ODONT´HUMOR
rir , o
melhor remédio
Antônio Inácio RIBEIRO
AGRADECIMENTOS
A
Liamara Alexandre Ribeiro
Luís Antônio Ribeiro
Maria José Maóski
Orlando Maóski
Mário Vinícius Zempulski
Tielle Ribeiro
Pelas reviões ortográficas dos textos
A
Alexandre Nogueira Pederneiras
Pela diagramação e finalização
A
Ghislaine Bomm
Pela capa e aplicação das ilustrações
A
Isabele Bornancim
Pela compilação de alguns textos antigos
A
Célio Prates
Pelo bom humor das ilustrações
Aos
Meus amigos
Por me permitirem estórias pitorescas
DEDICATÓRIA
A Paschoal Amiratti
Um dentista divertido
Por sempre ter
Uma estória engraçada
Ou boa piada
Para bem contar
E que por gostar de viajar
Organizava grupos de colegas
Para viagens ao exterior
Me servindo de exemplo
Além de ter marcado época
Num intercâmbio cultural
APRESENTAÇÃO
Este é meu vigésimo livro.
Quando estava por lançar o décimo, "Tudo Sobre Implantes
Dentários", minha vontade secreta era ser entrevistado no
programa do Jô Soares. Não fui convidado e mesmo sendo
marqueteiro, nada fiz para acontecer, não realizando aquele
sonho. Quando fui me aproximando dos vinte livros
publicados, minha ambição passou a ser outra. Tinha vontade
de escrever um livro que não fosse de orientação técnica,
como os que tenho feito nas áreas de marketing, implantes e
administração odontológica de maneira geral. Pensava em um
romance ou livro de contos, tendo inclusive feito um curso
na forma de oficina do livro, com o objetivo de me
qualificar para tal. Como não havia imaginado chegar tão
rápido como cheguei, o projeto inicial não vai ser
integralmente realizado, embora de alguma forma este livro
seja diferente.
Quando comecei minha carreira
vendendo livros odontológicos, sentí que precisaria de algo
mais para conquistar independência financeira. Montei uma
dental em São Paulo, mas observava um colega de ramo mais
experiente, Sávio Capelosi, achando bacana o trabalho dele,
por ter uma representação exclusiva e específica na área de
Ortodontia e por conta disto organizar grupos para cursos no
exterior, que lhe ajudavam inclusive a mantê-lo atualizado
com as novidades e em dia com os avanços do mundo. Passei a
sonhar em ter algo no estilo, que como meus outros ideais,
acabou se concretizando com a Implantodontia. A partir dos
implantes, que por uma boa estratégia de marketing, ficaram
conhecidos como osseointegrados, revolução da qual me
orgulho de ser um dos propulsores. Eles me propiciaram não
só as viagens, mas o lançamento de uma revista, a publicação
de alguns livros, a consolidação da Odontex e a montagem de
uma fábrica, outro sonho antigo.
Indiscutivelmente, de tudo o
que tenho passado pela vida, o mais divertido e prazeroso
foram as viagens ao exterior, hoje quase chegando a cem, me
permitindo conhecer bem quase todos os países da América do
Sul, os Estados Unidos e os principais da Europa. Das
viagens, a bagagem maior sempre era cultural e científica,
mas as lembranças mais marcantes são os causos pitorescos
que envolveram os quase mil dentistas que me acompanharam
nestas jornadas implantodônticas. Fui anotando os mais
engraçados, destacando os detalhes principais, para um dia
juntá-los na forma de um livro, que pudesse servir de
recordação para os que me deram o privilégio de acompanhar e
diversão para os que não foram.
Para tranqüilizar desde já os
amigos que comigo andaram por este mundo, todos os nomes dos
personagens de nossas estórias foram providencialmente
trocados, de forma que mesmo as mais embaraçosas não
incriminarão seus protagonistas. Os atos e fatos nelas
relatados, estes sim, são todos verdadeiros, recebendo,
quando necessário, alguma pimenta do relator para torná-los
mais picantes ou divertidos nuns e algumas supressões
noutros, para não tornar a leitura impraticável a esposas,
filhas, namoradas e amigas ou seus equivalentes masculinos,
quando os protagonistas forem as.
Com este livro aproveito
também para comemorar meus cinqüenta anos, bem vividos e com
muitas estórias para contar, esperando que me enviem outras,
para podermos ampliar este nas próximas edições e não
deixarmos nenhum amigo triste, por ter aprontado em uma de
nossas viagens e não fazer parte da história da
Implantodontia brasileira. Pelo menos de sua antologia
humorística.
Antônio Inácio Ribeiro
ribeiro@odontex.com.br
PREFÁCIO
Quando o amigo Ribeiro
pediu-me para prefaciar seu novo livro, tinha comigo que o
estilo desta escrita seria muito semelhante àquelas próprias
da maioria dos livros profissionais ou seja uma linguagem
hermética, enfadonha, pouco elucidativa e, não raro, até de
difícil entendimento. Mas ao ler, na cópia dos originais, a
primeira das narrativas percebi, de chofre, que eu estava
redondamente enganado.
Ao contrário da minha
primeira impressão, as histórias ou estórias contadas neste
livro são surpreendentemente deliciosas. Lí-as de um só
sorvo, já que depois de ler a primeira, e ter gostado
sobejamente, aguçou-me a vontade de ler a segunda, depois a
terceira, e assim foi até inteirar-me da última.
A volúpia com que li a
narrativa dos “causos” ocorridos durante vários congressos e
cursos de implante, creio que se deu por dupla razão.
Uma delas é que durante minha
carreira acadêmica presenciei situações que muitos se
assemelham àquelas descritas pelo autor, e por isso mesmo
reportaram-me, saudosamente, àqueles velhos tempos. Posso
até dizer, sem medo de equivocar-me, que assisti durante um
dos Congresso Paulista patrocinado pela APCD uma situação
hilariante que parece até um “clone” de uma das histórias
contadas nesse livro. Realçamos este aspecto para socorrer o
autor, mostrando que as histórias por ele descritas podem
ser verdadeiramente, verdadeiras.
Porém, acho que a razão
primordial que me fez ler os originais de um só fôlego, foi
o estilo com que foi narrando os acontecimentos. A riqueza
de detalhes apresentados nas descrições, a linguagem solta
sem grandes rebusques literários associado, principalmente,
a um grande senso humorístico é que tornam todo conjunto
numa peça literária digna de ser indicada para leitura.
Posso até me atrever
vaticinar, face a leitura da cópia dos originais desse
livro, que seu autor enveredou por um novo caminho
literário, e creio mesmo, que a partir desta publicação, as
novas obras que dele advirão não serão, apenas, textos com
direcionamento a assunto profissional, mas, para nosso
deleite, estará produzindo literatura ao estilo do que nos é
apresentado agora.
E que assim o seja!
Sérgio Alvares
"ARE
YOU WAITING?"
Era a minha primeira vez para
os Estados Unidos e como meu inglês nunca foi lá estas
coisas, decidi pegar uma professora particular que em um
mês, uma hora por dia, tentou fazer o milagre de avivar
minha memória do aprendido vinte anos antes, no inglês que
todos nós tivemos no ginásio. Valeu a tentativa, mas de
antemão sabia que o resultado seria sofrível.
Tinha uma pequena ilusão de
me sair um pouco melhor do que outros que tivessem passado
por situação parecida com a minha, porque com meu trabalho
junto aos implantes, havia trazido cerca de vinte
ministradores americanos e alguns alemães falando inglês e
nas traduções de sentença por sentença, talvez por tratar-se
de tema que me era cotidiano, implantes, me saia
razoavelmente. Não ponderava que tendo o tradutor como
muleta, minha avaliação era totalmente viciada.
Achava também que minha
facilidade em me comunicar e na construção de frases me
ajudaria. Tentava algumas vezes brincar de pensar em inglês,
além de ter um amigo americano com paciência de Jó, Bill,
que para vender falava até russo se fosse preciso. Depois
vim a saber que, mesmo quando não entendia nada do que eu
falara em inglês, Bill concordava, aguardando pela próxima
frase para tentar imaginar o que eu estava tentando dizer.
Incrível era o mesmo que eu estava tentando fazer com seu
inglês, de forte sotaque californiano.
Constatações à parte,
voltemos para a sala de embarque onde eu me encontrava com
destino a Miami, lugar dos sonhos de brasileiros que se
destinam pela primeira vez à América. Não era o meu caso,
porque nosso objetivo era Dallas, onde aconteceria o
Encontro Anual da Academia Americana de Osseointegração, uma
descoberta minha, numa revista da Quintessence e que me
levou de pronto a tratar de organizar um grupo e aproveitar
para levar brasileiros a um curso de credenciamento no
sistema de implantes IMZ, que começava a fazer adeptos no
final da década de oitenta em várias partes do mundo.
Para não fazer feio,
obsequiei a passagem "free" a que teria direito, por ter
montado um grupo de mais de vinte passageiros, a Júlio Sá
Ferreira, visto ter ele morado mais de cinco anos nos
Estados Unidos, justamente em Los Angeles, ter os pais
morando no Texas e ser amigo de Axel Kirsch e de todo o
pessoal da Interpore, representante à época daquela marca de
implantes. Foi minha salvação, pois como vocês estão
percebendo até no relato da estória, estou com medo de
entrar no avião e contar o que na verdade aconteceu.
Talvez também porque contar a
estória em que os outros sejam os protagonistas seja mais
fácil de contar do que aquela em que a mancada foi
inteiramente nossa. E vexatória como a minha, muito mais
difícil. Para facilitarmos as coisas, a companhia aérea
escolhida foi a Varig, pois tendo serviço de bordo em
português, postergaríamos a entrada em cena do nosso
limitado inglês. Dado o embarque, além da emoção do primeiro
vôo de longa distância, de o estar fazendo com mais de vinte
brasileiros por mim motivados, de conhecer a maior potência
econômica mundial e estar voando num velho DC 10 que o
marketing transformou em MD 10, quando a Douglas foi
absorvida em fusão pela Mc Donnel, ajeitando as novas letras
de identificação da vintenária aeronave, que hoje
praticamente só opera com cargas.
Toda esta volta para dizer
que depois do serviço de bordo e de duas horas de filme, com
microfone em português, depois de umas fracassadas
tentativas de acompanhá-lo em inglês, não conseguia dormir.
Justo eu que ia e voltava todas as semanas de ônibus para
São Paulo, sendo que na maioria das vezes, o ônibus não
tinha nem saído da rodoviária e eu já estivesse dormindo. Já
tínhamos quatro horas de vôo e o jeito foi ir ao toalete e
aproveitar para espichar um pouco as pernas, coisa que hoje
estão recomendando a quem viaja na classe econômica, como
estávamos fazendo. Como a necessidade não era tanto o
toalete e mais despistar o sono e não houvesse acordada viva
alma nas imediações dos mesmos fiquei em pé nas
proximidades, tentando enxergar alguma coisa por uma pequena
janelinha existente nas portas do avião. Não me apercebi que
alguém, imaginando que eu estivesse numa suposta fila para o
toalete, postou-se a meu lado, a esperar.
Não a tendo visto, dois ou
três minutos se passaram e como ninguém saísse dos toaletes,
ela tocou o meu braço, suavemente e disse "a u é tche?" Como
bom gaúcho, só entendi o "tche". Olhei para ela e como além
de não a estar entendendo, não sabia identificar em que
idioma falara, simplesmente lhe olhei sem nada dizer. Também
como ia saber, se ela nem "good night" me dera. Depois
aprendi que diferente do que imaginava, "good night" só se
fala quando se vai embora. Com a mesma cara de espanto e
surpresa com que eu a olhara, ela me olhava também. Não
tenho certeza, mas acho que na minha situação de embaraço,
ela deve ter perguntado mais uma vez "a u é tche?"
Percebendo que eu nada entendera, nada respondera e já se
terem passados mais de cinco minutos, fez uma cara feia e
num gesto decidido e rápido, tomou minha frente e entrou no
toalete, que somente quando aberta percebi que estava vazia
e entendi o que ela esperara. Só não entendi o significado
do " a u é tche", muito embora depois de terminada a cena
patética, concluí que me perguntara algo a cerca do uso ou
ocupação dos toaletes. Confesso que ainda durante o vôo,
muito pensei no que poderia ela ter dito, sem conseguir a
mínima pista.
Continuei acordado, olhando a
janelinha e imaginei que estaríamos sobrevoando o Panamá,
pelo grande canal que visualizava da janela. O dia começava
a clarear, quando avistei depois de uma hora e pouco, algo
que imaginei ser o golfo do México. Acho que era, já que em
menos de meia hora começamos o procedimento de descida para
Miami. Assim imaginei, por reconhecer um trecho que me
parecia familiar com as fotos de Miami Beach, dos tempos em
que conhecia os Estados Unidos só por fotos e filmes.
Continuava pensando no
significado daquela enigmática frase, a porta de tão íntimo
lugar. Nenhuma pista. Alguns brasileiros, a esta altura já
estavam acordados, mas perguntar, nem pensar. Onde colocaria
minha vergonha, caso fosse algo elementar? Preferi ficar com
a dúvida, que me acompanhou por uns cinco anos, se bem que
com ninguém a tivesse tentado esclarecer
Um dia, muitos anos mais
tarde, estava eu a porta de um restaurante em Paris e o
maitre me perguntou algo em francês, que por não entender,
não reagi. Percebendo, por minha aparência, que eu não era
francês, me perguntou: "Are you waiting", pronunciando bem
as palavras e contando que meu inglês melhorara bastante,
depois de dez viagens para a Europa e Estados Unidos, ri e
fiquei meio sem resposta. Agora finalmente havia entendido o
sentido e significado daquela pergunta no DC 10 da Varig.
Respondi-lhe "oui" e ele me convidou a entrar. Naquele
momento me senti entrando no mundo dos que falam três
línguas. Acenei-lhe com a mão e entrando completei: "merci".
A propósito, não falo francês, meu segundo idioma é o
espanhol e o terceiro, se depois deste vexame, se pode dizer
que falo, é o inglês.
CHEGOU A MINHA VEZ
Com tantas estórias
divertidas sobre os outros, às vezes me perguntam se não
tenho alguma em que o protagonista principal seja eu mesmo.
Com um pouco de vergonha, decidi contar mais uma. Aconteceu
em Los Angeles, onde estávamos para mais um curso de
implantes. Já no hotel, depois de um dia cheio de aventuras
na Universal Studios (nada a ver com a igreja, que naquela
época já tentava instalar-se na cidade), recebo um
telefonema do Renzo Casellini, o protético das estrelas,
convidando-me para jantar com um grupo de diretores da
Interpore (na época, representante dos implantes IMZ nas
três Américas, da qual eu era distribuidor). Não podia
faltar, ainda mais que me convidara para um "drink" em sua
residência, coisa que os americanos raramente fazem. Tomei
um táxi e depois de muito andar por ruas desertas e escuras
de Beverly Hills, onde até com veados (o animal de quatro
patas) cruzamos, cheguei a sua mansão, em uma encosta com
plano inclinado, que dá a casa um estilo todo especial.
Depois de conhecer a casa e
degustar um raro vinho italiano, partimos em alta velocidade
com sua Porshe Carrera preta. Lembro de ter sido aquela a
primeira vez que vi um telefone celular, que só depois de
cinco anos chegaria ao Brasil. Na chegada ao restaurante a
Porshe ficou ainda menor, tal era a quantidade de Mercedes,
Volvo, BMW, Lexus e outros que nem conhecia, enfeitando o
estacionamento, num desfile tipo entrega do Oscar. Os pratos
eram tão diferentes e o meu inglês ainda tão pobre que até
hoje não sei o que comi. Lembro do nome do restaurante,
Toscana, e de ter comentado que a pessoa que estava na mesa
em frente era um dos filhos do velho Iwing, da família
Dallas, que não lembrava o nome. Renzo disse-me para não
ficar preocupado em não lembrar o nome, porque ele também
não lembrava e que era para eu olhar para a mesa da direita,
porque aquele eu lembraria. Era Clint Eastwood, com sua
esposa de trinta anos, de casados, não de idade.
Para completar o
deslumbramento, ele me convidou para um vinho no Regent
Hotel. Mais carrões, um manobrista que o chamou pelo nome e
estávamos em um piano bar que logo identifiquei: ali foram
feitas as filmagens do Pretty Woman (Uma linda mulher) e
naquele piano tocaram, se não musicalmente, pelo menos com
as mãos, Richard Gere e Julia Roberts. Toquei no piano e
talvez pelo terceiro vinho italiano da noite, senti
necessidade de um toillete. Renzo me indicou, fazendo a
ressalva que deveria ter cuidado, pois todos os metais dos
sanitários e torneiras eram folheados a ouro. Eram e com
tanta emoção para uma só noite, errei na pontaria e além de
jogar líquido nas partes douradas, molhei minha calça, que
por ser clara, ressaltava meu azar. Pensei um pouco no que
fazer para não retornar naquele estado. A secadora de mãos
me salvou. Além de muito ar, este era quente e em segundos
minha calça secou e voltei sem que nada percebessem. Não
bebi mais, até para poder acreditar que tudo aquilo era
verdade.
No dia seguinte Renzo me
convidou para conhecer seu laboratório. Mesmo com trabalhos
dos países mais importantes do mundo nas bancadas, o que
mais me impressionou foram as inúmeras fotos dele com o
famoso Peter Thomas, tendo ao meio nove entre dez estrelas
do cinema, dos esportes, da política e algumas outras
figuras, que de tão famosas eu nem precisava ler a
dedicatória para saber de quem se tratavam. Na volta passei
pela calçada da fama e depois de tanta badalação fiquei
imaginando que algum dia bem que poderia me acontecer algo,
que me fizesse conhecido, mesmo que fosse só entre os
dentistas. Quem sabe se um dia, reunindo as mais de cem
estórias de ODONT'HUMOR que tenho, em um livro, este não
venha a ser um "best seller" da Odontologia e juntos
possamos dar boas risadas com as cômicas estórias dos outros
e com as minhas também.
Este é um dos motivos que me
leva a escrever estas páginas e mesmo já tendo escrito
dezenove livros, feito quase cem viagens ao exterior,
ministrado mais de cento e cinqüenta cursos e conferências,
assistido a mais de duzentos cursos só de implantes e ter
participado em mais de quinhentos e cinqüenta congressos,
semanas e jornadas como expositor, vejo o quanto é difícil
ter fama, até porque acho que ainda não a consegui. Pelo
menos, sobra-me o consolo de fazer sucesso com os que me
conhecem, lêem ou assistem. Com isto e com o prazer que
tenho em transmitir o que armazenei pela vida, sinto-me
feliz e gratificado.
SABE COM QUEM ESTAS FALANDO?
Às vezes me pego rindo
sozinho pela rua e fico imaginando o quão louco os outros
pensam que sou. Mal sabem que tenho estórias para fazer rir
mais uma década, com o que vivi nestes meus primeiros dez
anos acompanhando grupos de dentistas ao exterior. Leiam
esta e vejam se não tenho razão. Ainda mais sabendo que o
personagem da mesma já foi alvo de outra anterior e que dele
ainda tenho mais duas anotadas para relatar. Quem me
acompanha e tem boa memória sabe. É o Hamilton que foi
dormindo na cadeira para o elevador.
Depois de mais um congresso e
um curso pelos Estados Unidos, chegaram a Miami e deixando
as malas no guarda volumes, foram para o centro aproveitar o
último dia para umas compras. Nem tanto material dentário,
mas principalmente uma lembrançinha para acalmar a dona da
pensão, que alguns chamavam de rádio patroa, tal era o
controle exercido. Sem muito para gastar, voltaram para o
aeroporto ainda faltando umas seis horas para o embarque.
Eram três amigos do mesmo estado e na hora de sentar para a
derradeira rodada de cerveja antes do embarque, um deles
comentou com os demais que precisaria que os amigos lhe
pagassem, pois havia terminado seu dinheiro e não tinha
cartão internacional para fazer uma retirada. Os outros dois
se olharam, pois já haviam comentado entre si estar acabando
o seu dinheiro e igualmente não terem cartão para saque.
Fizeram as contas e tinham entre os três pouco mais de vinte
dólares. Como se aproximasse a hora do embarque e não fossem
mais precisar de dinheiro, Hamilton, bem ao seu estilo,
recolheu os contados vinte e dois dólares, deu-os à
garçonete dizendo que eram vinte de cerveja e dois de
gorjeta. Beberam muitas e chegou a hora do embarque.
Pegaram as malas e foram para
o balcão da companhia. Passagens na mão, tiveram da
funcionária a única notícia que não poderiam ter: o vôo
deles não estava marcado para aquele dia e sim para o
seguinte. Como os bilhetes dos três era promocional, em
tarifa reduzida, endosso para outra companhia, só mediante
pagamento de taxa e sujeito à disponibilidade em lista de
espera nas demais companhias. Passado o susto e o pânico
inicial, não viram outra alternativa que passar a noite no
aeroporto, com o que perceberam que as cômodas poltronas do
saguão não haviam sido projetadas para dormir.
No dia seguinte, que começou
mais cedo pelo movimento do próprio aeroporto, começaram a
discutir o que fazer. Ir até a cidade, não tinham dinheiro
para um táxi. No balcão da Varig, pelos vôos só serem
noturnos, só haveria expediente no começo da noite.
Caminharam pelo enorme aeroporto em busca de alguém que
falasse português e só encontraram um ou outro falando
espanhol, idioma que igualmente não dominavam. Isto mesmo,
também pouco falavam o inglês, que poderia ajudá-los a
encontrar uma alma caridosa. O tempo passou, a vergonha
aumentou e a primeira coisa que deu certo, foi contando a
estória triste, conseguirem do funcionário da Varig que
ficassem na sala vip da companhia, onde poderiam saborear
salgadinhos e bebida de graça. Foi o maior consumo de toda
estória da sala vip, de todos os tempos. A fome era tanta
que eles não conseguiam parar de comer nem para beber, o
passatempo predileto dos três. Tomaram algumas e embarcaram.
Dentro do avião, estranharam
a demora para partir. Logo a aeromoça chama pelo microfone
um dos três. Se identificaram e ela informou que um dos três
tinha problemas com o passaporte. Hamilton que era líder do
grupo, disse que não iriam descer e depois de algumas
negociações sem resultado, dois policiais americanos entram
no avião para retirar o passageiro. Hamilton se interpõe e
em português diz ao policial que eram brasileiros e que o
avião da Varig, de acordo com normas internacionais era
território brasileiro, que estavam indo para o Brasil e que
não iriam descer. Com a ajuda da aeromoça, que agora fazia a
função de intérprete, o policial disse que não havia outra
alternativa ao brasileiro que não a de cumprir com os
trâmites da migração. Novamente em português e com a voz já
um tanto elevada, Hamilton perguntou ao policial se ele
sabia com quem estava falando? Como o policial não
respondeu, ele mesmo o fez, se dizendo amigo do Marco
Maciel, sem mencionar que o mesmo era o vice-presidente ou
que com um simples telefonema para o Marco, mandariam
prender o policial.
Com a interferência do
comandante do vôo, em inglês bem mais polido, foi acordado
que o próprio comandante levaria o passaporte até a
migração. Assim foi feito e o avião pode decolar, para
euforia da maioria brasileira na aeronave. E com isto, os
nossos heróis puderam desfrutar do, para eles, espetacular
jantar servido a bordo, com a vantagem de não precisarem
pagar as contas. A ligação para as esposas, avisando o dia
da chegada, foi feita a cobrar, sem nada comentar da falta
momentânea de dinheiro. Um pacto entre os três reza que
jamais poderiam comentar com elas ou outrem do acontecido,
motivo pelo qual, se algum dos amigos souber suas
identidades, favor não comentar com as respectivas.
CASAL E UM SACO
Quem lê muito rápido o título
pensa que é, quem lê com mais calma acha que falta um
acento. O título está certo, embora com o decorrer da
narrativa, alguns sejam levados a pensar que deveria ter.
Mas quem conhece o casal, sabe que não merece. Voamos com
três escalas para Las Vegas e mortos de cansados, chegamos
ao hotel de nome bonito e apartamentos feios, algo como
Cassino's Royal Park Hotel. Atrapalhados com fuso horário,
queríamos comer algo e descansar. Ia esquecendo, o casal
para não levar malas, optou por um saco de dois metros de
altura, por um de raio, que era um saco para carregar, tanto
nos aeroportos, como nos hotéis.
O restaurante, como de resto
tudo no hotel, ficava ao redor do cassino, onde entre mesas,
máquinas caça-níqueis e garçons, encontramos um sujeito em
uma cadeira de rodas motorizada, com um tubo de oxigênio
evidenciando suas precárias condições de saúde e um copo de
whisky numa das mãos e um cigarro na outra, cheio de fichas
fazendo seu jogo da morte. Por sugestão do casal, pedimos
uma massa à bolonhesa, para não termos chance de surpresa
com algum prato dos típicos americanos adocicados. Não deu
outra, veio tão doce que tivemos de tirar a bolonhesa para
podermos comer a massa.
Dormimos a tarde toda e à
noite fomos jogar. Ela queria entrar em todos os hotéis para
ver como eram e eles queriam jogar, de preferência em um
lugar só. Separamos o grupo por interesses e o do casal
ficou mais leve, porque no outro ficaram todos os demais.
Jogamos e depois de dois dias eu tinha perdido quase cem
dólares. Já no aeroporto, não tinha esperanças de
recuperá-los. No último café que tomei em Las Vegas, a
garçonete deu-me como troco, cerca de dez moedas de cinco
cents. Quase na hora de embarcar, avistei uma máquina para
jogos de cinco cents. Para não ter de carregá-las, decidi
por todas as moedas de uma só vez, para meu derradeiro jogo
e baixei a alavanca. O resultado foi uma sirene estridente
que em segundos trouxe para minha volta todos os jogadores,
funcionários do cassino e passageiros que iam embarcar,
porque a sirene não parava de tocar e as moedas não paravam
de cair. Alguns mais experientes, diziam que eu havia
ganhado o prêmio máximo e davam um sorriso amarelo como que
a dizer: pena que de cinco cents. Foram U$ 125 em 2500
moedas de 5 cents. Recuperei o que perdera, com algum lucro
e quase perdi o avião. E lá fui eu com um saco cheio de
moedas.
Nosso destino era San Diego,
sede do congresso. Antes de chegarmos, o avião fez três
tentativas de pouso em condições de tempo muito
desfavoráveis. Quando finalmente desceu, os amigos do grupo
brincavam dizendo que as dificuldades para pouso que o
piloto teve ou eram pelo saco do casal ou pelo meu, cheio de
moedas. San Diego é uma linda cidade e dela saímos em
direção a Los Angeles. Para nossa surpresa, na sala de
embarque estávamos só nós. Quando íamos para o avião, dei-me
conta que era um daqueles pequenos que não cabiam mais de
vinte pessoas. Lembro de seu modelo, SAAB 340, que no Brasil
é mais conhecida como marca de caminhões. Medo à toa: foi um
dos melhores vôos que fiz até hoje, acompanhando a
Califórnia em dos seus trechos mais bonitos, de lindas
praias entrecortadas por rochas.
Em Los Angeles, outro saco.
Além de carregar o saco de roupa, eles resolveram ligar a
cobrar para casa. Foi meia hora para saber como fazer e meia
hora para contar as mesmas coisas, um por um para toda a
família. Para mim o saco foi mais pesado de carregar, não
pelas 2500 moedas e sim porque eu já conhecia a cidade e
terminei fazendo a maioria dos passeios que já havia feito.
Alugamos uma van em seis e partimos em direção a San
Francisco. Perdemos meia hora para acomodar o saco, o outro,
que teimava em não entrar, muito embora a van fosse das
grandes. Uma noite em Carmel, uma cidade tipo Gramado, só
que a beira mar, um passeio em Monterrey, com algumas
paradas para filmar, com uma filmadora que quase não cabia
dentro do saco, e atravessamos a ponte Golden Gate,
realizando um sonho. A cada hotel que ficávamos, era um saco
para tirar as malas e o próprio. E para carregar também. A
esta altura, o sacão já tinha dado cria. Dentro dele havia
um outro menor, vazio, que com as compras, foi se enchendo
até ficar quase do tamanho do grande. Quando um saco não
descia, a preocupação era com o outro, que se roubado,
acabaria com as lembranças da viagem. As boas.
Quando os demais decidiram
conhecer o centro de San Francisco, com seus bondinhos,
flores e sacadas, além das ruelas em curvas
cinematográficas, o casal foi passar o dia no presídio de Al
Capone, com direito a entrar na cela e almoçar. No outro dia
partiríamos de volta para casa, para nosso azar, não de São
Francisco e sim de Oakland, que fica do outro lado da baía.
Como o vôo era às cinco da manhã, decidimos trocar de hotel
e dormir perto do aeroporto, agora com os dois sacos na mão,
porque iríamos entregar a van que nos agüentou e aos sacos
por uma semana. Dallas, São Paulo e mais um hotel antes de
chegar em casa. Já sem os sacos.
O casal não era tanto, mas os
sacos eram. Ainda bem que o meu estava cheio de moedas.
DENTING X DANCING
Por não ter estudado inglês
na quantidade devida, passei por muitas e ruins nas minhas
viagens pela terra do Tio Sam e presenciei outras tantas que
se não forem bem contadas e que se não tivessem
testemunhas-dentistas para confirmar, pareceriam mentira ou
invenção. Mas esta, tal qual outras que costumo contar,
aconteceu e é verdade.
Estávamos em Los Angeles para
um curso de implantes, com um grupo de animados brasileiros.
Depois de um dia longo e cansativo, que se estendeu até
quase dez horas da noite, se bem que o sol acabara de se por
no Pacífico e a maioria dos integrantes do grupo decidiu
jantar no restaurante do hotel que, diga-se de passagem, era
uma atração. Grande, bonito e com um serviço de
primeiríssima, até nos preços. Como todos tinham tido um dia
econômico, talvez nem ligaram muito para os valores no
cardápio ou talvez não tenham feito corretamente a conversão
para cruzados, nossa moeda que acabara de estrear, depois de
anos de violenta inflação e que fizeram o fim do governo
Sarney, um transtorno.
Escolhemos uma mesa perto do
piano, que era bem tocado por uma bonita pianista. Como boa
parte dos brasileiros são galanteadores em sua terra natal,
um dos do grupo, que para não comprometê-lo ainda mais,
chamaremos de César e que se gabava de ter três mulheres ao
mesmo tempo, decidiu jogar seu charme na colega de Arthur
Moreira Lima. O que não sabíamos, pelo fato da viagem estar
apenas começando, é que o inglês dele também não era grande
coisa.
Independente desta limitação
e pelo fato de a pianista não interromper sua apresentação
durante o galanteio do brasileiro, percebíamos que eles de
alguma forma se comunicavam e que a artista parecia muito
séria, talvez entendendo as reais intenções do
latino-americano, já bem conhecidas na América do Norte.
Veio o intervalo e a pianista foi para um reservado
descansar. Voltou e o nosso galã retornou direto e novamente
apoiou-se no piano, agora já sem tanta receptividade da
pianista. Terminamos o jantar e terminou a apresentação do
nosso agradável fundo musical.
Não sei se para agradar-nos
ou se para fugir do assédio marcante do nosso colega, a
pianista decidiu sentar-se por alguns minutos em nossa mesa,
onde alguns falavam bem o inglês e em poucos minutos tiraram
o ar formal, quase sisudo da pianista, que se pôs a rir e
num acesso de gargalhadas deixava os que não entendiam bem o
inglês, com um jeito de bobos, pois tínhamos que acompanhar
as risadas da maioria, sem entender bem o que estava
acontecendo. Com a ajuda de um, que se dispôs a nos traduzir
o que havia acontecido, continuamos a rir, agora de verdade.
César, sem o total domínio do
idioma do Tio Sam, ao ser perguntado por sua profissão,
confundiu-se e ao invés de dizer "dentist" disse "denting",
que não sei porque coloquei entre aspas, visto que esta
palavra não significa nada em inglês. A pianista, sem
entender direito a pronúncia, imaginou ter escutado
"dancing", que quer dizer dançarino, bailarino. Olhou para a
barriga e para a má forma física do seu paquerador e no
intervalo comentou com o maitre e com os garçons o quanto
eram diferentes os bailarinos brasileiros. Talvez não
estranhou de todo, porque César deu-lhe como motivo da
viagem a participação em um congresso e que com isto ele
poderia talvez ser um professor de dança, já em fase de
aposentadoria, com o que os garçons concordaram e aceitaram
a possibilidade de um bailarino ter um físico tão
inadequado.
Quando se deu conta da
verdadeira profissão, em poucos minutos de conversa com os
demais dentistas do grupo, a pianista não se conteve e ficou
mais ou menos uns dez minutos rindo, daquela maneira meio
sonsa que costumam rir os americanos. Para completar chamou
os garçons e o maitre, contando-lhes a verdadeira profissão
do barrigudo. Os garçons ajudaram, fazendo coro em mais dez
minutos de gargalhada.
Agora quem nada entendia era
o César, que por não ter escutado a versão que nos fizeram,
não imaginava que era dele que todos riam, mesmo que em
alguns momentos a pianista, ao contar para os garçons,
apontava para ele. E não deve ter coisa pior do que as
pessoas estarem rindo da gente e a gente não entender
porque. Tem sim. São os outros estarem falando um idioma que
a gente não entende direito e ficarem rindo olhando para a
gente sem que a gente tenha coragem de perguntar, até porque
o idioma nestas horas nos atrapalha muito mais.
É, nesta o César dançou. Sem
ser "dancing".
CONGELADA NO TEXAS
Ela era uma nordestina, mais
bonita por dentro do que por fora e decidiu acompanhar-nos
em nossa primeira viagem aos EUA, na época em que a
informática lá já estava consolidada e Internet começava a
despontar. Não sei se foi por isto que decidimos chamá-la
Linda.net ou se foi porque os primeiros sinais globalizantes
mencionavam Network ou ainda porque nossa cidade mais bonita
e preferida da nossa escolhida de hoje, era a Lindacap. Só
sei que até hoje ela é muito querida por todos que a
acompanham nas muitas viagens que faz.
Durante dez anos, além das
viagens anuais aos Estados Unidos, organizava mensalmente
grupos para irem a Argentina, aprenderem como conseguir a
osseointegração dos implantes. Linda, desde o começo foi
candidata, visto que sempre se interessou pela
Implantodontia, especialidade em que é uma das melhores em
sua região. O motivo que sempre alegava para não
acompanhar-nos era o frio do país platino, que toda semana
mandava uma frente fria para o Brasil. Como em dezembro,
janeiro e fevereiro não montávamos grupos, pela dificuldade
de conseguir interessados, já que a maioria estava ligada em
festas de fim de ano e férias, Linda terminou não indo a
Buenos Aires, em nenhum dos quarenta e três grupos que
organizamos.
Em nossa primeira viagem
juntos, percebi o pavor que ela tem do frio. Chegamos em
Dallas, um dos pontos mais ao sul e mais quentes do estado
americano em março, quando o inverno, que lá é ao contrário
daqui, já havia terminado, dando lugar a lindos dias
primaveris. Isto mesmo, lindos dias, porque à noite era feia
de tanto frio. Nas duas primeiras, Linda não saiu. Depois
das outras participantes do grupo tanto a provocarem,
dizendo que dormir em dólares era atraso de vida e de lhe
contarem as maravilhas da cidade dos cawboys, suas roupas
típicas, das enormes camionetes decoradas com lindas
pinturas, do tamanho dos cavalos, da música country que
ainda não havia acontecido no Brasil. Sem falar da boa carne
que contrastava com a imagem que sempre fazem os brasileiros
da comida americana, quase sempre levando os de primeira
viagem para as lanchonetes tipo MacDonalds, que mesmo sendo
a mais mundial dos lanches rápidos, lá tem uma puxada
adocicada no sabor, Linda decidiu acompanhar-nos.
Preparou-se bem para a
primeira noite na terra do Tio Sam. Colocou duas camisas,
uma blusa, um casaco e uma calça extra por baixo da que
víamos. Enquanto estávamos dentro do táxi e na rápida saída
para entrarmos no restaurante, que tinha ótima calefação,
nenhum problema. Depois da boa costela a moda texana, num
ambiente alegre e musicado, decidimos caminhar pelo centro
da cidade, para conhecê-la melhor e descobrir um lugar para
escutar a boa música típica da região. Como éramos quase
vinte, caminhávamos em grupos de três ou quatro, que segundo
o interesse e o tipo de vitrine, se alternavam, ora uns, ora
outros ficando para traz. Os americanos pouco caminham à
noite, vendo lojas. Com isto não tínhamos problemas de algum
se perder do grupo, por que quase sempre tínhamos como ver
os demais.
Não foi o que aconteceu em
dado momento, quando demos por falta dela, a Linda, que a
esta altura já tinha conseguido uma manta e um gorro
emprestados, visto que o frio se fazia cada vez mais
intenso. Olhamos para traz e não a víamos. Decidimos, um
grupo das mais amigas e eu, voltar para encontrá-la. Andamos
duas ou três quadras e lá estava ela, encostada em uma dobra
de loja, buscando abrigo. Perguntamos se não tinha medo de
se perder e ela nem respondeu. Se ela queria entrar em
alguma daquelas lojas, que estavam fechadas e ela novamente
não esboçou o menor movimento facial. As mais amigas pegaram
sua mão e estava fria, apesar de estar dentro do bolso,
tocaram seu rosto e estava gélido, sentiram o ar, que mesmo
saído de seus pulmões, estava frio. Começamos a ficar
preocupados e alguém perguntou como ela conseguia manter-se
em pé com todo aquele quadro, ao que eu respondi: está
congelada. Nem ela nem ninguém riu ou muito menos fez algum
comentário.
Como ela não se mexia, nem o
olho, não falava e não esboçava qualquer reação, sugeri
levá-la para o hotel. Foi o que fizemos no primeiro táxi e
somente depois de meia hora de calefação, no máximo, foi que
conseguimos sua primeira palavra, que foi de espanto:
"Entrei numa fria!", disse provocando risos de alívio e
descontração em nós, que a esta altura já estávamos mais do
que preocupados.
Como o clima ficou
descontraído, comentei que tinham sido os preços (eles
acabavam de ser congelados no Brasil), que haviam congelado
a Linda em frente à vitrine.
QUEREMOS VOLTAR
Cinco japoneses num grupo de
vinte era muito, principalmente porque eles andavam sempre
juntos, sem se separarem entre si e nem das suas máquinas
fotográficas e filmadoras, tal qual os originais. Como eram
meio parecidos, víamos por todos os lugares. Os nossos, às
vezes, confundindo-os com os dos outros, que também haviam
concorrido ao congresso da Academia Americana de
Osseointegração.
Na chegada eles já nos
fizeram rir. Nosso hotel era um daqueles típicos americanos
para convenções, com uma quadra de tamanho e tantas lojas
dentro, que mais parecia um shopping center. Ao ver
todo aquele luxo, um dos japoneses comentou com os outros
que aquele hotel devia ser muito caro e que deviam buscar um
mais barato no centro. Com dificuldade o convenci a ficar
ali, argumentando que as diárias estavam inclusas no pacote
que havíamos pago no Brasil. Meio desconfiados, concordaram,
querendo ter certeza de que não precisariam pagar nenhum
extra.
À noite o criador do sistema
de implantes IMZ, Axel Kirsch, convidou os brasileiros para
um coquetel de boas vindas. Os japoneses, alegando cansaço e
fome queriam ir a algum lugar para comer. Júlio Sá Ferreira,
um periodontista que morara nos Estados Unidos, disse ser
bobagem porque os coquetéis americanos valiam por um jantar.
Novamente meio desconfiados, os nipônicos concordaram em
ficar. De fato, a recepção teve entradas que valiam um
jantar e pratos quentes equivalentes a um banquete, além de
sobremesas e vinho alemão. Este tipo de atividade, nos EUA,
tem hora pontual para começar e para terminar, menos para os
brasileiros, que não queriam ir embora.
No dia seguinte, o quinteto
não se conformava de ter que pagar U$ 250 pela inscrição ao
congresso. Lembro que um deles veio me perguntar se esta
taxa já não estava inclusa no pacote. Não os tenho
encontrado mais e fico imaginando como reagiriam agora que a
inscrição ao mesmo congresso, sem extras, não sai por menos
de U$ 400. Certamente iriam perguntar como pode haver
inflação em dólares. Lembro que alguns brasileiros
resolveram o problema, inscrevendo-se como estudantes, mesmo
tendo boa calva ou cabelos brancos. Talvez por isso, hoje no
mesmo congresso, estudantes precisam levar uma declaração da
universidade para usufruir desta tarifa especial.
À noite, por sugestão do
Júlio, decidimos retribuir o coquetel com um jantar para
nosso anfitrião do dia anterior. O próprio, por não
conhecermos a cidade, nos indicou um restaurante. Os mais de
U$ 15 da corrida do táxi já não agradaram muito aos cinco
orientais, que foram em um único carro rachando a conta, que
por cabeça não foi muito alta. O restaurante escolhido
estava no nível do homenageado e no padrão da noite
anterior. Com dificuldade escolhemos os pratos e o vinho,
que por sugestão do Julio, seria novamente o alemão e por
ser especial foi bastante consumido. O local e o serviço
apontavam para uma conta alta, que acabou se confirmando na
hora que foi apresentada. Feita a divisão, cabiam U$ 55 para
cada um. Os japoneses pediram para refazer a conta, não a do
restaurante e sim a da divisão. Não adiantou. Deu na mesma.
Chorando e chiando pagaram. Lembro de ter escutado do mais
controlado deles, que era melhor irem embora. Como era
tarde, concordei, ao que ele completou, para o Brasil,
porque com o que ele havia gasto para a primeira noite no
jantar, não teria dinheiro para os quase vinte dias que
ainda restavam de viagem.
Ao sairmos do restaurante,
parte do grupo ficara com o Júlio e com o Axel, o que faria
aumentar mais ainda a conta. A conversa era outra. Por
sugestão do que prepôs voltarmos para o Brasil após o rateio
da conta, do restaurante não do táxi, alguns do grupo
chegaram a se entusiasmar em voltar para o hotel caminhando.
A idéia só perdeu adeptos porque nenhum de nós conhecia a
cidade e muito menos o caminho. A decisão foi tomarmos táxi.
Como estávamos em dez, íamos pedindo três táxis, com o que
não concordaram alguns japoneses, porque assim teriam que
dividir os cerca de U$ 15 em três e não em cinco. Alguém
sugeriu dois táxis de três e o dos japoneses de quatro, com
o que não concordou o oriental que teria que dividir por
três. Não houve saída e a solução conciliadora foi chamarmos
apenas dois táxis e apertados os cinco não nipônicos
dividirem o outro táxi por cinco.
Até por que se assim não
fosse, poderíamos ter problemas com algum dos remanescentes,
já que na hipótese de dois táxis para cinco, um grupo teria
três e outro apenas dois para dividirem a conta. No trajeto,
um dos nossos cinco, apertado no banco da frente ainda teve
o bom humor de comentar que por sorte as porções americanas
eram pequenas, pois se fora numa churrascaria de rodízio à
brasileira, que para nosso orgulho agora existem no Texas,
talvez tivéssemos dificuldade para cabermos os cinco, além
do motorista, que não entendeu durante todo o trajeto porque
riram tanto os brasileiros, se até para comer precisam fazer
uma vaquinha.
LIMOU NA LIMUSINE
Los Angeles é uma cidade
especial. Além de ser uma das dez maiores cidades do mundo,
se situar na Califórnia, ser praia do Pacífico, ter como
bairro Hollywood e milhares de milionários em Beverly Hills
ou em outros bairros chiquérrimos, tem um incalculável
número de atrativos cinematográficos. Foi pensando nisto que
nela chegamos, em março de 1990, depois de termos
participado do encontro anual da Academia Americana de
Osseointegração em Dallas.
No dia que tivemos livre na
capital do Texas, para conhecer melhor e mais rapidamente a
cidade em que foi morto John Kennedy, tive a infeliz idéia
de contratar, sem combinar detalhes, duas vans para nosso
grupo de dezoito implantodontistas. Era minha primeira vez
nos Estados Unidos, meu inglês não era grande coisa e me
empolguei quando falaram em vinte e cinco dólares para um
mini tour pela cidade. Fomos e depois de cansarmos de ver
edifícios todos de vidro, tal qual estávamos acostumados a
ver no seriado Dallas, que era a sensação da época,
voltamos. A maior surpresa do passeio foi que os vinte e
cinco dólares não eram por van e sim por pessoa. Como éramos
nove em cada, foram U$ 450, um absurdo por uma tarde.
Alguns ficaram descontentes e
pagaram, outros ficaram brabos e se recusaram a pagar.
Lembro de ter pago por uns e que outros disseram que tinha
valido a pena. Como já havia acontecido em Dallas, em Los
Angeles ficamos noutro daqueles hotéis americanos de cair o
queixo. Ainda bem que as diárias já estavam incluídas no
pacote, senão iríamos ter problemas novamente. Como teríamos
somente uma tarde livre antes do curso de credenciamento nos
implantes IMZ, procurei na mini agência no lobby do hotel,
por algum tour. A funcionária me perguntou quantos éramos e
de pronto sugeriu três limusines. Já escaldado com o
acontecido em Dallas, descartei, ao que ela completou
dizendo ser o meio mais barato de fazer um tour de duas
horas e meia por Los Angeles e que sairia U$ 25 cada. Quando
ia dizendo novamente que não, ela completou... cada
limusine. Pelas dúvidas perguntei se ela falava espanhol e
como a resposta foi positiva, pedi-lhe que me explicasse bem
para não ter problemas com os colegas. Paguei-lhe os U$75 e
fui direto contar a boa nova para o grupo.
Sem dizer-lhes que tipo de
carro era, avisei que o tour que teríamos a tarde seria por
minha conta, para apagar a imagem do anterior. Quando eles
viram as três enormes e lindas limusines, com as portas
abertas nos aguardando, alguns não queriam nem embarcar, com
medo de repetirem o acontecido no dia anterior. Só o fizeram
quando lhes garanti que não iriam pagar nada. Alguns ficaram
tão eufóricos com o primeiro passeio de limusine na vida,
que entraram sem prestar atenção no detalhe de que também
internamente elas eram bem maiores do que um automóvel
comum. Foi o que aconteceu com Munira, uma turquinha até no
nome, que decidiu entrar primeiro. Sem encontrar de pronto o
banco para sentar, terminou esparramada no assoalho da
limusine, ficando como prova da cena inusitada e divertida,
um ferimento no seu nariz que, diga-se de passagem, era
bastante grande, como o da maioria dos descendentes daquela
parte do oriente. A princípio ficamos sem jeito, sem saber
se ríamos ou se ficávamos quietos, mas a cena foi
decididamente patética: ela ali de boca no chão e nós quase
sem percebermos que sua saia havia subido, mostrando peças
íntimas que no passado haviam feito uma loura de vermelho,
famosa. E Munira nem vermelha ficara...
Nosso passeio foi de cinema.
Hollywood, Universal Studios, Beverly Hills, a casa de
vários astros do cinema, a calçada da fama, Sunset Boulevard,
Marina Del Rey e o laboratório de Renzo Casellini, o
protético do Peter Thomas e de nove entre dez estrelas do
cinema, sem contar que nos U$ 25 estava incluída uma
champagne e refrigerantes. Foi tão bom que decidiram dar uma
gratificação de U$ 20 ao motorista, que além de falar
espanhol, nos brindou com mais uma hora e meia de cortesia.
Foi uma tarde inesquecível, inclusive pelo vôo da Munira e
por não terem que pagar nada para curtir o primeiro passeio
de Los Angeles. Lembro que Munira, a despeito da vaidade
feminina pediu para que o ferimento em seu nariz deixasse
uma cicatriz a fim de que nunca mais esquecesse do dia em
que foi plebéia, princesa e rainha a um só tempo.
Acho que ficou, porque ela
nunca mais apareceu!
SEGUNDO MAIS ALTO DO MUNDO
Depois de cinco viagens aos
Estados Unidos, sem conhecer Nova Iorque, estava mais do que
ansioso por esta, que além da "big aple", nos levaria também
a Chicago, onde aconteceria o encontro da Academia Americana
de Osseointegração, motivo maior do grupo que organizamos.
Desde meus tempos de adolescente, vendo os filmes policiais,
a maioria rodados ou inspirados na vida das duas cidades,
tinha vontade de conhecer estas duas das maiores cidades do
mundo.
A recepção não poderia ser
mais calorosa ou friorenta, melhor dizendo. Voamos num
antigo DC 10, o antecessor do MD 11, e um dos colegas do
grupo, depois das palmas ao piloto pelo excelente pouso,
exclamou alto: "Terminou o estado de alerta!" E para os que
como eu, não entenderam, ele explicou que toda vez que
chegava um avião velho do Brasil, o Corpo de Bombeiros e a
Defesa Civil eram acionados para caso de emergência. Para
sorte nossa não foi preciso.
Fomos para o hotel, que para
nossa sorte era bem central. Nem bem tínhamos ido para os
apartamentos, a ala feminina do grupo já deu o grito de
guerra, querendo ir direto para as lojas. Com a outra ala,
fomos para a Broadway, que ficava perto. E dali caminhamos o
resto do dia, meio sem destino certo, até porque nenhum de
nós havia estado antes no coração do mundo. Embora sem
conhecermos, todos os lugares diferentes que passávamos no "downtown",
nos pareciam familiares de tão conhecidos que são os pontos
turísticos americanos.
Embora separados das
“compradoras”, não resistimos a uma primeira comprinha. Como
o frio era bem maior do que imaginávamos e o pior estava por
vir, mais ao norte, em Chicago, decidiram alguns comprar um
casacão daqueles ¾. O último do grupo, por ter mais
limitações no inglês que os demais, não entendia o que o
vendedor estava a responder para seu pedido algo inusitado:
"one me". Como ao dizer "finish" não fechavam a comunicação,
lembrou-se do italiano e dizia "finito", ao que o nosso
colega respondia: "finito non grossito". Com jeito o
convencemos a comprar em outra loja.
Para não gastar muito,
decidimos ao invés do almoço, fazer um lanche. Como
estávamos perto do Rockfeller Center, optamos por uma
lanchonete, que tinha como atrativo a vantagem de podermos
ficar apreciando uma centena de patinadores. Tão distraídos
que estávamos, famintos e com pouca habilidade em manusear
cardápios americanos, fomos pedindo sem muito atentar para
os preços, inclusive tortas e outras especiarias de
chocolate, que eram as preferidas dos demais freqüentadores.
Nem nos chamou a atenção que a maioria dos mesmos tinha mais
idade e jeitos de milionários. Só percebemos depois de pedir
a conta e dividi-la. Foram mais de U$ 35 por cabeça. E nós
queríamos economia e não tantas calorias.
Nos guiávamos por um pequeno
mapa que nos havia sido dado no hotel e como por ele a
Estátua da Liberdade parecia perto, decidimos ir caminhando.
Depois de mais de uma hora caminhando e como a aparência da
zona já não fosse mais tão segura, perguntamos a um taxista
que nos disse precisar mais uns dez minutos para chegar.
Como já havíamos caminhado uma hora, decidimos entre nós, ir
a pé. Cubano, ele entendeu o que falávamos e completou a
informação: "De táxi". A pé dá mais uma hora. Todos optaram
pelo táxi.
Pagamos o ticket de acesso e
começamos a subir. Depois de uns cinco andares por uma
escada estreita, pude olhar para cima e ver que correspondia
a um quarto do que ainda teríamos que subir. Por minha
pressão alta, decidi desistir. Na volta, o grupo uníssono,
disse que havia perdido uma das sete maravilhas do mundo
moderno. Como alguns disfarçavam um sorriso, desconfiei e
eles logo contaram a verdade: uma hora de escadas apertadas
no anda e para, ao chegar lá em cima mal dava para
fotografar, porque todos os de traz empurravam para chegar a
sua vez. Rimos muito durante todo o trajeto de volta da
barca.
No dia seguinte, refeitos do
cansaço, decidimos subir na torre do Empire State. No guichê
todos riram porque perguntei se o ticket dava direito a
elevador ou se teríamos que subir os cem andares de escada.
Em Chicago, subimos na torre da Sears, a mais alta do mundo.
João Alfredo, de Cuiabá, passou o resto da viagem dizendo
que a de Chicago era a segunda mais alta do mundo. Quando
lhe corrigiam, emendava sorrindo que a maior estava em sua
cidade e que os deputados de Brasília viviam reclamando da
sombra que fazia, já que a mesma, durante o dia, cobria
justamente a capital federal, de forma que os
mato-grossenses precisariam diminuir pelo menos uns vinte
andares, para a sombra não afetá-los, com o que não
concordavam os deputados cuiabanos, pois com isto ela
perderia a posição no livro dos recordes, até para Nova
Iorque.
O AMIGO DO FITTIPALDI
O sol havia submergido por de
traz das águas do Pacífico, havia mais de uma hora quando
finalmente chegamos a Carmel. Como muitos haviam falado bem
das belezas da cidade, decidimos percorrer a avenida
principal de ponta a ponta, antes de procurarmos hotel, já
que não tínhamos reserva. Talvez pela função que eu
desempenhava no grupo, "tour condoctor", imaginando eles ser
fluente o meu inglês, o grupo que nunca viajara comigo,
decidiu que seria minha a função de decidir em qual hotel
ficaríamos. Eram poucos na cidade e pela visão do passeio,
todos de pequeno porte, embora com muito "charme", se bem
que vistos a noite. Aceitei, e na van que havíamos alugado
em Los Angeles, saímos a procura.
Não precisei mostrar muito
meu pobre inglês: a maioria estava lotada, sendo
desnecessária a conversação por melhores preços. O mais
bonito, com melhor localização e iluminação, nos permitindo
antever a beleza de seus jardins e por que não de suas
acomodações, tinha disponibilidade. Quando perguntei o
preço, visivelmente quase desmaiei: U$ 220. Já meio sem
argumentos com a profissional gerente, comentei-lhe que em
meu país um hotel, mesmo com aquele luxo, não sairia por
mais de U$ 90. Não sei de onde me saiu aquele valor, mas a
reação dela, ao invés da esperada repulsa, foi perguntar de
qual país éramos.
Quando lhe falei do Brasil,
ela comentou que amava nosso país, embora não conhecesse.
Disse-lhe que deveria vir porque os preços aqui eram bem
mais convidativos, não só dos hotéis, como também dos
restaurantes e que no Brasil, a maioria das atrações a
visitar, não se pagava para entrar, como nos Estados Unidos,
onde em tudo se paga para ver. Comentei que no dia que
viesse, para nos telefonar, que conseguiria um amigo em cada
cidade para recepcioná-la, ao que ela sem rodeios emendou:
então vou fazer a U$ 90 o apartamento duplo para vocês,
quando muitos dos hotéis de turistas dão o preço por pessoa.
Em virtude dela não perguntar
a ninguém se poderia fazer tal preço e talvez querendo
fazer-lhe um galanteio, perguntei se era a dona do hotel.
Ela, surpresa disse que não, que a dona era a Doris Day. Se
tivesse olhado antes a incontável quantidade de posters
anunciando os filmes da famosa atriz do passado, teria
economizado a pergunta e não a deixado sem jeito, como
demonstrou ficar. Diga-se de passagem, o hotel era de cinema
e tudo dentro dele dava a impressão de já ter feito parte de
filme, inclusive os objetos da decoração e os móveis.
Resolvida nossa necessidade primeira, perguntei-lhe onde
havia um restaurante nas imediações, que pudéssemos ir
caminhando, para assim conhecer melhor a cidade. Agora!
Disse ela com espanto. Olhei no relógio, pouco passava das
onze horas e lembrei-me que, exceto nas grandes cidades, nas
demais tudo fecha mais cedo, nos EUA.
Depois de ligar em vão para
três ou quatro e todos estarem fechados, ela comentou-me com
um sorriso amistoso: neste vou conseguir, o que entendi logo
que atendeu e ela mencionou tratar-se de um grupo de
brasileiros. Ele concordou e como era perto, em poucos
minutos estávamos lá. De fato estava fechado. Antes que
chegássemos mais próximo para ver, vimos alguém abrindo a
porta e acendendo as luzes. Pelo jeito era o próprio dono e
não tinha ninguém a ajudá-lo. Somente depois de alguns
minutos chegou alguém que imaginamos ser o cozinheiro. Nos
comentou que fechavam às 22 e que já fazia quase uma hora
que estava fechado. Ficamos meio sem jeito e antes que
pudéssemos demonstrar, ele disse que amava o Brasil, com um
sotaque bem italiano. Perguntei-lhe onde e quando tinha
visitado nosso país pela última vez. Surpreendeu-nos dizendo
que não conhecia e de imediato lhe perguntei porque gostava
sem conhecer. Respondeu-nos que era muito amigo de Emerson
Fittipaldi e que este e seus amigos iam sempre lá quando iam
correr em Laguna Seca, que é um autódromo próximo dali e de
Monterrey, outra praia muito conhecida, que hoje lembro, por
ser onde morreu John Denver, em um desastre com seu avião.
Perguntou se poderia preparar
o prato preferido de Fittipaldi e sem ver o cardápio e saber
seu preço, tivemos medo. Mas como não tínhamos outra opção e
imaginando que poderia nos passar o mesmo que acontecera no
hotel, concordamos, sem perguntar, embora de imediato nos
tenha pregado outro susto, trazendo o vinho que Emerson
costumava tomar. Susto maior foi ver depois de três garrafas
abertas, que o vinho além de ser de primeiríssima, era
italiano. Desconfiado perguntei-lhe porque não nos oferecia
um vinho de Nappa Valley (região da Califórnia, próxima dali
e famosa por produzir o melhor vinho americano). Nem se
compara, respondeu assustando-nos mais ainda. Talvez por
deixar transparecer nosso medo, ele cortesmente disse que o
vinho era por conta da casa, ao que desejamos que trouxesse
mais. E trouxe. Foram mais de dez garrafas em sete para
beber.
O Fetuccini preparado à moda
Fittipaldi era realmente para não esquecer, se bem que o
melhor da estória ainda estava por acontecer. O marido de
uma dentista que acompanhava o grupo, talvez já embalado
pelo bom e barato (por ser grátis) vinho, decidiu comentar
que a bebida típica brasileira era melhor do que vinho e não
percebendo que o simpático italiano enchia sua esposa de
atenções, dispôs-se a ir para a cozinha preparar a
propagandeada caipirinha, tendo que voltar algumas vezes, já
que o cozinheiro não falava espanhol e ele não falava
inglês. Em todas, o rápido italiano estava perigosamente
próximo de sua esposa, se bem que com a mesma rapidez se
afastava, de forma que com o retardo de reflexos do barman
recém promovido, este nem percebia. Saiu a caipirinha e os
brasileiros com o vinho italiano de primeira nem se
aventuravam a experimentar. Só o italiano e o marido
desligado a bebiam, sendo que o primeiro enchia de elogios o
segundo, fazendo com que por duas vezes este voltasse à
cozinha para preparar mais caipirinha. E o italiano já não
estava nem mais perto da bela mineirinha. Estava junto e
esta com o vinho nem esboçava repulsa ou reação, tal qual o
marido.
Fomos ficando preocupados
porque o mineirinho não comia e o italiano dava a entender
que iria jantar a mineirinha, que falava razoavelmente o
inglês e entendia bem de mímica erótico-sentimental
italiana. O jeito era ensaiar ir embora, ao que nosso
anfitrião prontamente cortava trazendo mais um vinho e
pedindo mais uma caipirinha. Nossa resistência ao vinho era
bem menor do que a do simpático italiano, a menos que nosso
anti-herói brasileiro, por não compreender o idioma tenha
colocado algo como água mineral no lugar da pinga ou vodca,
no preparo da mais típica bebida nacional. Neste clima foi
difícil pagar a conta, não só porque o italiano não queria
que a mineirinha se fosse e porque não queria nos cobrar.
Insistimos e depois de mais duas garrafas de vinho,
estabeleceu um preço simbólico de U$ 100 por tudo, o que nos
pareceu razoável pelo que nos foi servido, em que condições
e por imaginarmos que para alguém do nível de Emerson
Fittipaldi, os U$ 100 deveria ser o preço para um casal.
No caminho para o hotel, nos
divertíamos porque a mineirinha dava uma dura no marido por
ter bebido tanto e este ao invés de retribuir-lhe a bronca
por permitir o assédio do veloz italiano, só insistia em
dizer que amanhã ele é quem iria dirigir a van até San
Francisco. Como no samba, amanhã vai ser outro dia, deixamos
nosso anti-herói dormir com a sensação que tinha alguma
coisa em comum com Fittipaldi: a intimidade com o italiano,
para não nos comprometermos com outras coisas, se bem que
alguns do grupo, por gozação, diziam que poderia haver uma
cozinheira lá dentro e por isto o mineirinho não saía de lá.
Outro disse que era por causa do cozinheiro, mas aí já é
demais. O certo é que o vinho era ótimo, a caipirinha não
sei, o restaurante inesquecível e o hotel idem,
principalmente por seus jardins, paredes de vidro, lareiras
e flores a se perder de vista. Carmel, não só na cabeça do
mineirinho, como na dos demais também, vai ficar inapagável
em nossa lembrança, ainda que o mineirinho e a mineirinha
não estejam mais juntos.
AYRTON SENNA, ARROZ E
FEIJÃO
Era o último dia de minha
primeira viagem aos Estados Unidos e ainda continuava
deslumbrado com tudo que tinha visto e sentido. De tão
marcado, imaginava ter ido ao futuro e estar prestes a
voltar. Mas quem viaja ao exterior, tem sempre emoções até o
último minuto e as minhas ainda não tinham terminado.
Andamos por lugares como
Dallas, Fort Worth, Los Angeles, Carmel, San Francisco,
Miami, Fort Lauderdalle e Orlando, alternando cidades
grandes, com pequenas bonitas. Dallas com seus edifícios de
vidro que encostam no céu refletindo brilho e luz para toda
a cidade, além de ter a voz embargada no lugar onde mataram
o primeiro presidente católico dos Estados Unidos. De Fort
Worth eu nunca havia escutado falar, mas o tamanho do seu
aeroporto e o espetáculo de, ao estarmos indo à noite para
uma festa de rodeio, olhar para o céu e imaginar o mais
estrelado do mundo e aos poucos ir percebendo que todas as
estrelas se movimentavam na mesma direção, me fez pensar que
eu havia bebido demais, o que não ficaria bem a um
coordenador de grupo. Com o tempo fui percebendo que giravam
e se dirigiam baixando para um mesmo ponto e que eram na
verdade centenas de aviões, fazendo operação de descida, em
um típico começo de noite das grandes cidades americanas.
De Los Angeles, depois de ter
conhecido o centro antigo e quase nos termos perdido em um
bairro de mexicanos, fizemos o contraste conhecendo a
Disneylandia original, os estúdios da Universal, Hollywood,
Beverly Hills e a calçada da fama, tudo num dia só. Foi
deslumbre igual ao que imagino sentiria ser convidado para
assistir a cerimônia de entrega do Oscar, onde, diga-se de
passagem, estivemos em frente e pelo lado de fora
imaginarmos o que poderia ser o luxo de seu interior.
Hippies, carrões, motos Harley Davidson e mansões
completaram nosso êxtase.
Da viagem para San Francisco,
a estrada costeando o oceano Pacífico, que de pacífico tem
muito pouco e o castelo de William Randolf Heast, (o
poderoso fundador de uma das maiores cadeias de jornais e
TV's do mundo), que aumentou sua fama por ali ter vivido a
herdeira Patrícia, que depois de seqüestrada, se apaixonou
pelo seqüestrador e terminou presa por se tornar
seqüestradora também, só perdem em emoção para Carmel, a
cidade de cinema que até Clint Eastwood quis ser prefeito.
Uma espécie de Petrópolis, Campos do Jordão ou Gramado no
estilo, só que a beira mar. Em Carmel, além de termos nos
hospedado no hotel da Doris Day, jantamos num restaurante
cujo dono era amigo do Emerson Fittipaldi e nos tratou tão
bem, a ponto mereceu uma estória especial, que você
encontrou no capítulo anterior.
A chegada a San Francisco
daria “close” para um filme, tal era a imagem de seis
deslumbrados brasileiros percorrendo, sem correr, a ponte
Golden Gate e do outro lado tentando ver a cidade nos
binóculos públicos, sem ter a moeda de 25 cents para
fazê-los funcionar. Era apontar, olhar e numa fração de
segundos a imagem se fechar por falta de colocação da moeda.
De tanto fazer, a justificativa nos parecia até estar
escrita em português, talvez pelo fato de tanto a lermos,
ser-nos possível entender seu conteúdo, ainda que nosso
inglês não fosse bom a tanto.
Fazer o vôo de costa a costa,
atravessando todo o território americano e pelas quatro
horas de diferença no fuso horário, sair às seis da manhã,
voar quatro horas e chegar a Miami igualmente às seis da
manha e continuar vendo o dia amanhecer em todo o trajeto e
novamente tomar café da manhã foi outra experiência de
deixar tupiniquim com pena na cabeça. Como marinheiros de
primeira viagem, voando pelos céus americanos, programamos
mal o roteiro já que íamos para Orlando, conhecer a outra
Disney e assim tivemos que gastar mais uma passagem, que
poderia ter sido economizada se tivéssemos tomado um vôo
direto a Orlando, além de nos obrigar a alugar uma van para
fazer o trajeto de volta. Ou foi ao contrário? A confusão
foi tanta e os dez anos passados não me permitem lembrar com
exatidão. Sem contar que o hotel em Orlando era muito longe
de todas as atrações que pretendíamos visitar. Recordo do
quilômetro que caminhamos para chegar a uma pizzaria,
tentando fugir da comida americana. Depois de meia hora
caminhar e meia hora esperar, provar a pizza completamente
doce, nos fez pedir um táxi e ir dormir mais cedo de tanta
raiva.
De toda a viagem, o que
melhor lembro foram os mais de cinco quilos que perdi, sem
estar fazendo qualquer tipo de regime. Não conseguia comer
quase nada, por não suportar o hábito local de colocar
tempero doce em tudo e pelos doces, talvez por razões
dietéticas, não serem doces como os daqui e também porque
tínhamos no grupo alguns que já conheciam os EUA e um ou
dois que lá inclusive já tinham morado, que em cada cidade
nos diziam onde tínhamos que almoçar ou jantar. Além das
naturais dificuldades com o idioma na hora da escolha,
quando conseguia a muito custo identificar algo para comer,
o garçom me perguntava em inglês rápido, qual o tipo de
molho ou se queria bem passado ou ao ponto e lá ia por terra
o meu pobre inglês. Lembro de uma tentativa que fiz ao pedir
o mesmo que um dos que falavam bem inglês havia pedido,
emendando logo após o pedido dele um "one more for me", ao
que o garçom sem entender, perguntou ao bom de inglês o que
eu estava pedindo. Lembro de ter escutado algo como "me too",
que só alguns anos depois vim a entender o significado.
Em Orlando fiquei indignado
por ter que várias vezes esperar quarenta a cinqüenta
minutos na fila para poder entrar na atração seguinte, que
muitas vezes não levava dez minutos para se ver ou terminar.
Mesmo assim valia a pena, tanto que corríamos para tentar
não pegar fila na atração seguinte. Só nas não muito boas
não havia. Para passar melhor o tempo, nas de longas filas
havia um locutor que de vez em quando contava aquelas
piadinhas sem graça que só americano consegue rir e eu tinha
que dar risada, sem ter entendido quase nada, até para os
colegas de grupo não perceberem que meu inglês era pior do
que eles imaginavam ser.
Por sorte a viagem estava
terminando e logo poderia voltar a ter paladar. Miami era a
última cidade e como não me sobrava muito dinheiro tratei de
comprar somente coisas úteis. Uma das que lembro era uma
filmadora que tinha inacreditável tamanho, correspondendo à
metade das que se via no Brasil àquela época e exatas três
vezes maior das que se usam hoje. A estou guardando para em
alguns anos poder vendê-la nestes lugares de antiguidades.
Acho que a comprei na Victor's, não só pelo preço, mas pelo
fato de ser loja para brasileiros, onde todos falavam
português e principalmente porque me haviam dito que lá
havia um restaurante que todos os dias servia feijoada.
Não suportava mais a fome e
mesmo não acreditando fui conferir. Na loja perguntei onde
era o restaurante e um dos balconistas rindo e entendendo
meu drama, que na verdade era o da maioria, a ponto de um
bom marqueteiro ter idealizado a feijoada como chamariz da
loja, indicou-me a direção. Não era um restaurante, na
verdade havia quatro ou cinco mesas e uma abertura por onde
uma negra simpática, com mais jeito de brasileira, passava
uma bandeja pronta com a feijoada à americana. Respeitada as
limitações e dado o incontido desejo de comida brasileira,
dei nota 10 para o prato e uma nota de 10 dólares, achando
até barato o que no Brasil não passaria de um PF. Mas a
sobremesa ainda seria melhor.
Em um dado momento, sentou-se
na mesa em frente a nossa, sozinho e com ar um tanto tímido,
um tipo que à época ainda não era tão conhecido no Brasil,
até porque estava voltando da segunda vitória em sua
carreira de mais de quarenta e que talvez ainda nem
imaginasse que viria a ser tri campeão mundial. O próprio,
Ayrton Senna. Um dos colegas perguntou se era ele mesmo e os
outros dois ao vernos comentar se viraram para vê-lo, sem o
menor disfarce, fazendo com que Ayrton, com seu jeito gente,
que depois o notabilizaria pelo mundo, percebendo o espanto
e surpresa dos dois incrédulos que acabavam de virar o rosto
com sincronia, com um meio sorriso e discreto aceno nos
cumprimentou. Na verdade nem sabíamos que no dia anterior
ele havia vencido o Grande Prêmio dos Estados Unidos,
naquele ano disputado no circuito de Phoenix, no deserto do
Arizona.
Com a mesma discrição que
chegou, se retirou, sem que houvéssemos percebido, até
porque decidimos repetir a feijoada, mais pela fome do que
por sua excepcional qualidade, o que logicamente não
aconteceu com nosso atlético campeão. O dia passou e
inexperientes fomos para o aeroporto com duas horas de
antecedência, como recomendavam as intrusões da passagem.
Desnecessário dizer que fomos os primeiros a chegar e não
encontramos o balcão da Varig para “check in”. Lógico, os
funcionários de lá também eram brasileiros e ainda não
haviam chegado para colocar a plaqueta indicativa. Fomos
para a sala de embarque assim que o alto falante chamou pela
primeira vez. Logicamente, de novo os primeiros a chegar.
Nosso consolo foi ver meia
hora depois, o futuro ídolo dos domingos, tranqüila e
humildemente sentado em cima de sua mala de mão, que mais
parecia um saco de dormir. Como ficávamos o tempo todo
olhando para ele e algumas vezes o apontando, em um dado
momento ele nos repetiu o aceno e esboçando um sorriso fez
um sinal de positivo, que muitas vezes depois nos levou a
emoções pelo mundo, na voz de Galvão Bueno e uma bandeira do
Brasil a tremular. Não resisti, peguei um papel e caneta e
num autêntico estilo fã, fui pedir-lhe um autógrafo, ao que
ele, solícito e atencioso prontamente atendeu, alertando-me:
"Vê lá o que você vai fazer com a minha assinatura".
Inocente contei-lhe que era para um irmão fanático por
corridas de automóveis, ao que ele de novo me gozou:
"Engraçado, ninguém pede um autógrafo para si, sempre é para
um filho ou outra pessoa". Naquele momento não poderia
imaginar que estava falando com um dos maiores ídolos que
este país já conheceu. Só tive emoção maior naquele fatídico
primeiro de maio!
Quando já estava me
imaginando alguém importante, ali conversando com Ayrton
Senna, chamaram para embarque e ele se foi para a primeira
classe e nós para a econômica.
E AGORA SATOSHI?
Uma das melhores coisas que a
vida me reservou foi organizar grupos de Cirurgiões
Dentistas para um curso de implantes na Argentina. Foram 43
turmas e de cada uma delas ficava um fato pitoresco, os
quais com um pouco de boa vontade pode ser humorístico.
Começava divertido, porque
nos encontrávamos no aeroporto de São Paulo, entre 20 e 30
profissionais, a maioria que eu não conhecia e quase sempre
sem que eles se conhecessem entre si. O inusitado, somado ao
desconhecido libera a personalidade e se não voltamos a ser
crianças, pelo menos soltamos os freios que nos impomos para
o comportamento do dia a dia.
Voávamos pela Aerolíneas
Argentinas e para muitos era a primeira vez que saíam do
país. Já começava divertido porque àquela época a companhia
aérea era estatal e as aeromoças tinham em média entre 40 e
50 anos, pelo qual as chamávamos "aerovelhas". Para
completar, aeromoça em espanhol é açafata, que com o
espírito solto virava a safada nas brincadeiras da maioria,
sem que elas entendessem porque nós ríamos tanto.
Depois de um sobrevôo nas
cataratas do Iguaçu, uma das vistas aéreas mais
espetaculares do mundo, na opinião de turistas dos mais
variados países que a cada viagem estavam presentes, alguns
não entendiam como podiam falar castelhano os agentes da
polícia Argentina que naquele aeroporto faziam os serviços
de migração. Estávamos em Puerto Iguassu, separados de Foz
do Iguaçu apenas por um rio.
O equipamento era na maioria
das vezes um Boeing 727, que não opera mais passageiros no
Brasil e ao chegar no Aeroparque (o aeroporto para vôos
domésticos de Buenos Aires) cruzava no final da pista com um
museu da Força Aérea Argentina, onde quase 50 aviões antigos
estavam em exposição. Ajudávamos a manter o bom espírito do
grupo pedindo que todos descessem, pois