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ODONTO HUMOR

rir, o melhor remédio 

 

Antônio Inácio RIBEIRO

 

E AGORA SATOSHI?

Uma das melhores coisas que a vida me reservou foi organizar grupos de Cirurgiões Dentistas para um curso de implantes na Argentina. Foram 43 turmas e de cada uma delas ficava um fato pitoresco, os quais com um pouco de boa vontade pode ser humorístico.

Começava divertido, porque nos encontrávamos no aeroporto de São Paulo, entre 20 e 30 profissionais, a maioria que eu não conhecia e quase sempre sem que eles se conhecessem entre si. O inusitado, somado ao desconhecido libera a personalidade e se não voltamos a ser crianças, pelo menos soltamos os freios que nos impomos para o comportamento do dia a dia.

Voávamos pela Aerolíneas Argentinas e para muitos era a primeira vez que saíam do país. Já começava divertido porque àquela época a companhia aérea era estatal e as aeromoças tinham em média entre 40 e 50 anos, pelo qual as chamávamos "aerovelhas". Para completar, aeromoça em espanhol é açafata, que com o espírito solto virava a safada nas brincadeiras da maioria, sem que elas entendessem porque nós ríamos tanto.

Depois de um sobrevôo nas cataratas do Iguaçu, uma das vistas aéreas mais espetaculares do mundo, na opinião de turistas dos mais variados países que a cada viagem estavam presentes, alguns não entendiam como podiam falar castelhano os agentes da polícia Argentina que naquele aeroporto faziam os serviços de migração. Estávamos em Puerto Iguassu, separados de Foz do Iguaçu apenas por um rio.

O equipamento era na maioria das vezes um Boeing 727, que não opera mais passageiros no Brasil e ao chegar no Aeroparque (o aeroporto para vôos domésticos de Buenos Aires) cruzava no final da pista com um museu da Força Aérea Argentina, onde quase 50 aviões antigos estavam em exposição. Ajudávamos a manter o bom espírito do grupo pedindo que todos descessem, pois o avião que nos trouxe iria, a partir daquele dia, fazer parte do museu.

Muitos achavam que a viagem terminaria ali. Qual nada, trocávamos de avião para seguir viagem a Rosário, em um Fokker F-28 (o modelo anterior do FOKKER 100 da TAM), um avião pequeno e àquele tempo desconhecido da maioria, nos levava à Rosario onde todas as vezes um cachorro nos recepcionava no salão de retirada das malas, latindo em português. Aos que não entendiam bem o porque da brincadeira, contava a piada do saudoso Garrincha que devolveu um "flamante" rádio de pilha comprado em 58 na Suécia, porque acreditou na estória de Nilton Santos, segundo a qual o rádio não servia para o Brasil porque só falava em Sueco. E Garrincha não entendia uma só palavra de sueco.

   De ônibus especial para a nossa turma, íamos para o hotel, quase sempre chegando no último vôo, já anoitecendo em Rosário. Muitos, que vinham das mais distintas regiões do país, estavam cansados depois de um dia inteiro de viagem. Para outros a primeira noite no exterior ainda era uma criança. No trajeto até o centro da cidade eu pegava o microfone e orientava a todos para sempre saírem em grupos e dava as informações gerais de praxe. Alguns, menos viajados, não entendiam como no relógio deles eram 8 horas, quando no nosso eram 10, se estamos na Argentina, imaginando que fuso horário era coisa de viagem para a Europa e EUA. Sugeria a todos que jantassem num restaurante Rich que eu dizia ser para ricos que ficava a uma quadra do hotel.

A saída do restaurante começava a parte cômica envolvendo três orientais (não vou falar que eram japoneses para não facilitar a identificação). E para tanto vamos colocar-lhes nomes característicos, mas frutos da nossa imaginação: Mioshi, Hiroshi e Satoshi. Os três saíram do restaurante à francesa (ou seria à japonesa?) e pegaram um táxi, pedindo ao motorista que os levasse ao melhor lugar da cidade para divertirem-se.

O motorista, sem perguntar se eles gostavam de futebol ou carnaval, os levou a uma casa noturna. Que deveria ser boa porque lá ficaram por três ou quatro horas, sem ver um único conhecido, talvez até sem serem vistos. Na hora de virem embora começa a nossa interessante estória.

   Satoshi, Hiroshi e Mioshi, não necessariamente nesta mesma ordem, entram no carro e sem por o táxi em movimento, o motorista lhes faz uma pergunta cruel: "adonde van ustedes"? Cruel não pelo idioma, que no trivial se parece muito com o nosso, mas pelo fato de um olhar para outro e darem-se conta que não sabiam o nome do hotel em que haviam deixado suas malas.

- Mas Satoshi, não lembras nem o nome do hotel? Ele que parecia ser o líder do trio pergunta:

- Mioshi, você que é sempre organizado não pegou nem um cartãozinho do hotel?

E Hiroschi, o mais experiente e apavorado não colaborou: eu tenho o nome do hotel numa carta que o Ribeiro me mandou. Os outros dois respiravam aliviados e em seguida Hiroschi ironicamente arrematou: lá na minha pasta que deixei no hotel.

Os três riram muito e quando já não tinham mais do que rir o motorista ajudou com mais algumas perguntas:

- Vocês lembram o nome da rua?

- Sabem se fica perto de algum lugar importante?

- Em que parte do centro fica?

- Algum de vocês ficou com a chave do apartamento?

- Tem algum telefone de alguém nesta cidade que saiba onde vocês estão hospedados?

Tudo em vão. Seguiram-se mais cinco ou dez perguntas sem resultado. Decididamente os nossos três heróis não tinham a menor idéia de onde estavam. E como na Argentina quase não existem japoneses, em Rosário não havia nem consulado para pedir ajuda.

O pânico começou a tomar conta dos três amigos que iam passar a primeira noite fora do Brasil. E pelo jeito mal! A única coisa que lembravam é que nenhum dos três haviam informado as esposas do nome do hotel em que ficariam. Além do mais, aquela não seria uma boa hora para fazer uma pergunta dessas.

Na Argentina os taxistas têm bom nível e o povo, como um todo tem boa inteligência. O deste táxi, que não se chamava Salvador, salvou a pátria. Perguntou o que eles vieram fazer na Argentina. Quando um dos três disse que era um curso de implantes o motorista emendou; já sei onde é o hotel!

Durante os quase 15 minutos de trajeto nenhum dos três proferiu uma única palavra, talvez com medo inconfesso de que poderiam estar sendo assaltados. Quando o táxi parou em frente ao hotel, o herói argentino perguntou: é aqui?

Os três, a uma só voz disseram: é é é é é! Deram 50 dólares para o motorista e disseram que podia ficar com o troco (a corrida não chegava a 20.....pesos). E foram dormir.

Agatha Christie concluiria fácil. Muito embora Rosário tivesse mais de um milhão de habitantes, todos os meses iam para lá mais de 20 brasileiros para o curso da Fundacion Basilio Jaef, ficando sempre no mesmo hotel tomando táxis para ir e voltar à fundação.



 

 

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