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CAMPO GRANDE

  ANTÔNIO INÁCIO RIBEIRO

Outra cidade em que o verde abundante contrasta com o conglomerado urbano e seus edifícios é a capital do Mato Grosso do Sul. Sempre pronunciamos o nome destes dois estados e poucas vezes nos detemos a pensar em seu significado, talvez pela ação do homem que quase dizimou a madeira ali antes existente e que tem levado madeireiros e serrarias numa corrente migratória que começou em Santa Catarina, correu pelo oeste paranaense, derrubando pinheiros e subiu pelos dois Mato Grosso, andou por Rondônia e Acre, para, quando imaginávamos que fossem entrar pela Bolívia e Peru, instalaram-se no Pará e Maranhão.
Seus primeiros colonizadores vieram de Minas Gerais, atraídos por um campo grande e plano para criação mais fácil de seu gado em pastagens planas e com água abundante. A fundação da cidade data de pouco mais de duzentos anos, sendo uma das mais jovens dentre as capitais brasileiras. A razão de sua localização é a estrada boiadeira que existia na região e seu desenvolvimento teve a colaboração dos militares que mais tarde decidiram ali sediarem diversos comandos militares, assim como a passagem da ferrovia que na seqüência une Corumbá a Santa Cruz de la Sierra na Bolívia. Para os estrangeiros, a ferrovia era uma das maneiras de conhecer melhor a biodiversidade do ecossistema da região, numa época em que não dominávamos bem o significado destas palavras diferentes. O impulso mais recente para a cidade foi a divisão em dois novos estados para o antigo grande Mato Grosso no atual e no Mato Grosso do Sul, tendo sido Campo Grande, pelo fato de ser a maior cidade e por sua estratégica localização geográfica a escolhida para ser sua capital.
Pelo fato de ser porta de entrada obrigatória para os que se destinam por via rodoviária ao pantanal, a cidade procura caracterizar-se como tal adotando garças, araras e tucanos em seus orelhões de telefonia, compondo um visual diferente à sua paisagem urbana. Assim, até alguns jacarés podem ser encontrados em pleno centro de Campo Grande, com um oportuno telefone dentro, permitindo falar com seus parentes e amigos e participar-lhes a novidade de estar perto, senão dentro de um dos animais típicos do pantanal mato-grossense, maneira encontrada para não se discutir onde se encontra decididamente o pantanal e que os políticos da região, sabedores de seu potencial turístico, souberam preservar para seus respectivos estados a partir da divisão acontecida em 1977.
Outro fato pitoresco e curioso da região onde se localiza Campo Grande refere-se à estrada de ferro que lá chegou em 1914, trazendo habitantes, dinheiro e progresso para a região. Pela necessidade e por economia ela deveria simplesmente atravessar a cidade, ou melhor, passar a seu largo. Por um destes caprichos da engenharia política, a estrada faz uma curva, para somente depois da estação realizar uma verdadeira meia volta e aí então seguir para Corumbá. Este fato é bem perceptível para os que chegam por via aérea, pois alterou o trajeto de ruas e até bairros, visíveis na rota de aproximação habitual ao aeroporto da cidade.
Aos que pretendem conhecer a parte sul do pantanal e optarem pelo avião, se recomenda conhecer alguns pontos de atração da cidade, aproveitando a escala para mudança do meio de transporte. Para tanto, procuraremos destacar os mais importantes e fazer alguns comentários acerca de cada um. Nos monumentos, o que merece destaque é o Obelisco, localizado na esquina da Av. Afonso Pena com José Antônio (rua em homenagem a José Antônio Pereira, mineiro fundador da cidade). Para os que conhecem, tem similaridade com o existente na Av. 9 de Julho em Buenos Aires. Como na capital argentina, aqui também existe um relógio construído em comemoração ao aniversário da cidade. Para os que estão na cidade por outros motivos e não irão conhecer o pantanal, uma opção para conhecer a flora da região é visitar o Horto Florestal, numa área de cerca de cinco hectares, incluída uma pista de Cooper. Além de sua importância paisagística, o parque tem valor histórico, pois está situado no local do acampamento que deu origem à cidade e que hoje preserva seu paisagismo.
Para conhecer a cultura dos primitivos pantaneiros da região uma sugestão é a Barroarte, na Av. Afonso Pena onde é exibido o trabalho de artesãos e artistas plásticos. Compondo ambiente, a mostra se localiza numa casa de estilo colonial e seu ponto forte são as peças indígenas. A culinária da região e doces caseiros são a parte gastronômica do passeio. Numa linha parecida, está também a Casa do Artesão, localizada na antiga sede do Banco do Brasil na Av. Calógeras. Concentra-se em apresentar peças do artesanato do estado, em argila, retratando imagens sacras e artefatos indígenas.
Numa mudança radical de aparências e hábitos, a Catedral de Nossa Senhora da Abadia, substitui a original, na forma de um templo de linhas modernas e arrojadas, principalmente por tratar-se de uma catedral, que normalmente imaginamos grande e antiga. De arquitetura original, a que se conserva é a Igreja de São Francisco, localizada na rua 14 de julho e abriga os padres franciscanos.
Dentre os museus da cidade, destacam-se o José Antônio Pereira, na Av. Guaicurus, a cinco quilômetros do centro da cidade, numa antiga fazenda conhecida pela denominação de Bálsamo, onde o fundador da cidade residiu por muitos anos. Bens e costumes dos antigos moradores estão representados por monjolos, carros de boi e uma casa de pau a pique, comuns na época. Em outro oposto, não só por situar-se no centro da cidade, mas por reunir obras dos artistas plásticos do estado, está, na Av. Calógeras perto da Casa do Artesão, o Museu de Arte Contemporânea, que estimula as artes, mantendo oficinas de arte para os interessados em desenvolverem seus talentos. Não poderia faltar o museu do índio, denominado Museu Dom Bosco e localizado na rua Barão do Rio Branco. Originado por iniciativa dos padres salesianos, seu ponto alto são mais de mil animais empalhados. Este trabalho teve fundamental participação do taxidermista Giovanni Magrin, que andou por todo o pantanal em busca da fauna pantaneira. Outro atrativo do museu, este de ligação direta com seu objetivo, são cerca de cinco mil peças dos índios bororós, xavantes, moros e carajás, além de outros não tão conhecidos. Tanto a parte indígena como os animais impressionam pela perfeição e riqueza de variedades.
Ainda na linha indígena, devem ser visitados o Parque das Nações Indígenas e a Feira Indígena. O parque se localiza nos altos da Av. Afonso Pena e se compõe de mais de 100 hectares, onde anterior a ele, pesquisadores que exploraram a região encontraram sinais da civilização pré-colombiana, evidenciando a presença de povos pré-históricos na região. A feira se localiza na praça do Mercado Municipal, na praça Oshiro Takemori. Tem finalidade social, pois centraliza a venda de raízes e artesanato produzidos pelos próprios índios da região, que assim encontram seu meio de sustento. Existe ainda o Memorial da Cultura Indígena no bairro Tiradentes, na saída para Três Lagoas em direção a São Paulo via Araçatuba, que tem como diferencial ser a única aldeia indígena urbana do país. Seu prédio principal, construído de bambu e coberto por palha tem mais de trezentos metros dedicados à comercialização de produtos do artesanato indígena.
Ponto pitoresco e atração histórica é a Morada do Baís, também conhecida como Pensão Pimentel. É hoje espaço cultural para exposições e apresentações. Sua construção data do começo do século passado e foi residência de um dos primeiros comerciantes que posteriormente viria a se tornar característica da presença árabe na cidade. Nela funciona também um restaurante de comidas típicas da região e está aberta até as 20 horas.
Estas são algumas referências e particularidades de Campo Grande, cidade agradável e hospitaleira que sempre nos brinda com a simpatia de seus habitantes.

 

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