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A Carta Anônima
No ano em que estarei completando
trinta anos dedicados a uma Odontologia maior e melhor, no mês
em que lancei meu vigésimo livro, pronto para lançar o
vigésimo primeiro, que acredito será uma contribuição marcante
para o futuro da profissão, recebi minha primeira carta
anônima. Digo anônima porque o nome e o endereço que nela
constavam eram falsos. Seu missivista, nem o anonimato
assumiu, preferindo esconder-se na falsidade ideológica.
Considerei-a um indicador do meu sucesso, porque acho que
comecei a incomodar, até porque ninguém atira pedras no que
está em último lugar nas pesquisas. Em nosso país, nem o
segundo colocado é alvo de atenções.
Na carta, a crítica maior é pelo
fato de que uso os livros para me promover. Não deixa de ser
uma verdade, porque desde pequeno aprendi que se eu mesmo não
divulgar meu trabalho e capacidade, poucas vezes o verei
reconhecido, até porque não é hábito dos nossos tempos
ficar-se enaltecendo as capacidades de outrem, o que,
particularmente, acho uma pena. Por outro lado, ficou-me a
certeza de que o meu crítico anônimo não leu meus livros.
Talvez tenha se restringido a olhar as capas nos folhetos de
divulgação, porque em seu interior, o que mais faço é promover
a Odontologia e tentar encontrar uma fórmula – ou fórmulas –
de brindar aos que o lerem, com maneiras de melhor tocar suas
carreiras, no que diz respeito a administração e marketing,
áreas em que sou especialista. Foi a maneira que encontrei
para dividir com os semelhantes o que, como dádiva, tenho
aprendido no convívio com grandes mestres, da sua e da minha
área.
No tocante a promover meus livros
e meu trabalho, tenho uma justificativa histórica e
particular: enviei, como cortesia, os vinte livros que já
escrevi (desconheço outro autor que tenha escrito tantos neste
meio) para as mais de oitenta entidades da Odontologia
brasileira que tenho em meu cadastro e o máximo que consegui
foram duas ou três notinhas, enquanto livros do tipo “Como
fritar bolinho” ou “Aprenda a jogar bolinha de gude” ganham
meia página, com direito a fotos e comentários incentivadores.
Não escrevo para ganhar reconhecimento. Se assim o fizesse, já
teria parado. Nem para ganhar dinheiro. Inclusive, porque nos
meus primeiros vinte anos como livreiro especializado em
Odontologia, o apartamento onde morava e a loja que tinha eram
alugados, só vindo a ter bens próprios a partir de meu sucesso
com os implantes: a bem da verdade, os financiadores da minha
carreira com as letras.
Para compensar, no mesmo dia
recebi uma outra carta, cuja autora, depois de mencionar ter
lido cinco dos meus livros e ser fã e leitora desta revista,
“lendo inclusive os editoriais”, incentivou-me com o
comentário: “você é um exemplo a ser seguido”. Como em tudo,
nada como um dia depois do outro. Obrigado, Tadeu
(auto-alcunha do anônimo). Obrigado, Karen (nome verdadeiro da
leitora). A partir de agora, sinto que comecei a fazer
sucesso. Sucesso é o que desejo para vocês. Todos vocês.
Inclusive ao anônimo.
ANTÔNIO INÁCIO RIBEIRO
Diretor científico
PUBLICADO NA JAO Nº27 DE SET/OUT DE 2001 PELA EDITORA MAIO
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