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ODONTO ENTREVISTA Nº 44 |
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PROFESSOR DOUTOR CLÓVIS MARZOLA
Nosso entrevistado é uma personalidade da Odontologia. Colou grau na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto com 20 anos. Mestre, doutor, livre-docente, professor-adjunto e professor-titular de Cirurgia da Universidade de São Paulo por concurso público. Iniciou a docência na FO de Araçatuba da UNESP, onde fez o primeiro doutorado em Cirurgia no Brasil, para depois mudar para a Faculdade de Odontologia de Bauru da USP. Foi por 20 anos pesquisador do CNPq, chegando ao Nível A. Participou de mais de 200 bancas de concursos universitários. Ministrou mais de 500 cursos e conferências em todo o Brasil e América do Sul. Editou seis livros de cirurgia pela Inodon, Pancast e Big Forms, que agora lançou uma coleção de Fundamentos de Cirurgia Buco Maxilo Facial em seis volumes com mais de 120 capítulos. Publicou mais de 430 trabalhos científicos no Brasil e no exterior tendo esses trabalhos sido citados em mais de 300 publicações nacionais e internacionais. Foi homenageado em mais de 200 oportunidades por entidades sociais. No dia 29 de maio último recebeu uma das maiores homenagens: o Fardão da Academia de Ciências e Artes da Câmara Brasileira de Cultura no salão nobre do Circolo Italiano em São Paulo. Tive o privilégio de fazer o lançamento dos seus primeiros livros em um congresso do Colégio BCTBMF, em 1973, na Curitiba em que quinze anos depois vim a morar. Esta entrevista é mais um reconhecimento a um dos grandes da Odontologia!
Quem o influenciou a fazer Odontologia? Praticamente nasci em um Consultório Odontológico, pois meu pai era um dos grandes Cirurgiões Dentistas da cidade de Ribeirão Preto: o Dr. Eugênio Marzola. Nasci no dia 5 de junho de 1937, em minha casa em Ribeirão Preto, pelas mãos de uma parteira, a D. Nenê. Desde criança já vivia dentro do consultório do meu pai e, todas as brigas com meu irmão Nelson levavam para o castigo tradicional do meu pai, que era ficar trancado dentro do consultório do nosso pai, enquanto ele tratava dos seus clientes. Talvez já fosse um método que ele aplicava para nos estimular nessa magnífica profissão.
Onde fez a faculdade e quais suas lembranças desse tempo? Fiz todos meus estudos da cidade de Ribeirão Preto, com o primário e ginásio no Colégio Maristas, o científico na Associação de Ensino de Ribeirão Preto e logo entrando na Faculdade de Odontologia ainda com 17 anos, tendo colado o grau com 20 anos como Cirurgião Dentista. Guardo imensas alegrias daquele tempo maravilhoso com colegas muito queridos e formidáveis professores, dentre os quais destacavam-se os Gabarras, o Albertino Pimenta e, o Dr. Guilherme Simões Gomes, além do nosso grande paraninfo, o professor de Anatomia, o Dr. Fábio Musa. Fui contemporâneo e dei trote nos queridos amigos Sylvio Alves Aguiar e Regis Alonso Verri, recentemente falecidos. Uma grande tristeza veio durante meu período na faculdade com o falecimento de minha querida mãe, que não me viu formando e, justamente nessa época fui premiado com a única segunda época (dependência) na minha vida, presente do Dr. Guilherme Simões Gomes, no dia que minha mãe morreu.
Como foi seu início na profissão? Posso considerar que foi um início brilhante e inesperado tendo em vista que meu pai havia preparado um consultório novinho para mim na cidade de São Paulo. Quando lá cheguei fui buscar meu diploma e do meu irmão no Rio de Janeiro, pois naquela época se não fôssemos buscar o diploma ele não vinha. Assim fui ao Rio e resgatei meu diploma e do meu irmão que havia se formado um ano antes e depois ainda fiquei aproveitando o Rio por um mês para desfrutar um pouco. Quando cheguei comecei a trabalhar no meu consultório na Praça da República, na época um dos melhores locais em São Paulo e também em outro consultório na Penha. Ainda, no período da manhã fazia um estágio de Cirurgia no Hospital do Câncer em São Paulo na Rua José Getúlio. Fiz maravilhosos amigos lá e foi nessa mesma época que o titular do Departamento de Odontologia, o Dr. Ruy dos Santos Pinto convidou-me pra ir com ele para Araçatuba para lecionarmos a disciplina de Cirurgia pela primeira vez, a convite do Prof. Dr. Carlos Aldrovandi.
Lembra quem foi seu primeiro paciente? Foi uma tia muito querida minha, a Clarice, para quem fiz uma Prótese imediata. Extrai todos seus dentes e coloquei uma prótese imediatamente e ela ficou maravilhada. É muito bom recordar essas coisas lindas.
Qual foi o seu caso mais difícil? Como professor de Cirurgia eu só tive casos difíceis. Todos os piores casos vinham para que eu resolvesse. Tive o caso de um grande abcesso que eu precisei drenar na Faculdade e o paciente não voltou mais depois da drenagem. Quando retornou, a região estava necrosada e eu lhe disse brincando que agora eu não o iria tratar mais, pois ele só havia aparecido depois de 15 dias e, o dente causador do abcesso já deveria ter sido extraído. Algumas pessoas que estavam por perto me denunciaram dizendo que eu estava fazendo diferença e que me recusara a atender um paciente. O caso foi pro Conselho Departamental e eu fui por incrível que pareça, punido com uma reprimenda na minha ficha da USP. Só depois de alguns anos eu consegui tirar essa mancha de minha vida.
E um que tenha sido o mais gratificante? Um caso, entretanto, ficou marcado completamente. Logo que iniciei no Hospital do Câncer numa determinada manhã estava lá cedinho lendo um livro quando uma enfermeira entrou correndo na sala procurando um Dentista a pedido do Dr. Jorge Fairbanks Barbosa, um dos maiores otorrinos oncologistas que tive oportunidade de conhecer. Entretanto nessa época eu ainda não o conhecia. A enfermeira (Antônia) perguntou se não tinha um Dentista mais velho lá, a que eu respondi que eu era o único. Lá chegando eu entrei no anfiteatro que ele estava juntamente com mais uns 20 Médicos residentes no Serviço dele e, dentre eles lá estavam Josias Andrade Sobrinho, Cláudio Fáccio e outros. Entrando com tudo escuro, vi na tela uma radiografia de uma lesão na cavidade bucal e o Barbosa dirigindo-se a mim disse jocosamente: - Doutor o que é isso? Aí que eu fui olhar bem e, respondendo quase que imediatamente pra ele: - Evidentemente doutor (jocosamente) que se trata de um CISTO GLÓBULO MAXILAR (hoje nem mais existe essa terminologia). Ao que o Barbosa agradeceu e disse pra platéia: - Que absurdo, precisei chamar aqui um Dentista pra dizer isso pra vocês que ninguém aqui sabia? E, completou, realmente trata-se de um CISTO GLÓBULO MAXILAR. – Muito obrigado doutor. Não foi um caso difícil, mas muito pitoresco. Daí pra frente tudo que ele precisava mandava me chamar. Assim consegui durante aquele ano de estágio no Hospital do Câncer realizar muitas cirurgias maravilhosas com esse grande mestre da Otorrino. Tive a oportunidade de fazer juntamente com o mestre, mandibulectomias, maxilectomias, além de grandes exéreses de tumores malignos da cabeça e pescoço.
Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório? Numa oportunidade fiz uma grande cirurgia para um paciente japonês tendo o caso sido coroado de muito sucesso. Depois de um mês ao fazer sua revisão, vejo descerem da caminhonete do casal, oito japonesinhos que se enfileiraram na minha frente, todos devidamente perfilados. O pai disse para eles agradecerem ao doutor que o havia curado e todos ao mesmo tempo começaram a me reverenciar e me agradecer. Além de pitoresco foi muito emocionante esse momento.
Quais foram os seus maiores ou melhores momentos? Sem dúvida foram os momentos dos meus concursos universitários públicos de doutorado, livre docência, professor adjunto e professor titular. Foram momentos de grande expectativa, ansiedade e emoção que passei, além de um nervosismo a toda prova, pois naquela época esses concursos eram verdadeiras provas de habilitação do candidato que tinha que mostrar além de um CV espetacular, ainda tinham que provar estarem aptos a serem professores da USP (Figs. 1 a 4).
Fonte: Arquivos do Prof. Dr. Clóvis Marzola.
Fig. 2 – Outro aspecto do primeiro doutorado vendo a platéia com grandes nomes da Odontologia e, também meu pai, meu irmão Nelson e minha cunhada Clarice que vieram de Ribeirão Preto para o grande acontecimento. Fonte: Arquivos do Prof. Dr. Clóvis Marzola.
Fig. 3 – A banca que presidiu os trabalhos toda de beca, notando-se o Carlos Aldrovandi Diretor da Faculdade de Odontologia de Araçatuba quando discursava ladeado por Cícero Britto Viana, Walter August Hadler, Fritz Köberle, Camilo de Morais e José Bonifácio da Fonseca. Fonte: Arquivos do Prof. Dr. Clóvis Marzola.
Fig. 4 – Clóvis Marzola quando apresentava sua aula sobre Anestesia para a Banca julgadora e, uma grande platéia que lotou a sala de aula e testemunhou. Fonte: Arquivos do Prof. Dr. Clóvis Marzola.
Tem algum parente Cirurgião Dentista? Tenho vários parentes CD sim, dentre eles meu pai Eugênio Marzola já falecido, meu irmão Nelson Marzola já aposentado e uma sobrinha direta Ana Claudia Marzola Dantas residente em Marília e esposa do médico cardiologista e nutricionista Antonio Braojos Dantas. Infelizmente minhas filhas queridas Fabiana e Fabíola não seguiram minha adorada profissão e colaram grau em Direito e Fisioterapia.
Quem é seu maior ídolo na Odontologia? Tive e tenho alguns ídolos que sempre marcaram minha profissão destacando-se Carlos Aldrovandi, Ruy dos Santos Pinto e com mais intensidade os professores Mário Graziani, João Jorge de Barros e Haroldo Cauduro. Este da Editora Inodon, que foi a primeira a apostar em mim editando meus livros iniciais graças a seu diretor, um homem de grande valor nacional na Odontologia, o Prof. Dr. Cauduro, a quem devo muito. Foram todos para mim exemplos de hombridade, honestidade e companheirismo, que aprendi muito e procuro agora passar para meus alunos.
Quem são os seus grandes amigos na profissão? Aqueles que trabalham diretamente comigo na profissão e especialidade já há mais de 30 anos alguns e, outros há mais de 15 anos destacando-se os grandes amigos João Lopes Toledo Filho, Haroldo Cauduro, Marília Gerhardt de Oliveira, Daniel Luiz Gaertner Zorzetto, Édela Puricelli, Cláudio Maldonado Pastori, Marcos Maurício Capelari, Gustavo Lopes Toledo, Bruno König Jr., Luis Fernando Lobo Leandro, Emídio Campanella Júnior, Renato Oswaldo Figueiredo Geromel, Lucy Dalva Lopes Mauro, Maria Helena Guerra, Emanuel Dias de Oliveira e Silva, Antenor Araújo, Mário Gabrielli, Ricardo Holanda, Tarley Pessoa de Barros, Clóvis Tarcísio Prada e Mauro Cruz.
E quem fez mais pela classe nestes anos todos? Na minha modesta opinião destaca-se a figura do Prof. Dr. João Lopes Toledo Filho que além de ser o Coordenador da Residência no nosso Curso de Bauru, dedica-se de corpo e alma para a melhoria da especialidade, de forma decisiva, tanto no aspecto científico, quanto legal, tentando fazer com que essa especialidade seja aceita com grande intensidade dentro da área da saúde.
Qual seu livro ou autor preferido na profissão? Espelho-me grandemente nos livros do queridíssimo e saudoso Professor J J Barros no Brasil e, no exterior no magnífico trabalho do meu querido e estimado amigo, o Prof. Dr. Jen Owe Andreasen na Dinamarca. É sem dúvida o maior pesquisador dentro da área de Trauma Dental, que é também a área que eu mais me dedico.
Qual a revista odontológica que mais gosta de ler? Sou um leitor constante de todas as revistas de Odontologia e agora ainda mais, pois com a Internet ficou mais fácil a consulta a todas. Não por ser uma Revista brasileira e ainda por eu ser o Editor dela, eu adoro ler a Revista de Odontologia da Academia Tiradentes de Odontologia online, que todos os meses no dia 1º entram no ar quatro trabalhos originais, sendo dois deles em inglês. Preferentemente publico todos os trabalhos em português porque acho que estou no Brasil e toda minha pesquisa é dirigida para os brasileiros. Se algum trabalho eu acho que mereça ser publicado em inglês eu o verto pro inglês também, e o publico na Revista da ATO que está no site: www.actiradentes.com.br no link: Revista. Vejam lá e leiam tudo desde o ano de 2005... Não existe nem qualis nem qualidade nessa revista e sim, o interesse de cada leitor que quer aprender ou aperfeiçoar-se em um determinado assunto. Acho que todas as revistas brasileiras de Odontologia são boas e procuram sempre o melhor para o leitor, entretanto acho que o futuro está nas revistas online, principalmente por causa do alto preço dessas revistas que se não se tiverem um patrocínio, não sobreviverão. Na revista online não existe número de páginas para um trabalho e, nem um número reduzido de referências bibliográficas para se colocar, que no meu ponto de vista é um absurdo. Tudo isso num trabalho online está liberado e podemos ter um trabalho com um sem número de páginas e com um grande número de fotos coloridas que não irão onerar o bolso de nenhum autor, como está acontecendo com algumas revistas internacionais.
Como está vendo o presente momento na Odontologia? Acho que quem faz a Odontologia são os próprios CDs e assim sendo quando eles procuram aperfeiçoar-se cada vez mais e mostrarem-se cada vez mais, a Odontologia sempre será muito bem avaliada e se projetará cada vez mais alta. Sempre que vou pelo Brasil e pelo exterior para ministrar conferências e cursos, procuro levar o que tenho de melhor para mostrar para todos a grande Odontologia que se faz no Brasil, projetando assim toda nossa profissão. Acho que sempre devemos mostrar o que a nossa Odontologia tem de melhor para que o Brasil seja sempre reconhecido como o é, um país que tem uma das melhores Odontologias do mundo.
A que atribui o seu sucesso profissional? Sempre atribui meu sucesso profissional ao amor à minha profissão e especialidade e principalmente pela persistência que sempre tive em todos os momentos, nunca deixando-me abater pelas intempéries que apareciam sempre. Sempre procurei realizar meus sonhos e para isso sempre corri atrás deles e, sempre que procuravam me abater, por incrível que possa parecer, sempre eu levantava com maior força, destemor e amor. Nunca me deixei abater por nada, nada mesmo...
Quem o ajudou no crescimento profissional? Tive poucas pessoas que ajudaram em minha subida... Tudo eu devo ao meu empenho e persistência sempre... Tive um bom início com o Prof. Ruy dos Santos Pinto que me colocou na pista para eu correr, sempre incentivado pelo Prof. Carlos Aldrovandi. Poderia dizer também que meu orientador no doutorado, o Prof. Walter August Hadler, me deu muito incentivo e orientação segura para realizar um trabalho científico... Foi um grande mestre e amigo. O Dr. Haroldo Cauduro foi outro que acreditou no meu trabalho e deu muitas demonstrações de carinho e amor. Devo a ele grande parte do meu sucesso científico. Devo a ele também grande demonstração de carinho por um momento muito difícil de minha vida, quando me mandou uma passagem para ir a Porto Alegre e, praticamente me escondeu em sua fazenda. Foi com muito sacrifício que cheguei ao cargo de Professor Titular da USP, por isso que procuro nos dias de hoje que já estou aposentado, levar isso a todos àqueles que desejam seguir a carreira universitária. Sempre é preciso muito amor, persistência e dedicação em tudo que forem realizar. Aqueles que pensarem em dinheiro ($$$) dou um conselho para que não entrem na carreira universitária, pois é incompatível com ela.
Sente-se realizado profissionalmente? Poderia dizer que sim porque consegui realizar tudo profissionalmente. Minha carreira universitária na USP foi um sucesso, meus cursos, conferências, livros e trabalhos científicos também são de grande valor para a profissão e especialidade e, sendo assim posso considerar-me um homem profissionalmente realizado.
Como espera ser o futuro da profissão? Sempre espero o melhor para a Odontologia e para a minha especialidade. No que depender de mim, apesar de estar chegando aos meus 73 anos, sempre procurarei o melhor e, sempre orientarei o melhor para todos os alunos do meu Curso de Especialização em Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Facial de Bauru, patrocinado pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia, APCD Regional de Bauru e Hospital de Base da Associação Hospitalar de Bauru.
Deixe uma mensagem para os mais novos: Sempre muita persistência, dedicação e amor pela profissão, procurando sempre realizar os seus sonhos de maneira segura e com muita ética, nunca deixando-se abater pelas quedas que sempre ocorrerão. Nunca admitam a palavra desistir... Essa palavra nunca existiu em meu vocabulário. Perdi muitas guerras, mas no final sempre venci e continuo vencendo até hoje.
A palavra é sua para suas considerações finais. Amem essa profissão que é a melhor que existe e a minha especialidade é a mais bonita e a mais humana de todas...
Foi um privilégio esta entrevista, a mais extensa que já publicamos. Com a motivação de estar sendo enviada na véspera de feriadão, com tempo para ler e apreciar. Três dias depois da sua homenagem maior e três dias antes do seu aniversário. Abaixo o e-mail particular do homenageado, para quem quiser parabenizá-lo: drclovys@uol.com.br Antônio Inácio Ribeiro ribeiro@odontex.com.br
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