Professor José Mondeli
Entrevista exclusiva a
Antonio Inácio Ribeiro

 


A cada revista nova lançada pela EDITORA MAIO, para cobrir integralmente a gama de especialidades da Odontologia, mais aumenta minha satisfação em assessorar seus diretores. Com orgulho digo que foi minha a idéia de desmembrar a sessão de Estética do JBC-Jornal Brasileiro de Odontologia Clinica e lançar a JBD- Jornal Brasileiro de Dentística e Estética. Com esta mudança a JBC passou a se chamar Jornal Brasileiro de Clínica Integrada em Odontologia, direcionando-se totalmente ao clínico geral, que sempre foi seu alvo, por enfatizar situações clínicas do dia a dia do Cirurgião Dentista. Como diretor de clínica integrada assume o Professor Nicolau Tortamano, que será nosso entrevistado no próximo número da JAO.
Sugeri o nome do Professor Mondelli para dirigi-la, como um reconhecimento ao professor que imprimiu, pela primeira vez, uma face nova para a moderna Odontologia. Isto aconteceu no início da década oitenta, no auge de sua brilhante carreira, com vários livros já publicados, quando com um grupo de renomados professores da já famosa Faculdade de Odontologia de Bauru, lançou pela Quintessence, a maior editora de livros odontológicos do mundo, em co-edição com a Editora Santos, a obra monumental DENTÍSTICA RESTAURADORA – Tratamentos Clínicos Integrados, no mesmo nível dos melhores livros do mundo, sendo inclusive o primeiro livro de um brasileiro a ser impresso na Alemanha. O livro, além de alto nível científico, era totalmente ilustrado a cores, em papel couchet de primeira e com direito a sobrecapa branca com letras douradas e uma finíssima caixa protetora branca que lhe dava aparência de uma fina jóia, que realmente o era.
Este livro permaneceu por muitos anos como o mais vendido, tendo sucessivas reimpressões esgotadas e marcou época por ser o primeiro livro que antes de sair, tinha sua tiragem esgotada pela quantidade de pedidos já colocados antecipadamente pelas livrarias, coisa que só acontecia com os discos de Roberto Carlos, na época de natal. Infelizmente, para a Odontologia e para nós livreiros e editores, uma disputa comercial entre editoras tirou o livro de mercado por alguns anos importantes e quando a nova editora finalmente conseguiu lançá-lo, ele já não tinha o mesmo grau de atualização de quando a celeuma para ter o Professor Mondelli em seu catálogo começara, coisa que só acontecia Jorge Amado e outros grandes autores.
Optamos por enfatizar a produção científica na forma de livros do nosso homenageado de hoje, sabendo que poderíamos ter destacado sua profícua carreira universitária, sua grandiosa produção de artigos científicos, sua quase incontável quantidade de cursos ministrados no Brasil e no exterior e sua importância na formação de muitos dos nossos mais destacados nomes na Dentística em suas atividades de pós-graduação, que somadas, colaboraram em muito para Bauru ter o conceito que tem hoje no cenário odontológico brasileiro. Não poderia ter sido melhor nossa escolha. Como os livros do Professor Mondelli, a JBD-Jornal Brasileiro de Dentística e Estética já é sucesso, mesmo antes de ter sido lançada.

Que lembranças o senhor pode nos contar sobre sua opção pela Odontologia?
Meu pai foi o responsável direto pelo meu encanto com a profissão, porque me colocou, já aos 10 anos, para aprender um ofício com o Cirurgião-dentista Odorante Tavano, um dos mais conceituados de nossa cidade, àquela época. E eu gostei.

Onde foi sua graduação e qual foi sua pós-graduação?
Graduei-me pela então Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara, hoje ligada à UNESP, tendo realizado pós-graduação na Faculdade de Odontologia de Bauru, da USP, em 1965 (mestrado), 1967 (Doutorado) e, subseqüentemente, concursos em 1971 (Livre-docência), 1975 (Professor Adjunto) e 1977 (Professor Titular), todos de títulos e provas, em áreas relacionadas com a Dentística.

Quando e como ocorreu sua opção pelo magistério?
Atuando como Cirurgião-dentista na cidade, participei com interesse do movimento pela implantação definitiva da FOB e fui, posteriormente, convidado para colaborar com os docentes da USP, especialmente o Prof. Dioracy Fonterrada Vieira, que vieram organizar e ministrar as primeiras disciplinas.
Percebi que poderia exercer funções docentes, principalmente porque gostava muito de desenvolver trabalhos clínicos com uma certa criatividade e obter novos conhecimentos.

Quais motivos o levaram à Dentística Restauradora?
Por ter sido protético antes da graduação, durante 8 anos, iniciei minha carreira em 1962, na cadeira de Materiais Dentários, como assistente do Prof. Dioracy Fonterrada Vieira, porque, no primeiro ano de funcionamento da Faculdade, era a disciplina mais relacionada com a prática odontológica. Minha intenção era a Prótese, todavia, por influência do Prof. Dioracy e do Prof. Oswaldo dos Santos Cardoso, que tinha acabado de chegar dos E. U. A. com o título de M. S. D. em Operative Dentistry e iria chefiar a Dentística de Bauru, fui convidado, e convencido por ele, para ser seu assistente e, assim, ingressei na carreira, dois anos depois, como docente da Dentística na Faculdade de Odontologia de Bauru, onde permaneço até hoje.

Cite algumas passagens importantes no surgimento de Bauru como referência nacional na Odontologia.
Citando especificamente a nossa Escola, sem discriminar nomes:
• Desenvolvimento de um currículo de graduação voltado para a formação de Cirurgiões-dentistas, considerados “médicos da boca”, com conhecimentos básicos e clínicos integrados.
• Implantação de cursos de pós-graduação “stricto sensu” em diferentes áreas, com o objetivo geral de preparar docentes (Mestrado) e pesquisadores (Doutorado), para atuação nas diferentes instituições do país e latino-americanas, inclusive de nossa própria cidade.
• Oferecimento de pós-graduação “lato sensu” e administração de cursos extracurriculares, em todas as especialidades de clínica e áreas básicas, para complementação e fortalecimento do preparo de docentes e profissionais.
• Participação ativa de docentes, pós-graduandos e acadêmicos em eventos nacionais e internacionais, proporcionando intercâmbio de trabalhos e experiências, além de incentivo à carreira universitária.
• Realização de programas de Pós-doutorado no exterior, por docentes dos vários departamentos da FOB.
• Desenvolvimento e obtenção de patentes de produtos da área odontológica.
• Produção científica expressiva e de qualidade, publicada em periódicos de referência internacional, por docentes e seus orientandos.
• Preparo de livros e outros trabalhos, com a finalidade de divulgar e oferecer conhecimentos a docentes, profissionais e alunos.
• Presença efetiva dos docentes da FOB nos setores e associações de liderança acadêmica e científica, da Odontologia brasileira e do exterior.

Dê-nos outros nomes que colaboraram para esta conquista e em que área atuam.
Não nomino pessoas, mas uma instituição que compõe, juntamente com a FOB, o Campus da USP em Bauru, que é o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho, considerado uma referência nacional, de destaque internacional. Docentes, profissionais, alunos e funcionários de ambas as Unidades, têm sido os responsáveis pelo alcance das diretrizes e objetivos que têm distinguido a FOB e o Centrinho, cada qual no seu âmbito de atuação.

Quantos e quais livros o senhor já publicou?
Preparei, contando com a colaboração de outros docentes, os seguintes livros:
• Dentística Operatória, impresso pela Editora da Universidade de São Paulo - 1971.
• Dentística Operatória, impresso pela Sarvier S/A Editora de Livros Médicos, São Paulo, 1ª a 7ª edições – anos 1976 a 1991.
• Dentística Pré-Clínica, impresso pela Sarvier S/A Editora de Livros Médicos, São Paulo, SP - 1979.
• Operatória Dental, impresso pela Sarvier S/A Editora de Livros Médicos, São Paulo, ed. Espanhol - 1972.
• Restaurações Estéticas, impresso pela Sarvier S/A - Editora de Livros Médicos Ltda., São Paulo - 1984.
• Dentística Restauradora - Tratamentos Clínicos Integrados, impresso pela Quintessense Publishing Co., Inc., Berlim, Alemanha - 1984.
• Odontoiatria Restaurativa; Trattamenti Clinici Integrati, impresso pela Editora Piccin, Padova, Itália - 1989.
• Dentística Restauradora. Tratamentos clínicos integrados, impresso pela Pancast Editorial, São Paulo - 1990.
• Sinopse de Odontologia. Restaurações Fundidas. Procedimentos Técnicos & Clínicos. Coordenador Científico: José Mondelli, impresso pela Editora Cultura Médica, Rio de Janeiro - 1993.
• Ligas Alternativas para Restaurações Fundidas, impresso pela Editora Médica Panamericana, São Paulo - 1995.
• Dentística - Procedimentos Pré-Clínicos, impresso pela Editorial Premier, São Paulo - 1998.
• Proteção do Complexo Dentinopulpar, impresso pela Editora Artes Médicas, São Paulo - 1998.

Por que, na sua opinião, as revistas lançadas por Bauru não deram certo?
Foram apenas algumas revistas de especialidades clínicas, entre elas a de Dentística, que não puderam ter continuidade; isto por problemas exclusivamente de ordem técnica, de quem as editou e comercializou. Os trabalhos foram preparados, os docentes cumpriram seus compromissos, todavia, nem sempre se pode contar com as pessoas certas para efetivar as publicações.

Este é o mesmo motivo por que produtos odontológicos lançados por Bauru também não fazem sucesso?
Não sei a que se refere, porque o único produto da Dentística – e eu quero mencionar apenas o que se relaciona com o departamento – foi um tipo de liga desenvolvido há muito tempo, mas que, infelizmente, não teve a composição que fornecemos seguida pelo fabricante e, em conseqüência, foi retirada do comércio por imposição nossa.

O senhor acha válido que professores se envolvam com o comércio odontológico?
Não só válido como essencial, frente ao que já disse. Não basta produzir e patentear, mas o controle de qualidade e a distribuição têm de ser acompanhados. Legalmente, os docentes podem receber pelos resultados de suas patentes e não vejo incompatibilidade ou concorrência a esse respeito.

Como o senhor vê, hoje, a carreira universitária odontológica?
Eu chamaria de carreira universitária de modo geral, porque não difere muito entre as áreas, mas talvez um pouco entre as instituições. É uma opção que, absolutamente desde o início, não engana. Você sabe o que vai enfrentar e tem de conservar o ideal de ensinar, pesquisar e transmitir, sempre com ética e profissionalismo, de forma a manter a Odontologia, no nosso caso, e todos que a ela se reportam, num momento de crescimento e assistência constantes, sem interesses individuais. Não se pode pensar no que se vai receber em troca, mas no que se pode oferecer.

É possível fazer sucesso ensinando e publicando, sem clinicar?
Não é o meu caso, por duas razões: não chamo de sucesso o cumprimento de um compromisso assumido ao abraçar a carreira, mas de resultado positivo de trabalho; em segundo lugar, o docente ensina, publica e clinica, por que não?
Por outro lado, depende da área de atuação do professor, básica ou clínica. De qualquer forma, entendo que clinicar é atender pacientes e isto é feito por todos os professores-autores dentro da Odontologia.

Hoje, o que lhe dá mais prazer: aulas ou cursos?
Aulas e cursos são semelhantes. Variam apenas quanto ao número de participantes, local e nível, entre outros. O material é preparado com o mesmo cuidado e interesse. Assim, para quem gosta de ensinar, é gratificante em qualquer situação.

Quais foram, ou são, seus ídolos na Odontologia?
Não gosto, como já disse, de citar nomes, mas alguns professores tiveram importância especial na minha carreira, e nem todos Cirurgiões-dentistas, de forma que não posso deixar de citá-los e considerá-los ídolos, ao lado daqueles que praticamente “criaram” a Odontologia, com destaque para a nossa Dentística:
• Dr. Odorante Tavano, responsável pela minha formação profissional, com quem aprendi técnica laboratorial, a clinicar e a gostar da Odontologia.
• Greene V. Black e Nicolas Parula, responsáveis pela Odontologia científica norte-americana e latino-americana, respectivamente.
• Prof. Paulo de Toledo Artigas. Deixou uma mensagem de vida e dedicação à Universidade de São Paulo e, mais diretamente, à nossa. Ao mesmo tempo cordial, foi o responsável pelo início efetivo de funcionamento da FOB e pela edificação posterior de seus primeiros prédios. Implementou, entre nós, a filosofia que citei, de que o Cirurgião-dentista deveria ser o “médico da boca” e, para isso, buscou, incentivou e deu oportunidades para grandes mestres, que souberam transmitir conhecimentos e experiências.
Tive a bênção de ser seu amigo, mas, acima de tudo, de ter recebido a confiança e a força que me fizeram um dia assumir a Dentística.
• Prof. Dioracy Fonterrada Vieira, na minha opinião o melhor e mais competente professor de Odontologia que o Brasil já teve. Responsável direto por minha formação acadêmica e orientador de toda a minha carreira universitária.
• Prof. Lincoln Steagall, o mais brilhante e científico professor de Dentística que conheci. Nosso amigo, conselheiro e entusiasta do nosso trabalho e do Departamento.
• Prof. Diógenes de Abreu, com quem todos da FOB aprenderam o que é honestidade, humildade, bondade, camaradagem e que, ao mesmo tempo, foi competente e um expoente dentro da nossa faculdade.
• Prof. Luiz Ferreira Martins. Já o recebemos sabendo que era um jovem idealista e realizador, mas, na verdade, a sua passagem pela FOB, como professor e especialmente como administrador, deixou uma marca que até hoje ninguém conseguiu suplantar, tal o dinamismo, a visão, a capacidade de trabalho e o raciocínio rápido que imprimia a todas as suas atividades. Soube valorizar e construir edifícios e pessoas.
Seu apoio, incentivo e amizade foram fundamentais para o meu crescimento na carreira universitária, facilitando a minha trajetória.
Ainda hoje temos o privilégio de tê-lo em nosso convívio e poder usufruir da experiência e sabedoria que sempre o caracterizaram e o tornaram pessoa especial. Todos da Dentística, docentes e funcionários, o consideram amigo e participante nas conquistas e também nos momentos de tristeza.
• Sra. Ruth Passarinho, a quem muito devem a FOB e o Centrinho. Sem o seu apoio e colaboração não seríamos o que somos hoje como instituições.
• Prof. Alceu Berbert, o mais inteligente, caridoso, humano, sincero, e maior exemplo de figura humana, de conhecimento e capacidade, do nosso departamento.
• Prof. José Alberto de Souza Freitas, o Gastão, como é mais conhecido. É um amigo, a quem admiro pela lealdade e espírito humanitário, que atua em nossa Escola vivenciando problemas e sucessos e que transformou, ao longo de todos estes anos, o Centrinho em uma instituição de saúde exemplar, modelo de crescimento e de oferecimento de um mundo novo a todos que ali procuram tratamento. Foi um dos criadores e é hoje o maior responsável pelo hospital, pulverizando, com fé, sementes que têm tornado todos que ali militam pessoas identificadas com o trabalho, o conhecimento e a cordialidade, no objetivo maior de construir sorrisos, como ele mesmo diz. É muito gratificante contar com sua presença e seu auxílio constantes, porque praticamente crescemos juntos na carreira universitária e na vida.

Conte-nos sobre seus projetos para o futuro.
A minha meta é prosseguir com os mesmos objetivos que têm conduzido a minha vida profissional, esperando participar, ainda, da formação de muitos profissionais e pesquisadores, identificados com os valores que têm dignificado a Odontologia, seus antecessores e seguidores.

Para finalizar, o que o senhor espera e deseja para o JBC-Jornal Brasileiro de Dentística e Estética?
A Odontologia brasileira precisa de publicações sérias e comprometidas com a verdade e com a atualidade, sem entraves técnicos. Só assim integrará o rol dos periódicos de impacto, valorizando a produção científica das instituições nacionais.
A temática dessa nova revista evidencia que o interesse e a abrangência serão significativos, embora a denominação Dentística e Estética não seja, a meu ver, a mais adequada.


Prof. Dr. JOSÉ MONDELLI
Prof. Titular do Departamento de Dentística,
Endodontia e Materiais Dentários –FOB-USP
Bauru, 22/08/01