Com trágico desaparecimento
do meu irmão Fernando, que dedicou quinze anos de sua vida à
Odontologia e que neste último curtia a sua realização maior:
ter formado o único filho Cirurgião Dentista, peço licença para
contar um pouco de sua história profissional, como forma de
resgatar sua memória.
No início dos anos 80 ele
fez um estágio na Odontex, que àquele tempo ainda tinha sua sede
em São Paulo. Voltou a Porto Alegre e começou a vender livros
odontológicos. Logo passou a vender também materiais dentários,
tendo dois primos e a esposa trabalhando com ele,
numa filial que veio a ser
nossa primeira loja fora de São Paulo.
Motivado por uma asma
brônquica, que o acompanhava desde a infância e que talvez no
final tenha colaborado para sua falência respiratória, mudou-se
para Florianópolis, indo morar na praia, para melhorar sua
saúde. Nesse tempo dedicou-se a um outro talento, que também o
comprometeria: fazer doces artesanais, como poucos vi.
Gostava tanto de doces, que se tornou viciado, parando a cada
tanto para comer um.
Na praia do Campeche, à
noite, ficava duas a três horas batendo o leite condensado, para
deixar a massa pronta para o dia seguinte. Acordava sem
despertador diariamente às cinco da manhã, outra de suas
características até os últimos dias, para enrolar os doces. O cajuzinho e o negrinho eram sua marca registrada. Eu que sempre
fui controlado, não resistia a uma seqüência de três ou quatro.
As vezes mais.
As sete saia para levar o
filho Bruno para escola. Por influência dos pais, o matriculara na
melhor da cidade. Particular e cara, que o obrigava a
trabalhar mais que os demais. Passava os dias vendendo seus
doces no centro de Florianópolis, sendo tão popular, que uma vez
sugeri-lhe entrar na política, ao que ele respondeu seco:
prefiro continuar limpo. Os que o conheceram sabem.
Não poucas vezes tinha que
voltar ao meio dia para casa, distante quinze quilômetros do
centro, para reabastecer suas caixas de doces. Como um típico da
ilha, comprou um “Buggy”, que era destaque a beira mar, o que
lhe facilitava uma jornada produtiva. Mas sua vida era muito
puxada. Três horas batendo doces, duas horas enrolando-os e oito
a nove horas vendendo de sol a sol.
Nos reencontramos e ele
tinha feito uma edícula no fundo, uma piscina, murado o terreno
e feito uma ampliação na casa. Com lugar para fazer um churrasco e
para jogarmos futebol com as crianças, no único dia de folga da
semana: o domingo. Ele se queixava do trabalho duro, mostrando
as mãos visivelmente judiadas pelos açúcares. Decidi
oferecer-lhe uma alternativa para outra vida, já que eu tinha
entrado em outra fase, com o início dos osseointegrados em 1987.
Era 1993 e decidimos fazer
uma experiência: ele trabalharia pela manhã com os doces e à
tarde, já com o ganho garantido, visitaria os Cirurgiões
Dentistas que tinham feito o curso de habilitação em implantes
osseointegrados TF na Fundação Basílio Jaef. Mesmo não sendo uma
das maiores capitais, Florianópolis era percentualmente a
segunda cidade no Brasil em quantidade de implantodontistas, só
perdendo para Curitiba, à época.
O trabalho do Fernando foi
decisivo neste sentido, tanto que logo o interior de Santa
Catarina ia, mais e mais, fazer o curso da Argentina, tendo o
somatório do estado, mais implantodontistas que o Paraná, só
perdendo em percentuais para São Paulo. Levou sozinho três
grupos para a Fundação. Foi realmente uma revolução. Já
ministrei mais de dez cursos no interior deste estado e cada vez
me surpreendo mais, com o número de implantodontistas nas páginas
amarelas e nas ruas das cidades.
Quando começamos com o IMZ, achei
que o Fernando fosse ter dificuldade. Em dois cursos assistidos,
já estava dando orientações nos estandes dos congressos e alguns
perguntavam se ele era Dentista. Mesmo com os catálogos em
inglês, logo dominava aquele monte infindável de peças e fazia
planejamentos de próteses por telefone. Conquistava os clientes
por seu interesse, dedicação e seriedade no trato com a
profissão.
Foram onze anos de
crescimento, como ele gostava de ressaltar. A cada final de ano
ele me pedia os dados das suas planilhas, para ver o quanto tinha
crescido percentualmente, quando os seus próprios resultados
eram visíveis. Sentia-se seguro em ver que estava melhor do que no
ano anterior. Tanto que me fez desenvolver uma máxima: para ser
melhor, não é preciso ser melhor que os demais, só basta ser melhor
do que se era antes.
Mais marcante foi a
avaliação que mais ele gostava de enaltecer: os cinco anos para
formar o Bruno em Odontologia. A começar por ser em escola
particular. Depois por ser em uma cidade distante da sua. E mais
por não permitir ao filho as limitações que ele tivera. O
colocou num apartamento em Joinville, com telefone, carro e
uma semanada, para não faltar nada das necessidades básicas de
um estudante. Nem namorada.
A formatura foi apoteótica.
A primeira turma de Odonto da Univille, no mais tradicional
clube da cidade. Um salão de pompa imperial, numa cerimônia que
me fez chorar do princípio ao fim. Que conquista! Meu pai, mesmo
com uma bolsa funcionando no lugar da bexiga, era o avô mais
feliz do mundo, nem reclamando da longa viagem desde Porta
Alegre, nem do tombo que levara comigo.
A churrascada comemorativa
foi p’ra gaúcho nenhum botar defeito. Todos os irmãos, outros
parentes, amigos, colegas, clientes. Tentei ajudar na conta, mas
o Fernando se antecipou, dizendo que esta ele fazia questão de
pagar. Disse que Deus o tinha ajudado muito na vida, para ele
chegar àquele momento e queria senti-lo por completo.
Comentou que mesmo com toda a correria daquela semana, ela tinha
sido tão boa, que deu para pagar o jantar.
Até parece que estou
falando de um tempo distante, mas não. Tudo isso aconteceu no
fim do ano passado, época em que o Bruno já tinha um emprego de
férias e fins de semana, em uma clínica de convênios em
Florianópolis. A cada quinze dias fazia um curso de implantes em
Tubarão, que completou com um de prótese sobre implantes, para
neste ano ser aprovado na seleção para a especialização em Dor e
Disfunção, que agora cursa.
Não chegou a um ano essa
curtição do Fernando com o filho. Antes dizia: este guri vai dar
bom. Depois de formado, mudou: este guri é muito bom. No leito
da UTI, ao comentar todas as iniciativas tomadas pelo Bruno,
por conta do acidente, ele comentou: este meu filho é bom, já
não mais se referindo às qualidades e virtudes odontológicas mas
sim ao traço de bondade, certamente herdado do pai.
Isto por que nos
últimos dez anos, todas as noites, de segunda a sábado,
inclusive, ia para os grupos de NA, emprestar testemunho e ajuda
aos que queriam sair do vício. Seu outro lado que merece uma
coluna só para ele, assim como sua opinião sobre os cursos de
implantes, que proliferam pelo Brasil. Assuntos que ficam para
uma próxima coluna.
Em memória do
Fernando.
Que deixou um
filho, uma obra e muitas saudades.
RIBEIRO´S