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ODONTO ENTREVISTA Nº 32 |
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PROFESSOR SILVIO BORAKS
Nosso entrevistado desta semana, formado em julho de 1971, pela FOUSP – SP, na qual foi Professor, Mestre e Doutor, da primeira faculdade a se interessar pelo ensino da Semiologia. Assim como participou do início da Semiologia, como disciplina, também compos o primeiro time de Estomatologistas do Brasil, no Hospital Heliópolis. Criou e coordenou a equipe de Estomatologia do HC da FMUSP. Atualmente é diretor do Serviço de Estomatologia e Cirurgia Bucomaxilofacial do Instituto do Câncer Dr. Arnaldo. É professor colaborador do Curso de Especialização do Instituto Português de Oncologia do Porto – Portugal e autor do consagrado livro Diagnóstico Bucal.
Influências? A família, mais exatamente minha mãe. Talvez pelas exodontias que sofreu ainda jovem ou ainda pelas dores das biopulpectomias. A escolha foi totalmente dela que fez minha matrícula por procuração, enquanto eu tentava ser ator em Londres.
Lembranças da faculdade? Era muito envolvente o convívio intenso na velha Rua Três Rios, alunos e professores em completo congraçamento, com exceção do Professor Orsini que era muito distante e misterioso, mas o que me cativou de fato foi o SHOW XXV que, em princípio, me fez permanecer na Faculdade. Não posso esquecer dos núcleos que o paciente do Maurício engoliu no dia da verificação para nota. Lembro-me também da visita ao Hospital do Câncer na primeira semana de aula, onde meus colegas ficaram alguns dias e eu alguns anos, como estagiário.
Início? Foi duro principalmente porque já iniciei como especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial e na área de Diagnóstico Bucal. Ainda não havia o conceito de doenças da boca entre os colegas, muitos faziam chacota: “Lá vai o baixinho louco das aftas”, até que começaram enviar seus parentes e posteriormente os seus pacientes. Após, minha carreira teve êxito, pois além do diagnóstico, realizo tratamento cirúrgico, se necessário.
Primeiro paciente? Tive alguns primeiros pacientes que vale a pena relatar: ainda como estagiário, no consultório de um professor, fiz meu primeiro polimento da restauração de amálgama que meu professor tinha recém feito, e que me passou com “urgência”, pois simulou um cisco que lhe entrou no olho e assim não podia continuar. O segundo estágio foi com um prático licenciado que numa sala tinha o consultório e na outra uma loja de casacos de pele: “é pele ou dente?” perguntava ele a quem chegava. Meu primeiro atendimento foi para salvá-lo de um dente que fraturou durante uma exodontia e eu consegui remover a raiz com a qual tanto lutava sem sucesso.
Gratificante? Dois casos marcantes: um carcinoma de língua numa moça de 23 anos que foi operada e teve um outro tumor um ano após. Foi operada pela segunda vez, foi submetida a rádio e quimioterapia. Diagnostiquei precocemente na primeira e na segunda vez, fizemos um vínculo fantástico, com ela e com a família, que é do interior de São Paulo. Ela queria desistir da faculdade de Pedagogia que cursava. Não se sentia apta por problemas de dicção, mas eu insisti para que continuasse e hoje, seis anos após esta bem e é uma excelente profissional com as seqüelas que a glossectomia lhe deixou. Quanto ao segundo, tenho acompanhado há quase vinte anos com carcinomas que surgem na boca, principalmente na gengiva e que alguns regridem espontaneamente. Os que persistem tenho removido durante o ato de biópsia. Assim, tenho mantido por este longo período uma senhora hoje com 89 anos de idade, muito viva, atenta e observadora, que em sua astúcia me questiona: “por que você não publica o meu caso? ”.
Pitoresco? Dentre tantos, o mais curioso foi o de um menino de quatro anos que veio com seus pais em pranto, com um diagnóstico de melanoma estabelecido pela madrugada num pronto socorro sem condições de iluminação. O menino era portador de uma área enegrecida no palato envolta por um branco intenso. Ao palpar, destaquei um olho de um boneco que o pacientezinho havia colocado na boca. Outro ainda foi um senhor com a coroa de um pré-molar no interior da língua. Ocorreu que após um disparo de arma de fogo o projétil fraturou e introduziu a coroa na língua e se perdeu em meio aos coágulos.
Maiores e melhores momentos? O reconhecimento constante de colegas e pacientes a quem dedico-me exclusivamente há 40 anos ao diagnóstico e tratamento das doenças da boca. Outra vez, ao explicar o que será feito, o paciente, com olhar firme e fixo para os meus olhos: “Não precisa explicar nada, eu sinto dentro de mim que o senhor joga no meu time”.
Marketing? Nunca tive uma estrutura de divulgação. Creio que foi o “boca a boca” e entrevistas na imprensa ou na televisão pelo inusitado do assunto, mas sem dúvida minha família é que foi meu maior divulgador.
Parente? Meus filhos me acompanharam na profissão e na especialidade, se é que a minha carreira os tenha influenciado, é motivo de honra e orgulho para mim.
Ídolo? Sou grande admirador dos Profs. José Bonifácio da Fonseca e Wilson da Silva Sasso, realmente fã de carteinha, homenageados em nossa turma de formatura, símbolos de humildade e sapiência.
Amigos? São tantos que me acolheram com esperança e fé em minha carreira, que não os cito com receio de esquecer algum. Eles como bons amigos saberão a quem refiro-me.
Livro e autor? Como o assunto é muito extenso e visto sob vários prismas, cada autor descreve um ou outro tema com mais detalhes. No livro que publiquei, Diagnóstico Bucal, tentei abordar os assuntos pertinentes de forma abrangente. Um livro muito proveitoso para quem se dedica ao assunto é o do Neville.
Como está vendo a Odontologia? Com a excessiva oferta de cursos e expansão de planos de saúde, a Odontologia entrou numa bolha a partir dos anos 90, forçando os CDs a fazer de tudo, sem preparo para tal. Com a consagração dos implantes, que exigiu reciclagem técnico-biológica, é nítida a evolução. Parece que a Odontologia tomou novo rumo.
Caminho? Nos ressentimos muito da falta do clínico geral, do “Dentista da família”. Aguardo ansiosamente a volta do colega generalista que atende adultos e crianças, com meios, métodos e equipamentos eficientes. Porém é incompreensível observar-se a divulgação de aparelhos ou ainda criar–se especialidade baseada em aparelhos.
Sucesso profissional? O que sei e transmito hoje deve-se a muita perseverança, muito trabalho com foco. Nestes quarenta anos de carreira, nunca desviei-me do objetivo principal de minha atividade. Tive de ser, muitas vezes, autodidata e apreendi com a experiência. Posso queixar-me do que não fiz, mas nunca arrepender-me do que fiz e sem dúvida continuarei tentando e experimentando coisas novas baseadas no que sedimentei durante a vida.
Quem o ajudou? Não posso deixar de reconhecer o Professor Antonio Tommasi, um homem que nunca me disse não. Sempre estimulou minha criatividade, acreditando em mim, ainda como monitor, e mais tarde contratando-me como professor, oferecendo-me a oportunidade de ministrar aulas na graduação, palestras e cursos, percorrendo o Brasil.
Como espera ser o futuro? Espero que o Cirurgião Dentista volte sua atenção ao paciente como um todo. O CD é o médico da boca e que a Odontologia também seja exercida como um todo, deixando para os especialistas os casos mais complexos. Que cuidem dos pacientes do flúor à prótese total. Que aceitem planos de saúde odontológica com remuneração digna.
Sente-se realizado? A Odontologia trouxe-me muitas realizações, a principal delas, creio, é poder ter colaborado para que o CD tenha hoje uma visão do que ocorre na boca, no que cerca dentes e gengiva, e lidar com a repercussão de doenças sistêmicas com o tratamento odontológico. Tenho a satisfação e orgulho de ter participado ativamente, não da criação de mais uma especialidade, mas incentivado a possibilidade de o CD melhor ver e tratar as doenças da boca.
Sugestão para os mais novos? Jogue no time do paciente, ouça-o com carinho, saboreie suas palavras que trazem sempre informações valiosas. Troque idéias com seu paciente. Não tenha medo de inovar, esteja sempre a ousar. A ousadia é uma das principais características do jovem, não deixe que a obstruam. Tire um bom proveito dos acertos, mas melhor ainda da experiência dos erros. Seja você mesmo, ninguém pode ser o que não é!
Considerações finais: A Odontologia deu-me tudo aquilo que dela eu não esperava. Comecei por acaso e aprendi a amar minha profissão, pois descobri com meus próprios olhos o que ela podia oferecer-me. Criei, inovei, enfrentei opositores tradicionalistas, lutei pelo que eu sempre acreditei, pouco ative-me a protocolos ou a teorias herméticas. Consegui ajudar fazendo a Estomatologia ganhar crédito e seguidores em nosso meio. Pude mostrar a outros da área da saúde a importância do CD como médico da boca, trabalhando ao lado deles numa posição de igualdade. Hoje, mais uma vez inovando, dedico meu conhecimento à Imagenologia. Estou criando um jeito mais completo de estudar o paciente e suas doenças através do Serviço de Radiologia que criei.
Grato pela oportunidade. Foi muito prazeroso poder atender seu convite e assim escrevendo ao seu grande público, poder aprender um pouco mais sobre mim.
A oportunidade foi nossa em conhecer mais de um dos grandes da Odontologia, que com dedicação e desprendimento construiu uma carreira sólida, com prestígio internacional. Esta entrevista é só mais um destes reconhecimentos. Foi um privilégio ter a honra de entrevistá-lo.
Antônio Inácio Ribeiro ribeiro@odontex.com.br
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