HUMBERTO SOLIVA
Nosso entrevistado da semana é Ortopedista Funcional dos Maxilares – Ortodontista, fundador e coordenador do Grupo de Estudos Maurício Vaz de Lima – GEM, Vice - presidente da Confederação Brasileira de Ortopedia Funcional dos Maxilares – CBOFM e Ministrador dos módulos de RDFM na ABOM e na SOBRACOM. Nasceu em São José dos Campos, graduado em Odontologia pela UNESP da mesma cidade em 1976 e Especializado em Ortodontia e Ortopedia Funcional pela PUC-RJ em 1978.
Quem influenciou para fazer Odontologia? Meu tio, o professor Maurício Vaz de Lima que ministrou uma conferência quando eu tinha 12 anos de idade. Achei o tema tão interessante que ao término da palestra disse a ele que já havia descoberto que profissão seguir - Ortopedista Maxilar. Mesmo após 18 anos de o Maurício nos deixar, estamos prosseguindo seu trabalho de compartilhar suas idéias com os colegas, nos reunindo regularmente. Neste ano estamos em nossa 16ª edição que será em São Paulo nos dias 12 a 14 de novembro, sob a coordenação dos colegas Agné e Roseli Peres. Estaremos compartilhando muitas novidades e novos materiais utilizados na técnica desenvolvida pelo prof. Maurício. Mais informações sobre o encontro podem ser obtidas pelo site do GEM e no www.gemmeeting.com.br
Onde fez a faculdade e quais suas lembranças desse tempo? Na UNESP de São José dos Campos - SP minha cidade natal. Só tenho boas recordações do tempo de faculdade, época em que o idealismo e o companheirismo estão no ápice. Dentre as lembranças que mais me marcaram, foi durante o último ano no qual a matéria mais importante para minha carreira, a ortodontia, era ministrada pelo querido professor Alfeu Marinho, em um período que tínhamos que instalar as bandas metálicas para depois soldar os brackets de edgewise (haviam poucas técnicas naquela época). Era um desafio a cada dia, mas o maior deles era que eu como sobrinho de Maurício Vaz de Lima, que era uma das lideranças da ortopedia funcional dos maxilares e isto aumentava minha responsabilidade perante a faculdade de tal forma que todos já sabiam que eu seguiria o caminho da ortopedia. Até arco extra-bucal aprendemos.
Como e onde foi seu início na profissão? Ao terminar a faculdade, parti diretamente para a especialização, que não existia em São José, então já estagiando com o Maurício ingressei na especialização em clínica das Correções Dentárias da PUC, ministrada pelo prof. Alex Osthof, onde também sofri a mesma pressão, pois além dos dias de estágio, também trabalhava em São José atendendo em uma clínica compartilhada com o colega Carlos Augusto Pavanelli, que continua na UNESP. Foram dois anos bem puxados indo e vindo de ônibus, sempre viajando a noite pois no dia seguinte já cedinho iniciava o estágio ou em São José atendendo.
Lembra quem foi seu primeiro paciente? Não tive experiência em clínica, somente na Ortopedia e Ortodontia, mas ainda lembro de meu primeiro paciente em São José: meu primo Ricardo Cesco, hoje também Cirurgião Dentista em Ribeirão Preto. Sempre que nos encontramos, recordamos o fato com muita alegria e saudades.
Qual foi o caso que lembra como mais difícil? É difícil lembrar qual o caso mais difícil, pois quem atua na Ortopedia Funcional e na Ortodontia sempre encontrará desafios aos seus conhecimentos e também a sua paciência, mas com certeza os primeiros casos que me aparecem na mente são os desafios de progênie ou as famosas classes III, com predominância de crescimento mandibular e com indicação cirúrgica. Lembro-me de um em especial, em uma paciente cuja mãe foi um caso ortognático e o comprometimento mandibular manifestou-se muito cedo. Iniciamos aos 11 anos de idade com a Reabilitação Dinâmica e Funcional dos Maxilares (técnica do prof. Maurício Vaz de Lima) e conseguimos um resultado muito bom, em relação à maxila, porém as bases ósseas com tendências de classe III não permitiam a oclusão e aos 16 anos em parceria com o colega cirurgião ortognático Paulo Medeiros Filho, preparamos junto o caso para cirurgia. Foi muito favorável, pois nos modelos conseguíamos ocluir perfeitamente, porém na paciente nada encaixava com nada. O pós operatório foi fantástico e a estabilidade conseguida, muito boa, porém me tirou algumas horas de sono.
E um que tenha sido o mais gratificante? Hoje os desafios é que me estimulam a ir adiante. Gratifica-me muito tratar as mordidas cruzadas unilaterais com desvio mandibular e alteração do crescimento facial. Como diziam os mestres Maurício e Pedro Planas, quando tratadas corretamente e no momento certo (antes do estirão de crescimento), são as más-oclusões mais fáceis de serem tratadas e as sequelas posturais quase desaparecem completamente. Porém tenho também os casos de adultos, principalmente na terceira idade que é uma demanda crescente entre meus pacientes e me desafiam a cada novo caso.
Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório? Em nossa clínica não existe um dia igual ao outro, digo nossa porque minha esposa Eliana e meus filhos Carlos e Luis trabalham juntos e isto é muito gratificante. Muitos de nossos pacientes são atendidos pela família toda e com muito carinho quero relatar de um paciente idoso que tratei primeiro o neto, depois a esposa dele que era a avó, finalmente veio o comandante (reformado da marinha) que é um caso que já publiquei e apresento em congressos, porque ficou muito além de nossas expectativas. Na primeira consulta coloquei-me no imperativo dizendo a ele que na minha clínica eu era o comandante e ele seria subalterno, no que ouvi dele: Sim senhor prof. Soliva. Aquilo me desarmou completamente e ficamos muito amigos e ele nos visita com frequência, numa festa só.
Quais foram os seus maiores ou melhores momentos? Sem dúvida dois eventos me trazem lembranças muito boas. O primeiro foi quando em um congresso de ortodontia na Venezuela, me convidaram para ministrar sobre a Ortopedia Funcional e Respiração Oral. Eu pensava que seria uma palestra de uma hora, porém a científica me comunicou um mês antes que seria um curso de oito horas somente sobre este tema. Aquilo me gelou a espinha, mas aceitei o desafio procurando em todos os arquivos que possuía as bases para o curso e encontrei muito material no livro do Floriano Peixoto (As Bases Funcionais da Ortopedia Maxilar), nos artigos do prof. Carlos Douglas e nos de nosso amigo Wilson Aragão. Chegando lá assustei-me pois haviam cerca de 400 ortodontistas assistindo, e consegui ministrar o curso em espanhol, foi maravilhoso. Outro grande momento foi na SOBRACOM, há 10 anos em Gramado. Minha palestra seria de duas horas em uma sala para oitenta pessoas. Já iniciada a mesma, com a sala apinhada de colegas, me pediram para interromper e iniciou-se uma movimentação nos bastidores, quando percebi que abriram as divisórias e o auditório ao lado abriu-se já também cheio de colegas. Aquilo me deu um frio na barriga, pois minha responsabilidade dobrou em poucos segundos. Ao final da palestra entra a comissão organizadora do evento, liderados pela querida Rita Schmidt e pelo Paulo (Bagé) e me surpreenderam com uma relíquia assinada por todos em 1991 no último curso que o prof. Maurício ministrou. Era um guardanapo contendo as preciosas assinaturas que guardo com carinho até hoje.
Qual foi o marketing que usou para começar? Aprendi muito com o professor Maurício, quando ele dizia que o trabalho sério, feito com amor e dedicação mais cedo ou mais tarde é reconhecido. Claro que hoje em dia só isto não basta, pois temos que dizer que somos bons, mostrar que somos bons e provar que somos bons. O paciente percebe quando estamos interessados em sua saúde ou quando nosso interesse é financeiro. Portanto nosso trabalho é posto a prova todo o tempo. Creio que o melhor marketing hoje é que não sou apenas Cirurgião Dentista, hoje me considero Gemtista e isto só aprendemos na lida diária com pacientes de todas as idades, melhorando a auto-estima, a qualidade de vida e proporcionando equilíbrio e longevidade ao sistema estomatognático.
Tem algum parente Cirurgião Dentista? Maurício Vaz de Lima foi o primeiro CD da família, mas minha esposa, meus filhos, minha irmã, e diversos primos e sobrinhos abraçaram nossa profissão.
Quem é seu maior ídolo na Odontologia? Sou suspeito neste item, pois Maurício Vaz de Lima para mim foi um gênio cujo defeito foi nascer 50 anos antes do seu tempo, pois o que ele dizia e publicava há 30 anos, nós vemos hoje a comprovação por vários colegas.
Quem são os seus grandes amigos na profissão? Durante a trajetória profissional fui amealhando uma grande quantidade de pessoas, cuja lealdade e amizade, baseados no respeito e admiração mútuos, nos unem cada vez mais, tanto Ortopedistas quanto Ortodontistas. Sempre digo que o inimigo comum é a má-oclusão.
E quem fez mais pela classe nestes anos todos? Creio que não vou cometer injustiças ao colocar a professora e doutora Wilma Simões como a base de sustentação para a Ortopedia Funcional dos Maxilares tornar-se uma especialidade de vanguarda, com o respeito e admiração unânimes.
Qual seu livro ou autor preferido na profissão? Sem querer ser injusto com outros bons professores Ortopedistas Funcionais e Ortodontistas, meu livro de cabeceira durante muito tempo foi obra do querido Floriano Peixoto Gomes de Sá Filho que de forma clara e sucinta com o livro As Bases Funcionais da Ortopedia Maxilar, também seu segundo livro Fisiologia Oral.
Quais entidades a que pertence ou participa? Sou membro fundador do Grupo de Estudos Mauricio - GEM, da Confederação Brasileira de Ortopedia Funcional dos Maxilares – CBOFM na qual sou vice-presidente, da Associação Brasileira de Ortopedia Maxilar – ABOM; também participo com muita alegria da Sociedade Brasileira de Correções Odonto Maxilares – SOBRACOM e da Corporación de Ortopedia e Ortodontia de Chile – COOCH. Em relação ao Chile queremos salientar que há poucos anos não existia Ortopedia Funcional naquele país. Como sofre forte influência da escola funcionalista brasileira, a Corporación foi alvo de muita pressão por parte da classe ortodôntica, que se referia a OFM como parte do folclore brasileiro, o que nem merece resposta.
Como está vendo o presente momento na Odontologia? Posso falar pela Ortopedia Funcional dos Maxilares brasileira, que conquista cada vez mais respeito mundial, pois somos vanguarda nesta especialidade, graças aos fundamentos básicos marcados pela seriedade e idealismo dos pioneiros que enfrentaram todo tipo de adversidade e até ofensas, mas que conseguiram vencer, deixando o legado que estamos colhendo.
Qual caminho vê como mais indicado para a profissão? Em meu entender os colegas que se adaptaram e se prepararam para o momento que estamos atravessando, a concorrência desleal e ostensiva, terá como recompensa por sua perseverança e seriedade, condições dignas. Para isto novos materiais de baixo custo e alto desempenho estão entrando no mercado sendo, portanto, necessário atualizar-se sempre e com qualidade.
A que atribui o seu sucesso profissional? Creio ter me ajudado muito, a busca do equilíbrio funcional, procurando considerar o paciente como um todo e não como uma má-oclusão que veio me procurar. Cada paciente é tratado pelo nome e não pelo número, recebe nossas newsletters e as respondem com sua opinião. Procuro informar ao paciente todos os procedimentos e as possíveis variáveis que podem influenciar no desenvolvimento de nosso trabalho, inclusive com as crianças pequenas que nos entendem perfeitamente, quando falamos na sua linguagem. Desta forma o paciente compreende que ele é o principal responsável pelo êxito e estabilidade do tratamento que propomos, por isso considero meus pacientes, coadjuvantes deste sucesso.
Quem o ajudou no crescimento profissional? Principalmente o prof. Maurício Vaz de Lima, que me abriu as portas de seu consultório e me inspirou a seguir o caminho da Ortopedia Funcional que em sua luta em defesa de suas idéias, demonstrou um caráter incomparável. Ele sempre dizia que seu grande mestre foi o dia a dia na clínica.
Sente ter se realizado profissionalmente? Prefiro referir-me as realizações de cada dia, vencendo os desafios que cada paciente me proporcionam e me estimulam a progredir e a compartilhar com os colegas minha experiência clínica
Como espera ser o futuro da profissão? Por convicção temos certeza da erradicação total da cárie dentária, através do trabalho sério que está sendo desenvolvido no Brasil e no mundo todo, onde mesmo os menos favorecidos estão sendo abrangidos pelos programas de prevenção e saúde bucal. Acompanhamos também os programas Respire Bem e Mastigue Bem que já surtem um grande efeito na prevenção de más-oclusões. Lembrem-se no país do Fome Zero, a mastigação tem que ser DEZ.
Deixe uma sugestão ou mensagem para os mais novos: Gostaria de deixar uma mensagem de incentivo aos que estão dispostos a estudar sempre e muito, aos que buscam desafios, aos que gostam de fisiologia do sistema estomatognático: A busca da perfeição é inatingível, portanto busquemos o equilíbrio funcional, que pela minha experiência estaremos muito próximo da perfeição. Não existem fórmulas mágicas, pois cada caso é um caso. Nunca subestimem a má-oclusão, procurem sempre as causas que desencadearam ou influenciaram negativamente cada caso. Tenham em mente que cada paciente é único e com cada um aprendemos mais um pouco.
A palavra é sua para suas considerações finais. É sempre edificante participar de Congressos, com especial menção ao 17º ORTO 2010 SPO, que aconteceu nos dias 14 a 17 de outubro em São Paulo. Quero parabenizar os queridos e incansáveis Osny e Jairo Corrêa, ao Cotrim e toda a comissão organizadora do evento, pelo carinho que dedicaram a OFM. Em 2011, teremos a comemoração maior dos 10 anos de reconhecimento da Ortopedia Funcional dos Maxilares, com o 5º. Congresso Brasileiro de OFM, em Caldas Novas - GO. Mais informações pelo site www.cbofm.com.br Não percam será o maior meeting de OFM já realizado.
Que pergunta gostaria de fazer ao entrevistador? Meu querido amigo Antonio Inácio Ribeiro, como admirador de seu trabalho, gostaria de ouvir suas considerações sobre as novas lideranças que estão surgindo na Odontologia, sabendo que muitos deles (eu e meu filho Carlos inclusive) foram seus alunos?
Amigos Soliva e família GEM: tive a oportunidade de vender muitos livros do Maurício, quando ele ainda não era tão conhecido em São Paulo. Os que me compravam tratavam logo de comentar e indicar outros. Digo isso porque creio na capacidade do ser humano de reconhecer aqueles que abrem mão de suas horas e as dividem com o semelhante, na forma de conhecimento. Existem muitos outros Mauricios esperando que outros façam o que vocês fizeram por ele. Estou aqui para divulgar e difundir estes visionários que inovam cada vez mais esta nobre arte, que é a Odontologia. Tenho o privilégio de ter chegado este ano ao número de 400 cursos e palestras ministradas, três das quais em Encontro GEM. Aos que quiserem contato com o entrevistado, seu e-mail é gemrdfm@globo.com
QUE O PRÓXIMO ENCONTRO SEJA SEMPRE O MELHOR!
Antônio Inácio Ribeiro ribeiro@odontex.com.br clique aqui para ver mini currículo
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