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O CIRURGIÃO DENTISTA E A ESCRITA



Nos recém findos jogos olímpicos de Sidney, chamou-me a atenção a dificuldade dos brasileiros para conseguir, nos momentos decisivos, transformar sua superioridade ou aptidão em medalhas de ouro, mesmo nos esportes em que tinham tudo para vencer. Provavelmente esse fato tenha a ver com nossa pouca intimidade com grandes vitórias, aquelas com repercussão mundial. Ou talvez com a nossa reconhecida tendência a sermos bons em uma coisa só. Pode ser até o somatório das duas, aliado a algum outro componente mais.
 

Sem medalhas de ouro, embora tendo tido pelo menos 10 modalidades em que elas não seriam surpresa e sim a lógica, voltamos da Austrália com a certeza de que nos faltou o detalhe, aquele “algo mais”. Com essa realidade, precisamos repensar o outro lado dos nossos grandes nomes: o psicológico - com o qual os diferenciados tenham também uma preparação na dimensão maior da sua capacidade, que é conhecer o como chegar lá e o que é preciso para atingir o topo, além de saber ensinar aos demais compatriotas o fundamental para ser o melhor.
 

Por esse motivo, os nossos bons precisam treinar e estudar no exterior. Falta-nos o hábito de transmitir, de ensinar. Mais que isto, ver na atitude de passar ao semelhante o que com a ajuda de outros foi aprendido: uma postura vencedora. Quem ensina quer sempre aprender mais e está sempre em busca do aprimoramento. Quem apenas sabe, muitas vezes pensa que é o melhor, que nada mais precisa aprender e, justamente por isto, muitas vezes acaba não ganhando porque outros têm a mesma capacidade, mas uma dimensão um pouco maior. E isso faz a diferença. Só se consegue crescer de verdade, quando se começa a ensinar. Só conquistaremos medalhas de ouro, quando muitos forem bons e alguns se sobressaírem por serem os melhores e terem ensinado.
 

Senti esta dificuldade nos seis anos em que fui editor da BCI - Revista Brasileira de Cirurgia e Implantodontia e agora nos dois anos que dirigi cientificamente o JAO. Percebemos que são muitos os capacitados, os que sabem. E poucos os que se dispõem a transmitir, a escrever e fazer chegar seu conhecimento a tantos quantos se dispuserem a lê-lo. A cada número por fechar é sempre a mesma dificuldade em conseguir a quantidade de artigos e matérias necessários, quando o ideal seria tê-las com sobras e poder escolher as melhores. Temos que fazer marcação cerrada sobre os amigos, quando não, exercer alguma pressão e sempre colaborar escrevendo algumas, às vezes muitas, matérias para que as revistas continuem com a periodicidade em dia, que é um dos maiores compromissos da editora com seus leitores.
 

Esquece a maioria que a história é implacável com os que não passam a fazer parte dela, punindo-os com o esquecimento. Só os que fizerem algo mais terão assegurado seu lugar entre os grandes. Mesmo que alguns sejam reconhecidamente bons, a maioria não o sabe e seu domínio estará restrito aos que mais de perto o acompanham. Só o reconhecimento da maioria, nas grandes vitrines da humanidade, é garantia de conquistas, muito embora não precisemos medalhas no peito para sermos grandes. Basta o reconhecimento de quem algo aprendeu conosco. Aí valeremos ouro.

ANTÔNIO INÁCIO RIBEIRO
Diretor Científico

PUBLICADO NA JAO Nº22 DE NOV/DEZ DE 2000 PELA EDITORA MAIO

 

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