Por ironia do destino, uma semana depois
da morte de meu irmão mais generoso, se completariam 11 anos que ele
estava limpo, que na linguagem dos ex-usuários de drogas, quer dizer
aquele que não está mais usando. Como havia feito em nove das dez vezes
anteriores, fui a Florianópolis, na idéia de aproveitar o pretexto e dar
uma força para meu sobrinho Bruno, que mesmo com 24 anos e formado
Cirurgião Dentista, por ser filho único, certamente levou um baque com a
perda do pai-ídolo, Fernando.
Como ele tinha cirurgia de inclusos pela manhã, marcamos encontro a uma,
na loja da Odontex em Floripa, que fica em cima do seu consultório, na rua
mais central da capital catarinense, a Felipe Schmidt. Para nossa
tristeza, a loja nova não completou um ano ainda. Para nossa alegria, o
consultório do Bruno ficou muito bom. Pequeno como convém a um recém
formado, mas funcional, ergonômico e bem aproveitado em seus espaços.
Bonito e charmoso, como dizem as meninas da idade dele. Como o dono.
Decidimos almoçar no restaurante do Hotel Valerim, a menos de uma quadra
da loja, onde o Fernando gostava de ir, porque quando passava de R$ 9,00
ele não pagava o excesso, nem da sobremesa, uma paixão descontrolada.
Talvez por ter tido boa parte de sua vida meio salgada. O ambiente é
aconchegante, mesas confortáveis, a decoração bonita e bom bufet. Mesmo com
a fome aumentada, por já passarem das duas da tarde, não conseguimos
ultrapassar a barreira dos R$ 9,00 que o Fernando quase sempre excedia.
Indigesto foi o que nos reservava para logo após. Ir ao apartamento do
nosso primeiro irmão a falecer, justo ele que mais se preocupava com a
vida .... dos outros. Lá tudo estava meio fora de lugar, como de hábito.
Certamente a organização não é requisito aos gênios. Mesmo aos da bondade.
O que mais chamava a atenção, era a mesa da sala e a cama do quarto. A
primeira com uma montanha infindável de papeis e a segunda com roupas de
uma semana, para frente e para traz.
Depois de separar o que precisaríamos para tomar algumas providências, não
conseguindo esconder em alguns momentos a dor de ver o estágio material
que o Fernando havia atingido em 10 anos de vida produtiva e ir para
outra, exatamente quando tudo estava a indicar que ele iria começar a
desfrutar dos resultados de seu esforço e trabalho, fomos para um hotel,
porque ficar naquele apartamento seria muito triste. Ver as coisas dele e
ele não estar. Querer dizer o quanto admirávamos a sua luta e o seu
caráter, e não poder, é duro demais.
A reunião do NA – Narcóticos Anônimos, é sempre às 19 horas no Grupo
Bem-vindos, um dos muitos que o Fernando fundou. Mesmo apressados,
chegamos às 19:03, por conta de uma tormenta típica do verão. E a reunião
já tinha começado. Como que a indicar que tudo funciona nos NA. Na sala,
pessoas de ambos os sexos, jovens com vinte e jovens com cinqüenta. Pela
aparência uns com cara de doutor e outros com jeito de que não puderam
estudar. Talvez pela droga de vida que levaram antes do NA.
O sistema é simples. Cada um que chega se apresenta pelo nome e os
adictos, como eles se identificam, dizem há quantos anos, meses e dias
estão limpos. E todos o saúdam efusivamente, como se acabasse de marcar um
gol pela seleção. Parece organizado, mas é sincero. A cada nova chegada o
ritual se repete. E os membros da irmandade não param de chegar. Só neste
grupo e nesta reunião eram mais de trinta. Como chamariz só um cafezinho e
como motivação a certeza de uma vida nova.
Na continuidade, cada companheiro relata seu dia, suas dificuldades e
vitórias. Sua luta e o orgulho que tem em estar de nova vida. Quase sempre
relembram passagens negras de seu passado drogado. Situações duras de
imaginar. Imagine viver, se é que aquilo era vida. Uma das características
de todos participantes é a alegria pelos novos dias, ainda que nem todos
tenham já conseguido trabalho de bom nível, parecendo ser esta a maior
dificuldade dos que tiveram a felicidade de sair deste mundo imundo e
entrar noutro quase irreal, se comparado ao anterior.
Não raras vezes alguns se empolgam em seus relatos, principalmente do
momento presente, nas coisas ligadas a reconquista da família, na alegria
de ver os amigos voltarem, outros na volta aos estudos e alguns pelo
reconhecimento dos filhos. Alguns tem que ser parados com uma placa de
cinco minutos, tempo limite para cada partilhamento. O ato de dividir com
os demais a luta e as vitórias. As dificuldades e alguma eventual derrota,
que mesmo tendo participado de nove reuniões anteriores, ainda não
conhecia. E este foi o momento mais impressionante desta, afora o arrepiar
da homenagem ao Fernando, que intencionalmente ficou para o final.
Um senhor de meia idade, com aparência de bem sucedido, bem falante e
habilidoso na forma de se expressar, tem a vez e provoca um dos silêncios
mais marcantes da minha vida. Antes de falar, ele levanta e vai até uma
mesa onde estão as fichas que serão logo mais entregues aos que estavam
completando mais de um ano de limpeza, se é que pode se chamar assim o
fato de se estar limpo. Com seu gesto ele acabara de comunicar ao grupo
que tinha tido um momento de fraqueza e perdido a condição de não usuário.
A consternação e tristeza de todos é visível, mesmo aos que não estão
sabendo o significado do ato. Eu mesmo me choquei com a agonia dele em
perder a condição de vencedor.
A reação do grupo é instantânea e forte. Todos os demais que falariam a
seguir, passam a estender a mão e a praticar uma corrente de força para o
re-erguimento do companheiro, numa demonstração de irmandade que
sensibiliza. A cada novo relato, um exemplo com momento de fraqueza que o
vício insiste em aplicar, como se fossem testes à determinação de quem
quer ficar longe das drogas e uma demonstração de como superar a
dificuldade e a disposição para a ajuda no difícil recomeço. E a
exteriorização da vontade de todos vai se fazendo marcante na vontade de
todos em ter o colega de volta a luta pelo dia a dia.
Igualmente simples é o mecanismo de abstinência de um ex-usuário de
drogas. Aos que se determinam, na maioria das vezes com ajuda dos colegas
que já se libertaram, a proposta é não usar drogas SÓ POR HOJE. E nisto
está um dos pilares que sustentam resultados impressionantes. Ao invés de
fazer como os fumantes que tentam se livrar, prometendo que nunca mais na
vida irão colocar um cigarro na boca, os Narcóticos Anônimos preconizam o
abster-se dentro de um limite bem mais realista, num compromisso que se
renova a cada dia e vai sendo comemorado a cada mês sem uso e motivo de
festa a cada ano.
Nada como uma boa casuística para comprovar a técnica. Assim manda a
ciência, assim comprovam os que aderiram aos Narcóticos Anônimos. No Grupo
Bem-vindos o mais velho era o Fernando, com onze anos. Seguiam-se um que
por destino, no dia anterior estava completando dez anos, outro com sete,
dois com seis, um com cinco, outro com quatro e vários com três, dois e um
ano. Afora os cerca de dez, que orgulhosamente mencionavam estar a sete
meses, três meses e até um que encheu a boca para falar que tinha
completado trinta dias limpo. Tanto os mais novos como os mais antigos
apregoam: pode vir que funciona!
Quando todos já haviam compartilhado o seu momento e o seu dia, inicia-se
um quase ritual, que eles chamam de passagem da ficha. Que é exatamente o
reconhecimento que o grupo faz àqueles que conseguem se manter há diversos
anos sem drogas. Que se fosse boa não se chamava droga. Tudo simples, mas
com grande carga emocional e motivadora. Progressivamente vêm os que
completaram mais um ano. Estes escolhem um padrinho, dentre os do grupo,
que lhe servirá de protetor para o próximo ano de abstinência. Faz um
relato breve de sua vitória, normalmente mencionando parentes, que neste
dia festivo são chamados a presenciar.
Ao sair, uma advertência está afixada, bem visível: "tudo o que você ver ou
escutar dentro desta sala, dentro dela deve permanecer". Só faço este
relato para perpetuar a imagem do meu irmão Fernando, que nos últimos onze
anos dedicou suas noites a colocar mais gente dentro das salas e a ver
menos drogados perdidos pelas ruas. E para motivar os que ainda não
conhecem ou acreditam no método. Se conhecer alguém que use, pode
recomendar que funciona.
Todos durante sua fala, sem nenhuma falha, mencionaram o trabalho abnegado
do Fernando, em permitir que todos eles ali presentes e em outras salas
que tinham passado antes, saíssem da desgraça para a graça de ter um amigo
protetor como ele. Incentivador, sem deixar de cobrar quando preciso. E às
vezes de ir buscar em casa algum que por outro motivo tinha deixado de
comparecer às reuniões. E dentro das salas, sempre tendo um ouvido amigo
para as dificuldades decorrentes de algumas rejeições ainda vigentes aos
ex-usuários, por conta de algumas confusões que só leigos fazem, quanto ao
uso de drogas e outras doenças.
Ao chegar a vez da troca de ficha do Fernando, mais emoção para este
coração cinquentão, ativado por dez anos de hipertensão. Chamam o seu
filho Bruno para receber a ficha em lugar do pai. Muita emoção, mais para
mim, que nos anos anteriores sempre via meu pai entregar-lhe a ficha. E
este ano ele estava no leito de um hospital, sem consciência e sem saber
de tudo que havia acontecido com o filho que era o seu orgulho, símbolo de
luta e vitória. Pensei que fossem me chamar para o lugar do meu pai. Que
bom que não o fizeram. Eu não resistiria, tanto que agora só de escrever e
lembrar, não paro de chorar.
Um colega que recém recebera sua ficha de dez anos, o faz com a propriedade
de quem está limpo há tanto tempo. Depois de uma placa dos colegas e uma
homenagem do grupo irmão dos AA – Alcoólicos Anônimos, que o Fernando
também ajudara, quando a emoção já havia tocado a todos, dou-me conta da
coisa mais forte da noite. Todos os que conviveram por um, cinco, dez
anos, com o Fernando, quase todas as noites, só tem palavras de gratidão.
Nenhuma lágrima, só alegria. Não pela perda e sim pela obra. Um trabalho
lindo de tirar da sarjeta e colocar na calçada da honra, todos os que um
dia estiveram no fundo do poço e hoje dão água para beber. Todos que um
dia comeram o pão que o diabo amassou e hoje dão de comer a quem tem fome.
Chega de falar só em problemas. Temos que mudar e falar em soluções. Ser
parte delas. Ainda que a vida nos leve, por que ficar na desgraça não tem
graça. Ir em busca de uma vida melhor é o que temos que fazer todos os
dias. E quando vermos algum irmão, parente, amigo, vizinho ou colega
envolvido com drogas ou alcoolismo, levar a ele e a seus parentes, as letras da solução:
NA ou AA, porque funciona. SÓ POR HOJE!
Antônio Inácio RIBEIRO