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TURISMO

 

BOGOTÁ

Da coca à fé,
Passando pelo café  

 

Centro político e geográfico do único país da América do Sul que é banhado por dois oceanos, o Atlântico e o Pacífico, Bogotá está localizada na cordilheira que divide o país em duas partes distintas: a com montanhas e estradas da floresta amazônica, cheia de rios e sem estradas. É uma cidade que, mesmo vista do alto de seus mais elevados picos, não nos permite vê-la toda, por sua surpreendente grandeza. 

Sua fundação data de 1538, por colonizadores espanhóis que, na região, encontraram um pequeno povoado indígena, situado na beira do rio Bogotá, na base das Cordilheiras Orientais, uma ramificação dos Andes. Sua história mantém com as demais nações de fala espanhola da América do Sul muitos traços em comum, inclusive por ter como libertador o mesmo Simon Bolívar, que veio a ser o primeiro presidente da República da Colômbia.

Seu traçado urbano chama a atenção pela simetria das avenidas horizontais com as ruas transversais, uma influência espanhola que facilita o turista a se localizar e diminui um pouco o caótico trânsito da cidade, em que um projeto nos moldes do de São Paulo tira diariamente os veículos de dois finais de placa. Facilita também a circulação de um bem montado sistema de ônibus, que, para orgulho dos que vivem em Curitiba, usa tecnologia e veículos fabricados na capital paranaense.

Outra característica marcante é a religiosidade do povo. Além de cada quadra ter a sua igreja, todas têm celebração de missas ao meio-dia e, nessa hora ficam cheias de fiéis que dedicam parte de seu horário de almoço à alimentação espiritual. Isto sabendo, entendi porque o Papa Paulo VI esteve antes na Colômbia, para inaugurar um Congresso Eucarístico Internacional, do que as três viagens de João Paulo II ao Brasil, o país mais católico do mundo. A força da fé dos colombianos talvez só encontre rivais no Vaticano.

A pobreza visível do povo contrasta com a riqueza de seus prédios públicos e das grandes obras que caracterizam Bogotá, inclusive de alguns de seus complexos urbanísticos, que se distinguem pela grandiosidade. Seu centro histórico tem uma concentração populacional por metro quadrado que talvez só se encontre nas grandes cidades da China ou da Índia, e para contrastar, seu atrativo turístico mais singular é o Museu del Oro, talvez um dos mais ricos do mundo, se considerarmos seu valor real pelo nobre metal em vez do histórico, pela antigüidade que os grandes museus do mundo costumam se caracterizar.
 

Talvez por termos visitado toda a cidade e deixado o museu para algum dia em que chovesse, algo comum em Bogotá, a última impressão ajudou a ser mais marcante, tanto que a menção como maior atrativo da cidade se justifica. São 34.000, isto mesmo, 34.000 peças de ouro no museu, abordando tudo o que se possa imaginar em ouro, e muito do que não se imagina também. A visita culmina com a chegada ao Salão Dourado, que, em um mesmo ambiente, reúne mistério e fascinação em 8.000 peças de ouro. Imperdível.
 

Em segundo lugar, na ordem de impressão que causam, estão as inúmeras igrejas do centro de Bogotá. Talvez porque a maioria seja decorada basicamente com ouro, e talvez por esta abundância do vil metal em paredes e adornos, o povo não tenha dinheiro. Dentre as mais impressionantes, não deixe de visitar: Santo Agostinho, São Francisco, Santo Inácio, Santa Clara e Concepção de Maria. Cada uma com seu estilo e características, todas belas e impressionantes. Não deixe de apreciar as feições do povo que, em quantidade considerável, se faz presente durante todas as horas do dia. Evite os horários de almoço, pois as missas e a grande quantidade de fiéis não permitem visitas neste horário.
 

Os palácios do Governo, da Justiça, de São Francisco, Echeverry, San Carlos e outros da área central da cidade, consomem horas de contemplação e fotos, ainda que a maioria não permita acesso ou o permita de forma restrita. Valem pela construção, beleza, imponência, linhas e estado de conservação. Têm a vantagem de se concentrarem em uma área específica da cidade, plana e segura.
 

Para variar os passeios a pé no centro da cidade, boa intercalação é ir ao Montsserrat, um mirante no alto da Cordilheira Oriental, de onde se pode ter um visão geral, quase global, da grandeza de Bogotá. O passeio pode ser feito de táxi, que, com preço pré-combinado, não é caro, ou de ônibus, preferencialmente ao meio-dia, já que em uma parada intermediária e no topo se pode fazer um lanche substitutivo do almoço, desfrutando de uma paisagem a perder de vista.
 

Aos que gostam de maior contato com a natureza, a visitação aos parques é um atrativo da capital colombiana. Alguns são próximos e a maioria interessante, sob diversos aspectos. O Central Bavária, pela localização, o Simon Bolívar, por ser uma antiga fazenda, e o Nacional e Santander, por suas fontes e águas, o último por ser o lugar onde ficaram as primeiras ordens religiosas de São Francisco e Santo Domingo.
 

Algumas atrações independentes e variadas podem ser a Praça de Toros de Santamaría, para os que nunca foram à Espanha; o Mirante da Torre Colpatria, o edifício mais alto da cidade; a Maloka, que é um centro interativo de ciência e tecnologia; o Teatro Cólon, por sua grandeza e requinte; a Biblioteca Nacional, por seu acervo; e o Colégio Maior de São Bartolomeu, por sua imponência e grandeza.
 

Àqueles que têm medo ou não se motivaram ainda a visitar a Colômbia por causa do terrorismo e guerrilhas, lembrem que estas acontecem no interior distante do país e que a capital Bogotá é uma cidade tranqüila, de povo em paz e contra qualquer belicismo, havendo nas regiões centrais da cidade bom policiamento e segurança. Para se ter uma idéia diferente da riqueza da Colômbia, hoje lamentavelmente associada à cocaína, não podemos esquecer que este país foi o que desbancou o Brasil da condição de maior exportador de café do mundo. Acredite: a fé dos colombianos, seu passado e riqueza merecem a sua visita.


PUBLICADO NA JAO Nº 31 DE MAI/JUN 2002
ANTÔNIO INÁCIO RIBEIRO

 

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