ODONTO ENTREVISTA Nº 11

Conhecendo e reconhecendo colegas

 

PROF. DR. LUIZ NARCISO BARATIERI

 

Nosso entrevistado de hoje é meu ídolo desde o lançamento do seu primeiro livro. Mestre e Doutor em Dentística pela FOB-USP; Especialista em Periodontia pela FOB-USP, com Pós Doutoramento pela Universidade de Sheffield – Inglaterra. É Coordenador do curso de Especialização em Dentística da UFSC;  Coordenador do curso de Mestrado em Dentística da UFSC e Professor Titular da UFSC – Florianópolis SC. É Editor Chefe da Revista Clínica – International Journal of Brazilian Dentistry e autor de 13 livros que já foram traduzidos para várias línguas, sendo conferencista internacional com mais de 500 cursos ministrados.

 

Quem o influenciou a fazer Odontologia?
Talvez, não tenho bem certeza, tenha sido o meu medo de Dentista no tempo de criança lá em Capinzal. Sempre pensava que se fosse Dentista talvez perdesse o medo. Não perdi. O que é mais provável, foi a minha irmã Rachel, que é uma ótima Dentista e foi a primeira da nossa família a se formar. Sinceramente, não tenho certeza, mas independente de quem tenha sido, agradeço todos os dias. Ser Dentista é um privilégio.

Onde fez a faculdade e quais suas lembranças deste tempo?
Fiz na Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis. As lembranças são ótimas, mesmo com todas as dificuldades. A vida universitária sempre foi algo mágico para todos. Um tempo inesquecível. Felizmente vieram outros tempos tão bons ou ainda melhores.

Como foi seu início na profissão?
Foi, como para a maioria dos profissionais em qualquer área de atividade, muito difícil. Imagine eu sendo do interior, com o sotaque carregado, sem conhecer praticamente ninguém, querer ficar na capital. Quando disse isso aos meus pais, eles estranharam e ficaram com medo. Eu também. Montamos um consultório em quatro recém formados e procuramos divulgar da forma como na época era permitido: boca a boca. Por incrível que pareça sempre conseguimos pagar o aluguel, condomínio e funcionários. Depois de poucos meses, fui chamado para ser RNR (reserva não remunerada) da Marinha do Brasil, onde trabalhei por três anos e cheguei a primeiro tenente.  Trabalhar na Marinha era fantástico. Lá havia de tudo para ser feito e de tudo para ser usado. Nunca esqueço que tinham um laboratório de prótese e um técnico, o Manuel, que fez com que eu me dedicasse ainda mais a profissão.  Depois de três anos prestei concurso para ser professor da UFSC e em seguida fui fazer mestrado em Bauru. Nunca esqueço que só fui ter um carro um ano após formado e olha que a minha mulher também é Dentista e sempre trabalhou. Tempos difíceis, mas sem dúvida, bons tempos.

Lembra quem foi seu primeiro paciente?
Lembro como se fosse hoje. Foi um amigo de infância chamado Wilson Dambrós. Não devo ter ido bem, pois ele nunca mais voltou.

Qual foi o seu caso mais difícil?
Uma vez fui extrair um terceiro molar incluso de uma ex professora de português, por sinal uma das melhores professoras que tive na vida, e depois duas horas tive que desistir, por não conseguir fazer a extração. Alguns dias depois mandei que ela fosse em um profissional mais experiente e ele em poucos minutos fez a extração. Talvez tenha aprendido mais com aquele caso do que em toda a minha vida profissional. Além desse caso, em 35 anos de profissão, tive inúmeros casos difíceis, mas acho que nunca mais tive um fácil que eu tenha tornado difícil.

Sabe o nome do seu primeiro protético?
Sei, mas infelizmente ele já faleceu. Se chamava Manuel e trabalhava na Marinha. Lembro de todos. O Batista, o Jairo e o Adomiro. Eles ainda trabalham e são ótimas pessoas.

E da sua primeira auxiliar?
Lembro, claro que lembro. Com frequência encontro ela e o marido fazendo caminhadas (eu caminho uma hora todos os dias).

Qual foi o marketing que usou para começar?
Sempre procurei mostrar aos meus pacientes e a todas as pessoas com quem conversava, o quanto eu gostava da profissão que havia escolhido. Sempre mostrei no olhar que amava o que fazia. Nos anos 70 era proibido divulgar de outra forma aquilo que fazíamos, então usava a conversação. Ainda acredito que essa seja a melhor maneira: demonstre que ama aquilo que faz, e os outros farão o resto por você.

Tem algum filho ou parente Cirurgião Dentista?
Minha irmã Rachel, meu cunhado Losso e a minha filha Carolina são Dentistas. A minha filha já fez especialização em ortodontia e agora está fazendo mestrado, também em ortodontia.

Quem é seu maior ídolo na Odontologia?
Já tive vários, mas atualmente é o Paulo Kano. Cada vez que falo com ele, tenho uma aula de humildade e do melhor conhecimento possível. Parafraseando o “cara” do Pânico na TV: “sabe muito”. Ele mudou a minha vida profissional de uma forma que eu nunca imaginei que fosse possível.

E quem fez mais pela classe nestes anos todos?
São tantos em todas as áreas que é injusto mencionar alguém especificamente, mas deixar de apontar alguns é, ao meu ver, imperdoável. O Dr. Mondelli e o Dr. Janson. Eles mudaram o Brasil. Mais recentemente o Paulo Kano. O Paulo fez uma revolução que, infelizmente, muitos ainda não perceberam.

Como está vendo o presente momento na Odontologia?
A sociedade como um todo, está complicada. Alguns valores fundamentais tem sido deixados de lado e isso acaba complicando tudo. A Odontologia é apenas uma parte dessa sociedade, da mesma forma que os políticos, os médicos e os empresários. Na minha opinião apesar de todos os problemas, a Odontologia ainda é uma das melhores profissões liberais que existe e, acredito que sempre será. Os mais bem preparados superarão esses tempos difíceis. Digo isso porque tenho escutado essas mesmas reclamações, por mais de trinta anos e ainda assim tenho testemunhado o sucesso de milhares de Dentistas por todo o Brasil.

Qual caminho vê como mais indicado para a profissão?
Estar bem preparado para o exercício da clínica geral. Ser um bom clínico geral é, ao contrario do que muitos pensam, um dos grandes segredos para o sucesso profissional.

A que atribui o seu sucesso profissional?
Sinceramente não sei dizer, mas tenho a leve impressão que o fator determinante foi o quanto eu amo as minhas duas profissões: Dentista e Professor. Claro que aliado a isso, sempre procurei estar bem preparado. Talvez tão importante quanto é o fato que trabalho de forma intensa, praticamente, todos os dias e tenho prazer em fazer aquilo que faço. É claro que houveram pessoas que me ajudaram e outras que ainda me ajudam. Ninguém faz sucesso sem a ajuda dos outros e eu sou grato a todas as pessoas que de alguma forma me ajudaram e me ajudam. Mas uma coisa é certa, não há fórmula para isso.

Como espera ser o futuro da profissão?
Fantástico para alguns e, infelizmente, decepcionante para outros, como em qualquer outra profissão. Se me fosse dado o direito de voltar no tempo, ou de viver, no futuro, outra vida, gostaria de ser, novamente Dentista e correr todos os riscos da profissão.

Deixe uma sugestão para os mais novos:
Essa ainda é a melhor profissão do mundo. Para que você a veja dessa forma é fundamental que a ame. Para amá-la é importante que a conheça. Para conhecê-la é fundamental que você passe a vida estudando. Só não queira adquirir com ela, nos seis primeiros meses, aquilo que seus pais levaram a vida toda para conseguir. Esteja preparado, que as oportunidades aparecerão e quando elas aparecerem, você estará apto a aproveitá-las. Felicidades, por isso é muito mais importante que sucesso. Mas se você preferir: sucesso e felicidades!

Foi um privilégio ter me concedido esta entrevista, porque o considero um dos maiores nomes da Odontologia e ter sua amizade é motivo de orgulho. Que o sucesso fora do Brasil, ajude a firmar nossa Odontologia como a melhor do mundo. Que verdadeiramente é! Muito obrigado, mesmo!

 

Antônio Inácio Ribeiro   ribeiro@odontex.com.br

 

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