acordar bem cedo para pegar o avião a tempo de
chegar em São Paulo antes das onze e quarenta e cinco,
horário de partida para Buenos Aires. Poderia ser, mas que
dizer do dia seguinte, quando novamente foram mais de trinta
ou quarenta acordadas. O idioma, a distância de casa, o
curso das oito às vinte, tudo poderia ser, mas por que só
com ele, enquanto os outros vinte e dois se mantinham
despertos como corujas, tentando absorver o máximo. Confesso
que não entendia, assim como não entendiam os professores,
todos contemplados com a desagradável sensação de falar para
alguém dormindo, ainda que fosse apenas um.
Sugerimos lavar o rosto, um
café, um cigarro, caminhar um pouco, coca cola, ir lá fora e
outras tantas que já não lembro mais. Tudo em vão. Ele
continuava dormindo. Quase o tempo todo. E quando
comentávamos: Túlio estás dormindo, ele com a maior cara de
pau, respondia, não só fechei os olhos um poucadinho. O
curso continuou e no terceiro dia, cansado de tanto tentarem
acordá-lo, Salvador, ele próprio decidiu fazer a derradeira
tentativa. Algo como dar um susto em quem tem soluço. Dizem
que funciona. A julgar pelo combate a sonolência funciona.
Num momento em que a cabeça de Túlio cambaleava livre pelo
espaço, Salvador pegou a vareta com que apontava os slides e
a percutiu violentamente sobre a mesa, provocando enorme
susto em Túlio e em todos quantos estava ao seu entorno.
Funcionou. Durante todo o restante do dia, Túlio não
cochilou uma só vez. Nem depois do almoço , no sábado, que
em qualquer lugar do mundo costuma dar sonolência, ainda
mais para quem comia carnes e tomava umas cervejinhas, coisa
comum entre os brasileiros.
Salvador, nas quase cinqüenta
vezes que ministrou cursos no Brasil, sempre perguntava por
aquele que dormia todo o tempo no curso, dizendo; "Ribeiro,
como é o nome daquele que acordei para os implantes na
batuta?" Túlio continua até hoje nos implantes e pelo que
sei, bem acordado e muito vivo.
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