ODONTO ENTREVISTA 10

PROFESSOR NEWTON MIRANDA

 

Como hoje é nossa última entrevista do ano, optamos por fazer uma homenagem ao nosso entrevistado do dia 9 de setembro, que no dia 28 de novembro foi eleito presidente da ABO Nacional. Outro motivo de alegria foi que em outubro o Dental Tribune edição Latin American publicou esta nossa entrevista em espanhol e depois disso, a edição americana a publicou em inglês. Aos que quiserem praticar um dos idiomas, colocamos abaixo o link para a publicação em espanhol e a página em que poderão lê-la em inglês. Ao amigo Newton Miranda, nossos parabéns e votos de uma profícua gestão. 

http://www.dental-tribune.com/articles/content/scope/news/region/latinamerica/id/843 

Para lê-la em inglês, clique aqui http://www.dental-tribune.com/epaper e vá a página 14

Quem o influenciou a fazer Odontologia?
Meus pais eram muito pobres e moravam em uma pequena cidade, Cipotânea em Minas Gerais. Fui mandado a estudar num seminário de padres em Petrópolis aos 10 anos e ao sair de lá, já com 16 anos fui estudar em Juiz de Fora, onde um irmão meu já estava se formando em Odontologia. Morávamos numa pensão em frente à Faculdade, numa rua paralela à Rua Halffeld e fui escolhido para dirigir o Departamento de Cultura e Arte da União Juizforana de Estudantes Secundaristas (UJES).  

Onde fez e quais suas lembranças do tempo de faculdade?
Com o golpe militar de 1964 fui preso e obrigado a me desligar do Colégio, em Juiz de Fora, tendo que me transferir para Belo Horizonte, onde ingressei na Faculdade de Odontologia da UFMG. Aí comecei a participar do movimento “Ação Popular” (AP) de resistência à Ditadura Militar e tive o privilégio de tornar-me amigo do Professor Osmir Oliveira o qual, por suas convicções libertárias e democráticas, ajudou a mim e a muitos outros, a escapar com vida das garras da repressão, nas vezes em que estivemos presos. Ao formar, ele me encaminhou a uma pequenina cidade onde vivia a família de sua esposa, no Vale do Rio Doce, onde eu poderia trabalhar sem ser percebido e perseguido. 

Como foi seu início na profissão?
Por essa razão meu início de profissão também foi muito difícil. Eu era o único profissional de nível superior nesta cidade de menos de 2 mil habitantes. Ajudava-me financeiramente o fato de dirigir o colégio estadual local, que por outro lado, deu-me a vivência diretiva. 

Qual a marca do seu primeiro consultório?
Meu primeiro consultório foi um “ELETRAURI” comprado de segunda mão, com sacrifício, em 12 parcelas de Cr$ 200,00 (duzentos cruzeiros). Até hoje lembro com alegria daqueles dias de muito trabalho e aprendizado, pois foram básicos e fundamentais na minha carreira. 

Lembra quem foi seu primeiro paciente?
Lembro-me bem! Meu primeiro paciente era um menino, filho do prefeito e que, tomara tenha sido por minha influência, é hoje um Cirurgião Dentista renomado em Belo Horizonte. 

Qual foi o seu atendimento mais difícil?
Sempre haveremos de realizar atendimentos difíceis durante nossa vida profissional, mas não esqueço daquele alcoólatra que dormiu ao relento, chegou rouco ao consultório e sentia uma dor estranha ao apalpar sua garganta. Encaminhei para o Raios-X do hospital e veio de lá o laudo: ele estava com a PPR entalada na faringe! 

E um que tenha sido o mais gratificante?
Penso que todo tratamento onde colocamos todo o nosso conhecimento, que resulte em satisfação plena do paciente é muito gratificante. Mas a Dona Geralda, uma verdureira de quase noventa anos, a quem fiz gratuitamente a dentadura, chegando a meu consultório com lágrimas nos olhos a me dizer: “Oh doutor, o senhor me fez feliz de novo. Eu lhe trouxe o tabuleiro com as melhores verduras que pude colher”. Aí eu a abracei e chorei também. 

Sabe o nome do seu primeiro protético?
Clélio foi meu primeiro protético. Com a ajuda dele consegui fazer muitas pessoas voltarem a sorrir e serem felizes. 

E da sua primeira atendente / auxiliar?
Minha primeira auxiliar foi minha esposa Rosangela e, depois veio a Rita, quando eu já clinicava em Guanhães - MG. 

Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório?
Pitoresco mesmo foi quando minha esposa não conseguia parar de rir ao ouvir uma paciente dizer que havia ido me procurar porque sua perereca (a prótese acrílica!) estava frouxa e que eu tinha a fama de ser o melhor apertador de perereca da região. 

Qual foi o marketing que usou para começar?
Contatos e participando diariamente da vida da cidade. Sempre gostei de conhecer e ajudar pessoas. Acho que isso colaborou para compor a clientela, tanto no interior como na capital. 

Tem algum filho ou parente Cirurgião Dentista?
Tenho um irmão e também dois filhos, Maurício e Flavio, que seguiram a nossa profissão, além da minha esposa, Rosangela, que é Técnica em Prótese Dentária. 

Quem é seu maior ídolo na Odontologia?
Com certeza, o mineiro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, não por ter sido um bom dentista, que talvez pelas condições da época não tenha sido, mas por enobrecer a Odontologia com sua história gloriosa.  Precursor de nosso pendor pela luta por conquistas à classe e a população, por melhor saúde bucal. 

E quem fez mais pela classe nestes anos todos?
Muitos Cirurgiões Dentistas fizeram e fazem, bastante pela classe. Sem querer desmerecer a outros que muito lutaram e lutam por melhores dias para os colegas, lembro de um que deu a vida por ela: Pedro Martinelli, que bem sucedido com a Odontologia, assumiu a defesa dos colegas como ideal, chegou à presidência da ABO Nacional e depois da Federação Odontológica Latino América, quando tristemente faleceu, em um congresso nas alturas da Cidade de La Paz.  

Como está vendo o presente momento na Odontologia?
Vejo o momento com otimismo. Sempre tivemos problemas de diversas ordens na Odontologia, mas nunca contamos tanta vontade e motivação para resolvê-los como agora. Para nós brasileiros, de muito orgulho por estarmos prestes a sediar em 2010, o Congresso Mundial de Odontologia e por termos um brasileiro na presidência da maior entidade mundial, a Federação Dentária Internacional. 

Qual caminho vê como mais indicado para a profissão?
O melhor caminho é trabalhar no sentido de sensibilizar, desde o primeiro ao último Cirurgião Dentista, a participar junto com as entidades de classe, especialmente dentro das ABO’s, de um grande movimento de discussão e solução dos problemas que nos afligem, especialmente na região de cada ABO. Por sua vez a ABO Nacional deve voltar seus olhos mais atentamente para dentro do Brasil, que é onde vivem os profissionais que ela representa e, por consequência, onde estão seus problemas  

A que atribui o seu sucesso profissional?
Aos 40 anos de persistência profissional e à permanente e quase obsessiva busca ao conhecimento novo. Ideologicamente, considero a aquisição de novos saberes como obrigação cidadã de todo profissional.  

Como espera ser o futuro da profissão?
Dizem que Einstein, perguntado sobre como seria a 3ª Guerra Mundial, ele respondeu: “Não sei, mas se os homens não tiverem juízo a 4ª será com arco e flecha.”  Assim também defino o futuro da nossa profissão: se não tivermos discernimento para resolver nossas questões, a etapa seguinte será sempre de mais perdas. Por outro lado, se todos participarmos com nossas entidades na busca de soluções, o futuro da profissão será glorioso.  É preciso ter o atrevimento de acreditar, para poder ter a ousadia de vencer.   

Deixe uma sugestão para os mais novos:
Passo o que digo aos meus filhos, nossos colegas: Lutar sempre, persistir sempre, acreditar sempre! Nunca desistir, não facilitar, nem aceitar a mediocridade. Melhorar, melhorar e melhorar! Sempre. Obstinadamente! 

Mestre Miranda, agradeço sua confiança em convidar-me para ser seu assessor de Marketing na ABO Nacional, e aproveito para anunciar que em função destes contatos com o Dental Tribune, publicação oficial da Federación Odontológica Latino Americana - FOLA, a partir de hoje, sou o correspondente do Dental Tribune para a edição em português.

 

Antônio Inácio Ribeiro   ribeiro@odontex.com.br

 

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