ODONTO ENTREVISTA Nº 34

A coluna sensação da Odontologia

 

PROFESSORA SÔNIA GROISMAN

 

No clima ditado pela semana da mulher, mais uma Doutora de Destaque! Ela tem um currículo privilegiado: Especialista em Periodontia pela UERJ, Mestrado e Doutorado em Odontologia Preventiva pela UFF, Pós Graduação em Cariologia e Periodontia na Universidade de Lund - Suécia, Pós Doutorado em Odontologia na American World University, foi Presidente da ABOPREV de 2003 a 2005, é Professora Associada da Faculdade de Odontologia da UFRJ, Tutora da Pós Graduação da World University – EUA, Coordenadora do Programa de Educação Continuada de Prevenção da ABO - Nacional – Editora ArtMed; Co-orientadora no Programa de Doutorado da FOB-USP; Coordenadora da Câmara Técnica de Políticas Públicas de Saúde do CRO-RJ e o destaque do momento: Presidente Eleita do Congresso Europeu de Pesquisa em Cariologia – ORCA, que acontecerá em 2012, no Rio de Janeiro.

 

 

Quem a influenciou a fazer Odontologia?

Como todo adolescente, fiquei perdida na época do vestibular. No segundo ano científico, passei para o curso de Farmácia na UFF, onde meu pai lecionava. Entrei com mandato de segurança, mas não gostei do curso. No meu ano de vestibular fiz Antropologia na PUC e Odontologia na UFF, e para decidir entre duas áreas que pareciam tão dispares, meus pais foram pilares de suporte e norteadores, tanto na decisão pela Odontologia quanto pela união dos aspectos sociais e humanos da Odontologia, combinando minhas aspirações iniciais.

 

Onde fez a faculdade e quais suas lembranças desse tempo?

Fiz Faculdade na UFF, minha única opção no vestibular, foi minha primeira experiência de diversidades sociais e culturais, pois vinha de uma única escola a vida toda. Fiz amizades que perduram até os dias de hoje. Lembro-me do meu primeiro seminário que não conseguia falar porque tinha vergonha de falar em público.

 

Como foi seu início na profissão?

Como de todos no começo, muita ralação, apesar do grande incentivo ao estudo, tinha que trabalhar nos horários vagos e fins de semana. Lembro-me claramente da minha avó materna, não entender para que fazer especialização se já era “Doutora”. Na especialização de periodontia na UERJ, fui orientada pelo meu primeiro grande mestre Antonio Martins Junior e hoje sua filha e netos são os Dentistas da minha família. Ao término da especialização engrenei no mestrado e não me lembro de ter parado de estudar ainda.

 

Lembra quem foi seu primeiro paciente?

Meus primeiros pacientes eram meus parentes, que meu irmão, Mario, não queria mais atender e é claro ganhava muita experiência.

 

Caso mais gratificante?

Todas as crianças que acompanhei desde tenra idade e hoje são adultos com lindos sorrisos saudáveis que ajudei a manter.

 

Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório?

Quando comecei a trabalhar, no consultório em Niterói, na Av. Amaral Peixoto, atendia uma família com três meninos. A mãe fazia questão de trazer os três juntos, para facilitar a vida dela. Eles não paravam quietos, respondiam à mãe, brigavam, entravam no consultório de atendimento, mexiam em tudo, não faziam nada do que eu pedia. As bocas estavam sempre com altos índices de placa e eu os apelidara de família monstro. Sujavam o consultório, deixavam marcas de mãos nas paredes, era um horror. Um dia durante um dos muitos caos, um monstrinho socou o outro e quebrou um dente. Apesar da confusão e drama, foi uma maravilha, porque ficaram todos tão assustados, tão quietos, todos catando o pedaço do dente do irmão, que foi o momento de colocar a moral: marcar apenas um por dia e passar a ter paz no consultório. A família monstro me marcou!

 

Qual foi o marketing que usou para começar?

No tempo que comecei não existia nem a palavra marketing na Odontologia, mas meus pacientes passaram a vir indicados do pediatra de minha filha mais velha, após longas discussões sobre não utilização de mamão com Karo, ou banana com açúcar. Depois fui chamada para orientar a dieta da escola dela em conjunto com a nutricionista e assim os pacientes vinham através das lutas de ações de saúde para minhas próprias filhas. Lutas essas pautadas em Odontologia baseada em evidência.

 

Tem algum parente Cirurgião Dentista?

Tenho vários, mas sempre tive mais proximidade de vida com meu irmão, Mario Groisman.

 

Quem é seu maior ídolo na Odontologia?

Sem dúvida meu maior mestre foi o Prof. Douglas Bratthall, do departamento de Cariologia da Universidade de Lund, Suécia e responsável por programas preventivos em Odontologia na ONU. Pelo seu profundo conhecimento científico, grande humildade, humanidade e generosidade. Apesar de não estar fisicamente entre nós, sempre lembro-me de seus ensinamentos, da sua visão de vanguarda na implementação de estratégias preventivas para a população no mundo, impulsionando a classe odontológica, levando a humanização no atendimento odontológico. A meu ver, ele contribuiu muito pela imagem positiva da classe.

 

Quem são os seus grandes amigos na profissão?

Bente Nyvad e o Prof. Milton Silva

 

Qual a revista odontológica que mais gosta de ler?

Caries Research

 

Como está vendo o presente momento na Odontologia?

Apesar de ouvir muitas reclamações frente à posição que a classe se colocou, em aceitar trabalhar por valores impostos por empresas odontológicas mercantilistas, devido ao excesso de profissionais, vislumbro a possibilidade de se traçar caminhos diferenciados pela criatividade brasileira, que congrega as vantagens da técnica e estética americana, com as considerações minimamente invasivas, biológicas, de saúde da corrente européia. A questão da qualidade total e da humanização no atendimento propicia estratégias de atendimento odontológico ansiados pela população, seja ela economicamente favorecida ou não.

 

Qual caminho vê como mais indicado para a profissão?

Apesar das limitações mercadológicas, vejo com otimismo o caminho futuro da profissão, uma vez que a diversidade científica nos direciona para um leque de possibilidades de ações multiprofissionais, aumentando e diversificando a rede de recebimento de pacientes. É necessário hoje que a gestante vá ao periodontista, o diabético e o cardiopata, necessitam ter tratamentos multiprofissionais, mas é claro que para isso o Dentista necessita sair do seu consultório e fazer-se presente em eventos multidisciplinares, que sem dúvida usando um termo da saúde pública, passarem a “referenciar e contra referenciar pacientes”, fato que já vem ocorrendo. Entretanto, para tal é necessário irmos além das fronteiras de nossos consultórios; dos cursos e revistas científicas odontológicas e expandirmos nossa mente, uma verdadeira evolução. Claro que para isso contamos com a tecnologia.

 

A que atribui o seu sucesso profissional?

Não me vejo como uma pessoa de sucesso. Vejo-me como uma pessoa que tem sempre muito trabalho a ser realizado

 

Quem a ajudou no crescimento profissional?

Todos ao meu redor me ajudam: minhas filhas Bianca e Larissa, pelo amor; minha fiel secretária do lar, Alciléia que por mais de vinte anos permite ausentar-me com tranquilidade, meus pais que sempre me incentivaram a frequentar congressos, aos meus amigos que me convidam para falar e em respeito a eles procuro sempre atualizar-me e às desavenças ou caminhos tortuosos que a vida nos impõe, nos fazendo amuderecer.

 

Sente-se realizada profissionalmente?

Sim, tive a felicidade de vivenciar diferentes experiências sócio econômicas, culturais e odontológicas em alguns países de cultura muito dispares do Brasil. Gosto de lecionar, fui presidente da ABOPREV, instituição máxima na minha área no Brasil e agora a oficialização da minha indicação para presidir o congresso da ORCA (Organização Européia de Pesquisa em Cariologia) é o reconhecimento de um trabalho, pautado em ética.

 

Como espera ser o futuro da profissão?

Dentro da avaliação de eras evolutivas de Einstein estamos caminhando para a era da intuição, em que os conhecimentos científicos já estão disponíveis ao homem contemporâneo, mas urge a necessidade do profissional descer do seu pedestal de senhor demoninador do saber e em poder dar ao seu paciente, para que o mesmo possa ter responsabilidade com sua saúde e para tal, o paciente não necessita apenas de informação, mas de envolvimento emocional, aliado a alta tecnologia de diagnóstico, acurácia e ética profissional. Necessitamos pensar nos pacientes como seres sociais, inseridos em seus contextos onde a saúde bucal pode estender-se além da cavidade bucal. O sorrir pode trazer auto-estima e acalento emocional.  Teremos então a ciência a favor não apenas da biologia, mas da humanização

 

Mensagem para os mais novos e considerações finais:

Não saberia deixar outra mensagem a não ser o caminho que percorri: o de muito estudo e perseverança. Não se deixe abater, não permita que lhe façam achar menos capaz do que é. Claro que precisamos respeitar os pacientes, mas antes de tudo precisamos respeitar a nos mesmos, nos valorizando e acreditando que somos capazes, apesar das adversidades que surgem, mas nas mentes pequenas que se interpõe em nossos caminhos.

 

Sônia, quando comecei na implantodontia em 1989, soube de uma irmã do Mario Groisman, um dos precursores da osseointegração no Brasil, que estivera com ele na Suécia. Por ter me dedicado mais aos implantes, só vim a te conhecer 20 anos depois, nos congressos em que costumamos ministrar. Já havia noticiado algo sobre a ORCA quando dei notícias do congresso da Odontologia Estética e o da IADR, que serão tal qual o FDI, no Brasil. Com tua entrevista estou certo de que eles acertaram na escolha da presidenta. Será um grande congresso e estou às ordens para ajudar na divulgação e fazer com que o Brasil vá para o lugar que merece na Odontologia Mundial: LIDERANÇA! Interessados em participar do congresso da ORCA ou parabenizar a entrevistada: sonia@dentistas.com.br

 

Antônio Inácio Ribeiro     ribeiro@odontex.com.br

 

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