ODONTO ENTREVISTA Nº 53

Reconhecimento ao CD de Sucesso!

 

 

MARIA LÚCIA ZARVOS VARELLIS

 

 

Nossa homenageada da semana é formada pela USP, Especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais; Professora da Disciplina de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais da UNICASTELO 1990-2000; Secretária Geral da Associação Brasileira de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais 2001-2002; Conselheira do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo desde 2005; Autora do livro Odontologia para Pacientes com Necessidades, Editora Santos, 2005 e Autora do Protocolo de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais do Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção a Saúde, Departamento de Atenção Básica, 2008. Estes e muitos outros motivos para ler a entrevista e conhecer melhor esta pessoa maravilhosa, que além de tudo tem um lado humano exemplar e um toque grego que lhe dá um charme todo especial.

 

 

Quem a influenciou a fazer Odontologia?

Eu sempre gostei de lidar com gente. E sempre gostei da área da saúde. A possibilidade de prevenir a saúde e reabilitar um sorriso foram as razões que me levaram a optar pela Odontologia.

 

Onde fez e quais suas lembranças do tempo de faculdade?

Eu cursei a FOUSP e as minhas melhores lembranças são as dos meus mestres queridos, da igrejinha do prédio da Três Rios, dos meus colegas de jornada, do grupo da carona e de tudo que realizamos juntos, nossas noites estudando fisiologia renal, inesquecíveis! Cursávamos o noturno, com pessoas da melhor qualidade, todos muito esforçados e a maioria trabalhava o dia todo. Minha homenagem ao Oswaldo, à Aiko e ao Wilson, que já não estão entre nós.

 

Como foi seu início na profissão?

Iniciei-me profissionalmente no consultório de um primo que já atuava na profissão há oito anos. Nesta clínica havia mais profissionais e o convívio foi muito importante. Fiz grandes amigos e recebi muita orientação.

 

Lembra quem foi seu primeiro paciente?

Sim, eu me lembro, foi uma menina de oito anos, chamada Sandra, portadora da Síndrome de Down. Parece que já era um chamamento para a especialidade que eu abraçaria, anos depois.

 

Qual foi o seu atendimento mais difícil?

O atendimento mais difícil que realizei até hoje foi o de uma paciente que na época tinha cinco anos, portadora da Síndrome de Patau. Trata-se da trissomia do cromossomo 13, uma síndrome polimalformativa, com alterações cardíacas, visuais, auditivas, cognitivas, prevalência no sexo feminino e cuja sobrevida é de seis meses. O procedimento foi sob anestesia geral e eu a conduzi para o centro cirúrgico no meu colo, acompanhada de sua mãe. Após o procedimento, permaneci ao seu lado até que voltasse ao nível normal de consciência. Foi um momento de muita alegria juntamente com a família, vê-la despertar e alimentar-se, mas os minutos pré, trans e pós operatórios foram muito tensos.

 

E um que tenha sido o mais gratificante?

Lembro-me de ter sido procurada por uma mãe, que me pedia o agendamento de uma consulta porque ela acreditava que seu filho era ‘especial’ e necessitava de atendimento sob anestesia geral. Expliquei-lhe que ela deveria vir ao consultório com ele para que eu pudesse avaliar o caso. Agendado o dia da visita, quando eles finalmente chegaram constatei que se tratava de um menino de dois anos e meio, com cognição e funcionamento orgânico normais, cuja dificuldade era o medo de submeter-se ao tratamento odontológico. Expliquei à mãe, que vinha da Zona Leste até o Itaim, que ela deveria ter paciência e que gastaríamos quantas consultas fossem necessárias até que o vínculo entre ele e eu fosse formado. Não tardou que o menino permitisse o tratamento. Em pouco tempo ele retornou, crescido, com ganho de peso, devido ao fato de poder alimentar-se sem sentir dor. Durante muitos anos ele retornou cada vez maior e vigoroso, sempre trazendo, timidamente, um presentinho escolhido por ele para me agradecer.


Qual foi o marketing que usou para começar?

Nunca utilizei deliberadamente uma ferramenta de marketing. O que acabou se tornando uma forma de divulgação do meu trabalho, em princípio, foi o acolhimento e a capacidade que eu tinha de ouvir a queixa que o paciente trazia na primeira consulta, durante a anamnese. O tempo que eu “perdia” escutando-o era o que fazia com que se sentisse bem e aderisse ao tratamento. Depois, o resultado positivo do trabalho reforçava a primeira impressão. E finalmente, o boca a boca que ele fazia, trazendo a família e os amigos.

 

Tem algum filho ou parente Cirurgião-Dentista?

Tenho filhos de coração, meus pacientes de Odontopediatria, que depois de crescidos, optaram por serem cirurgiões-dentistas, devido a nossa relação e ao modo como lhes apresentei o ofício. Tenho também uma sobrinha, a Caró, que desde muito pequena dizia que queria ser como a tia e hoje é mestre e especialista em Odontologia, além de dois primos jovens já formados, a Carol e o Ed, tendo sido ele também meu paciente quando criança. Acredito que tudo que se faz com amor contagia. Quero crer que este amor que sinto pela minha profissão realmente os tenha estimulado.

 

Quem é seu maior ídolo na Odontologia?

Ao retomar a minha história pessoal, faço um tributo ao meu bisavô que foi dentista prático, no vilarejo de Archagelos, na Ilha de Rodhes - Grécia, em meados do século XIX. Visitei o lugar e ouvi inúmeros relatos sobre sua atuação e por isso o considero meu ídolo. Depois penso em Tiradentes, patrono de nossa profissão, não só porque "tirava dentes com a mais sutil ligeireza e ornava a boca de novos dentes, feitos por ele mesmo, que pareciam naturais", segundo Frei Raymundo de Pennaforte, mas por ter sido um homem cuja atuação agitou a política nacional. Acredito que de alguma forma cada cirurgião-dentista herdou de seu patrono esta motivação política de justiça e transformação. Tenho outros grandes ídolos, que são as pessoas que ajudaram a escrever a história contemporânea da Odontologia brasileira e com os quais tenho a felicidade de conviver nas entidades em que atuo. 

 

E quem fez mais pela classe nestes anos todos?

Apontar apenas uma pessoa seria no mínimo uma injustiça. Acredito que uma legião de pessoas determinadas trabalhou e trabalha em conjunto para que a Odontologia no Brasil esteja no patamar em que se encontra. Os professores, pesquisadores, autores de livros, as empresas e com certeza os líderes políticos à frente de nossas entidades que lutaram e lutam por dias cada vez melhores.

 

Como está vendo o presente momento na Odontologia?

Como tudo na vida, acredito que há um tempo de plantar e outro tempo para colher. E em algumas fases, no decorrer do tempo, podemos nos ver diante de um patamar, que nos dá a sensação de estagnação, marasmo, como se tudo estivesse por um triz. Há vários estudiosos que encaram estes períodos com extrema positividade, pois segundo eles, os patamares funcionam como mola propulsora para uma nova etapa de ascensão. É nisso que eu acredito e é isso que eu espero para nossa profissão e para nossa classe, com muita fé em nossos representantes, que tem hoje como maior objetivo, valorizar a Odontologia, conscientizando a população e os governantes da importância da saúde bucal para a saúde geral e na luta pela democratização do acesso. E lembrar que cabe a cada um de nós, isoladamente, fazer a sua parte. Pode parecer que não, mas nossas ações isoladas quando se somam tem um eco forte!

 

A que atribui o seu sucesso profissional?

A Deus, aos meus pais que me educaram e proporcionaram a oportunidade de estudo. Ao amor que tenho pela minha profissão. Às oportunidades de militar pela Odontologia do lado de fora do consultório.

 

Como espera ser o seu futuro?

Eu desejo continuar vivendo com a mesma ética e dignidade que tem norteado a minha vida desde sempre. Espero continuar exercendo as minhas atividades profissionais no meu consultório, mas quero também continuar na luta pelos destinos da Odontologia de nosso país. Só assim, trabalhando pelo coletivo, é que me sinto com a sensação do dever cumprido.

 

Deixe uma sugestão para os mais novos:

Em minha opinião, ingressamos na universidade com uma idade muito tenra, na qual borbulham sonhos, fantasias e inseguranças, que com o passar dos anos vão dando lugar a uma estabilidade importantíssima para que possamos nos colocar no mundo. Muitas vezes esta imaturidade e inexperiência impedem-nos de desfrutar de todas as possibilidades que a universidade oferece. Assim, aos alunos eu diria que desde já devem identificar qual é a linha de trabalho que mais gostam, que aproveitem a oportunidade de estar dentro de uma universidade e que se há o interesse em seguir a vida acadêmica, que as busquem junto aos seus mestres. Para os recém-formados, eu peço que não se deixem contaminar por essa onda de pessimismo que tenta assolar o nosso meio profissional. Que acreditem que aqueles que exercem sua profissão com ética, dignidade e conhecimento, sempre serão vitoriosos. Que tenham critério na eleição de cursos de aperfeiçoamento e pós graduação, pois o mercado hoje oferece uma enorme gama de opções, que contém inclusive cursos que não obedecem a critérios importantíssimos para uma boa formação.

Para mim receita de sucesso é reconhecer primeiramente que estamos lidando com seres humanos, únicos e indivisíveis e que os conceitos holísticos devem fazer parte do dia a dia de cada um, pois só assim é possível promover um atendimento humanizado e integral. É trabalhar com amor e confiança, acreditando que você está oferecendo o melhor, lembrando que não somos ilhas, que não devemos nos isolar no exercício profissional e que devemos buscar sempre as melhores opções para o nosso paciente, mesmo quando esta for o encaminhamento a outro colega, para que ele realize procedimentos para os quais não estamos muito bem capacitados. Ser bom profissional é saber reconhecer o próprio limite. Ser bom profissional é ser ético com seus colegas, é saber reconhecer o que cada um de nossos pares tem de melhor e não passar a vida buscando aspectos negativos na relação para criticar pelo mero prazer de minar as forças de outrem.

Eu quero crer que “não saber como será o próprio destino”, é balela. Gosto da frase que diz “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Somos atores principais de nossas vidas. Quando cada um descobrir as potencialidades que possui, a capacidade de realização com a qual é dotado e a força da união que tem a nossa classe para as mobilizações que se fazem necessárias nacionalmente aí sim poderão ter mais união, poderemos enxergar nosso vizinho como um aliado construindo assim um futuro de sucesso para todos.

 

Malu, sou seu fã e admiro o seu trabalho como um todo. Ter sua amizade é motivo de júbilo. Poder te homenagear com esta entrevista é uma alegria, pois com ela muitos mais conhecerão e reconhecerão o teu valor. Desejo que continues sempre com esta disponibilidade de participar em prol de melhorias para a classe como um todo. E que seus sonhos se concretizem.

 

POR UMA ODONTOLOGIA MAIOR E MELHOR!

 

Antônio Inácio Ribeiro     ribeiro@odontex.com.br

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