DR. JAIRO CORRÊA
Minha amizade com o
Dr. Jairo Corrêa remonta ao tempo que me iniciei no comércio
odontológico. Como vendedor de livros, comecei a ir nos cursos do
Sindicato dos Odontologistas no Estado de São Paulo, que ainda era
na Rua Jaceguai e tinha como presidente o nosso entrevistado de
hoje, que prontamente abriu as portas e me permitiu um profícuo
convívio, que se estendeu depois pelos 10 anos que tive loja em
frente ao novo endereço do SOESP e APCD, na Rua Humaitá. Estaremos
juntos no próximo dia 25.8, como parte das celebrações dos 50 anos
da Sociedade Paulista de Ortodontia e Ortopedia Facial, a querida
SPO, quando terei o privilégio de ministrar um mini curso gratuito
nos eventos comemorativos ao meio século de uma das mais
tradicionais entidades da Odontologia Brasileira.
Quem o influenciou
a fazer Odontologia?
Foram espelhos para minha partida os Cirurgiões-Dentistas
francanos: Floro Barbosa Sandoval e Irineu Mário Nicácio.
Onde fez e quais
suas lembranças do tempo de faculdade?
Universidade Federal do Paraná. Faculdade de
Odontologia. Sempre propalei: “Saudade que nasceu hoje e amanhã já se
esqueceu, não é saudade. É lembrança! Saudade nunca morreu!” Tenho
saudade dos bons companheiros que conquistei na Casa do Estudante
Universitário de Curitiba.
Como foi seu início
na profissão?
Foi em São Paulo. Exercia a profissão em quatro lugares, a
saber: Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil; Sindicato de
Cal, Gesso, e Cimento de Cajamar; Serviço Dentário Escolar da
Secretaria dos Negócios da Educação do Estado de São Paulo;
Consultório particular em Perus (Grande SP). Foi um período difícil,
mas prazeroso, feliz e promissor.
Qual a marca do seu
primeiro consultório?
Dabi-Atlante (muito bom para a época).
Lembra quem foi seu
primeiro paciente?
Foi um acadêmico de Agronomia em Curitiba. Éramos conhecidos
na Casa do Estudante Universitário. Executei uma cirurgia de um
terceiro molar superior. Não foi fácil, mas, consegui o intento.
Qual foi o seu
atendimento mais difícil?
Cirurgia de um terceiro molar inferior incluso.
E um que tenha sido
o mais gratificante?
Todos os casos que terminei no segmento da correção do
sistema dento-maxilo-facial (Ortodontia).
Sabe o nome do seu
primeiro protético?
Companheiro e grande profissional “Luizinho da Lapa”, São
Paulo.
E da sua primeira
atendente / auxiliar?
Chamava-se Irma. Excelente, embora não fosse graduada no
assunto, pois, não havia cursos respectivos. Adestrei-a para melhor
atender no consultório.
Lembra de algum
caso pitoresco acontecido no consultório?
Recordo-me de muitos. Pretendo, inclusive, montar um esquema
e publicar. Certa feita apareceu em meu consultório um senhor
portador de uma prótese total. Veio reclamar que sua prótese quebrou
no mastigar um pedaço de pão, no qual havia um dente colocado por
alguém. Meu consultório localizava-se em cima de uma padaria, em
Perus. Veja! A senhora que fazia faxina no consultório, também
trabalhava no estabelecimento na mesma função. Ao brigar com o
proprietário – problemas trabalhistas – vingou colocando dentes que
extraí (na massa do pão). Pode? Pode, porque aconteceu. O senhor não
era meu paciente, fiz nova prótese total, e não cobrei honorários.
E de algum que
tenha sido especial?
Existem muitos “causos” que envolvem o Cirurgião-Dentista,
todavia, como o acontecido em meu consultório: estava no momento de
avulsionar um premolar superior com coroa de ouro. Sem esperar a
paciente levantou o braço direito e disse: “doutor, eu quero levar o
dente de ouro”. Era a fase do chamado “garimpo do ouro” que a
paciente possuía.
Qual foi o
marketing que usou para começar?
Na época não havia em profundidade um “marketing expressivo”
para aplicação na Odontologia. Havia, sim, a simpatia do
profissional, a boa atendente (auxiliar), a sabedoria, o
conhecimento profundo, a ética e a dignidade do Cirurgião-Dentista.
Atualmente existem maneiras mais avançadas no sistema, como os
ensinamentos do Professor Antônio Inácio Ribeiro, através de suas
obras e cursos, contudo, o caminho mais promissor para o sucesso
pleno e absoluto está vinculado ao valor profissional. Sou vencedor,
porque nunca me dei por vencido.
Tem algum filho ou
parente Cirurgião Dentista?
Sim. Meu filho Mário Wilson (ótimo profissional); minha neta
Fernanda (Mestre em Ortodontia); meus irmãos Ary (Ex-Professor da
Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto); Osny (reconhecido
especialista em Ortodontia) e sua filha Christiane (também
Ortodontista).
Quem é seu maior
ídolo na Odontologia?
Existem muitos. Todavia, marcou-me profundamente o querido e
saudoso amigo Professor Alfredo Reis Viegas, que levou-me a ser
Especialista e Mestre em Saúde Pública pela Universidade de São
Paulo. Não posso deixar de realçar, também, o meu amigo Emérito
Professor Sebastião Interlandi, grande responsável pelo
desenvolvimento da ciência e arte de
Angle no País. Na
Universidade de São Paulo foi introdutor de uma Ortodontia moderna,
com raízes tecnológicas e científicas que abriram caminhos para
formação de grandes especialistas e Professores para a América
Latina.
E quem fez mais
pela classe nestes anos todos?
A vida científica, social e associativa da Odontologia
Brasileira sempre foi pontilhada de grandes líderes. No estudo,
pesquisa, ensino e clínica excelentes profissionais procuraram
engrandecer a ciência e arte de Fauchard do país e do mundo.
São muitos, sem nomear faço minhas homenagens pelo que representaram
e representam.
Como está vendo o
presente momento na Odontologia?
Muitos poderão discordar, contudo, sinto uma Odontologia
triste, massificada, mercantilizada e, não muito perto de alcançar
seu desiderato merecido e maior.
A que atribui esta
situação?
Excesso de casas de ensino superior, pletora profissional,
excesso de entidades associativas, científicas e sociais, afora
problemas sociais, que o Brasil enfrenta.
Qual caminho vê
como mais indicado para a profissão?
Seguir a estrada da sabedoria, conhecimento profundo, ética e
dignidade, como relatei acima.
Como espera ser o
futuro da profissão?
Meu futuro é agora. Sou vencedor, embora com muito sacrifício
e lutas infindas, mas, compensado pela ajuda e incentivo dos
familiares, amigos e pelas figuras exemplares que conheci, mesmo
fora da Odontologia. Como Ex-Presidente das entidades Associação
Paulista de Odontopediatria; Sindicato dos Odontologistas de São
Paulo; Sindicato dos Odontologistas do Estado de São Paulo;
Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas; Federação Nacional dos
Odontologistas e atualmente Sociedade Paulista de Ortodontia, onde
pretendo encerrar minhas atividades de um homem classista, puramente
classista. Almejo o mesmo futuro para todos os companheiros que
lutam por uma Odontologia respeitada pelos homens públicos e pela
comunidade.
Deixe uma sugestão para os mais
novos:
Deus enviou o ser humano ao mundo para missões dignas, e as
mesmas devem ser exercidas com o coração aberto, com palavras
sagradas, visando unicamente o bem estar físico, mental e social do
indivíduo.
"Jovem é aquele que não perdeu o ideal", portanto, os novos da Odontologia precisam eternamente serem jovem até o final dos tempos e até que "Deus envelheça".
O festejado prosador Fernando Pessoa escreveu:" a vida não vale a pena se a alma não é pequena". Que todos, indistintamente, ao encetarem a caminhada da ciência e arte de Fauchard, carreguem sempre alma poderosa, promissora, gigante, vencedora de "sonhos, realizações e empreendimentos".
Grande
mestre, amigo e querido de todos, Jairo Corrêa, saiba que foi um
grande privilégio esta entrevista. O admiro há muito tempo e nem
sempre tenho a oportunidade de expressar este sentimento. Entenda
esta entrevista como uma homenagem pelo muito que fizeste pela nossa
querida Odontologia e o desejo de vê-lo muito fazer por ela nos
próximos 50 anos da SPO.