Prof. Dr. FERNANDO LUIZ TAVARES VIEIRA
Nosso entrevistado da semana é Professor Adjunto do Departamento de Prótese e Cirurgia Buco Facial da Universidade Federal de Pernambuco, Doutor em Odontologia – Área de Concentração Dentística – FOP/UPE, Mestre em Odontologia – Área de Concentração Endodontia UFPE, Especialista em Metodologia do Ensino Superior para a Área de Saúde CCB/UPE e Diretor Científico da Revista da ABO Nacional, que ao se tornar centenária, dá um presente aos Cirurgiões Dentistas, pelo seu dia que acontece em um mês, e pode ser visto ao final desta história de vida, a qual certamente agradará a maioria.
Quem influenciou para fazer Odontologia? Na verdade não recebi influências pessoais para fazer o Curso de Odontologia, até porque não tinha nenhum parente Cirurgião Dentista. Escolhi cursar Odontologia porque sempre valorizei o sorriso como a maior manifestação do ser humano.
Onde fez a faculdade e quais suas lembranças desse tempo? Cursei Odontologia na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco. Tenho ótimas recordações do relacionamento com os colegas de turma, todavia não posso esquecer um registro triste: o fato de não ter tido condições financeiras de participar das solenidades de formatura e assim precisei colar grau em separado e escolhi o dia do aniversário da minha mãe para poder presenteá-la com a minha formatura.
Como e onde foi seu início na profissão? Na verdade, uma vez graduado, procurei emprego, estágios remunerados e como já naquela época a situação para os estudantes da área de saúde não era fácil, por não obter êxito nas minhas investidas, resolvi aceitar um convite do Exército Brasileiro para fazer um estágio de serviço como Oficial R2 da Arma de Engenharia, no 8º BECONST – Batalhão de Engenharia de Construção em Santarém/PA que se encontrava construindo a BR 163 SANTARÉM/CUIABÁ, ligando os estados do Pará ao Mato Grosso. Ao chegar àquela unidade militar, fui imediatamente destacado para o canteiro de obras e, para a minha alegria, lá havia um ônibus do FUNRURAL que não possuía Cirurgião Dentista. Assim, dava as ordens no campo e voltava para o ônibus do FUNRURAL para praticar a minha Odontologia. Claro, isso tudo às “escondidas”, mas com o conhecimento do meu comandante. Esse começo não foi fácil!
Lembra quem foi seu primeiro paciente? O meu primeiro paciente no ônibus do Funrural não lembro, mas o meu primeiro paciente de consultório particular não apenas lembro, como jamais esquecerei. Enquanto aguardava um envolvimento maior e exclusivo com a Odontologia, fiz concurso para a Escola de Saúde do Exército e não logrei êxito. Saturado da vida na selva, pois passava 28 dias dentro do mato e dois dias em casa (que também era dentro do batalhão, também na selva), resolvi aceitar a convocação da Caixa Econômica Federal, pois, antes mesmo de ter aceito o convite do Exército, havia feito um Concurso Público para Escriturário da Caixa, também por absoluta necessidade. Afinal, precisava assumir a minha casa e deixar de morar na casa dos meus pais. Com as economias que juntei durante o estágio no Exército, aluguei uma casa em uma avenida bem movimentada de um bairro pobre (em frente a casa havia uma parada de ônibus), fiz um financiamento para comprar os equipamentos (cadeira, equipo, refletor e cuspideira), mandei fazer uma placa com letreiro luminoso, fiz do terraço da casa a minha sala de espera e do primeiro quarto o consultório. Levantava cedo todas as manhãs e por volta das sete horas já estava pronto, todo de branco, fantasiado de Cirurgião Dentista, sentado no terraço (a sala de espera) aguardando que chegasse um paciente, até as dez da noite. Um dia, uma semana, um mês, dois meses e nada de aparecer ninguém. Um belo dia, próximo de completar os três meses de espera e já desesperado, pois estava inclusive com o aluguel atrasado, às dez horas fui dormir. Lá por volta das onze horas ouvi um batido de palmas no portão. Chamei a minha esposa (que se dispusera a ser a minha atendente) e abri a porta. La estava um cidadão com uma criança de aproximadamente seis anos de idade que chorava com dor de dente. Na ocasião, por incrível que pareça, fiquei extremamente feliz, não pela dor da criança é claro, mas pelo fato de ter a oportunidade de realizar o meu primeiro atendimento no consultório. Atendi a garota, ela deixou de sentir dor e na saída o seu pai me disse: “Doutor, eu estou sem dinheiro agora, mas amanhã, o senhor não se preocupe que eu passo aqui para lhe pagar”. A minha felicidade era tanta que nem me preocupei com o dinheiro. Havia testado os meus conhecimentos e obtido êxito! No dia seguinte, continuei a minha rotina, quando por volta das dezoito horas, o pai daquela criança estacionou na frente do consultório uma carroça de tração manual (pois o mesmo era catador de papel) e veio ao meu encontro contando cédula por cédula (a de menor valor à época) e me disse: “Doutor, conforme eu lhe prometi, aqui está o seu dinheiro!” Perguntei como estava a filha dele e em seguida, devolvi a ele todo o dinheiro, sugerindo-o que comprasse um presente para a sua filha, ocasião em que ele afirmou que nunca havia presenteado a menina. Por mais incrível que possa parecer, daquele dia em diante jamais me faltou um paciente e, ao longo do tempo, por conta dos investimentos que fiz no meu saber científico acabei, com a Graça de Deus, tornando-me uma referência. Costumo contar essa história a todos os meus alunos, pois considero que para vencer na vida é preciso muito trabalho, perseverança e uma fé inquebrantável em Deus.
Qual foi o caso que lembra como mais difícil? Ao longo dos meus trinta e quatro anos de vida clínica venho solucionando várias situações difíceis. Todavia sempre tive o discernimento de preparar-me para o exercício das áreas de predileção, assim como aprendi desde cedo a encaminhar os casos que não eram da minha área para os colegas habilitados a resolvê-los.
E um que tenha sido o mais gratificante? Sem qualquer dúvida o caso mais gratificante foi o daquela criança, minha primeira paciente, não apenas pelas recompensas divinas que recebi, mas também porque à partir dela tive a convicção de que estava preparado para o exercício da profissão.
Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório? O caso que considero mais pitoresco (depois do susto que passei, é claro!) aconteceu recentemente. Por trabalhar com a Implantodontia e com a Prótese Sobre Implantes, estava provando uma barra de Protocolo Fixo em um paciente, quando, de repente, a chave hexagonal pequena soltou do seu cabo e o paciente a engoliu. Enquanto eu não tinha a certeza de que ele havia engolido, pedi que cuspisse a chave várias vezes e ele afirmava que não tinha chave na boca. De tanto insistir para que cuspisse a chave, ele olhou para mim e perguntou: “Doutor, quanto custa a chave? Eu já estou preocupado com o senhor! Eu já não lhe disse que não engoli a chave! Por que o senhor não acredita?” Interrompi imediatamente o atendimento e liguei para um amigo médico radiologista que me aguardou na clínica e fez um R-x de tórax, quando visualizamos a chave no estomago. Só tranquilizei-me uma semana depois, após a tomada de outro Rx de tórax e a chave já não se encontrava mais.
Quais foram os seus maiores ou melhores momentos? Um dos meus maiores momentos, pois serviu-me de estímulo se deu quando certa vez, assistindo a um curso do grande mestre professor José Mondelli, pensei em lhe fazer uma pergunta e, na ocasião estava acompanhado de um casal de colegas que haviam iniciado a profissão no meu consultório e ela estava cursando o seu mestrado. Comentei com ele o que estava tencionando perguntar e ele foi categórico em afirmar: “A pergunta é boa, mas tu já pensaste se ele perguntar qual é a tua titulação?” Fiquei com vergonha e não perguntei ao professor Mondelli. Imediatamente, um colega que estava ao meu lado, tendo escutado a minha pergunta, a formulou. O professor Mondelli não só respondeu como teceu os maiores elogios ao colega que fez a pergunta. Desse momento em diante me determinei a fazer mestrado e doutorado, para que pudesse nunca mais me constranger em fazer qualquer pergunta. Passei a ter a certeza de que não existe pergunta boba. Bobo é quem não a faz!
Qual foi o marketing que usou para começar? Por incrível que pareça, usei aquele letreiro luminoso (muito caro por sinal) do qual já falei e muitos, muitos e muitos cartões de visita. O curioso é que tinha um colega que dizia: “No bolso de Fernando pode até faltar dinheiro, mas nunca um cartão de visita”.
Tem algum parente Cirurgião Dentista? Conforme já falei, não tinha na época nenhum parente Dentista. Hoje já tenho um filho que também é professor e um sobrinho que cursa Odontologia.
Quem é seu maior ídolo na Odontologia? O meu maior referencial na Odontologia foi o professor Edrísio Barbosa Pinto, falecido há pouco mais de três anos. A primeira notícia que li em um jornal falando em Odontologia citava o professor Edrísio. Fundou duas Faculdades de Odontologia no Recife (a FOP/UPE e a FOR), foi presidente da ABO/PE por vinte e dois anos, foi fundador da ABENO e também da Associação Brasileira de Odontopediatria. Teve toda a sua vida dedicada à Odontologia. Não conheço no Brasil alguém com tamanha dedicação à causa.
Quem são os seus grandes amigos na profissão? Tenho um amplo relacionamento na Odontologia e não quero cometer a injustiça de esquecer nomes de pessoas, e empresas ligadas à profissão, colegas professores, empresários, lideranças de entidades de classe. Orgulho-me em dizer que o meu maior patrimônio é a minha capacidade de fazer relacionamentos. Apesar de ter sido da Caixa, ratifico o ditado que diz: “Mais vale um amigo na praça do que dinheiro na caixa!”
E quem fez mais pela classe nestes anos todos? Ao longo desses trinta e oito anos vivendo Odontologia (trinta e quatro de graduação mais quatro como acadêmico), conheci muitos colegas que considero emblemáticos por servirem à Odontologia. Já citei o Professor Edrísio Barbosa Pinto. Há ainda muitos outros colegas que se dedicam por exemplo às entidades de classe, Associações, Conselhos e Sindicatos. Outros com a sua atividade empresarial dão emprego a milhares de profissionais. Enfim, há muitas estrelas na Odontologia e a cada dia que passa sinto que estamos mais perto de formarmos de fato uma constelação. Precisamos praticar mais o corporativismo do bem.
Qual seu livro ou autor preferido na profissão? Orgulho-me (dentro dos limites) de afirmar que tenho uma biblioteca invejável. Como a Odontologia Brasileira na minha opinião é a melhor do mundo, temos, naturalmente os melhores profissionais, professores e consequentemente os melhores autores. Alguns colegas editam seus livros de modo tão didático que o aprendizado de técnicas torna-se extremamente compreensível e exequível. Gosto muito da abordagem atual do Passo-a-Passo Clínico, pois considero a nossa profissão eminentemente clínica. Também já tive o privilégio de escrever e coordenar o trabalho de um livro, como também já escrevi alguns capítulos de outros, experiência por demais gratificante.
Qual a revista odontológica que mais gosta de ler? Sou um leitor compulsivo, e o que falei sobre livros aplico também às revistas. Atualmente tenho o privilégio de juntamente com o Prof. Dr. Claudio Heliomar de conduzirmos os trabalhos da revista da ABO Nacional, que é um periódico de excelente qualidade como outros que existem no país. Como já afirmei, no contexto da Odontologia somos os melhores e temos por conseguinte as melhores publicações.
Quais entidades a que pertence ou participa? Faço parte da diretoria da ABO em Pernambuco há quinze anos, onde já desempenhei as funções de tesoureiro em duas gestões, vice-presidente em uma gestão, presidente em duas gestões e atualmente sou o diretor da UNIABO/PE. Sou membro do GBPD, da ABENO, fui condecorado pela ABOMI, Sindicato dos Odontologistas de Pernambuco e Academia Internacional de Odontologia.
Como está vendo o presente momento na Odontologia? Por ser extremamente otimista e trabalhador, vejo o momento presente da Odontologia como muito promissor. Plagiando o nosso Presidente da República: “Nunca na história desse País se viu tantas ações voltadas para a nossa profissão”. A inclusão do Cirurgião Dentista no Programa de Saúde da Família, os CEOs – Centros de Especialidades Odontológicas e o Programa Brasil Sorridente tem beneficiado milhares de colegas com o tão sonhado emprego. A luta das entidades de classe para o reconhecimento da atuação do Cirurgião Dentista nas UTIs, a criação das novas especialidades, a atuação das entidades de classe na promoção de Cursos de Especialização, Aperfeiçoamento e Atualizações, contribuem significativamente para a elevação do nível da nossa Odontologia.
Qual caminho vê como mais indicado para a profissão? O caminho mais indicado que eu vejo para a Odontologia Brasileira, é o caminho da União dos diversos segmentos representativos para o seu maior fortalecimento.
A que atribui o seu sucesso profissional? O atribuo ao trabalho permanente e incessante, aos meus sonhos, à busca constante do aprimoramento, à Fé inquebrantável que tenho em Deus e ao apoio recebido dos meus familiares e amigos. Sempre busquei agregar meus valores pessoais (aqueles que o dinheiro não compra) à minha capacidade técnica, adicionando a esses princípios, para atender ao meu paciente da forma que eu gostaria de ser atendido e seguir princípios éticos necessários a qualquer profissional.
Quem o ajudou no crescimento profissional? Muitas pessoas ajudaram-me profissionalmente: Meus pais, que a custa de muito sacrifício custearam a minha graduação. Minha esposa que nunca deixou de me incentivar e ajudar, inclusive quando foi a minha atendente. Meus filhos que sempre compreenderam e ainda compreendem (hoje mais do que antes) a importância de ser um profissional dedicado, que muitas vezes motiva a ausência do convívio doméstico. Muitos professores e amigos pessoais também fazem parte dessa história de sucesso. A todos sempre agradeço!
Sente ter se realizado profissionalmente? Quando olho para trás e vislumbro o início de muito sacrifício e tenho a oportunidade, como agora, de vivenciar o presente e traçar um comparativo, não tenho como esconder a minha felicidade, a minha realização e o meu agradecimento a Deus, por todas as oportunidades e momentos vividos de modo especial com a Odontologia.
Como espera ser o futuro da profissão? Espero que num futuro próximo tenhamos um maior acesso de todas as camadas sociais aos tratamentos odontológicos, quer através dos programas governamentais ou aos consultórios particulares, para que possamos no menor tempo possível deixar de ostentar a mácula de país dos dendentados, o que não condiz com a nossa capacidade técnica e profissionais.
Deixe uma sugestão ou mensagem para os mais novos: A mensagem que deixo aos mais jovens, àqueles que se iniciam na profissão, é que nunca se considerem profissionais formados, pois o bom profissional não se forma nunca. Que sejam ávidos pelo saber. Que sejam éticos. Que sejam perseverantes na busca dos seus sonhos e ideais. Que mantenham a crença em seu Deus (como quer que o concebam). Que saibam agradecer a cada conquista.
A palavra é sua para suas considerações finais. Aproveito para agradecer a oportunidade de conceder esta entrevista e poder partilhar a minha vida com todos os colegas que venham a acessar essa entrevista. De modo especial agradeço a você Ribeiro, a quem considero um dos estandartes da Odontologia Nacional.
Que pergunta gostaria de fazer ao entrevistador? Para finalizar pergunto ao amigo Ribeiro: Que motivos o levaram a abraçar a causa da Odontologia com tanta dedicação e apreço? Depois desta entrevista sensacional, cheia de emoções e coração, fica fácil responder. Gosto do que faço, faço com prazer e se às vezes não resulta como espero, tenho a satisfação do dever cumprido e de ver a satisfação dos que são razão do nosso trabalho. Obrigado pela entrevista e aproveito para perguntar-lhe qual é a surpresa prometida para o Dia do Dentista?
A ABO Nacional, através do seu Presidente Newton Miranda, ao atingirmos o número 100 da Revista da ABO, oferece a todos os colegas uma assinatura da nossa revista pelo valor de custo de R$ 60,00 válida até o dia 25 de Outubro. Assim colaboramos com um dos pilares da entidade: a qualificação profissional e divulgamos um dos pontos fortes de entidade: a comunicação. Peça já a sua pelo revista@abo.org.br e parabéns pelo nosso dia! Você merece!
RECONHECENDO QUEM FAZ MAIS PELA ODONTOLOGIA
Antônio Inácio Ribeiro ribeiro@odontex.com.br
|