Conheci o professor Guedes em 1972, num curso que
ministrava junto com o saudoso professor Miaki Issáo. Eu iniciava minha
carreira de vendedor de livros odontológicos, vendendo assinaturas da
Revista Gaúcha de Odontologia e os livros editados no Rio Grande do Sul.
Em nosso primeiro contato, nosso homenageado revelou uma de suas
características, que ajudou a manter nossa amizade por estes quase trinta
anos: a franqueza. Disse-me sem rodeios: “estes seus livros você não vai
conseguir vender aqui. Passe na Dentart, fale com o Sr. Homero e diga que
eu te indiquei para venderes o Manual de Odontopediatria”.
Na semana seguinte, lá estava eu de volta a distrital da Penha da APCD. O
professor Guedes apresentou-me aos alunos e todos, sem exceção, compraram
o livro. Fiquei maravilhado e antes que tivesse tempo para agradecer, ele
me indicou mais três ou quatro outros cursos que estava ministrando, para
que eu fosse vender o livro. Fui e em todos aconteceu a mesma coisa. Sem
contar com o que vendia nos consultórios. Em três meses já era o maior
vendedor do Brasil e com o dinheiro das vendas destes livros comprei meu
primeiro carro.
Continuamos amigos e fui vendendo os outros livros que o professor foi
lançando, até que chegou o momento sublime da conclusão de seu grande
livro. Não tive dúvidas e já como proprietário da Odontex organizamos um
coquetel de lançamento que marcou época. Foi uma noite inesquecível, a que
compareceram todos os grandes nomes da Odontologia da época e as falas
fizeram a todos chorarem. Aquela obra serviu de parâmetro para todas as
outras grandes que se seguiram.
Mais recentemente, nossa editora, Marli Caetano, buscava um nome para
dirigir uma nova revista, a JBP - Jornal Brasileiro de Odontopediatria e
mais uma vez nossos caminhos se cruzaram. Não tive dúvidas em lhe
assegurar que a pessoa certa era o nosso entrevistado de hoje. É quase
desnecessário dizer que a revista é o maior sucesso, tanto que no início
deste ano, a Editora Maio lançou um novo livro com a coordenação do agora
nosso diretor, que considero o mais bonito livro da Odontopediatria
brasileira. E que também já é sucesso.
Para justificar a escolha do nosso homenageado deste número, basta ler a
entrevista que segue, onde procuramos pinçar os pontos mais importantes da
mais do que brilhante carreira de Antônio Carlos Guedes Pinto, que por sua
grandeza merece foto na capa da nossa JAO, inaugurando uma prática que
doravante será praxe em nossa revista.
JAO - Qual a sua formação básica e quais são os
seus títulos universitários?
Esta resposta, requer expor um mini-curriculum. Toda a minha formação foi
na FOUSP. Formei-me em Odontologia em dezembro de 1963, fiz pós-graduação
em Odontopediatria em 1966, na época não havia Mestrado. Fiz Doutorado em
ciências em 1969, e fui Professor Livre-Docente em 1974 e Professor
Associado em 1981 e Professor Titular em 1995. Todos estes títulos obtidos
por concurso público, inclusive o de Professor Adjunto, que hoje na USP é
um acréscimo ao concurso de Professor Livre Docente.
JAO - Por que optou pela Odontopediatria?
Durante o Curso de Odontologia, eu fiquei interessado por várias matérias
como a histologia e Odontologia social, chegando a estagiar por 1 ano na
histologia, quando ainda era estudante.
No período das disciplinas clínicas do curso, gostei muito do que estudava
e me destaquei em Prótese, Periodontia e Odontopediatria, tendo sido
convidado pelos professores para ingressar nessas disciplinas. Optei pela
Odontopediatria, pelo mero “jeito” com crianças, pelas afinidades com o
corpo docente, que era jovem e amigo, e pela possibilidade de evoluir. Na
verdade, quando se é jovem os motivos das escolhas são muito mais
emocionais do que técnicos. Acho que acertei.
JAO - Como era exercida a Odontopediatria quando o
Senhor começou?
A especialidade não tinha os fundamentos científicos que hoje possui, e
também com relação a outras especialidades estava num estágio inferior de
evolução. Poucos eram os que faziam exclusivamente a Odontopediatria, a
maioria, eram profissionais que tinham jeito para lidar com crianças.
Portanto, era uma atividade muito amadora.
JAO - Como a Odontopediatria evoluiu para o
estágio atual?
Hoje nossa especialidade possui uma sólida base científica no campo
técnico. E estamos evoluindo muito na relação com a criança. Este
progresso deve-se à implantação dos cursos de pós-graduação e de
especialização onde aqueles que sabiam um pouco mais do que os outros
foram se aprofundando, se aperfeiçoando e passando seus conhecimentos para
os colegas. Outro fato, foi a interação da Odontopediatria com as
diferentes áreas da Odontologia e também com matérias afins como a
pediatria médica, psicologia da criança e do adolescente, foniatria entre
outros. A ida de professores para fazer cursos no exterior e a vinda
constante de professores estrangeiros ao Brasil, também ajudou muito na
nossa evolução. Entretanto, o empenho de todos os professores, dos
especialistas e do clínico geral que atende crianças foi decisivo para o
nosso crescimento, colocando-nos hoje sem dúvida como a melhor
Odontopediatria Clínica do mundo.
JAO - Quem foram seus mestres?
Meus grandes mestres, foram: Prof. Wilson da Silva Sasso, Professor de
histologia que orientou toda a parte científica da minha vida; com ele
aprendi a fazer ciência e pesquisa; Prof. Myaki Issáo; com ele dei meus
primeiros passos na Odontopediatria que foi de grande valia neste
aprendizado, especialmente nos primeiros anos de minha formação e Prof.
José Gustavo de Paiva - Professor de Endodontia, com quem aprendi a dar
aulas e a escrever. Severo, competente orientador e grande amigo. Além dos
que citei, outros professores por algum tempo, e por alguma atitude e
também os conselhos e censuras me ajudaram muito.
JAO - Qual a sua contribuição na Odontopediatria?
Esta é uma resposta difícil porque ela sempre vai parecer pretenciosa,
mas vou respondê-la sem pudor. Acredito que contribui cientificamente
publicando mais de cem trabalhos. Quanto à parte pedagógica escrevi sete
livros, e todos sempre foram muito bem aceitos. O manual de
Odontopediatria está na décima edição e já tem 26 anos de idade. O livrão
tem 12 anos e possui 6 edições. Contribui, ainda criando vários cursos de
especialização de qualidade e principalmente o mestrado e doutorado da
FOUSP que já formou professores espalhados por todo o Brasil e América
Latina. Criei uma revista de Odontopediatria, e atualmente sou Diretor
Científico da JBO, revista de grande sucesso. Poderia ficar aqui citando
uma série de outros fatos, mas acredito que isto é suficiente por ora.
JAO - Qual a importância de sua equipe no
desenvolvimento de seu trabalho?
Eu diria que se não tivesse uma equipe competente como a que temos,
dificilmente teriamos feito tantas coisas ao mesmo tempo, visto que, são
muitas atividades. A equipe de trabalho foi fundamental no nosso
desenvolvimento, estes parceiros com suas diferentes características,
propostas de trabalhos, formação e de personalidades fundiram-se de tal
sorte que nos permitiu uma característica de pluralidade muito proveitosa.
JAO - Como estão as pesquisas na Odontopediatria
no Brasil?
Apesar da vocação do “Professor Brasileiro” não ser a de pesquisador, eu
diria que estamos indo muito bem, com inúmeros núcleos em vários pontos do
País, com pesquisas nas diferentes áreas, indo da prevenção à técnica; do
biológico ao material e com ênfase também para a parte comportamental e de
relação profissional - criança e núcleo familiar.
O interessante na pesquisa é que possuimos um pensamento no geral mais ou
menos homogêneo, porém com pequenas divergências nos detalhes, o que nos
estimula sempre em novos estudos. Neste capítulo sou um otimista e
acredito numa grande evolução.
JAO - Como o senhor vê a contribuição dos jovens
recém saídos dos Cursos de Pós-Graduação e dos professores novos?
Com muito otimismo e entusiasmo usando o refrão “na mão deles está o
futuro”, só que na minha ótica, não são só palavras. Há um número
expressivo de profissionais competentes e aplicados. Quando estou em
contato com eles em diversos pontos do País alegra-me o conhecimento que
possuem, suas metas e desejos. Claro, que muitos ficam só no discurso,
como sempre ocorreu em todas as áreas, mas o saldo está sendo muito
positivo e me anima muito este momento.
JAO - Qual é o futuro e as perspectivas da
Odontopediatria no Brasil?
Acredito que, se continuarmos trabalhando neste ritmo e com esta vontade,
logo receberemos o reconhecimento internacional daquilo que já sabemos que
somos. Entretanto o professor de Odontopediatria e o especialista, são
muito bons na técnica, necessitando estudar mais, há ainda pouco suporte
científico para alguns.
Estamos nos adaptando bem às novas tendências da Odontologia, cujo
presente e futuro são a prevenção. Assim, urge direcionar nosso ensino e
atividade clínica para o exercício total do trabalho preventivo, porque
não há outra possibilidade. Por este motivo, é necessário ajustar posturas
e propostas para evoluirmos e termos um professor e um clínico mais
preventivo do que curativo, o futuro já está à nossa frente.
JAO - Qual é o seu futuro pessoal?
Apesar de 37 anos de carreira universitária, ainda tenho muitos sonhos com
relação ao ensino e a ciência na Odontopediatria. Eu até nem diria que
estes sonhos são só pessoais e sim sonhos para nossa equipe de trabalho,
ou seja ministrar os cursos de graduação, especialização e pós-graduação
no grau de qualidade que imagino ser o ideal, continuar produzindo
publicações de grande qualidade e principalmente, consolidar nas
faculdades que sou professor. Tenho um plano preventivo, que implantei há
5 anos, cujos resultados são palpáveis e animadores mas precisamos
melhorá-lo e ampliá-lo de tal forma que o paciente zere a cárie dentária,
que já é uma realidade e que se consolide de forma irreversível. Enfim
quanto a projetos pessoais ainda tenho muitos anseios e muita vontade.
JAO - Quais as frustrações e alegrias que
estiveram presentes e com que freqüência?
Com meu tipo de personalidade e comportamento ambas foram muito presentes,
e muito fortes principalmente quando jovem, hoje elas são menos intensas.
Como um jogo de sabedoria, procuro não permitir que ambas criem raízes
porque o resultado é péssimo, são ruins; uma porque nos torna amargos em
relação à vida, outro, porque imaginamos ser importantes. Procuro não
valorizá-las. Por outro lado vivo intensamente a alegria dos bons
momentos. Fazendo um balanço diria que até este momento tenho tido boas
razões para viver bem, tenho boa saúde e gosto muito do que faço. Sou pago
para fazer um hobby.