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PROFESSOR HAROLDO CAUDURO
O mestre, que é
como o trato, foi importante na minha vida, por ter com ele dado os
meus primeiros passos na Odontologia, quando por indicação de
Francisco de Paula Azzi, mudei-me para São Paulo e comecei carreira
como vendedor de livros odontológicos. Hábil no manejo das letras,
como editor por mais de 50 anos da Revista Gaúcha de Odontologia,
nosso entrevistado de hoje inovou, saindo do habitual perguntas e
respostas, para um histórico da sua vida, que neste ano
transformou-se em livro, Minha Ciranda na Odontologia. Um dos seus
muitos sonhos realizados. Veja os outros.
COMO CHEGUEI À ODONTOLOGIA
Recordando o longo caminho já percorrido relembro a minha
adolescência, quando os carros não tinham cintos de segurança, apoio
de cabeça, nem air-bag! Não havia TV, nem videocassete, computador
ou Internet... As mulheres adoravam homens que dançassem e saíssem
rodando entre os casais, quando tocava um vanerão ou um sambaço na
pista girando e trançando pernas dando aqueles passos todos. Nesta
fase da vida eu tinha, simplesmente, amigos e os meus sonhos eram
ilimitados. Pensava que conseguiria ter o mundo ao meu alcance quando o Dentista
da família, Dr. Campani, que possuía consultório no Edifício Vera
Cruz, da Av. Borges de Medeiros em Porto Alegre, conseguiu impingir
na cabeça do meu pai, que eu deveria ser Dentista, demonstrando a
enorme clinica que ele possuía. Desta forma, no mesmo sentido,
seguiram os meus dois irmãos, que arrastaram filhos, amigos e hoje
já somos mais de dez Dentistas na família...
É a vida quem decide o nosso destino. Se você quer, realmente vencer
na profissão, lute, ande, converse sobre seus problemas com as
pessoas envolvidas no mesmo trabalho. Achando que é seu meio de
sobrevivência e se não puder ficar sem ele, então, procure encontrar
satisfação naquilo que faz. Houve em mim muitas mudanças através dos
anos! A forma de interpretar a vida foi me tornando uma pessoa
diferente. Transformações houveram e com a sabedoria adquirida pelas
próprias experiências. Viajei com o meu coração através de
sentimentos, encontrei um chão por vezes castigado, mas terreno
muito fértil para a felicidade ser encontrada.
TEMPO DE FACULDADE
O vestibular não era de “cruzinhas”, mas com dissertações numa prova
escrita e outra oral com ponto sorteado e matérias como biologia,
física, química, matemática e português. A minha vida acadêmica foi
especial, muito diferente da atual dos centros acadêmicos, pois como
era uma turma pequena e unida, havia uma convivência diária com um
envolvimento universitário e social.
Como a Odontologia era um apêndice da Medicina, o ensino e as
instalações da escola eram muito deficientes, sendo que a maioria
dos professores titulares eram médicos e faziam parte do corpo
docente da Faculdade de Medicina.
Formado Cirurgião Dentista em 1949 dediquei-me a clínica de
consultório durante trinta e dois anos. Minha vida universitária foi
desenvolvida na Faculdade de Odontologia da UFRGS. Pôr quase trinta
anos exerci o magistério ocupando diversos cargos, aposentando-me
como Professor Titular.
PRIMEIROS CLIENTES
Olhava-os com olhos estatelados, o coração batia disparado, as mãos
suavam, perdia até o apetite, era uma sensação única. Dando o
primeiro passo, que geralmente é o mais difícil, os outros se
seguirão. Se você acha que sozinho não vai conseguir, solte as
amarras existenciais que o prendem, sejam elas quais forem.
Com o passar do tempo tudo foi absorvido pelo exercício clínico, a
convivência com os pacientes e o amor pela profissão. Nunca mais
senti a penumbra e a incerteza da escuridão. Foi assim, de repente,
após enfrentar os primeiros pacientes ingressei no templo encantado
da Odontologia.
Nos meus primeiros erros e acertos ficou a saudosa experiência de
recém-formado. Conheci tanto a correção e a reprovação, aprendi
entre o sim e o não, recebi incentivo e sermão, castigo e perdão.
Hoje acredito que quem assim cresce jamais esquece tão sublime
lição, mas pode surgir o tal de medo. Não o medo de escuro, do
fracasso ou da escolha errada da profissão, mas o medo dos medos no
mundo da competição. Entretanto eu sabia que a única saída era viver
a Odontologia até a chegada dos cabelos brancos.
PROFISSIONALMENTE
Há quantos anos, tantos que já perdi a conta, havia o hábito de
começar os dias lendo os jornais e ouvindo os noticiários, já às
seis horas da manhã. Consegui “contrair o hábito”, mas disse mal, em
verdade deveria ter dito “contrai a obrigação” de estar sempre bem
informado em tudo.
Não sei se logrei realizar todos meus projetos e libertar-me do
incomodo peso de tanto delirar. A minha expectativa, sempre foi por
em prática a esperança dos sonhos. Quando perdidos ou irrealizados
não impediram de ver tudo crescer e florescer na beleza da vida.
VIDA ASSOCIATIVA
Iniciei quando acadêmico, como idealizador da 1ª Semana Acadêmica de
Odontologia em 1947, ao presidir o Centro dos Estudantes de
Odontologia. Organizei o primeiro jornal acadêmico de Odontologia:
“A broca”.
A vida associativa sempre me apaixonou, tendo comparecido a jornadas
e congressos que me possibilitaram o recebimento de honrarias como
Sócio Honorário das entidades de classe: Sociedade Paulista de
Odontologia, Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia,
Associação Odontológica do Rio Grande do Norte, Sindicato do
Odontologistas de São Paulo, Sociedade dos Cirurgiões Dentistas do
Pará, Medalha Hardy Ebling pelo Sindicato dos Odontologistas de
Porto Alegre, entre outras.
Pertencendo a Academia Gaúcha de Odontologia percorri quase todo o
Brasil ministrando cursos, palestras e participando em simpósios e
congressos. Fui um dos idealizadores e presidente do primeiro CORIG
- Congresso Odontológico Rio Grandense, que no próximo ano será
realizado pela décima oitava vez. Um título que muito me orgulha foi
o conferido em 1984 pela Câmara Municipal de Porto Alegre,
indicando-me como Cidadão Emérito.
OUTRAS ATIVIDADES NA ODONTOLOGIA
Quanta saudade sinto daquele tempo, em que me apaixonei pela labuta
diária num trabalho árduo e profícuo. Revejo-a quando tinha a
obrigação, para não dizer o vicio, de sempre estar envolvido em
projetos e sonhos, como a fundação da Revista Gaúcha de Odontologia,
tendo já ultrapassado o seu cinquentenário de publicação
ininterrupta. Igualmente a INODON e uma dezena de outras atividades
relacionadas com a Odontologia.
No livro Minha Ciranda Pela Odontologia, que acabo de editar,
estão especificados todos os sonhos que me embalaram a vida, assim
como a história da odontologia no Rio Grande do Sul, entre as
décadas de 40 e 80.
MAIOR ÍDOLO NA ODONTOLOGIA
No percorrer quase sessenta anos de Odontologia colecionei tantos
ídolos que seria difícil enumerá-los. Todavia não poderia deixar de
destacar um, que foi para mim o maior vulto, até hoje: o Prof. Othon
Santos Silva. Grande clínico, professor renomado, diretor de
faculdade, idealizador de entidades associativas, mas acima de tudo
um inesquecível amigo.
ALÉM DA ODONTOLOGIA
Gosto de escrever e contar histórias, porque é
dever cultivar as crenças, animar a alma com esperança, dar alento e
ensinar aquilo que cada dia fica mais perdido em nossa cultura.
Desta forma já redigi e publiquei dezenas de crônicas e poesias em
revistas, livros e compondo músicas, sendo que algumas estão no meu
site
www.haroldocauduro.com.br.
Um pouco de imaginação e quimera não faz mal a ninguém, por isso
quando me aposentei, um teclado me apaixonou e compondo editei cinco
CDS e um DVD. Podem ser modestos e despretensiosos, mas permeando a
minha alma tornaram os meus dias mais felizes. Isto não me deixa um
homem constrangido, pelo contrário, transmitindo certo brilho na
minha aura, me faz caminhar junto com uma linda paixão reveladora de
mil promessas.
A realidade, hoje, me fez desconhecer os problemas da velhice e
ensinou a vencer as vicissitudes da terceira idade.
PROFISSÃO HOJE
Há razões para as dificuldades que hoje atravessa a Odontologia.
Entre outras o Brasil de minha juventude tinha 30 milhões de
habitantes, 70% deles vivendo no campo. Hoje tem 190 milhões, a
maioria asfixiando-se nas cidades, indicando que o Brasil está sendo
cimentado.
Apresentava, aproximadamente, oito milhões de jovens entre 18 e 26
anos hoje são mais de vinte e cinco milhões. O número de mulheres
estudando Odontologia era insignificante (quatro na minha turma)
hoje passando de 80% dos formandos.O número de Faculdades de Odontologia era pequeno, no RGS haviam só
três, hoje passam de dez, consequentemente o número de novos
profissionais cada ano passa de seiscentos, só para falar no meu
estado. Na procura de resultado financeiro o caminho esta sendo:
policlínicas, cooperativismo e multiemprego.
Apesar de tudo isto hoje há uma efervescência de vida, por onde se
olha o crescimento e a esperança de uma nova Odontologia.
Peço à Deus que fertilize a fé e a confiança no exercício clínico,
que renove e fortaleça a dura faina cotidiana nos consultórios
dentários, que se encontram perdidos na imensidão do território
brasileiro.
A DESPEDIDA
Lembro-me quando era um jovem adolescente, na minha sequência de
pensamentos com idéias vagas, mais ou menos agradáveis, mais ou
menos incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de
vigília, geralmente para fugir à realidade, cheio de devaneio e
fantasias.
Jamais admiti que eu pudesse um dia me tornar um idoso, pois quando
jovem detemos a certeza da imortalidade e a confiança imaginária de
que somos superiores ao próprio tempo.
Na cabeça dos jovens, o amanhã é quase inatingível e chegar à idade
avançada, nem pensar. O andar do tempo, porém me faz bater com a
realidade e pouco a pouco, conseguiu, me desgastando, afastar da
esperança de que outro mundo lindo com o qual tanto sonhara no
passado.
Hoje o coração está congelado, nunca mais senti aquele calor
intenso, que era capaz de me derreter por inteiro. Talvez tenha me
transformado num homem maduro, independente, pois apesar de ter
conquistado o que desejasse ao meu redor, tenha perdido, em meio ao
difícil caminho da vida, a capacidade de me deslumbrar...
Indiscutivelmente uma entrevista antológica, para se guardar em um
arquivo especial, como estão fazendo alguns. Uma lição de vida! Com
certeza se entenderá melhor este meu pendor pela comunicação. Um
legado que sempre agradeço, como o faço agora. Tenho a certeza que
muitos quererão mais da vida e história deste meu ídolo, um dos
modelos da Odontologia moderna, que encontrarão em
www.haroldocauduro.com.br e poderão parabenizar agora pelo
hcauduro@terra.com.br
Antônio Inácio
Ribeiro
ribeiro@odontex.com.br
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