Fernando Antônio, Antônio como meu avô,
meu pai e todos os cinco filhos do Professor. Fernando, o Nando, quando
criança foi o único gordo na família. Só ele nasceu no verão, pois o
matemático do seu pai calculava para os filhos nascerem nas outras
estações e assim poupar nossa mãe da intempérie gaúcha. Desde pequeno foi
diferente. Era calmo, lento, teve uma asma que o acompanhou pelo resto dos
dias, assim como foi o único canhoto e gremista. Numa família de
colorados, na época em que o Internacional foi hexacampeão gaúcho e tri
campeão brasileiro. De tanto vê-lo sofrer, meu pai que nunca escutou ou
assistiu a uma partida de futebol, em solidariedade virou gremista também.
Reservado, tímido, de poucas palavras e poucos amigos. Quase não saia e
quase não recebia telefonemas ou amigos. Até a adolescência, quando algo
mudou e teve seu temperamento revertido de forma abrupta. Eu já morava em
São Paulo e o encontrava três ou quatro vezes ao ano.
Num Natal em que fiquei até o ano novo em Porto Alegre, percebi a mudança
nos toques de telefone e da campainha, que agora tocavam muito. Meus pais
num misto de preocupação e desabafo, comentaram que algo tinha acontecido.
Era o pior. Influenciado pelas companhias, ele estava viciado em drogas.
Um problema para uma família de classe média típica, onde os valores
morais, culturais, éticos e religiosos eram elementos sagrados. Que logo
se transformaria em drama, pois o Fernandão se tornara violento, agressivo
e não podia ser contrariado, que se transformava. Lembro de uma festa na
família em que bateu em mais de vinte e ninguém conseguiu segurá-lo. Tanto
que saía em viagens pelo Brasil e outras que nem precisava sair do lugar.
Uma vez passou por São Paulo, “partindo para o mundo”. Não consegui
segurá-lo, nem demovê-lo. Estava chapado e tomado. Sumiu por cerca de dois
anos, quando só tivemos notícias suas em duas ocasiões em que se meteu em
encrencas. Não se sabe bem porque, voltou a Porto Alegre, lento e calmo.
Parecia mudado. Dizia estar sem drogas, mas a cervejinha o derrubava
fácil. Em um namoro rápido, ela engravidou e casaram apressados. Logo
nasceria seu perpetuador: Bruno, também gordinho nos primeiros tempos e
que por volta dos vinte, se tornaria magro como o pai.
Trabalhou na ABAV, no Sulbrasileiro e talvez pela dependência, não se
firmava. Começou três faculdades. Como íamos bem com a Odontex em São
Paulo, decidimos abrir uma loja em Porto Alegre, que ele montou e logo
contava com dois primos e esposa, como colaboradores. Além do Bruno, que
ficava com a mãe e de vez em quando animava o silencio de uma filial recém
aberta. Lutava com dificuldade contra o vício, mesmo tendo só o álcool da
cerveja, que inocentemente dizia não fazer mal. Do pesado, as drogas, se
dizia livre. Mas um duro golpe o jogaria no poço outra vez. O segundo
filho, Átila, nascera com hidrocefalia e não completaria um mês de vida. A
médica perguntou inocentemente aos pais se algum deles tinha histórico de
drogas. O silencio respondeu. Quando tudo parecia andar bem e voltar ao
caminho da normalidade, ele num ímpeto, decide mudar para Florianópolis e
nem loja lá aventou montar. Queria mudar de vida e a escolha pela praia do
Campeche, à época isolada e tida como refúgio da “magrinhagem”, nos
deixava preocupados pelo risco do pior, que se confirmou. Ele voltara com
tudo para as drogas.
Logo chegaria ao fundo do poço, que se consubstanciaria com uma passagem
triste e cômica. Um dia saiu para vender os doces que eram o seu sustento
à época. Como estava no centro e com pressa para entregar uma encomenda,
deixou o carro num estacionamento, por não encontrar vaga na rua em que
costumava sempre deixar o carro. Uma Variant, símbolo da decadência, para
quem já tivera um Prêmio zero. Ao final das entregas, não encontrando o
carro, foi à delegacia mais próxima e deu queixa do roubo. Dias após
fazendo as entregas de ônibus, ao passar pela mesma rua, olhou para dentro
do estacionamento e viu a Variant. Desceu e envergonhado contou ao dono o
que acontecera, que com dó, não lhe cobrou os dias excedentes de diárias.
O aviso funcionou e a consciência de que não conseguia nem mais controlar
as coisas do dia a dia o fez refletir e tomar uma decisão que mudaria sua
vida para sempre. Entrou para o NA – Narcóticos Anônimos e passou a
freqüentar as reuniões todos os dias, de domingo a domingo, dando fim à
fase negra de sua vida. Concomitante começou a ter cada vez mais sucesso
como doceiro. Preparava a massa à noite, do “Jornal Nacional ao Jornal da
Globo”. Acordava às cinco da manhã para enrolar os “cajuzinhos” e os
“negrinhos”, que em outras partes do país são mais conhecidos como
brigadeiros, pois às sete tinha que levar o filho para a escola. Passava o
dia vendendo os doces. Caminhava de sol a sol, diminuindo o peso das
caixas de camisa, que saiam cheias de doces e voltavam vazias. Em pouco
tempo trocara de automóvel e terminara de construir a casa, que de
pré-fabricada passou a ter piscina, garagem e dependências para uma
fábrica de doces, que nunca funcionou.
A vida dura das noites e madrugadas, judiava-lhe do sono, que vez ou outra
era prejudicado pela asma e o açúcar castigava-lhe as mãos, deixando-lhe
com fendas preocupantes, além de calos indisfarçáveis. Por conta disto
tomou outra decisão que ajudaria a mudar sua vida. Numa das vezes que o
procurei no Campeche, lhe comentei que estava fazendo sucesso com a venda
dos implantes dentários, que começavam a ser moda no Brasil. Decidimos
fazer uma experiência: pela manhã venderia os doces e pela tarde, já com o
dia garantido, tentaria vender os implantes e os meus livros, que à época
começavam a sair. Foi fulminante. Vendia-os tão bem que em menos de um mês
abandonou os doces, profissionalmente, já que o vício de comê-los o
perseguiria pelo resto dos dias e colaborariam com sua morte, por lhe
prejudicarem o fígado. Separado, foi morar numa rua central de
Florianópolis, num casarão quase em frente, onde anos depois colocaria sua
primeira loja. Calçado pela estrutura de apoio do NA e com o dinheiro do
sucesso, tomou a primeira de uma série de decisões acertadas que marcariam
seus próximos dez anos: comprou um apartamento para morar. Era um pouco
longe do centro, mas com uma prestação que podia pagar sem apuros. Em
pouco tempo comprou um terreno na praia e novamente colocou uma casa
pré-fabricada em cima. Só que agora nos Ingleses, sem drogas.
A seguir, numa seqüência rápida e decidida, montou a loja que era seu
sinal aparente de recuperação e deu trabalho a mais de duas dezenas de
colegas dos NA’s, que desestruturados, buscavam sua acolhida e orientação.
Sempre os encaminhava para uma vida melhor. A complementar, seu único
filho, Bruno dá-lhe a primeira de uma série de grandes alegrias: entra na
faculdade, justamente em Odontologia, onde o pai atuava. Foram cinco anos
de luta, para sustentá-lo em uma faculdade particular, cara e distante,
obrigando-o a alugar um apartamento em Joinville, com TV e telefone, para
esquecer as privações que passou nos primeiros tempos de Floripa. Deu-lhe
um carro e uma mesada, além de arcar todas as despesas de instrumental e
materiais que o curso envolve. Durante este período passaria duas vezes
por um teste de verdade, para provar sua desvinculação à dependência das
drogas: por duas vezes lhe roubam o carro e ele conseguiu superar os dois
eventos sem recaídas. Embora não tivessem seguro, os carros eram baratos e
ele conseguiu comprar outros. Na segunda vez um zero, financiado, mas com
seguro. Para robustecer sua determinação, afora as reuniões nas salas,
todas as noites de segunda a sábado, começa a participar também das
coordenações dos NA’s, assumindo funções de importância e de congressos em
vários estados. Sentindo orgulho em ser útil àqueles que um dia lhe
tiraram da sarjeta.
Funda vários grupos, em diferentes cidades por onde ia vender seus
produtos. Algumas vezes fica como fiador da sala, noutras compra móveis e
vez ou outra, segura grupos que ameaçavam se extinguir, fazendo reunião
com um único participante, por duas ou três horas, para não deixar o grupo
morrer. A cada ano, no dia 27 de novembro, a troca da ficha, que na
linguagem dos NA’s quer dizer a passagem para um novo período limpo. Nos
últimos dez anos só não estive presente em uma, por viagem ao exterior
inadiável. Nas demais sempre fiz questão de agendar e fazer daquele dia,
algo importante para mim, enquanto pessoa. O cerimonial de troca da ficha
a cada ano, é algo de emocionar ao arrepio. Cada um dos que se mantém
limpos, faz um relato de sua luta e conquistas. São estórias duras e de
grande conteúdo, na qual todos pedem para ficar livres das drogas, só por
hoje, pedido que renovam todos os dias. Ao final, os que completam mais um
ano, dão seu testemunho, de forma firme e afiançadora. Funciona!
Como marco da redenção do Fernando, carrego duas alegrias que vão me
acompanhar pelo resto dos meus dias. Quando completara um mês que não
consumia drogas, ele veio a Curitiba para me informar da vitória.
Estávamos ao final do almoço no Restaurante Dom Antônio e depois do café,
acendera um cigarro, como já fazia há cerca de 25 anos. Ao escutar o
relato, meditei. Como pode ele ser tão forte ao ponto de sair das drogas e
eu que me julgava tão forte, não conseguir me livrar desta droga de
cigarro, ainda que estivesse há alguns anos me preparando e ameaçando
deixar de fumar. Apaguei o e deixei de ser fumante naquele dia.
No ano da sua morte, passei por inúmeros contratempos: problemas com
ex-sócios, duas causas trabalhistas, perda de funcionários, falta de
dinheiro para novos projetos, denúncias contra a Odontex no INSS,
Secretaria da Fazenda e Anvisa, dentre outros, fazendo com que um prazer
da adolescência se transformasse num vício incontrolável: tomar uma ou
duas cubas todos os dias. Com sua ida, nunca mais bebi. Alguns dos
participantes, afora os grupos da noite pelas drogas, freqüentam ao meio
dia, grupos de AA – Alcoólicos Anônimos, que funcionam em moldes
aproximados. Aos que não conhecem, chama a atenção a quantidade de adictos
que relatam estarem livres dos vícios há 9, 7, 5, 4, 3 e menos tempo,
sendo que no último grupo que o Fernando freqüentava, a média é superior a
5 anos de abstinência. Vi na homenagem que prestaram ao Fernando, quando
ele depois de uma semana de falecido, completaria 11 anos limpo, algo que
ainda hoje me arrepia: um participante do grupo, que teve um momento de
fraqueza e voltou a usar. O fechamento, solidariedade e compreensão dos
demais, para com este é tudo que alguém pode precisar numa hora destas.
Nos últimos dois anos o Fernando havia comprado dois apartamentos na faixa
de vinte mil, para ter uma receita de aluguéis, mais na frente. Juntava
uns cinco mil, dava a entrada e assumia quinze ou vinte prestações de mil.
Alugava por cerca de 300 ou 400 e em menos de dois anos tinha os
apartamentos quitados. Como jogada decisiva e definitiva, muda sua loja da
Av. Rio Branco, para a Felipe Schmidt, a rua central de Florianópolis. A
loja tem dois andares. No de cima coloca a Odontex e no de baixo o sonhado
consultório do filho, que com algum investimento, fica um modelo de espaço
bem aproveitado, com funcionalidade e beleza. Como detalhe de
personalidade, reserva a parte inferior, que está ao nível da calçada,
para o filho. A reforma e montagem do consultório se faz no segundo
semestre do fatídico 2004. Cada passo, detalhe ou aquisição é acompanhada
pelo orgulhoso pai, que não deixa de carregar na pasta os cartões do
filho, para lhe fazer propaganda e ajudar a conquistar clientes. Pronto,
torna-se um símbolo da vitória. Um filho doutor, já fazendo pós-graduação.
Na aparência externa um traço constante: a despreocupação com as questões
da indumentária, pouca vinculação com as coisas materiais e nada de
ostentação da confortável situação que conquistara, em dez anos de
trabalho árduo. Inclusive na sua vida cotidiana, sem lugar para
restaurantes e outros lugares de estar para figurar. Nos últimos anos,
afora passar horas e horas trabalhando, passava outras tantas conversando
com quem estava precisando ser ouvido, por conta dos problemas com a
dependência, querendo sair do inferno das drogas, num trabalho que será
difícil quantificar ao certo, o total dos que se libertaram pelas mãos
dele. Ficava três a quatro dias por semana viajando pelo interior do
estado, mais pelo eixo Floripa/Joinville e menos pelo que leva a Tubarão e
Criciúma. Deste reclamava a tensão pela estrada de pista simples e repleta
de caminhões. Cuidadoso, sem nunca ultrapassar os 100 por hora e comedido
em todas as manobras ao volante, não nos passava pela cabeça, pudesse
sofrer algum acidente.
11 de novembro, como no 11/9 nos EUA e no 11/3 na Espanha, uma quinta
feira negra, uma semana depois de iniciado o horário de verão, ainda
escuro, às seis horas retira uma encomenda na Viação Catarinense e sai
para a fatídica 101. Alguns quilômetros de pista dupla até Palhoça, onde
está a fábrica da Olsen e pouco depois do trevo, onde começa a pista
simples o choque, frontal e fatal. Uma hora preso nas ferragens até a
remoção. Com calma, liga para o filho comentando do ocorrido, tanto que
este chega ao hospital antes que o pai. Com o celular fala com a ex-esposa
e passa algumas orientações para as primeiras providências. Nenhum corte,
nenhum osso quebrado, a exceção da rótula, que agora insistem em chamar de
patela. Uma laparoscopia para procurar alguma hemorragia interna, sem
encontrar. Na sexta a segunda cirurgia, para estancar a hemorragia que já
se fazia presente no baço, que foi extirpado. Visito-o no sábado e só não
me assusto mais com a cena de ver meu primeiro irmão em uma UTI, pela
grande confiança que ele demonstra, mencionando que iria sair desta.
Como meu pai estava hospitalizado faziam dez dias, precisando de muita
atenção e concentração, decido com meu irmão Luis, não contar agora sobre
o acidente, para minha mãe e demais irmãos, deixando para que o Fernando
mesmo o fizesse, no outro sábado, quando calculávamos que estaria de volta
para casa, tanto que já haviam até contatado um enfermeiro para ficar com
ele durante o restabelecimento. Para dar-lhe apoio e companhia, o Luís vai
para Floripa no sábado e passa o domingo e a segunda, visitando-o. Estava
tão melhor que na segunda pela manhã voltou para Curitiba. Na terça a
pressão de 9x4 estava a indicar nova hemorragia. Outra cirurgia, com
retirada de parte do pâncreas, para que se regenerasse e a constatação de
que o fígado funcionava com somente 20 ou 30 % de sua capacidade. Ficamos
mais apreensivos no dia seguinte, quando os pontos afrouxando, levaram-no
a nova cirurgia, a quarta em cinco dias. Preocupados, o Luis e eu saímos
com alguma roupa catada às pressas e fomos para Florianópolis. Foram
quatro horas de medo e apreensão. A única coisa que nos dava segurança,
foi o que comentei com o Fernando na última vez que o vi com vida:
passastes dez anos ajudando quem precisava e tens um crédito, que vai te
garantir mais dez anos, pelo menos.
Podia parecer pouco para alguém que não completara 49 anos. Mas achava que
era o suficiente pára quem lá no seu interior estava lutando contra a
morte. Parecia pouco também para com o quadro que encontramos ao chegar no
hospital, já depois de encerrado o horário de visitas à UTI. Uma senhora
bondosa, de nome Márcia, agenciou para que eu o visse. E relaxei. Seis
horas depois da quarta cirurgia, ele estava bem. Falou que se sentia
melhor, mesmo estando saindo da fase pós anestesia. A cirurgia para
procurar a razão dos pontos estarem se rompendo, tinha constatado que não
estavam presentes os dois riscos: hemorragia e infecção. Além do que os
órgãos abdominais começavam a desinchar visivelmente. Na visita das 10 da
noite, o quadro era tão melhor que ficamos uma hora na lanchonete da
frente, relaxando e contando para irmãos e amigos as boas novas. Ele já
não estava mais com o respirador artificial, falava normalmente e estava
tão confiante que lhe fiz uma brincadeira. Estás salvo! Milagre existe!
Tanto existe que o Grêmio ganhou da Ponte Preta por 6x1. Ele pediu para
confirmar de quem e quanto, soltando um sorriso gostoso. O último.
Falamos outras coisas do tipo: o pior já passou, agora, de hora em hora a
tua vida só melhora e que em três dias seria o fim de semana e voltaria
para vê-lo no quarto. Confiante e convicto da melhora, arrumei minhas
coisas e decidimos com o Luis, que ele ficaria quinta e sexta com o Nando
e eu voltaria para Curitiba, retornando no fim de semana, para passar o
sábado e o domingo com ele. Imaginando que a visita da manhã também era às
10 horas, fui para a UTI. Estranhei que só houvesse duas pessoas
aguardando e ao ler o horário afixado na porta, percebi que estava
adiantado, já que a visita só começaria às 10:30.
As 10:15, quando o Luis chegou com a filha, esta sugeriu tentarmos entrar
antes, para aproveitar um pouco mais a meia hora de visitas. A atendente
pediu que esperássemos mais um pouco, pois estavam em procedimento com um
dos pacientes. Nem nos preocupamos, pois o Fernando estava bem e por que
na noite anterior uma família saiu da visita desolada, porque fora
comunicada que não havia mais o que fazer para o motociclista acidentado,
só esperar. Mal podíamos imaginar que quem estava em procedimento era o
nosso Fernando. Só desconfiamos de algo, quando pediram para que
entrássemos, pois o médico queira falar conosco. Em segundos ele chegou,
com um ar de espanto e transtorno, nos dizendo que não tinha boas
notícias. Nesta fração imaginei que ele houvesse piorado, logo sendo
golpeado com a notícia de que ele terminara de falecer, vítima de uma
parada respiratória, fim que levou seu coração a parar.
Aquele corredor do hospital não me sairá da lembrança tão cedo. Nem
aquelas palavras. Ali ficou uma parte da minha alegria. Um pedaço do meu
passado. E talvez uma diferença para o meu futuro. Que só consigo
contornar, tentando lembrar, resgatar e imortalizar o que fica do
Fernando. Um exemplo de que a vitória sobre o vício é possível, sempre que
houver vontade, decisão e apoio de quem sabe lidar com isto: os NA’s. Um
exemplo de que vale a pena lutar, porque a vitória, mesmo que parcial, é
sempre melhor do que a derrota. E que com estes podemos motivar muitos a
saírem das drogas e do álcool, por que é maior a incidência dos que morrem
no vício, do que os que se vão limpos. E porque pelo tempo que se mantém
longe dos vícios, conseguem promover muita coisa boa pelos demais. De
tanto praticar o bem, o Fernando se fez popular a ponto de seus amigos
somente lembrarem de sua obra, que estamos tentando resgatar, a partir
destes escritos, que em breve se transformarão, com ajuda dos amigos que
vão escrever passagens com ele, em um livro, com título provisório
significativo: PARTILHANDO O FERNANDO.
Tanto que ontem me ligou uma amiga de infância que foi colega de ginásio e
colégio do Fernando e que por estas coincidências da vida é dentista,
relatando que no último fim de semana aconteceu o encontro de 25 anos de
encerramento deles no ensino médio. Todos estavam tristes com a perda, mas
lembravam com alegria o encontro de 20 anos, quando a alegria havia sido a
recuperação do Fernando, depois de mais de 15 anos como dependente de
drogas.
Para mim, a última imagem é definitiva: o sorriso da vitória pelos 6x1 na
Ponte Preta, como que simbolizando a sua própria vitória sobre o mal.
Somente tanto crescimento em uma única pessoa, pode compensar a dor da
ausência. Da partida, tão precoce. Tão rápida. Enchendo-nos de melancolia
e saudade. E de orgulho por tudo o que fizeste. E que por teu exemplo,
muitos outros poderão fazer, livrando-se deste mal, AMÉM.