Priscila é a sobrinha que todos
gostariam de ter. Magra, meiga, com medidas de modelo gaúcha e simpatia de
brasileira modelo. Uma princesa, com história de princesa. Que diferente
da maioria, um dia foi para a Inglaterra aprender inglês e prendeu um
inglês. Era para ficar seis meses, pediu prorrogação de outros tantos e
não voltou mais para estes cantos. Ou melhor só para casar.
No Brasil teve uma vida como a de
todas da sua idade. Coisas e problemas de uma família de classe média. Mas
sempre com classe. E na classe se não era a melhor em notas, todos queriam
estar ao lado dela. Pensou em fazer Odontologia e muitas outras coisas.
Mas o que decidiu foi mesmo conquistar o mundo. Preparou e foi. Pelo que
se imagina, para nunca mais voltar.
Do namoro com o Carl, que aqui no
Brasil seria Carlinhos, sabe-se pouco. Mas o casamento foi muito, muito
bonito e diferente. Para fugir do modelo convencional, já que a cerimônia
tinha se realizado em Londres, decidiram fazer uma recepção aos parentes e
amigos, daquelas para não se esquecer jamais. Até quem não foi, ficou
sabendo e curtiu a felicidade daquele casal feliz.
Ao invés de um salão, um barco.
Mas não um barco comum. A começar pelo nome: Cisne Branco. Um navio todo
reconstruído para fazer passeios turísticos pelos belos recantos do Rio
Guaíba. Que de rio só tem o nome, porque na verdade é um estuário, onde
deságuam em menos de cinqüenta quilômetros, cinco rios num formato fácil
de se entender quando se olha para a mão. A palma é o Guaíba. Os dedos são
os rios.
Era tarde ainda. A bordo cerca de
cem pessoas. Na chegada uma recepção bilíngüe, já que o Carl não conseguia
montar uma frase em português. Tudo adornado com uma rápida apresentação
pela Priscila sobre quem estava chegando. Já apresentado, ele as vezes
trocava o muito prazer por muito obrigado. Mas sempre com uma simpatia que
a ninguém passava desapercebida e em todas terminava com um belo sorriso.
Todos a bordo, o Cisne Branco
apita e zarpa. Cai a noite no por de sol mais lindo do mundo. Assim dizem
os gaúchos e as gaúchas que um dia namoraram no fim de tarde do Morro de
Santa Tereza. Durante um coquetel de confraternização e conhecimento das
dependências do navio, passamos por baixo do vão móvel da ponte do Guaíba,
que desta vez não foi erguido.
Já entrosados e colocados a
vontade pela mãe do Carl, que mesmo não falando português, foi que mais
falou e dançou durante a festa. Até com quem não falava uma frase de
inglês, como o Fernando. Que injustiça, ele deve ter falado: I DON’T
UNDERSTAND. E ela entendeu e continuaram conversando. Ele em português e
ela em inglês, como fizera com todos. Minha mãe falou até que elas se
entenderam muito bem. Neste clima foi servido o jantar. Inesquecível!
Para os jovens de menos de
cinqüenta, a sobremesa foi uma boate para dançar ao ritmo das ondas e para
os jovens de mais de cinqüenta, os doces estavam sobre a mesa. Para o
Fernando que estava beirando a idade, a solução foi ficar um pouco em cada
convés. Quando convinha, dançava. Quando não convinha, dançavam os doces.
E a escada que separava ambos os ambientes, era o seu exercício predileto,
num vai e vem interminável.
Mas o Carl já havia estado antes
na capital do Rio Grande, dois anos antes. Foi apresentado como namorado,
muito embora a futura sogra lhe tenha brindado com um algo mais:
emprestou-lhe seu Corsinha 1.0, quase zero, para duas semanas nas praias
de Florianópolis. Carro na mão e um problema sem solução: a Priscila nunca
tinha dirigido em estradas e o Carl não sabia dirigir sentando no lado
esquerdo e para dirigir do “lado errado” preferia não arriscar.
Alguém lembrou que o Nando viera
passar o Natal em Porto Alegre e que por estes dias devia estar voltando à
Ilha da Fantasia. Como sempre foi muito econômico, deveria ter vindo de
ônibus, para não gastar muito e não arriscar. Dito e feito, lá estava ele
na condição de “choffeur” dos dois pombinhos. Mão no volante e pé na
estrada. Para dar uma chance a Pri mostrar suas habilidades, o Fernando
ofereceu-lhe o volante na “free-way”, uma auto pista de 100 quilômetros,
que além de ter padrão europeu, tinha nome em inglês.
Nesta hora e meia de estrada o
Nando e o Carl tentaram se comunicar. Com a Priscila de tradutora, já que
o Fernando só falava “I DON’T UNDERSTAND” e lá tinha a Pri que traduzir.
Cansada da tradução simultânea, ela e cansado ele de não entender nada do
que falavam, decidiram inverter todas as posições: o Carl foi para o banco
de traz dormir, a Pri para apreciar a paisagem da nova estrada litorina
entre Osório e Torres e o Fernando a fazer uma das coisas que mais
gostava: dirigir.
Nas cinco horas que se seguiram a
conversa rolou solta, sem traduções. Girou entre Floripa, Bruno, Odontex,
Índios, Londres, Trânsito, Henrique, Carl, etc. Como a diferença entre
ambos era de uma geração e o Fernando ter morado na capital catarinense
durante a adolescência da sobrinha e ela ter mudado para a Inglaterra,
eles que durante todo este tempo pouco tinham conversado, passaram todo o
tempo da viagem, botando as vidas de cada um em ordem para o outro.
O bom papo só foi interrompido
para um caldo de cana ou água de coco, que a Priscila disse não serem
comuns na capital inglesa. Quem disse que o Carl acordou. Nem em inglês,
muito menos em português. Já que o convidado não saiu do carro, o Nando
teve a idéia de comprar uns docinhos para ele provar quando acordasse.
Pegou uns a mais para adoçar a conversa das próximas horas.
Verão, calor de um dia típico de
dezembro com tempo bom e o Fernando aproveitou para emendar uma pergunta
no melhor estilo da vó Célia: “esse rapaz é sério?” A Priscila que já
tinha escutado um sim do próprio para a mesma pergunta, nem pestanejou: “é
sim, tio!” Talvez o tio tenha matado a conversa do Fernando, que não fez
mais perguntas neste estilo, sentido e objetivo.
Mesmo no pior trecho, o de pista
simples entre Torres e Florianópolis, que por ironia do destino o
Presidente Lula, menos de um mês depois da morte do Fernando, prometeu de
corpo presente que seria duplicado, o Fernando se mostrava prudente e
seguro, a cada ultrapassagem. Pelo intenso movimento de carros e
caminhões, a Pri confirma que teria sido uma imprudência dos noivos se
aventurarem por estradas nunca dantes percorridas.
Foram duas semanas inesquecíveis
nas quarenta e duas praias da ilha, que alguns insistem em chamar de Ilha
da Magia. Verdade ou não, dois anos depois o Carl estava de volta ao
Brasil para casar de papel passado, como nos velhos tempos. Conheceram
todas as praias, pegaram muito sol, muita onda e só lembraram do Fernando
quinze dias depois, na hora de ir embora.
Sutil a Priscila perguntou ao
Nando se ele não estava pensando em ir para a formatura do outro sobrinho,
o Marco, irmão dela, que aconteceria no fim de semana em Porto Alegre.
Como bom filho do professor, tendo herdado um de seus maiores prazeres, o
de pegar uma estrada, o Fernando nem respondeu, apenas perguntou: “que
hora saímos?” A volta foi diferente, até porque os pombinhos tinham mudado
de cor: do branco inglês para o negro brasileiro.
Na volta, tanto a Priscila,
quanto o Carl, que agora já esboçava algumas palavras em português,
estavam mais a vontade. Tanto para ela quanto para ele o conversar com o
Nando agora era fácil, como se eles tivessem passado as duas semanas
inteiras juntos, embora não tivessem nem se encontrado. Este lado de
conversa fácil foi uma característica marcante no Nando, depois que
conseguiu se livrar da vida anterior.
Em dez horas, eles que estavam
separados por dez mil quilômetros e dez horas dentro de um jato, se
entenderam as mil. A ponto de o Carl ao final dizer que “o teu tio é dez”,
já caindo na jinga brasileira de elogiar pessoas. Daí até o casamento não
se veriam mais. No casamento o tio mais comentado era justo o Nando, pela
maior intimidade que tivera com os noivos.
Neste período, o Fernando fez
algumas viagens à Argentina, enrolava um pouco a língua em espanhol, mas
no inglês continuava o mesmo das aulas de inglês com a professora “Tantiquita”,
apelido criativo que deram para a “teacher” de inglês no ginásio, que para
os mais novos, era o equivalente às quatro primeiras séries do hoje
segundo grau do ensino fundamental.
A admiração foi tanta que ao
saber do falecimento do Fernando o Carl sentiu como tendo perdido um
parente e triste comentou que agora não vai mas ter graça ir a
Florianópolis. Como aconteceu com todos que conheceram o Fernando, ele
tinha pego uma afeição. Tanta que ao final da viagem o Carl soltou um
efusivo “ Thank you! Very, very much.” ao que o Fernando sem pensar,
completou. “I understand”. Eles se entenderam!
Ele viajou e como o Carl e
Priscila, mesmo estando longe, continuam perto, como nós estamos do Nando
e seu jeitão. Sempre perto, sempre dentro da nossa lembrança e do nosso
coração.