A INFINDÁVEL BELEZA DA FLOR

 

Nada é eterno. A começar pela própria vida , que de certo só tem o fim. Nascemos para viver. Intensamente, enquanto as forças assim o permitirem. Até que uma maior nos conduza para algo que ainda não conhecemos bem . Que se soubéssemos talvez não fôssemos ou apressássemos a partida. Nisto se resume o medo da morte. Seu enigma.

 

Da vida pouco restará. Na verdade o que fica é só a nossa obra. De acordo com o que fizermos , seremos perpetuados ou esquecidos. Dentro disto está toda a razão para refletirmos bem e profundamente sobre nossa missão, saindo do lugar comum que envolve apenas uma visão do mundo e da própria vida. Do modo como a vemos e  o que fazemos dela.

 

Cedo ou tarde teremos que passar por um balanço da história. E nele todos os lançamentos terão sua coluna. O que fizermos a outrem irá a credito e o que mesquinhamente tentarmos só para nós, irá a débito. E nesta contabilidade abstrai-se o material e dele quase nada será partilhado ou sobreviverá. Atos e fatos é que contarão.

 

Antes que os apitos soem, devemos iniciar nossa obra, evitando as correrias dos tempos finais. Quanto mais cedo aos demais nos dedicarmos, menor o medo de nada termos feito. Portanto a hora será sempre agora e não o tarde para começar. E ainda temos que nos preocupar com o que e o onde.

 

Para que no final dos dias tenhamos algum sinal  de que nossa existência fez sentido em si e que nossa luta não tenha sido em vão. Ou pior, dela tenhamos fugido. Que em um momento, algum indicador demonstre que o nosso trabalho frutificou e a flor que o germinou , esteja viva ou no mínimo mantendo a sua cor.

 

Nas vésperas de completar um mês do passamento de meu irmão Fernando, encontro em um envelope, uma flor que a alguns minutos de sua descida, caiu suavemente sobre mim, como se algo estivesse a indicar. Sem vento, girou por um tempo, permitindo que se observasse toda sua simetria harmônica. E suavemente pousou para sempre.

 

Todos os que estavam ao redor, a observaram atentamente em seu movimento. E se deslumbraram com seu vôo. Numa fração de segundo, decidi pegá-la e guardá-la entre as lembranças de meu irmão mais generoso e sensível. Só não imaginava que diferentemente das demais, ela preservaria inalterada a sua cor, que trinta dias após ainda se mantém.

 

Como simbolismo, a associo à obra maior deste  irmão  querido, precocemente nos subtraído. Suave, lenta e calma. Que de tão bela, ainda continua a produzir lembranças. Que bem poderia ser lembrado enquanto esta flor mantiver a sua cor. E que o Criador, pródigo em suas decisões, a mantivesse por muitos e muitos anos, em sua cor original, como um sinal de que sua obra continua, tal como enquanto esteve entre nós.

 

E nós como humanos, em nossa constante tentativa de perpetuar a bela imagem dos que gostaríamos, continuassem vivos, sempre tentando fazer com que os indicadores de sua presença sejam eternos, já que a vida não o é. Assim como a foto da flor e sua cor inalterada, que aqui colocamos.

Antônio Inácio RIBEIRO

 
 
 

 

A COR DA FLOR,

ROXA COMO A VIOLETA.

VIOLENTA COMO A MORTE,

SUAVE COMO A DOR.

A COR DA FLOR.

FRATERNA COMO ELE,

ETERNA COMO ELA,

SEM VIDA, COM AMOR.

FERNANDO, A SUA COR,

A COR DA FLOR.

 
 

 

I DON’T UNDERSTAND

 

Priscila é a sobrinha que todos gostariam de ter. Magra, meiga, com medidas de modelo gaúcha e simpatia de brasileira modelo. Uma princesa, com história de princesa. Que diferente da maioria, um dia foi para a Inglaterra aprender inglês e prendeu um inglês. Era para ficar seis meses, pediu prorrogação de outros tantos e não voltou mais para estes cantos. Ou melhor só para casar.
 

No Brasil teve uma vida como a de todas da sua idade. Coisas e problemas de uma família de classe média. Mas sempre com classe. E na classe se não era a melhor em notas, todos queriam estar ao lado dela. Pensou em fazer Odontologia e muitas outras coisas. Mas o que decidiu foi mesmo conquistar o mundo. Preparou e foi. Pelo que se imagina, para nunca mais voltar.
 

Do namoro com o Carl, que aqui no Brasil seria Carlinhos, sabe-se pouco. Mas o casamento foi muito, muito bonito e diferente. Para fugir do modelo convencional, já que a cerimônia tinha se realizado em Londres, decidiram fazer uma recepção aos parentes e amigos, daquelas para não se esquecer jamais. Até quem não foi, ficou sabendo e curtiu a felicidade daquele casal feliz.
 

Ao invés de um salão, um barco. Mas não um barco comum. A começar pelo nome: Cisne Branco. Um navio todo reconstruído para fazer passeios turísticos pelos belos recantos do Rio Guaíba. Que de rio só tem o nome, porque na verdade é um estuário, onde deságuam em menos de cinqüenta quilômetros, cinco rios num formato fácil de se entender, quando se olha para a mão. A palma é o Guaíba. Os dedos são os rios.
 

Era tarde ainda. A bordo cerca de cem pessoas. Na chegada uma recepção bilíngüe, já que o Carl não conseguia montar uma frase em português. Tudo adornado com uma rápida apresentação pela Priscila, sobre quem estava chegando. Já apresentado, ele as vezes trocava o muito prazer por muito obrigado. Mas sempre com uma simpatia que a ninguém passava desapercebida e em todas terminava com um belo sorriso.
 

Todos a bordo, o Cisne Branco apita e zarpa. Cai a noite no por de sol mais lindo do mundo. Assim dizem os gaúchos e as gaúchas que um dia namoraram no fim de tarde do Morro de Santa Tereza. Durante um coquetel de confraternização e conhecimento das dependências do navio, passamos por baixo do vão móvel da ponte do Guaíba, que desta vez não foi erguido.
 

Já entrosados e colocados a vontade pela mãe do Carl, que mesmo não falando português, foi que mais falou e dançou durante a festa. Até com quem não falava uma frase de inglês, como o Fernando. Que injustiça, ele deve ter falado: I DON’T UNDERSTAND. E ela entendeu e continuaram conversando. Ele em português e ela em inglês, como fizera com todos. Minha mãe falou até que elas se entenderam muito bem. Neste clima foi servido o jantar. Inesquecível!
 

Para os jovens de menos de cinqüenta, a sobremesa foi uma boate para dançar ao ritmo das ondas e para os jovens de mais de cinqüenta, os doces estavam sobre a mesa. Para o Fernando que estava beirando a idade, a solução foi ficar um pouco em cada convés. Quando convinha, dançava. Quando não convinha, dançavam os doces. E a escada que separava os ambientes, era o seu exercício predileto, num vai e vem interminável.
 

Mas o Carl já havia estado antes na capital do Rio Grande, dois anos antes. Foi apresentado como namorado, muito embora a futura sogra lhe tenha brindado com um algo mais: emprestou-lhe seu Corsinha 1.0, quase zero, para duas semanas nas praias de Florianópolis. Carro na mão e um problema sem solução: a Priscila nunca tinha dirigido em estradas e o Carl não sabia dirigir sentando no lado esquerdo e para dirigir do “lado errado” preferia não arriscar.
 

Alguém lembrou que o Nando viera passar o Natal em Porto Alegre e que por estes dias devia estar voltando à Ilha da Fantasia. Como sempre foi muito econômico, deveria ter vindo de ônibus, para não gastar muito e não arriscar. Dito e feito, lá estava ele na condição de “choffeur” dos dois pombinhos. Mão no volante e pé na estrada. Para dar uma chance à Pri mostrar suas habilidades, o Fernando ofereceu-lhe o volante na “free-way”, uma auto pista de 100 quilômetros, que além de ter padrão europeu, tinha nome em inglês.
 

Nesta hora e meia de estrada o Nando e o Carl tentaram se comunicar. Com a Priscila de tradutora, já que o Fernando só falava “I DON’T UNDERSTAND” e lá tinha a Pri que traduzir. Cansada da tradução simultânea, ela e cansado ele de não entender nada do que falavam, decidiram inverter todas as posições: o Carl foi para o banco de traz dormir, a Pri para apreciar a paisagem da nova estrada litorina entre Osório e Torres e o Fernando a fazer uma das coisas que mais gostava: dirigir.
 

Nas cinco horas que se seguiram a conversa rolou solta, sem traduções. Girou entre Floripa, Bruno, Odontex, Índios, Londres, Trânsito, Henrique, Carl, etc. Como a diferença entre ambos era de uma geração e o Fernando ter morado na capital catarinense durante a adolescência da sobrinha e ela ter mudado para a Inglaterra, eles que durante todo este tempo pouco tinham conversado, passaram todo o tempo da viagem, botando as vidas de cada um, em ordem para o outro.
 

O bom papo só foi interrompido para um caldo de cana ou água de coco, que a Priscila disse não serem comuns na capital inglesa. Quem disse que o Carl acordou. Nem em inglês, muito menos em português. Já que o convidado não saiu do carro, o Nando teve a idéia de comprar uns docinhos para ele provar quando acordasse. Pegou uns a mais para adoçar a conversa das próximas horas.
 

Verão, calor de um dia típico de dezembro com tempo bom e o Fernando aproveitou para emendar uma pergunta no melhor estilo da vó Célia: “esse rapaz é sério?” A Priscila que já tinha escutado um sim do próprio para a mesma pergunta, nem pestanejou: “é sim, tio!” Talvez o tio tenha matado a conversa do Fernando, que não fez mais perguntas neste estilo, sentido e objetivo.
 

Mesmo no pior trecho, o de pista simples entre Torres e Florianópolis, que por ironia do destino o Presidente Lula, menos de um mês depois da morte do Fernando, prometeu de corpo presente que seria duplicado, ele se mostrava prudente e seguro, a cada ultrapassagem. Pelo intenso movimento de carros e caminhões, a Pri confirma que teria sido uma imprudência dos noivos se aventurarem por estradas nunca dantes percorridas.
 

Foram duas semanas inesquecíveis nas quarenta e duas praias da ilha, que alguns insistem em chamar de Ilha da Magia. Verdade ou não, dois anos depois o Carl estava de volta ao Brasil para casar de papel passado, como nos velhos tempos. Conheceram todas as praias, pegaram muito sol, muita onda e só lembraram do Fernando quinze dias depois, na hora de ir embora.
 

Sutil a Priscila perguntou ao Nando se ele não estava pensando em ir para a formatura do outro sobrinho, o Marco, irmão dela, que aconteceria no fim de semana em Porto Alegre. Como bom filho do professor, tendo herdado um de seus maiores prazeres, o de pegar uma estrada, o Fernando nem respondeu, apenas perguntou: “que hora saímos?” A volta foi diferente, até porque os pombinhos tinham mudado de cor: do branco inglês para o negro brasileiro.
 

Na volta, tanto a Priscila, quanto o Carl, que agora já esboçava algumas palavras em português, estavam mais a vontade. Tanto para ela quanto para ele o conversar com o Nando agora era fácil, como se eles tivessem passado as duas semanas inteiras juntos, embora não tivessem nem se encontrado. Este lado de conversa fácil foi uma característica marcante no Fernando, depois que conseguiu se livrar da vida anterior.
 

Em dez horas, eles que estavam separados por dez mil quilômetros e dez horas dentro de um jato, se entenderam as mil. A ponto de o Carl ao final dizer que “o teu tio é dez”, já caindo na jinga brasileira de elogiar pessoas. Daí até o casamento não se veriam mais. No casamento o tio mais comentado era justo o Nando, pela maior intimidade que tivera com os noivos.
 

Neste período, o Fernando fez algumas viagens à Argentina, enrolava um pouco a língua em espanhol, mas no inglês continuava o mesmo das aulas de inglês com a professora “Tantiquita”, apelido criativo que deram para a “teacher” de inglês no ginásio, que para os mais novos, era o equivalente às quatro primeiras séries do hoje segundo grau do ensino fundamental.
 

A admiração foi tanta que ao saber do falecimento do Fernando o Carl sentiu como tendo perdido um parente e triste comentou que agora não vai mais ter graça ir a Florianópolis. Como aconteceu com todos que conheceram o Fernando, ele tinha pego uma afeição. Tanta que ao final da viagem o Carl soltou um efusivo “ Thank you! Very, very much.” ao que o Fernando sem pensar, completou. “I understand”. Eles se entenderam!
 

Ele viajou e como o Carl e Priscila, mesmo estando longe, continuam perto, como nós estamos do Nando e seu jeitão. Sempre perto, sempre dentro da nossa lembrança e do nosso coração.


Antônio Inácio RIBEIRO