MENU

IMPLANTES

LIVROS

 

     

Humor

 

ODONT´HUMOR

rir , o melhor remédio 

 

Antônio Inácio RIBEIRO

 

O AMIGO DO FITTIPALDI

O sol havia submergido por de traz das águas do Pacífico, havia mais de uma hora quando finalmente chegamos a Carmel. Como muitos haviam falado bem das belezas da cidade, decidimos percorrer a avenida principal de ponta a ponta, antes de procurarmos hotel, já que não tínhamos reserva. Talvez pela função que eu desempenhava no grupo, "tour condoctor", imaginando eles ser fluente o meu inglês, o grupo que nunca viajara comigo, decidiu que seria minha a função de decidir em qual hotel ficaríamos. Eram poucos na cidade e pela visão do passeio, todos de pequeno porte, embora com muito "charme", se bem que vistos a noite. Aceitei, e na van que havíamos alugado em Los Angeles, saímos a procura.

Não precisei mostrar muito meu pobre inglês: a maioria estava lotada, sendo desnecessária a conversação por melhores preços. O mais bonito, com melhor localização e iluminação, nos permitindo antever a beleza de seus jardins e por que não de suas acomodações, tinha disponibilidade. Quando perguntei o preço, visivelmente quase desmaiei: U$ 220. Já meio sem argumentos com a profissional gerente, comentei-lhe que em meu país um hotel, mesmo com aquele luxo, não sairia por mais de U$ 90. Não sei de onde me saiu aquele valor, mas a reação dela, ao invés da esperada repulsa, foi perguntar de qual país éramos.

Quando lhe falei do Brasil, ela comentou que amava nosso país, embora não conhecesse. Disse-lhe que deveria vir porque os preços aqui eram bem mais convidativos, não só dos hotéis, como também dos restaurantes e que no Brasil, a maioria das atrações a visitar, não se pagava para entrar, como nos Estados Unidos, onde em tudo se paga para ver. Comentei que no dia que viesse, para nos telefonar, que conseguiria um amigo em cada cidade para recepcioná-la, ao que ela sem rodeios emendou: então vou fazer a U$ 90 o apartamento duplo para vocês, quando muitos dos hotéis de turistas dão o preço por pessoa.

Em virtude dela não perguntar a ninguém se poderia fazer tal preço e talvez querendo fazer-lhe um galanteio, perguntei se era a dona do hotel. Ela, surpresa disse que não, que a dona era a Doris Day. Se tivesse olhado antes a incontável quantidade de posters anunciando os filmes da famosa atriz do passado, teria economizado a pergunta e não a deixado sem jeito, como demonstrou ficar. Diga-se de passagem, o hotel era de cinema e tudo dentro dele dava a impressão de já ter feito parte de filme, inclusive os objetos da decoração e os móveis. Resolvida nossa necessidade primeira, perguntei-lhe onde havia um restaurante nas imediações, que pudéssemos ir caminhando, para assim conhecer melhor a cidade. Agora! Disse ela com espanto. Olhei no relógio, pouco passava das onze horas e lembrei-me que, exceto nas grandes cidades, nas demais tudo fecha mais cedo, nos EUA.

Depois de ligar em vão para três ou quatro e todos estarem fechados, ela comentou-me com um sorriso amistoso: neste vou conseguir, o que entendi logo que atendeu e ela mencionou tratar-se de um grupo de brasileiros. Ele concordou e como era perto, em poucos minutos estávamos lá. De fato estava fechado. Antes que chegássemos mais próximo para ver, vimos alguém abrindo a porta e acendendo as luzes. Pelo jeito era o próprio dono e não tinha ninguém a ajudá-lo. Somente depois de alguns minutos chegou alguém que imaginamos ser o cozinheiro. Nos comentou que fechavam às 22 e que já fazia quase uma hora que estava fechado. Ficamos meio sem jeito e antes que pudéssemos demonstrar, ele disse que amava o Brasil, com um sotaque bem italiano. Perguntei-lhe onde e quando tinha visitado nosso país pela última vez. Surpreendeu-nos dizendo que não conhecia e de imediato lhe perguntei porque gostava sem conhecer. Respondeu-nos que era muito amigo de Emerson Fittipaldi e que este e seus amigos iam sempre lá quando iam correr em Laguna Seca, que é um autódromo próximo dali e de Monterrey, outra praia muito conhecida, que hoje lembro, por ser onde morreu John Denver, em um desastre com seu avião.

Perguntou se poderia preparar o prato preferido de Fittipaldi e sem ver o cardápio e saber seu preço, tivemos medo. Mas como não tínhamos outra opção e imaginando que poderia nos passar o mesmo que acontecera no hotel, concordamos, sem perguntar, embora de imediato nos tenha pregado outro susto, trazendo o vinho que Emerson costumava tomar. Susto maior foi ver depois de três garrafas abertas, que o vinho além de ser de primeiríssima, era italiano. Desconfiado perguntei-lhe porque não nos oferecia um vinho de Nappa Valley (região da Califórnia, próxima dali e famosa por produzir o melhor vinho americano). Nem se compara, respondeu assustando-nos mais ainda. Talvez por deixar trans­parecer nosso medo, ele cortesmente disse que o vinho era por conta da casa, ao que desejamos que trouxesse mais. E trouxe. Foram mais de dez garrafas em sete para beber.

O Fetuccini preparado à moda Fittipaldi era realmente para não esquecer, se bem que o melhor da estória ainda estava por acontecer. O marido de uma dentista que acompanhava o grupo, talvez já embalado pelo bom e barato (por ser grátis) vinho, decidiu comentar que a bebida típica brasileira era melhor do que vinho e não percebendo que o simpático italiano enchia sua esposa de atenções, dispôs-se a ir para a cozinha preparar a propagandeada caipirinha, tendo que voltar algumas vezes, já que o cozinheiro não falava espanhol e ele não falava inglês. Em todas, o rápido italiano estava perigosamente próximo de sua esposa, se bem que com a mesma rapidez se afastava, de forma que com o retardo de reflexos do barman recém promovido, este nem percebia. Saiu a caipirinha e os brasileiros com o vinho italiano de primeira nem se aventuravam a experimentar. Só o italiano e o marido desligado a bebiam, sendo que o primeiro enchia de elogios o segundo, fazendo com que por duas vezes este voltasse à cozinha para preparar mais caipirinha. E o italiano já não estava nem mais perto da bela mineirinha. Estava junto e esta com o vinho nem esboçava repulsa ou reação, tal qual o marido.

Fomos ficando preocupados porque o mineirinho não comia e o italiano dava a entender que iria jantar a mineirinha, que falava razoavelmente o inglês e entendia bem de mímica erótico-sentimental italiana. O jeito era ensaiar ir embora, ao que nosso anfitrião prontamente cortava trazendo mais um vinho e pedindo mais uma caipirinha. Nossa resistência ao vinho era bem menor do que a do simpático italiano, a menos que nosso anti-herói brasileiro, por não compreender o idioma tenha colocado algo como água mineral no lugar da pinga ou vodca, no preparo da mais típica bebida nacional. Neste clima foi difícil pagar a conta, não só porque o italiano não queria que a mineirinha se fosse e porque não queria nos cobrar. Insistimos e depois de mais duas garrafas de vinho, estabeleceu um preço simbólico de U$ 100 por tudo, o que nos pareceu razoável pelo que nos foi servido, em que condições e por imaginarmos que para alguém do nível de Emerson Fittipaldi, os U$ 100 deveria ser o preço para um casal.

No caminho para o hotel, nos divertíamos porque a mineirinha dava uma dura no marido por ter bebido tanto e este ao invés de retribuir-lhe a bronca por permitir o assédio do veloz italiano, só insistia em dizer que amanhã ele é quem iria dirigir a van até San Francisco. Como no samba, amanhã vai ser outro dia, deixamos nosso anti-herói dormir com a sensação que tinha alguma coisa em comum com Fittipaldi: a intimidade com o italiano, para não nos comprometermos com outras coisas, se bem que alguns do grupo, por gozação, diziam que poderia haver uma cozinheira lá dentro e por isto o mineirinho não saía de lá. Outro disse que era por causa do cozinheiro, mas aí já é demais. O certo é que o vinho era ótimo, a caipirinha não sei, o restaurante inesquecível e o hotel idem, principalmente por seus jardins, paredes de vidro, lareiras e flores a se perder de vista. Carmel, não só na cabeça do mineirinho, como na dos demais também, vai ficar inapagável em nossa lembrança, ainda que o mineirinho e a mineirinha não estejam mais juntos.


 

 

Copyright © ODONTEX 2004 - All rights reserved
Web Master Rafael L.R. de Oliveira

     

CURSOS

 

LINKS

RIBEIRO