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Humor

 

ODONT´HUMOR

rir , o melhor remédio 

 

Antônio Inácio RIBEIRO

 

AGRADECIMENTOS

  

A

Liamara Alexandre Ribeiro

Luís Antônio Ribeiro

Maria José Maóski

Orlando Maóski

Mário Vinícius Zempulski

Tielle Ribeiro

Pelas reviões ortográficas dos textos

 

A   

Alexandre Nogueira Pederneiras

Pela diagramação e finalização

 

Ghislaine Bomm

Pela capa e aplicação das ilustrações

 

A   

Isabele Bornancim

Pela compilação de alguns textos antigos

 

Célio Prates

Pelo bom humor das ilustrações

 

Aos 

Meus amigos

Por me permitirem estórias pitorescas

  

DEDICATÓRIA

A Paschoal Amiratti

Um dentista divertido

Por sempre ter

Uma estória engraçada

Ou boa piada

Para bem contar

E que por gostar de viajar

Organizava grupos de colegas

Para viagens ao exterior

Me servindo de exemplo

Além de ter marcado época

Num intercâmbio cultural

 

APRESENTAÇÃO

 

Este é meu vigésimo livro. Quando estava por lançar o décimo, "Tudo Sobre Implantes Dentários", minha vontade secreta era ser entrevistado no programa do Jô Soares. Não fui convidado e mesmo sendo marqueteiro, nada fiz para acontecer, não realizando aquele sonho. Quando fui me aproximando dos vinte livros publicados, minha ambição passou a ser  outra. Tinha vontade de escrever um livro que não fosse de orientação técnica, como os que tenho feito nas áreas de marketing, implantes e administração odontológica de maneira geral. Pensava em um romance ou livro de contos, tendo inclusive feito um curso na forma de oficina do livro, com o objetivo de me qualificar para tal. Como não havia imaginado chegar tão rápido como cheguei, o projeto inicial não vai ser integralmente realizado, embora de alguma forma este livro seja diferente.

Quando comecei minha carreira vendendo livros odontológicos, sentí que precisaria de algo mais para conquistar independência financeira. Montei uma dental em São Paulo, mas observava um colega de ramo mais experiente, Sávio Capelosi, achando bacana o trabalho dele, por ter uma representação exclusiva e específica na área de Ortodontia e por conta disto organizar grupos para cursos no exterior, que lhe ajudavam inclusive a mantê-lo atualizado com as novidades e em dia com os avanços do mundo. Passei a sonhar em ter algo no estilo, que como meus outros ideais, acabou se concretizando com a Implantodontia. A partir dos implantes, que por uma boa estratégia de marketing, ficaram conhecidos como osseointegrados, revolução da qual me orgulho de ser um dos propulsores. Eles me propiciaram não só as viagens, mas o lançamento de uma revista, a publicação de alguns livros, a consolidação da Odontex e a montagem de uma fábrica, outro sonho antigo.

Indiscutivelmente, de tudo o que tenho passado pela vida, o mais divertido e prazeroso foram as viagens ao exterior, hoje quase chegando a cem, me permitindo conhecer bem quase todos os países da América do Sul, os Estados Unidos e os principais da Europa. Das viagens, a bagagem maior sempre era cultural e científica, mas as lembranças mais marcantes são os causos pitorescos que envolveram os quase mil dentistas que me acompanharam nestas jornadas implantodônticas. Fui anotando os mais engraçados, destacando os detalhes principais, para um dia juntá-los na forma de um livro, que pudesse servir de recordação para os que me deram o privilégio de acompanhar e diversão para os que não foram.

Para tranqüilizar desde já os amigos que comigo andaram por este mundo, todos os nomes dos personagens de nossas estórias foram providencialmente trocados, de forma que mesmo as mais embaraçosas não incriminarão seus protagonistas. Os atos e fatos nelas relatados, estes sim, são todos verdadeiros, recebendo, quando necessário, alguma pimenta do relator para torná-los mais picantes ou divertidos nuns e algumas supressões noutros, para não tornar a leitura impraticável a esposas, filhas, namoradas e amigas ou seus equivalentes masculinos, quando os protagonistas forem as.

Com este livro aproveito também para comemorar meus cinqüenta anos, bem vividos e com muitas estórias para contar, esperando que me enviem outras, para podermos ampliar este nas próximas edições e não deixarmos nenhum amigo triste, por ter aprontado em uma de nossas viagens e não fazer parte da história da Implantodontia brasileira. Pelo menos de sua antologia humorística. 

Antônio Inácio Ribeiro

ribeiro@odontex.com.br

 

PREFÁCIO

Quando o amigo Ribeiro pediu-me para prefaciar seu novo livro, tinha comigo que o estilo desta escrita seria muito semelhante àquelas próprias da maioria dos livros profissionais ou seja uma linguagem hermética, enfadonha, pouco elucidativa e, não raro, até de difícil entendimento. Mas ao ler, na cópia dos originais, a primeira das narrativas percebi, de chofre, que eu estava redondamente enganado.

Ao contrário da minha primeira impressão, as histórias ou estórias contadas neste livro são surpreendentemente deliciosas. Lí-as de um só sorvo, já que depois de ler a primeira, e ter gostado sobejamente, aguçou-me a vontade de ler a segunda, depois a terceira, e assim foi até inteirar-me da última.

A volúpia com que li a narrativa dos “causos” ocorridos durante vários congressos e cursos de implante, creio que se deu por dupla razão.

Uma delas é que durante minha carreira acadêmica presenciei situações que muitos se assemelham àquelas descritas pelo autor, e por isso mesmo reportaram-me, saudosamente, àqueles velhos tempos. Posso até dizer, sem medo de equivocar-me, que assisti durante um dos Congresso Paulista patrocinado pela APCD uma situação hilariante que parece até um “clone” de uma das histórias contadas nesse livro. Realçamos este aspecto para socorrer o autor, mostrando que as histórias por ele descritas podem ser verdadeiramente, verdadeiras.

Porém, acho que a razão primordial que me fez ler os originais de um só fôlego, foi o estilo com que foi narrando os acontecimentos. A riqueza de detalhes apresentados nas descrições, a linguagem solta sem grandes rebusques literários associado, principalmente, a um grande senso humorístico é que tornam todo conjunto numa peça literária digna de ser indicada para leitura.

Posso até me atrever vaticinar, face a leitura da cópia dos originais desse livro, que seu autor enveredou por um novo caminho literário, e creio mesmo, que a partir desta publicação, as novas obras que dele advirão não serão, apenas, textos com direcionamento a assunto profissional, mas, para nosso deleite, estará produzindo literatura ao estilo do que nos é apresentado agora.

E que assim o seja!

Sérgio Alvares

 

"ARE YOU WAITING?"

Era a minha primeira vez para os Estados Unidos e como meu inglês nunca foi lá estas coisas, decidi pegar uma professora particular que em um mês, uma hora por dia, tentou fazer o milagre de avivar minha memória do aprendido vinte anos antes, no inglês que todos nós tivemos no ginásio. Valeu a tentativa, mas de antemão sabia que o resultado seria sofrível.

Tinha uma pequena ilusão de me sair um pouco melhor do que outros que tivessem passado por situação parecida com a minha, porque com meu trabalho junto aos implantes, havia trazido cerca de vinte ministradores americanos e alguns alemães falando inglês e nas traduções de sentença por sentença, talvez por tratar-se de tema que me era cotidiano, implantes, me saia razoavelmente. Não ponderava que tendo o tradutor como muleta, minha avaliação era totalmente viciada.

Achava também que minha facilidade em me comunicar e na construção de frases me ajudaria. Tentava algumas vezes brincar de pensar em inglês, além de ter um amigo americano com paciência de Jó, Bill, que para vender falava até russo se fosse preciso. Depois vim a saber que, mesmo quando não entendia nada do que eu falara em inglês, Bill concordava, aguardando pela próxima frase para tentar imaginar o que eu estava tentando dizer. Incrível era o mesmo que eu estava tentando fazer com seu inglês, de forte sotaque californiano.

Constatações à parte, voltemos para a sala de embarque onde eu me encontrava com destino a Miami, lugar dos sonhos de brasileiros que se destinam pela primeira vez à América. Não era o meu caso, porque nosso objetivo era Dallas, onde aconteceria o Encontro Anual da Academia Americana de Osseointegração, uma descoberta minha, numa revista da Quintessence e que me levou de pronto a tratar de organizar um grupo e aproveitar para levar brasileiros a um curso de credenciamento no sistema de implantes IMZ, que começava a fazer adeptos no final da década de oitenta em várias partes do mundo.

Para não fazer feio, obsequiei a passagem "free" a que teria direito, por ter montado um grupo de mais de vinte passageiros, a Júlio Sá Ferreira, visto ter ele morado mais de cinco anos nos Estados Unidos, justamente em Los Angeles, ter os pais morando no Texas e ser amigo de Axel Kirsch e de todo o pessoal da Interpore, representante à época daquela marca de implantes. Foi minha salvação, pois como vocês estão percebendo até no relato da estória, estou com medo de entrar no avião e contar o que na verdade aconteceu.

Talvez também porque contar a estória em que os outros sejam os protagonistas seja mais fácil de contar do que aquela em que a mancada foi inteiramente nossa. E vexatória como a minha, muito mais difícil. Para facilitarmos as coisas, a companhia aérea escolhida foi a Varig, pois tendo serviço de bordo em português, postergaríamos a entrada em cena do nosso limitado inglês. Dado o embarque, além da emoção do primeiro vôo de longa distância, de o estar fazendo com mais de vinte brasileiros por mim motivados, de conhecer a maior potência econômica mundial e estar voando num velho DC 10 que o marketing transformou em MD 10, quando a Douglas foi absorvida em fusão pela Mc Donnel, ajeitando as novas letras de identificação da vintenária aeronave, que hoje praticamente só opera com cargas.

Toda esta volta para dizer que depois do serviço de bordo e de duas horas de filme, com microfone em português, depois de umas fracassadas tentativas de acompanhá-lo em inglês, não conseguia dormir. Justo eu que ia e voltava todas as semanas de ônibus para São Paulo, sendo que na maioria das vezes, o ônibus não tinha nem saído da rodoviária e eu já estivesse dormindo. Já tínhamos quatro horas de vôo e o jeito foi ir ao toalete e aproveitar para espichar um pouco as pernas, coisa que hoje estão recomendando a quem viaja na classe econômica, como estávamos fazendo. Como a necessidade não era tanto o toalete e mais despistar o sono e não houvesse acordada viva alma nas imediações dos mesmos fiquei em pé nas proximidades, tentando enxergar alguma coisa por uma pequena janelinha existente nas portas do avião. Não me apercebi que alguém, imaginando que eu estivesse numa suposta fila para o toalete, postou-se a meu lado, a esperar.

Não a tendo visto, dois ou três minutos se passaram e como ninguém saísse dos toaletes, ela tocou o meu braço, suavemente e disse "a u é tche?" Como bom gaúcho, só entendi o "tche". Olhei para ela e como além de não a estar entendendo, não sabia identificar em que idioma falara, simplesmente lhe olhei sem nada dizer. Também como ia saber, se ela nem "good night" me dera. Depois aprendi que diferente do que imaginava, "good night" só se fala quando se vai embora. Com a mesma cara de espanto e surpresa com que eu a olhara, ela me olhava também. Não tenho certeza, mas acho que na minha situação de embaraço, ela deve ter perguntado mais uma vez "a u é tche?" Percebendo que eu nada entendera, nada respondera e já se terem passados mais de cinco minutos, fez uma cara feia e num gesto decidido e rápido, tomou minha frente e entrou no toalete, que somente quando aberta percebi que estava vazia e entendi o que ela esperara. Só não entendi o significado do " a u é tche", muito embora depois de terminada a cena patética, concluí que me perguntara algo a cerca do uso ou ocupação dos toaletes. Confesso que ainda durante o vôo, muito pensei no que poderia ela ter dito, sem conseguir a mínima pista.

Continuei acordado, olhando a janelinha e imaginei que estaríamos sobrevoando o Panamá, pelo grande canal que visualizava da janela. O dia começava a clarear, quando avistei depois de uma hora e pouco, algo que imaginei ser o golfo do México. Acho que era, já que em menos de meia hora começamos o procedimento de descida para Miami. Assim imaginei, por reconhecer um trecho que me parecia familiar com as fotos de Miami Beach, dos tempos em que conhecia os Estados Unidos só por fotos e filmes.

Continuava pensando no significado daquela enigmática frase, a porta de tão íntimo lugar. Nenhuma pista. Alguns brasileiros, a esta altura já estavam acordados, mas perguntar, nem pensar. Onde colocaria minha vergonha, caso fosse algo elementar? Preferi ficar com a dúvida, que me acompanhou por uns cinco anos, se bem que com ninguém a tivesse tentado esclarecer

Um dia, muitos anos mais tarde, estava eu a porta de um restaurante em Paris e o maitre me perguntou algo em francês, que por não entender, não reagi. Percebendo, por minha aparência, que eu não era francês, me perguntou: "Are you waiting", pronunciando bem as palavras e contando que meu inglês melhorara bastante, depois de dez viagens para a Europa e Estados Unidos, ri e fiquei meio sem resposta. Agora finalmente havia entendido o sentido e significado daquela pergunta no DC 10 da Varig. Respondi-lhe "oui" e ele me convidou a entrar. Naquele momento me senti entrando no mundo dos que falam três línguas. Acenei-lhe com a mão e entrando completei: "merci". A propósito, não falo francês, meu segundo idioma é o espanhol e o terceiro, se depois deste vexame, se pode dizer que falo, é o inglês.

CHEGOU A MINHA VEZ

Com tantas estórias divertidas sobre os outros, às vezes me perguntam se não tenho alguma em que o protagonista principal seja eu mesmo. Com um pouco de vergonha, decidi contar mais uma. Aconteceu em Los Angeles, onde estávamos para mais um curso de implantes. Já no hotel, depois de um dia cheio de aventuras na Universal Studios (nada a ver com a igreja, que naquela época já tentava instalar-se na cidade), recebo um telefonema do Renzo Casellini, o protético das estrelas, convidando-me para jantar com um grupo de diretores da Interpore (na época, representante dos implantes IMZ nas três Américas, da qual eu era distribuidor). Não podia faltar, ainda mais que me convidara para um "drink" em sua residência, coisa que os americanos raramente fazem. Tomei um táxi e depois de muito andar por ruas desertas e escuras de Beverly Hills, onde até com veados (o animal de quatro patas) cruzamos, cheguei a sua mansão, em uma encosta com plano inclinado, que dá a casa um estilo todo especial.

Depois de conhecer a casa e degustar um raro vinho italiano, partimos em alta velocidade com sua Porshe Carrera preta. Lembro de ter sido aquela a primeira vez que vi um telefone celular, que só depois de cinco anos chegaria ao Brasil. Na chegada ao restaurante a Porshe ficou ainda menor, tal era a quantidade de Mercedes, Volvo, BMW, Lexus e outros que nem conhecia, enfeitando o estacionamento, num desfile tipo entrega do Oscar. Os pratos eram tão diferentes e o meu inglês ainda tão pobre que até hoje não sei o que comi. Lembro do nome do restaurante, Toscana, e de ter comentado que a pessoa que estava na mesa em frente era um dos filhos do velho Iwing, da família Dallas, que não lembrava o nome. Renzo disse-me para não ficar preocupado em não lembrar o nome, porque ele também não lembrava e que era para eu olhar para a mesa da direita, porque aquele eu lembraria. Era Clint Eastwood, com sua esposa de trinta anos, de casados, não de idade.

Para completar o deslumbramento, ele me convidou para um vinho no Regent Hotel. Mais carrões, um manobrista que o chamou pelo nome e estávamos em um piano bar que logo identifiquei: ali foram feitas as filmagens do Pretty Woman (Uma linda mulher) e naquele piano tocaram, se não musicalmente, pelo menos com as mãos, Richard Gere e Julia Roberts. Toquei no piano e talvez pelo terceiro vinho italiano da noite, senti necessidade de um toillete. Renzo me indicou, fazendo a ressalva que deveria ter cuidado, pois todos os metais dos sanitários e torneiras eram folheados a ouro. Eram e com tanta emoção para uma só noite, errei na pontaria e além de jogar líquido nas partes douradas, molhei minha calça, que por ser clara, ressaltava meu azar. Pensei um pouco no que fazer para não retornar naquele estado. A secadora de mãos me salvou. Além de muito ar, este era quente e em segundos minha calça secou e voltei sem que nada percebessem. Não bebi mais, até para poder acreditar que tudo aquilo era verdade.

No dia seguinte Renzo me convidou para conhecer seu laboratório. Mesmo com trabalhos dos países mais importantes do mundo nas bancadas, o que mais me impressionou foram as inúmeras fotos dele com o famoso Peter Thomas, tendo ao meio nove entre dez estrelas do cinema, dos esportes, da política e algumas outras figuras, que de tão famosas eu nem precisava ler a dedicatória para saber de quem se tratavam. Na volta passei pela calçada da fama e depois de tanta badalação fiquei imaginando que algum dia bem que poderia me acontecer algo, que me fizesse conhecido, mesmo que fosse só entre os dentistas. Quem sabe se um dia, reunindo as mais de cem estórias de ODONT'HUMOR que tenho, em um livro, este não venha a ser um "best seller" da Odontologia e juntos possamos dar boas risadas com as cômicas estórias dos outros e com as minhas também.

Este é um dos motivos que me leva a escrever estas páginas e mesmo já tendo escrito dezenove livros, feito quase cem viagens ao exterior, ministrado mais de cento e cinqüenta cursos e conferências, assistido a mais de duzentos cursos só de implantes e ter participado em mais de quinhentos e cinqüenta congressos, semanas e jornadas como expositor, vejo o quanto é difícil ter fama, até porque acho que ainda não a consegui. Pelo menos, sobra-me o consolo de fazer sucesso com os que me conhecem, lêem ou assistem. Com isto e com o prazer que tenho em transmitir o que armazenei pela vida, sinto-me feliz e gratificado.

SABE COM QUEM ESTAS FALANDO?

Às vezes me pego rindo sozinho pela rua e fico imaginando o quão louco os outros pensam que sou. Mal sabem que tenho estórias para fazer rir mais uma década, com o que vivi nestes meus primeiros dez anos acompanhando grupos de dentistas ao exterior. Leiam esta e vejam se não tenho razão. Ainda mais sabendo que o personagem da mesma já foi alvo de outra anterior e que dele ainda tenho mais duas anotadas para relatar. Quem me acompanha e tem boa memória sabe. É o Hamilton que foi dormindo na cadeira para o elevador.

Depois de mais um congresso e um curso pelos Estados Unidos, chegaram a Miami e deixando as malas no guarda volumes, foram para o centro aproveitar o último dia para umas compras. Nem tanto material dentário, mas principalmente uma lembrançinha para acalmar a dona da pensão, que alguns chamavam de rádio patroa, tal era o controle exercido. Sem muito para gastar, voltaram para o aeroporto ainda faltando umas seis horas para o embarque. Eram três amigos do mesmo estado e na hora de sentar para a derradeira rodada de cerveja antes do embarque, um deles comentou com os demais que precisaria que os amigos lhe pagassem, pois havia terminado seu dinheiro e não tinha cartão internacional para fazer uma retirada. Os outros dois se olharam, pois já haviam comentado entre si estar acabando o seu dinheiro e igualmente não terem cartão para saque. Fizeram as contas e tinham entre os três pouco mais de vinte dólares. Como se aproximasse a hora do embarque e não fossem mais precisar de dinheiro, Hamilton, bem ao seu estilo, recolheu os contados vinte e dois dólares, deu-os à garçonete dizendo que eram vinte de cerveja e dois de gorjeta. Beberam muitas e chegou a hora do embarque.

Pegaram as malas e foram para o balcão da companhia. Passagens na mão, tiveram da funcionária a única notícia que não poderiam ter: o vôo deles não estava marcado para aquele dia e sim para o seguinte. Como os bilhetes dos três era promocional, em tarifa reduzida, endosso para outra companhia, só mediante pagamento de taxa e sujeito à disponibilidade em lista de espera nas demais companhias. Passado o susto e o pânico inicial, não viram outra alternativa que passar a noite no aeroporto, com o que perceberam que as cômodas poltronas do saguão não haviam sido projetadas para dormir.

No dia seguinte, que começou mais cedo pelo movimento do próprio aeroporto, começaram a discutir o que fazer. Ir até a cidade, não tinham dinheiro para um táxi. No balcão da Varig, pelos vôos só serem noturnos, só haveria expediente no começo da noite. Caminharam pelo enorme aeroporto em busca de alguém que falasse português e só encontraram um ou outro falando espanhol, idioma que igualmente não dominavam. Isto mesmo, também pouco falavam o inglês, que poderia ajudá-los a encontrar uma alma caridosa. O tempo passou, a vergonha aumentou e a primeira coisa que deu certo, foi contando a estória triste, conseguirem do funcionário da Varig que ficassem na sala vip da companhia, onde poderiam saborear salgadinhos e bebida de graça. Foi o maior consumo de toda estória da sala vip, de todos os tempos. A fome era tanta que eles não conseguiam parar de comer nem para beber, o passatempo predileto dos três. Tomaram algumas e embarcaram.

Dentro do avião, estranharam a demora para partir. Logo a aeromoça chama pelo microfone um dos três. Se identificaram e ela informou que um dos três tinha problemas com o passaporte. Hamilton que era líder do grupo, disse que não iriam descer e depois de algumas negociações sem resultado, dois policiais americanos entram no avião para retirar o passageiro. Hamilton se interpõe e em português diz ao policial que eram brasileiros e que o avião da Varig, de acordo com normas internacionais era território brasileiro, que estavam indo para o Brasil e que não iriam descer. Com a ajuda da aeromoça, que agora fazia a função de intérprete, o policial disse que não havia outra alternativa ao brasileiro que não a de cumprir com os trâmites da migração. Novamente em português e com a voz já um tanto elevada, Hamilton perguntou ao policial se ele sabia com quem estava falando? Como o policial não respondeu, ele mesmo o fez, se dizendo amigo do Marco Maciel, sem mencionar que o mesmo era o vice-presidente ou que com um simples telefonema para o Marco, mandariam prender o policial.

Com a interferência do comandante do vôo, em inglês bem mais polido, foi acordado que o próprio comandante levaria o passaporte até a migração. Assim foi feito e o avião pode decolar, para euforia da maioria brasileira na aeronave. E com isto, os nossos heróis puderam desfrutar do, para eles, espetacular jantar servido a bordo, com a vantagem de não precisarem pagar as contas. A ligação para as esposas, avisando o dia da chegada, foi feita a cobrar, sem nada comentar da falta momentânea de dinheiro. Um pacto entre os três reza que jamais poderiam comentar com elas ou outrem do acontecido, motivo pelo qual, se algum dos amigos souber suas identidades, favor não comentar com as respectivas.

CASAL E UM SACO

Quem lê muito rápido o título pensa que é, quem lê com mais calma acha que falta um acento. O título está certo, embora com o decorrer da narrativa, alguns sejam levados a pensar que deveria ter. Mas quem conhece o casal, sabe que não merece. Voamos com três escalas para Las Vegas e mortos de cansados, chegamos ao hotel de nome bonito e apartamentos feios, algo como Cassino's Royal Park Hotel. Atrapalhados com fuso horário, queríamos comer algo e descansar. Ia esquecendo, o casal para não levar malas, optou por um saco de dois metros de altura, por um de raio, que era um saco para carregar, tanto nos aeroportos, como nos hotéis.

O restaurante, como de resto tudo no hotel, ficava ao redor do cassino, onde entre mesas, máquinas caça-níqueis e garçons, encontramos um sujeito em uma cadeira de rodas motorizada, com um tubo de oxigênio evidenciando suas precárias condições de saúde e um copo de whisky numa das mãos e um cigarro na outra, cheio de fichas fazendo seu jogo da morte. Por sugestão do casal, pedimos uma massa à bolonhesa, para não termos chance de surpresa com algum prato dos típicos americanos adocicados. Não deu outra, veio tão doce que tivemos de tirar a bolonhesa para podermos comer a massa.

 Dormimos a tarde toda e à noite fomos jogar. Ela queria entrar em todos os hotéis para ver como eram e eles queriam jogar, de preferência em um lugar só. Separamos o grupo por interesses e o do casal ficou mais leve, porque no outro ficaram todos os demais. Jogamos e depois de dois dias eu tinha perdido quase cem dólares. Já no aeroporto, não tinha esperanças de recuperá-los. No último café que tomei em Las Vegas, a garçonete deu-me como troco, cerca de dez moedas de cinco cents. Quase na hora de embarcar, avistei uma máquina para jogos de cinco cents. Para não ter de carregá-las, decidi por todas as moedas de uma só vez, para meu derradeiro jogo e baixei a alavanca. O resultado foi uma sirene estridente que em segundos trouxe para minha volta todos os jogadores, funcionários do cassino e passageiros que iam embarcar, porque a sirene não parava de tocar e as moedas não paravam de cair. Alguns mais experientes, diziam que eu havia ganhado o prêmio máximo e davam um sorriso amarelo como que a dizer: pena que de cinco cents. Foram U$ 125 em 2500 moedas de 5 cents. Recuperei o que perdera, com algum lucro e quase perdi o avião. E lá fui eu com um saco cheio de moedas.

Nosso destino era San Diego, sede do congresso. Antes de chegarmos, o avião fez três tentativas de pouso em condições de tempo muito desfavoráveis. Quando finalmente desceu, os amigos do grupo brincavam dizendo que as dificuldades para pouso que o piloto teve ou eram pelo saco do casal ou pelo meu, cheio de moedas. San Diego é uma linda cidade e dela saímos em direção a Los Angeles. Para nossa surpresa, na sala de embarque estávamos só nós. Quando íamos para o avião, dei-me conta que era um daqueles pequenos que não cabiam mais de vinte pessoas. Lembro de seu modelo, SAAB 340, que no Brasil é mais conhecida como marca de caminhões. Medo à toa: foi um dos melhores vôos que fiz até hoje, acompanhando a Califórnia em dos seus trechos mais bonitos, de lindas praias entrecortadas por rochas.

Em Los Angeles, outro saco. Além de carregar o saco de roupa, eles resolveram ligar a cobrar para casa. Foi meia hora para saber como fazer e meia hora para contar as mesmas coisas, um por um para toda a família. Para mim o saco foi mais pesado de carregar, não pelas 2500 moedas e sim porque eu já conhecia a cidade e terminei fazendo a maioria dos passeios que já havia feito. Alugamos uma van em seis e partimos em direção a San Francisco. Perdemos meia hora para acomodar o saco, o outro, que teimava em não entrar, muito embora a van fosse das grandes. Uma noite em Carmel, uma cidade tipo Gramado, só que a beira mar, um passeio em Monterrey, com algumas paradas para filmar, com uma filmadora que quase não cabia dentro do saco, e atravessamos a ponte Golden Gate, realizando um sonho. A cada hotel que ficávamos, era um saco para tirar as malas e o próprio. E para carregar também. A esta altura, o sacão já tinha dado cria. Dentro dele havia um outro menor, vazio, que com as compras, foi se enchendo até ficar quase do tamanho do grande. Quando um saco não descia, a preocupação era com o outro, que se roubado, acabaria com as lembranças da viagem. As boas.

Quando os demais decidiram conhecer o centro de San Francisco, com seus bondinhos, flores e sacadas, além das ruelas em curvas cinematográficas, o casal foi passar o dia no presídio de Al Capone, com direito a entrar na cela e almoçar. No outro dia partiríamos de volta para casa, para nosso azar, não de São Francisco e sim de Oakland, que fica do outro lado da baía. Como o vôo era às cinco da manhã, decidimos trocar de hotel e dormir perto do aeroporto, agora com os dois sacos na mão, porque iríamos entregar a van que nos agüentou e aos sacos por uma semana. Dallas, São Paulo e mais um hotel antes de chegar em casa. Já sem os sacos.

O casal não era tanto, mas os sacos eram. Ainda bem que o meu estava cheio de moedas.

DENTING X DANCING

Por não ter estudado inglês na quantidade devida, passei por muitas e ruins nas minhas viagens pela terra do Tio Sam e presenciei outras tantas que se não forem bem contadas e que se não tivessem testemunhas-dentistas para confirmar, pareceriam mentira ou invenção. Mas esta, tal qual outras que costumo contar, aconteceu e é verdade.

Estávamos em Los Angeles para um curso de implantes, com um grupo de animados brasileiros. Depois de um dia longo e cansativo, que se estendeu até quase dez horas da noite, se bem que o sol acabara de se por no Pacífico e a maioria dos integrantes do grupo decidiu jantar no restaurante do hotel que, diga-se de passagem, era uma atração. Grande, bonito e com um serviço de primeiríssima, até nos preços. Como todos tinham tido um dia econômico, talvez nem ligaram muito para os valores no cardápio ou talvez não tenham feito corretamente a conversão para cruzados, nossa moeda que acabara de estrear, depois de anos de violenta inflação e que fizeram o fim do governo Sarney, um transtorno.

Escolhemos uma mesa perto do piano, que era bem tocado por uma bonita pianista. Como boa parte dos brasileiros são galanteadores em sua terra natal, um dos do grupo, que para não comprometê-lo ainda mais, chamaremos de César e que se gabava de ter três mulheres ao mesmo tempo, decidiu jogar seu charme na colega de Arthur Moreira Lima. O que não sabíamos, pelo fato da viagem estar apenas começando, é que o inglês dele também não era grande coisa.

Independente desta limitação e pelo fato de a pianista não interromper sua apresentação durante o galanteio do brasileiro, percebíamos que eles de alguma forma se comunicavam e que a artista parecia muito séria, talvez entendendo as reais intenções do latino-americano, já bem conhecidas na América do Norte. Veio o intervalo e a pianista foi para um reservado descansar. Voltou e o nosso galã retornou direto e novamente apoiou-se no piano, agora já sem tanta receptividade da pianista. Terminamos o jantar e terminou a apresentação do nosso agradável fundo musical.

Não sei se para agradar-nos ou se para fugir do assédio marcante do nosso colega, a pianista decidiu sentar-se por alguns minutos em nossa mesa, onde alguns falavam bem o inglês e em poucos minutos tiraram o ar formal, quase sisudo da pianista, que se pôs a rir e num acesso de gargalhadas deixava os que não entendiam bem o inglês, com um jeito de bobos, pois tínhamos que acompanhar as risadas da maioria, sem entender bem o que estava acontecendo. Com a ajuda de um, que se dispôs a nos traduzir o que havia acontecido, continuamos a rir, agora de verdade.

César, sem o total domínio do idioma do Tio Sam, ao ser perguntado por sua profissão, confundiu-se e ao invés de dizer "dentist" disse "denting", que não sei porque coloquei entre aspas, visto que esta palavra não significa nada em inglês. A pianista, sem entender direito a pronúncia, imaginou ter escutado "dancing", que quer dizer dançarino, bailarino. Olhou para a barriga e para a má forma física do seu paquerador e no intervalo comentou com o maitre e com os garçons o quanto eram diferentes os bailarinos brasileiros. Talvez não estranhou de todo, porque César deu-lhe como motivo da viagem a participação em um congresso e que com isto ele poderia talvez ser um professor de dança, já em fase de aposentadoria, com o que os garçons concordaram e aceitaram a possibilidade de um bailarino ter um físico tão inadequado.

Quando se deu conta da verdadeira profissão, em poucos minutos de conversa com os demais dentistas do grupo, a pianista não se conteve e ficou mais ou menos uns dez minutos rindo, daquela maneira meio sonsa que costumam rir os americanos. Para completar chamou os garçons e o maitre, contando-lhes a verdadeira profissão do barrigudo. Os garçons ajudaram, fazendo coro em mais dez minutos de gargalhada.

Agora quem nada entendia era o César, que por não ter escutado a versão que nos fizeram, não imaginava que era dele que todos riam, mesmo que em alguns momentos a pianista, ao contar para os garçons, apontava para ele. E não deve ter coisa pior do que as pessoas estarem rindo da gente e a gente não entender porque. Tem sim. São os outros estarem falando um idioma que a gente não entende direito e ficarem rindo olhando para a gente sem que a gente tenha coragem de perguntar, até porque o idioma nestas horas nos atrapalha muito mais.

É, nesta o César dançou. Sem ser "dancing".

CONGELADA NO TEXAS

Ela era uma nordestina, mais bonita por dentro do que por fora e decidiu acompanhar-nos em nossa primeira viagem aos EUA, na época em que a informática lá já estava consolidada e Internet começava a despontar. Não sei se foi por isto que decidimos chamá-la Linda.net ou se foi porque os primeiros sinais globalizantes mencionavam Network ou ainda porque nossa cidade mais bonita e preferida da nossa escolhida de hoje, era a Lindacap. Só sei que até hoje ela é muito querida por todos que a acompanham nas muitas viagens que faz.

Durante dez anos, além das viagens anuais aos Estados Unidos, organizava mensalmente grupos para irem a Argentina, aprenderem como conseguir a osseoin­te­gração dos implantes. Linda, desde o começo foi candidata, visto que sempre se interessou pela Implantodontia, especialidade em que é uma das melhores em sua região. O motivo que sempre alegava para não acompanhar-nos era o frio do país platino, que toda semana mandava uma frente fria para o Brasil. Como em dezembro, janeiro e fevereiro não montávamos grupos, pela dificuldade de conseguir interessados, já que a maioria estava ligada em festas de fim de ano e férias, Linda terminou não indo a Buenos Aires, em nenhum dos quarenta e três grupos que organizamos.

Em nossa primeira viagem juntos, percebi o pavor que ela tem do frio. Chegamos em Dallas, um dos pontos mais ao sul e mais quentes do estado americano em março, quando o inverno, que lá é ao contrário daqui, já havia terminado, dando lugar a lindos dias primaveris. Isto mesmo, lindos dias, porque à noite era feia de tanto frio. Nas duas primeiras, Linda não saiu. Depois das outras participantes do grupo tanto a provocarem, dizendo que dormir em dólares era atraso de vida e de lhe contarem as maravilhas da cidade dos cawboys, suas roupas típicas, das enormes camionetes decoradas com lindas pinturas, do tamanho dos cavalos, da música country que ainda não havia acontecido no Brasil. Sem falar da boa carne que contrastava com a imagem que sempre fazem os brasileiros da comida americana, quase sempre levando os de primeira viagem para as lanchonetes tipo MacDonalds, que mesmo sendo a mais mundial dos lanches rápidos, lá tem uma puxada adocicada no sabor, Linda decidiu acompanhar-nos.

Preparou-se bem para a primeira noite na terra do Tio Sam. Colocou duas camisas, uma blusa, um casaco e uma calça extra por baixo da que víamos. Enquanto estávamos dentro do táxi e na rápida saída para entrarmos no restaurante, que tinha ótima calefação, nenhum problema. Depois da boa costela a moda texana, num ambiente alegre e musicado, decidimos caminhar pelo centro da cidade, para conhecê-la melhor e descobrir um lugar para escutar a boa música típica da região. Como éramos quase vinte, caminhávamos em grupos de três ou quatro, que segundo o interesse e o tipo de vitrine, se alternavam, ora uns, ora outros ficando para traz. Os americanos pouco caminham à noite, vendo lojas. Com isto não tínhamos problemas de algum se perder do grupo, por que quase sempre tínhamos como ver os demais.

Não foi o que aconteceu em dado momento, quando demos por falta dela, a Linda, que a esta altura já tinha conseguido uma manta e um gorro emprestados, visto que o frio se fazia cada vez mais intenso. Olhamos para traz e não a víamos. Decidimos, um grupo das mais amigas e eu, voltar para encontrá-la. Andamos duas ou três quadras e lá estava ela, encostada em uma dobra de loja, buscando abrigo. Perguntamos se não tinha medo de se perder e ela nem respondeu. Se ela queria entrar em alguma daquelas lojas, que estavam fechadas e ela novamente não esboçou o menor movimento facial. As mais amigas pegaram sua mão e estava fria, apesar de estar dentro do bolso, tocaram seu rosto e estava gélido, sentiram o ar, que mesmo saído de seus pulmões, estava frio. Começamos a ficar preocupados e alguém perguntou como ela conseguia manter-se em pé com todo aquele quadro, ao que eu respondi: está congelada. Nem ela nem ninguém riu ou muito menos fez algum comentário.

Como ela não se mexia, nem o olho, não falava e não esboçava qualquer reação, sugeri levá-la para o hotel. Foi o que fizemos no primeiro táxi e somente depois de meia hora de calefação, no máximo, foi que conseguimos sua primeira palavra, que foi de espanto: "Entrei numa fria!", disse provocando risos de alívio e descontração em nós, que a esta altura já estávamos mais do que preocupados.

Como o clima ficou descontraído, comentei que tinham sido os preços (eles acabavam de ser congelados no Brasil), que haviam congelado a Linda em frente à vitrine.

QUEREMOS VOLTAR

Cinco japoneses num grupo de vinte era muito, principalmente porque eles andavam sempre juntos, sem se separarem entre si e nem das suas máquinas fotográficas e filmadoras, tal qual os originais. Como eram meio parecidos, víamos por todos os lugares. Os nossos, às vezes, confundindo-os com os dos outros, que também haviam concorrido ao congresso da Academia Americana de Osseointegração.

Na chegada eles já nos fizeram rir. Nosso hotel era um daqueles típicos americanos para convenções, com uma quadra de tamanho e tantas lojas dentro, que mais parecia um shopping center. Ao ver todo aquele luxo, um dos japoneses comentou com os outros que aquele hotel devia ser muito caro e que deviam buscar um mais barato no centro. Com dificuldade o convenci a ficar ali, argumentando que as diárias estavam inclusas no pacote que havíamos pago no Brasil. Meio desconfiados, concordaram, querendo ter certeza de que não precisariam pagar nenhum extra.

À noite o criador do sistema de implantes IMZ, Axel Kirsch, convidou os brasileiros para um coquetel de boas vindas. Os japoneses, alegando cansaço e fome queriam ir a algum lugar para comer. Júlio Sá Ferreira, um periodontista que morara nos Estados Unidos, disse ser bobagem porque os coquetéis americanos valiam por um jantar. Novamente meio desconfiados, os nipônicos concordaram em ficar. De fato, a recepção teve entradas que valiam um jantar e pratos quentes equivalentes a um banquete, além de sobremesas e vinho alemão. Este tipo de atividade, nos EUA, tem hora pontual para começar e para terminar, menos para os brasileiros, que não queriam ir embora.

No dia seguinte, o quinteto não se conformava de ter que pagar U$ 250 pela inscrição ao congresso. Lembro que um deles veio me perguntar se esta taxa já não estava inclusa no pacote. Não os tenho encontrado mais e fico imaginando como reagiriam agora que a inscrição ao mesmo congresso, sem extras, não sai por menos de U$ 400. Certamente iriam perguntar como pode haver inflação em dólares. Lembro que alguns brasileiros resolveram o problema, inscrevendo-se como estudantes, mesmo tendo boa calva ou cabelos brancos. Talvez por isso, hoje no mesmo congresso, estudantes precisam levar uma declaração da universidade para usufruir desta tarifa especial.

À noite, por sugestão do Júlio, decidimos retribuir o coquetel com um jantar para nosso anfitrião do dia anterior. O próprio, por não conhecermos a cidade, nos indicou um restaurante. Os mais de U$ 15 da corrida do táxi já não agradaram muito aos cinco orientais, que foram em um único carro rachando a conta, que por cabeça não foi muito alta. O restaurante escolhido estava no nível do homenageado e no padrão da noite anterior. Com dificuldade escolhemos os pratos e o vinho, que por sugestão do Julio, seria novamente o alemão e por ser especial foi bastante consumido. O local e o serviço apontavam para uma conta alta, que acabou se confirmando na hora que foi apresentada. Feita a divisão, cabiam U$ 55 para cada um. Os japoneses pediram para refazer a conta, não a do restaurante e sim a da divisão. Não adiantou. Deu na mesma. Chorando e chiando pagaram. Lembro de ter escutado do mais controlado deles, que era melhor irem embora. Como era tarde, concordei, ao que ele completou, para o Brasil, porque com o que ele havia gasto para a primeira noite no jantar, não teria dinheiro para os quase vinte dias que ainda restavam de viagem.

Ao sairmos do restaurante, parte do grupo ficara com o Júlio e com o Axel, o que faria aumentar mais ainda a conta. A conversa era outra. Por sugestão do que prepôs voltarmos para o Brasil após o rateio da conta, do restaurante não do táxi, alguns do grupo chegaram a se entusiasmar em voltar para o hotel caminhando. A idéia só perdeu adeptos porque nenhum de nós conhecia a cidade e muito menos o caminho. A decisão foi tomarmos táxi. Como estávamos em dez, íamos pedindo três táxis, com o que não concordaram alguns japoneses, porque assim teriam que dividir os cerca de U$ 15 em três e não em cinco. Alguém sugeriu dois táxis de três e o dos japoneses de quatro, com o que não concordou o oriental que teria que dividir por três. Não houve saída e a solução conciliadora foi chamarmos apenas dois táxis e apertados os cinco não nipônicos dividirem o outro táxi por cinco.

Até por que se assim não fosse, poderíamos ter problemas com algum dos remanescentes, já que na hipótese de dois táxis para cinco, um grupo teria três e outro apenas dois para dividirem a conta. No trajeto, um dos nossos cinco, apertado no banco da frente ainda teve o bom humor de comentar que por sorte as porções americanas eram pequenas, pois se fora numa churrascaria de rodízio à brasileira, que para nosso orgulho agora existem no Texas, talvez tivéssemos dificuldade para cabermos os cinco, além do motorista, que não entendeu durante todo o trajeto porque riram tanto os brasileiros, se até para comer precisam fazer uma vaquinha.

LIMOU NA LIMUSINE

Los Angeles é uma cidade especial. Além de ser uma das dez maiores cidades do mundo, se situar na Califórnia, ser praia do Pacífico, ter como bairro Hollywood e milhares de milionários em Beverly Hills ou em outros bairros chiquérrimos, tem um incalculável número de atrativos cinematográficos. Foi pensando nisto que nela chegamos, em março de 1990, depois de termos participado do encontro anual da Academia Americana de Osseointegração em Dallas.

No dia que tivemos livre na capital do Texas, para conhecer melhor e mais rapidamente a cidade em que foi morto John Kennedy, tive a infeliz idéia de contratar, sem combinar detalhes, duas vans para nosso grupo de dezoito implantodontistas. Era minha primeira vez nos Estados Unidos, meu inglês não era grande coisa e me empolguei quando falaram em vinte e cinco dólares para um mini tour pela cidade. Fomos e depois de cansarmos de ver edifícios todos de vidro, tal qual estávamos acostumados a ver no seriado Dallas, que era a sensação da época, voltamos. A maior surpresa do passeio foi que os vinte e cinco dólares não eram por van e sim por pessoa. Como éramos nove em cada, foram U$ 450, um absurdo por uma tarde.

Alguns ficaram descontentes e pagaram, outros ficaram brabos e se recusaram a pagar. Lembro de ter pago por uns e que outros disseram que tinha valido a pena. Como já havia acontecido em Dallas, em Los Angeles ficamos noutro daqueles hotéis americanos de cair o queixo. Ainda bem que as diárias já estavam incluídas no pacote, senão iríamos ter problemas novamente. Como teríamos somente uma tarde livre antes do curso de credenciamento nos implantes IMZ, procurei na mini agência no lobby do hotel, por algum tour. A funcionária me perguntou quantos éramos e de pronto sugeriu três limusines. Já escaldado com o acontecido em Dallas, descartei, ao que ela completou dizendo ser o meio mais barato de fazer um tour de duas horas e meia por Los Angeles e que sairia U$ 25 cada. Quando ia dizendo novamente que não, ela completou... cada limusine. Pelas dúvidas perguntei se ela falava espanhol e como a resposta foi positiva, pedi-lhe que me explicasse bem para não ter problemas com os colegas. Paguei-lhe os U$75 e fui direto contar a boa nova para o grupo.

Sem dizer-lhes que tipo de carro era, avisei que o tour que teríamos a tarde seria por minha conta, para apagar a imagem do anterior. Quando eles viram as três enormes e lindas limusines, com as portas abertas nos aguardando, alguns não queriam nem embarcar, com medo de repetirem o acontecido no dia anterior. Só o fizeram quando lhes garanti que não iriam pagar nada. Alguns ficaram tão eufóricos com o primeiro passeio de limusine na vida, que entraram sem prestar atenção no detalhe de que também internamente elas eram bem maiores do que um automóvel comum. Foi o que aconteceu com Munira, uma turquinha até no nome, que decidiu entrar primeiro. Sem encontrar de pronto o banco para sentar, terminou esparramada no assoalho da limusine, ficando como prova da cena inusitada e divertida, um ferimento no seu nariz que, diga-se de passagem, era bastante grande, como o da maioria dos descendentes daquela parte do oriente. A princípio ficamos sem jeito, sem saber se ríamos ou se ficávamos quietos, mas a cena foi decididamente patética: ela ali de boca no chão e nós quase sem percebermos que sua saia havia subido, mostrando peças íntimas que no passado haviam feito uma loura de vermelho, famosa. E Munira nem vermelha ficara...

Nosso passeio foi de cinema. Hollywood, Universal Studios, Beverly Hills, a casa de vários astros do cinema, a calçada da fama, Sunset Boulevard, Marina Del Rey e o laboratório de Renzo Casellini, o protético do Peter Thomas e de nove entre dez estrelas do cinema, sem contar que nos U$ 25 estava incluída uma champagne e refrigerantes. Foi tão bom que decidiram dar uma gratificação de U$ 20 ao motorista, que além de falar espanhol, nos brindou com mais uma hora e meia de cortesia. Foi uma tarde inesquecível, inclusive pelo vôo da Munira e por não terem que pagar nada para curtir o primeiro passeio de Los Angeles. Lembro que Munira, a despeito da vaidade feminina pediu para que o ferimento em seu nariz deixasse uma cicatriz a fim de que nunca mais esquecesse do dia em que foi plebéia, princesa e rainha a um só tempo.

Acho que ficou, porque ela nunca mais apareceu!

SEGUNDO MAIS ALTO DO MUNDO

Depois de cinco viagens aos Estados Unidos, sem conhecer Nova Iorque, estava mais do que ansioso por esta, que além da "big aple", nos levaria também a Chicago, onde aconteceria o encontro da Academia Americana de Osseointegração, motivo maior do grupo que organizamos. Desde meus tempos de adolescente, vendo os filmes policiais, a maioria rodados ou inspirados na vida das duas cidades, tinha vontade de conhecer estas duas das maiores cidades do mundo.

A recepção não poderia ser mais calorosa ou friorenta, melhor dizendo. Voamos num antigo DC 10, o antecessor do MD 11, e um dos colegas do grupo, depois das palmas ao piloto pelo excelente pouso, exclamou alto: "Terminou o estado de alerta!" E para os que como eu, não entenderam, ele explicou que toda vez que chegava um avião velho do Brasil, o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil eram acionados para caso de emergência. Para sorte nossa não foi preciso.

Fomos para o hotel, que para nossa sorte era bem central. Nem bem tínhamos ido para os apartamentos, a ala feminina do grupo já deu o grito de guerra, querendo ir direto para as lojas. Com a outra ala, fomos para a Broadway, que ficava perto. E dali caminhamos o resto do dia, meio sem destino certo, até porque nenhum de nós havia estado antes no coração do mundo. Embora sem conhecermos, todos os lugares diferentes que passávamos no "downtown", nos pareciam familiares de tão conhecidos que são os pontos turísticos americanos.

Embora separados das “compradoras”, não resistimos a uma primeira comprinha. Como o frio era bem maior do que imaginávamos e o pior estava por vir, mais ao norte, em Chicago, decidiram alguns comprar um casacão daqueles ¾. O último do grupo, por ter mais limitações no inglês que os demais, não entendia o que o vendedor estava a responder para seu pedido algo inusitado: "one me". Como ao dizer "finish" não fechavam a comunicação, lembrou-se do italiano e dizia "finito", ao que o nosso colega respondia: "finito non grossito". Com jeito o convencemos a comprar em outra loja.

Para não gastar muito, decidimos ao invés do almoço, fazer um lanche. Como estávamos perto do Rockfeller Center, optamos por uma lanchonete, que tinha como atrativo a vantagem de podermos ficar apreciando uma centena de patinadores. Tão distraídos que estávamos, famintos e com pouca habilidade em manusear cardápios americanos, fomos pedindo sem muito atentar para os preços, inclusive tortas e outras especiarias de chocolate, que eram as preferidas dos demais freqüentadores. Nem nos chamou a atenção que a maioria dos mesmos tinha mais idade e jeitos de milionários. Só percebemos depois de pedir a conta e dividi-la. Foram mais de U$ 35 por cabeça. E nós queríamos economia e não tantas calorias.

Nos guiávamos por um pequeno mapa que nos havia sido dado no hotel e como por ele a Estátua da Liberdade parecia perto, decidimos ir caminhando. Depois de mais de uma hora caminhando e como a aparência da zona já não fosse mais tão segura, perguntamos a um taxista que nos disse precisar mais uns dez minutos para chegar. Como já havíamos caminhado uma hora, decidimos entre nós, ir a pé. Cubano, ele entendeu o que falávamos e completou a informação: "De táxi". A pé dá mais uma hora. Todos optaram pelo táxi.

Pagamos o ticket de acesso e começamos a subir. Depois de uns cinco andares por uma escada estreita, pude olhar para cima e ver que correspondia a um quarto do que ainda teríamos que subir. Por minha pressão alta, decidi desistir. Na volta, o grupo uníssono, disse que havia perdido uma das sete maravilhas do mundo moderno. Como alguns disfarçavam um sorriso, desconfiei e eles logo contaram a verdade: uma hora de escadas apertadas no anda e para, ao chegar lá em cima mal dava para fotografar, porque todos os de traz empurravam para chegar a sua vez. Rimos muito durante todo o trajeto de volta da barca.

No dia seguinte, refeitos do cansaço, decidimos subir na torre do Empire State. No guichê todos riram porque perguntei se o ticket dava direito a elevador ou se teríamos que subir os cem andares de escada. Em Chicago, subimos na torre da Sears, a mais alta do mundo. João Alfredo, de Cuiabá, passou o resto da viagem dizendo que a de Chicago era a segunda mais alta do mundo. Quando lhe corrigiam, emendava sorrindo que a maior estava em sua cidade e que os deputados de Brasília viviam reclamando da sombra que fazia, já que a mesma, durante o dia, cobria justamente a capital federal, de forma que os mato-grossenses precisariam diminuir pelo menos uns vinte andares, para a sombra não afetá-los, com o que não concordavam os deputados cuiabanos, pois com isto ela perderia a posição no livro dos recordes, até para Nova Iorque.

O AMIGO DO FITTIPALDI

O sol havia submergido por de traz das águas do Pacífico, havia mais de uma hora quando finalmente chegamos a Carmel. Como muitos haviam falado bem das belezas da cidade, decidimos percorrer a avenida principal de ponta a ponta, antes de procurarmos hotel, já que não tínhamos reserva. Talvez pela função que eu desempenhava no grupo, "tour condoctor", imaginando eles ser fluente o meu inglês, o grupo que nunca viajara comigo, decidiu que seria minha a função de decidir em qual hotel ficaríamos. Eram poucos na cidade e pela visão do passeio, todos de pequeno porte, embora com muito "charme", se bem que vistos a noite. Aceitei, e na van que havíamos alugado em Los Angeles, saímos a procura.

Não precisei mostrar muito meu pobre inglês: a maioria estava lotada, sendo desnecessária a conversação por melhores preços. O mais bonito, com melhor localização e iluminação, nos permitindo antever a beleza de seus jardins e por que não de suas acomodações, tinha disponibilidade. Quando perguntei o preço, visivelmente quase desmaiei: U$ 220. Já meio sem argumentos com a profissional gerente, comentei-lhe que em meu país um hotel, mesmo com aquele luxo, não sairia por mais de U$ 90. Não sei de onde me saiu aquele valor, mas a reação dela, ao invés da esperada repulsa, foi perguntar de qual país éramos.

Quando lhe falei do Brasil, ela comentou que amava nosso país, embora não conhecesse. Disse-lhe que deveria vir porque os preços aqui eram bem mais convidativos, não só dos hotéis, como também dos restaurantes e que no Brasil, a maioria das atrações a visitar, não se pagava para entrar, como nos Estados Unidos, onde em tudo se paga para ver. Comentei que no dia que viesse, para nos telefonar, que conseguiria um amigo em cada cidade para recepcioná-la, ao que ela sem rodeios emendou: então vou fazer a U$ 90 o apartamento duplo para vocês, quando muitos dos hotéis de turistas dão o preço por pessoa.

Em virtude dela não perguntar a ninguém se poderia fazer tal preço e talvez querendo fazer-lhe um galanteio, perguntei se era a dona do hotel. Ela, surpresa disse que não, que a dona era a Doris Day. Se tivesse olhado antes a incontável quantidade de posters anunciando os filmes da famosa atriz do passado, teria economizado a pergunta e não a deixado sem jeito, como demonstrou ficar. Diga-se de passagem, o hotel era de cinema e tudo dentro dele dava a impressão de já ter feito parte de filme, inclusive os objetos da decoração e os móveis. Resolvida nossa necessidade primeira, perguntei-lhe onde havia um restaurante nas imediações, que pudéssemos ir caminhando, para assim conhecer melhor a cidade. Agora! Disse ela com espanto. Olhei no relógio, pouco passava das onze horas e lembrei-me que, exceto nas grandes cidades, nas demais tudo fecha mais cedo, nos EUA.

Depois de ligar em vão para três ou quatro e todos estarem fechados, ela comentou-me com um sorriso amistoso: neste vou conseguir, o que entendi logo que atendeu e ela mencionou tratar-se de um grupo de brasileiros. Ele concordou e como era perto, em poucos minutos estávamos lá. De fato estava fechado. Antes que chegássemos mais próximo para ver, vimos alguém abrindo a porta e acendendo as luzes. Pelo jeito era o próprio dono e não tinha ninguém a ajudá-lo. Somente depois de alguns minutos chegou alguém que imaginamos ser o cozinheiro. Nos comentou que fechavam às 22 e que já fazia quase uma hora que estava fechado. Ficamos meio sem jeito e antes que pudéssemos demonstrar, ele disse que amava o Brasil, com um sotaque bem italiano. Perguntei-lhe onde e quando tinha visitado nosso país pela última vez. Surpreendeu-nos dizendo que não conhecia e de imediato lhe perguntei porque gostava sem conhecer. Respondeu-nos que era muito amigo de Emerson Fittipaldi e que este e seus amigos iam sempre lá quando iam correr em Laguna Seca, que é um autódromo próximo dali e de Monterrey, outra praia muito conhecida, que hoje lembro, por ser onde morreu John Denver, em um desastre com seu avião.

Perguntou se poderia preparar o prato preferido de Fittipaldi e sem ver o cardápio e saber seu preço, tivemos medo. Mas como não tínhamos outra opção e imaginando que poderia nos passar o mesmo que acontecera no hotel, concordamos, sem perguntar, embora de imediato nos tenha pregado outro susto, trazendo o vinho que Emerson costumava tomar. Susto maior foi ver depois de três garrafas abertas, que o vinho além de ser de primeiríssima, era italiano. Desconfiado perguntei-lhe porque não nos oferecia um vinho de Nappa Valley (região da Califórnia, próxima dali e famosa por produzir o melhor vinho americano). Nem se compara, respondeu assustando-nos mais ainda. Talvez por deixar trans­parecer nosso medo, ele cortesmente disse que o vinho era por conta da casa, ao que desejamos que trouxesse mais. E trouxe. Foram mais de dez garrafas em sete para beber.

O Fetuccini preparado à moda Fittipaldi era realmente para não esquecer, se bem que o melhor da estória ainda estava por acontecer. O marido de uma dentista que acompanhava o grupo, talvez já embalado pelo bom e barato (por ser grátis) vinho, decidiu comentar que a bebida típica brasileira era melhor do que vinho e não percebendo que o simpático italiano enchia sua esposa de atenções, dispôs-se a ir para a cozinha preparar a propagandeada caipirinha, tendo que voltar algumas vezes, já que o cozinheiro não falava espanhol e ele não falava inglês. Em todas, o rápido italiano estava perigosamente próximo de sua esposa, se bem que com a mesma rapidez se afastava, de forma que com o retardo de reflexos do barman recém promovido, este nem percebia. Saiu a caipirinha e os brasileiros com o vinho italiano de primeira nem se aventuravam a experimentar. Só o italiano e o marido desligado a bebiam, sendo que o primeiro enchia de elogios o segundo, fazendo com que por duas vezes este voltasse à cozinha para preparar mais caipirinha. E o italiano já não estava nem mais perto da bela mineirinha. Estava junto e esta com o vinho nem esboçava repulsa ou reação, tal qual o marido.

Fomos ficando preocupados porque o mineirinho não comia e o italiano dava a entender que iria jantar a mineirinha, que falava razoavelmente o inglês e entendia bem de mímica erótico-sentimental italiana. O jeito era ensaiar ir embora, ao que nosso anfitrião prontamente cortava trazendo mais um vinho e pedindo mais uma caipirinha. Nossa resistência ao vinho era bem menor do que a do simpático italiano, a menos que nosso anti-herói brasileiro, por não compreender o idioma tenha colocado algo como água mineral no lugar da pinga ou vodca, no preparo da mais típica bebida nacional. Neste clima foi difícil pagar a conta, não só porque o italiano não queria que a mineirinha se fosse e porque não queria nos cobrar. Insistimos e depois de mais duas garrafas de vinho, estabeleceu um preço simbólico de U$ 100 por tudo, o que nos pareceu razoável pelo que nos foi servido, em que condições e por imaginarmos que para alguém do nível de Emerson Fittipaldi, os U$ 100 deveria ser o preço para um casal.

No caminho para o hotel, nos divertíamos porque a mineirinha dava uma dura no marido por ter bebido tanto e este ao invés de retribuir-lhe a bronca por permitir o assédio do veloz italiano, só insistia em dizer que amanhã ele é quem iria dirigir a van até San Francisco. Como no samba, amanhã vai ser outro dia, deixamos nosso anti-herói dormir com a sensação que tinha alguma coisa em comum com Fittipaldi: a intimidade com o italiano, para não nos comprometermos com outras coisas, se bem que alguns do grupo, por gozação, diziam que poderia haver uma cozinheira lá dentro e por isto o mineirinho não saía de lá. Outro disse que era por causa do cozinheiro, mas aí já é demais. O certo é que o vinho era ótimo, a caipirinha não sei, o restaurante inesquecível e o hotel idem, principalmente por seus jardins, paredes de vidro, lareiras e flores a se perder de vista. Carmel, não só na cabeça do mineirinho, como na dos demais também, vai ficar inapagável em nossa lembrança, ainda que o mineirinho e a mineirinha não estejam mais juntos.

AYRTON SENNA, ARROZ E FEIJÃO

Era o último dia de minha primeira viagem aos Estados Unidos e ainda continuava deslumbrado com tudo que tinha visto e sentido. De tão marcado, imaginava ter ido ao futuro e estar prestes a voltar. Mas quem viaja ao exterior, tem sempre emoções até o último minuto e as minhas ainda não tinham terminado.

Andamos por lugares como Dallas, Fort Worth, Los Angeles, Carmel, San Francisco, Miami, Fort Lauderdalle e Orlando, alternando cidades grandes, com pequenas bonitas. Dallas com seus edifícios de vidro que encostam no céu refletindo brilho e luz para toda a cidade, além de ter a voz embargada no lugar onde mataram o primeiro presidente católico dos Estados Unidos. De Fort Worth eu nunca havia escutado falar, mas o tamanho do seu aeroporto e o espetáculo de, ao estarmos indo à noite para uma festa de rodeio, olhar para o céu e imaginar o mais estrelado do mundo e aos poucos ir percebendo que todas as estrelas se movimentavam na mesma direção, me fez pensar que eu havia bebido demais, o que não ficaria bem a um coordenador de grupo. Com o tempo fui percebendo que giravam e se dirigiam baixando para um mesmo ponto e que eram na verdade centenas de aviões, fazendo operação de descida, em um típico começo de noite das grandes cidades americanas.

De Los Angeles, depois de ter conhecido o centro antigo e quase nos termos perdido em um bairro de mexicanos, fizemos o contraste conhecendo a Disneylandia original, os estúdios da Universal, Hollywood, Beverly Hills e a calçada da fama, tudo num dia só. Foi deslumbre igual ao que imagino sentiria ser convidado para assistir a cerimônia de entrega do Oscar, onde, diga-se de passagem, estivemos em frente e pelo lado de fora imaginarmos o que poderia ser o luxo de seu interior. Hippies, carrões, motos Harley Davidson e mansões completaram nosso êxtase.

Da viagem para San Francisco, a estrada costeando o oceano Pacífico, que de pacífico tem muito pouco e o castelo de William Randolf Heast, (o poderoso fundador de uma das maiores cadeias de jornais e TV's do mundo), que aumentou sua fama por ali ter vivido a herdeira Patrícia, que depois de seqüestrada, se apaixonou pelo seqüestrador e terminou presa por se tornar seqüestradora também, só perdem em emoção para Carmel, a cidade de cinema que até Clint Eastwood quis ser prefeito. Uma espécie de Petrópolis, Campos do Jordão ou Gramado no estilo, só que a beira mar. Em Carmel, além de termos nos hospedado no hotel da Doris Day, jantamos num restaurante cujo dono era amigo do Emerson Fittipaldi e nos tratou tão bem, a ponto mereceu uma estória especial, que você encontrou no capítulo anterior.

A chegada a San Francisco daria “close” para um filme, tal era a imagem de seis deslumbrados brasileiros percorrendo, sem correr, a ponte Golden Gate e do outro lado tentando ver a cidade nos binóculos públicos, sem ter a moeda de 25 cents para fazê-los funcionar. Era apontar, olhar e numa fração de segundos a imagem se fechar por falta de colocação da moeda. De tanto fazer, a justificativa nos parecia até estar escrita em português, talvez pelo fato de tanto a lermos, ser-nos possível entender seu conteúdo, ainda que nosso inglês não fosse bom a tanto.

Fazer o vôo de costa a costa, atravessando todo o território americano e pelas quatro horas de diferença no fuso horário, sair às seis da manhã, voar quatro horas e chegar a Miami igualmente às seis da manha e continuar vendo o dia amanhecer em todo o trajeto e novamente tomar café da manhã foi outra experiência de deixar tupiniquim com pena na cabeça. Como marinheiros de primeira viagem, voando pelos céus americanos, programamos mal o roteiro já que íamos para Orlando, conhecer a outra Disney e assim tivemos que gastar mais uma passagem, que poderia ter sido economizada se tivéssemos tomado um vôo direto a Orlando, além de nos obrigar a alugar uma van para fazer o trajeto de volta. Ou foi ao contrário? A confusão foi tanta e os dez anos passados não me permitem lembrar com exatidão. Sem contar que o hotel em Orlando era muito longe de todas as atrações que pretendíamos visitar. Recordo do quilômetro que caminhamos para chegar a uma pizzaria, tentando fugir da comida americana. Depois de meia hora caminhar e meia hora esperar, provar a pizza completamente doce, nos fez pedir um táxi e ir dormir mais cedo de tanta raiva.

De toda a viagem, o que melhor lembro foram os mais de cinco quilos que perdi, sem estar fazendo qualquer tipo de regime. Não conseguia comer quase nada, por não suportar o hábito local de colocar tempero doce em tudo e pelos doces, talvez por razões dietéticas, não serem doces como os daqui e também porque tínhamos no grupo alguns que já conheciam os EUA e um ou dois que lá inclusive já tinham morado, que em cada cidade nos diziam onde tínhamos que almoçar ou jantar. Além das naturais dificuldades com o idioma na hora da escolha, quando conseguia a muito custo identificar algo para comer, o garçom me perguntava em inglês rápido, qual o tipo de molho ou se queria bem passado ou ao ponto e lá ia por terra o meu pobre inglês. Lembro de uma tentativa que fiz ao pedir o mesmo que um dos que falavam bem inglês havia pedido, emendando logo após o pedido dele um "one more for me", ao que o garçom sem entender, perguntou ao bom de inglês o que eu estava pedindo. Lembro de ter escutado algo como "me too", que só alguns anos depois vim a entender o significado.

Em Orlando fiquei indignado por ter que várias vezes esperar quarenta a cinqüenta minutos na fila para poder entrar na atração seguinte, que muitas vezes não levava dez minutos para se ver ou terminar. Mesmo assim valia a pena, tanto que corríamos para tentar não pegar fila na atração seguinte. Só nas não muito boas não havia. Para passar melhor o tempo, nas de longas filas havia um locutor que de vez em quando contava aquelas piadinhas sem graça que só americano consegue rir e eu tinha que dar risada, sem ter entendido quase nada, até para os colegas de grupo não perceberem que meu inglês era pior do que eles imaginavam ser.

Por sorte a viagem estava terminando e logo poderia voltar a ter paladar. Miami era a última cidade e como não me sobrava muito dinheiro tratei de comprar somente coisas úteis. Uma das que lembro era uma filmadora que tinha inacreditável tamanho, correspondendo à metade das que se via no Brasil àquela época e exatas três vezes maior das que se usam hoje. A estou guardando para em alguns anos poder vendê-la nestes lugares de antiguidades. Acho que a comprei na Victor's, não só pelo preço, mas pelo fato de ser loja para brasileiros, onde todos falavam português e principalmente porque me haviam dito que lá havia um restaurante que todos os dias servia feijoada.

Não suportava mais a fome e mesmo não acreditando fui conferir. Na loja perguntei onde era o restaurante e um dos balconistas rindo e entendendo meu drama, que na verdade era o da maioria, a ponto de um bom marqueteiro ter idealizado a feijoada como chamariz da loja, indicou-me a direção. Não era um restaurante, na verdade havia quatro ou cinco mesas e uma abertura por onde uma negra simpática, com mais jeito de brasileira, passava uma bandeja pronta com a feijoada à americana. Respeitada as limitações e dado o incontido desejo de comida brasileira, dei nota 10 para o prato e uma nota de 10 dólares, achando até barato o que no Brasil não passaria de um PF. Mas a sobremesa ainda seria melhor.

Em um dado momento, sentou-se na mesa em frente a nossa, sozinho e com ar um tanto tímido, um tipo que à época ainda não era tão conhecido no Brasil, até porque estava voltando da segunda vitória em sua carreira de mais de quarenta e que talvez ainda nem imaginasse que viria a ser tri campeão mundial. O próprio, Ayrton Senna. Um dos colegas perguntou se era ele mesmo e os outros dois ao vernos comentar se viraram para vê-lo, sem o menor disfarce, fazendo com que Ayrton, com seu jeito gente, que depois o notabilizaria pelo mundo, percebendo o espanto e surpresa dos dois incrédulos que acabavam de virar o rosto com sincronia, com um meio sorriso e discreto aceno nos cumprimentou. Na verdade nem sabíamos que no dia anterior ele havia vencido o Grande Prêmio dos Estados Unidos, naquele ano disputado no circuito de Phoenix, no deserto do Arizona.

Com a mesma discrição que chegou, se retirou, sem que houvéssemos percebido, até porque decidimos repetir a feijoada, mais pela fome do que por sua excepcional qualidade, o que logicamente não aconteceu com nosso atlético campeão. O dia passou e inexperientes fomos para o aeroporto com duas horas de antecedência, como recomendavam as intrusões da passagem. Desnecessário dizer que fomos os primeiros a chegar e não encontramos o balcão da Varig para “check in”. Lógico, os funcionários de lá também eram brasileiros e ainda não haviam chegado para colocar a plaqueta indicativa. Fomos para a sala de embarque assim que o alto falante chamou pela primeira vez. Logicamente, de novo os primeiros a chegar.

Nosso consolo foi ver meia hora depois, o futuro ídolo dos domingos, tranqüila e humildemente sentado em cima de sua mala de mão, que mais parecia um saco de dormir. Como ficávamos o tempo todo olhando para ele e algumas vezes o apontando, em um dado momento ele nos repetiu o aceno e esboçando um sorriso fez um sinal de positivo, que muitas vezes depois nos levou a emoções pelo mundo, na voz de Galvão Bueno e uma bandeira do Brasil a tremular. Não resisti, peguei um papel e caneta e num autêntico estilo fã, fui pedir-lhe um autógrafo, ao que ele, solícito e atencioso prontamente atendeu, alertando-me: "Vê lá o que você vai fazer com a minha assinatura". Inocente contei-lhe que era para um irmão fanático por corridas de automóveis, ao que ele de novo me gozou: "Engraçado, ninguém pede um autógrafo para si, sempre é para um filho ou outra pessoa". Naquele momento não poderia imaginar que estava falando com um dos maiores ídolos que este país já conheceu. Só tive emoção maior naquele fatídico primeiro de maio!

Quando já estava me imaginando alguém importante, ali conversando com Ayrton Senna, chamaram para embarque e ele se foi para a primeira classe e nós para a econômica.

E AGORA SATOSHI?

Uma das melhores coisas que a vida me reservou foi organizar grupos de Cirurgiões Dentistas para um curso de implantes na Argentina. Foram 43 turmas e de cada uma delas ficava um fato pitoresco, os quais com um pouco de boa vontade pode ser humorístico.

Começava divertido, porque nos encontrávamos no aeroporto de São Paulo, entre 20 e 30 profissionais, a maioria que eu não conhecia e quase sempre sem que eles se conhecessem entre si. O inusitado, somado ao desconhecido libera a personalidade e se não voltamos a ser crianças, pelo menos soltamos os freios que nos impomos para o comportamento do dia a dia.

Voávamos pela Aerolíneas Argentinas e para muitos era a primeira vez que saíam do país. Já começava divertido porque àquela época a companhia aérea era estatal e as aeromoças tinham em média entre 40 e 50 anos, pelo qual as chamávamos "aerovelhas". Para completar, aeromoça em espanhol é açafata, que com o espírito solto virava a safada nas brincadeiras da maioria, sem que elas entendessem porque nós ríamos tanto.

Depois de um sobrevôo nas cataratas do Iguaçu, uma das vistas aéreas mais espetaculares do mundo, na opinião de turistas dos mais variados países que a cada viagem estavam presentes, alguns não entendiam como podiam falar castelhano os agentes da polícia Argentina que naquele aeroporto faziam os serviços de migração. Estávamos em Puerto Iguassu, separados de Foz do Iguaçu apenas por um rio.

O equipamento era na maioria das vezes um Boeing 727, que não opera mais passageiros no Brasil e ao chegar no Aeroparque (o aeroporto para vôos domésticos de Buenos Aires) cruzava no final da pista com um museu da Força Aérea Argentina, onde quase 50 aviões antigos estavam em exposição. Ajudávamos a manter o bom espírito do grupo pedindo que todos descessem, pois