ODONTO ENTREVISTA Nº 31

A coluna sensação da Odontologia

 

JOSÉ ROBERTO SANTANA DE MOURA JUNIOR

 

Nosso entrevistado da semana é outro brasileiro assumindo uma presidência de entidade mundial da Odontologia, como já aconteceu com o Dr. Roberto Vianna e com a Dra. Maria Fidela. Presidente-eleito da Federação Internacional de Odontologia Estética (IFED) com sede em Genebra na Suíça, assumiu a Presidência agora em fevereiro de 2010, pelo período de dois anos, no qual acontecerá o congresso mundial da entidade a realizar-se no Rio de Janeiro. Foi presidente da SBOE por quatro anos, é especialista em Dentística pela PUC, Mestre em Prótese pela UNITAU e já ministrou cursos e conferências nos quatro continentes. É entusiasta e professor de Microscopia Operatória.

 

Quem o influenciou a fazer Odontologia?

Nunca imaginei fazer Odontologia. Eu tinha muitas dúvidas na época em que terminava o segundo grau, e provavelmente faria um ano de cursinho. Para treinar, fiz inscrição em nos dois vestibulares que havia na minha cidade em 1978: o da Faculdade de Medicina e o da Universidade de Taubaté, que naquele ano iniciava o curso de Odontologia, no qual inscrevi-me por curiosidade. Fiz o vestibular de Odonto totalmente despreocupado, pois não imaginava fazer o curso, mas conheci naquela época o filho de uma amiga da minha mãe, que morava em São Paulo e ficou na minha casa para fazer o vestibular de Medicina. Porém ele queria mesmo era fazer Odonto e inclusive já havia passado no curso da OSEC (acho que prestou medicina por insistência dos pais), e durante uma semana inteira ele só falava em Odontologia. Ele se chama Marcelo Ribeiro e sabia TUDO sobre a profissão e o curso, e acabou influenciando-me. Para minha surpresa passei no vestibular e como estava motivado fui fazer o curso. O interessante é que nunca mais consegui encontrar o Marcelo, apenas sei que é um Cirurgião Dentista bem sucedido. Parece que ele foi lá só para me dar o recado.

 

Onde fez a faculdade e quais suas lembranças deste tempo?

Como já mencionei fui da primeira turma da UNITAU, e como o curso ainda estava sendo implantado, tivemos muitas dificuldades o que levou nossa turma a ser muito unida. Tenho as melhores lembranças desta época, tanto das aulas quanto das festas.

 

Como foi seu início na profissão?

Assim que formei fui contratado como auxiliar de ensino pela minha faculdade na disciplina de histologia, e trabalhava meio período como Dentista na fábrica da Ford em Taubaté. Montei neste ano também meu primeiro consultório, que dividia com minha amiga Maria Tereza D’Azevedo.

 

Lembra quem foi seu primeiro paciente?

Claro... O nome dela é Ana Cláudia Mendes Ferreira.

 

Qual foi o seu caso mais difícil?

Na verdade não foi o mais difícil, mas foi o mais estressante... Estávamos eu e uma cirurgiã que trabalha conosco fazendo uma cirurgia em um senhor da Espanha, que se parecia com o Robert De Niro bravo. Durante o procedimento ele teve uma alteração vasovagal, começou a passar mal e a gritar qualquer coisa parecida com “yo voy a morrir, yo voy a morrir... Usted va a ver comigo Fabio (passou a me chamar de Fabio não sei porque). Chamamos um médico no prédio vizinho que constatou estar tudo bem com a saúde geral e ministrou-lhe um benzodiazepínico intravenoso, mas nada dele melhorar.... Enfim ele ficou gritando a mesma coisa por quatro longas horas até que de repente, quando já não sabíamos mais o que fazer, ele do nada, se levantou, agradeceu a todos e saiu cantarolando, perguntando quando seria a próxima consulta... deixando eu, minha colega e o médico com aquelas caras de tontos.

 

E um que tenha sido o mais gratificante?

Não consigo lembrar de um caso específico, porém felizmente tive a alegria de em várias ocasiões ouvir de pacientes que o tratamento reabilitador estético que realizamos provocou uma mudança positiva em suas vidas, tornando-os mais alegres e sorridentes. Acredito sinceramente que esta é a maior recompensa na nossa profissão.

 

Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório?

Uma senhora muito distinta me perguntou se poderia colar a prótese de seu marido que havia se soltado. Um senhor elegante chega ao consultório com uma prótese fixa de três elementos solta mas na boca, em posição. Eu peguei a prótese e enquanto com um instrumento ia limpando-a e removendo restos de cimento, fui vendendo meu peixe dizendo que realmente a prótese estava mal adaptada e meio que exagerando, disse que eventualmente ele poderia até engoli-la. No que ele imediatamente respondeu: “nem me fale, só esta eu já engoli três vezes....” E uma imagem desagradável foi lentamente se formando na minha mente, enquanto eu ainda removia os detritos da mesma...

 

Qual foi o marketing que usou para começar?

Por morar em uma cidade pequena o marketing no início foi o velho e bom “boca-a-boca”. Outra coisa que na época era novidade e ajudou-me muito foi enviar pelo correio cartões de aniversário e de agradecimento pelas indicações de pacientes.

 

Tem algum parente Cirurgião Dentista?

Nenhum até agora... A partir do ano que vem terei minha filha Carolina, que se formará Cirurgiã Dentista.

 

Quem é seu maior ídolo na Odontologia?

Ronald Goldstein. Tenho tido o privilégio de conviver com ele a mais de 15 anos e é sem dúvida alguma uma das mentes mais criativas e visionárias que já conheci. Além de ter um talento ímpar para agregar pessoas.

 

E quem fez mais pela classe nestes anos todos?

Apesar de ser suspeito, eu acredito que a Sociedade Brasileira de Odontologia Estética (SBOE) teve um impacto muito grande na Odontologia nacional, influenciando um grande número de profissionais a elevar o padrão de tratamento odontológico. Além do que, a SBOE mudou a forma de se fazer congressos no Brasil, tornando seus encontros uma referência, não só pelo seu caráter científico, mas também por unir fraternalmente as pessoas que dela participam.

 

Qual seu livro ou autor preferido na profissão?

No âmbito internacional o livro do Pascal Magne “Restaurações Adesivas de Porcelana na Dentição Anterior”, bem como seus artigos. Nacionalmente, os livros (todos!) do Professor Baratieri sempre tiveram grande influência na minha prática diária.

 

Como está vendo o presente momento na Odontologia?

Talvez eu seja muito otimista, mas acho este um momento ímpar, pois as opções restauradoras e reabilitadoras disponíveis atualmente nos possibilitam realizar tratamentos que até pouco tempo atrás seriam impraticáveis. Além de cada vez mais contarmos com pacientes mais esclarecidos e mais cientes de suas necessidades. É claro que a contrapartida exige de nós, profissionais, maior empenho, conhecimento e treinamento.

 

Qual caminho vê como mais indicado para a profissão?

Só vejo um caminho: muito estudo e muita prática. Nossa profissão é artesanal, portanto precisamos de mãos treinadas de forma constante, dentro dos mais altos padrões que a Odontologia atual nos permite.

 

A que atribui o seu sucesso profissional?

Atribuo a muito empenho, muito estudo e muito, mas muito trabalho mesmo!

 

Como espera ser o futuro da profissão?

Espero sinceramente que cada vez mais os tratamentos odontológicos de ponta possam chegar às camadas mais desfavorecidas da população.

 

Deixe uma sugestão ou mensagem para os mais novos:

Trabalhem e estudem muito, sem desanimar frente aos desafios do início da profissão, procurem a cada obstáculo transposto, a cada dificuldade resolvida, fortalecer o sentimento de aprendizado e satisfação pessoal, pois esta é uma profissão que vale a pena se dedicar, devido à satisfação que podemos proporcionar às pessoas.

 

Mestre Moura, foi um privilégio esta sua entrevista. Desejo que tenhas uma gestão profícua na IFED e um congresso pleno de sucesso. Aos amigos interessados em mais detalhes da SBOE, Federação e do Congresso, deixo o e-mail do mais novo presidente mundial da Odontologia: jrmoura@uol.com.br

 Antônio Inácio Ribeiro     ribeiro@odontex.com.br

 

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