Nosso homenageado deste número é diretor científico
da PCL – Revista Brasileira de Prótese Clínica e Laboratorial, Coordenador
do Curso de Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é professor
da disciplina de prótese dentária, autor de quatro livros de sucesso,
tendo ministrado mais de 200 cursos no Brasil e exterior e possuindo uma
das melhores clínicas do sul do País.
JAO- Seu pai era cirurgião-dentista?
Não, mas era como se fosse, pois tudo o que fosse relacionado à
Odontologia interessava-lhe. Sempre foi aquele que mais orgulho sentia de
minha atuação e conduta como cirurgião-dentista. Recentemente, eu o perdi
e sem dúvida faz uma indescritível e enorme falta. Seus conselhos e suas
lições de vida fizeram-me ser um homem trabalhador, honesto e leal.
Ensinou-me também a perdoar àqueles que em algum momento impensado de suas
vidas, marcados por desvios de uma conduta normal e por um descuido do
destino, tentaram me prejudicar e não conseguiram.
Meu pai foi economista e trabalhou toda a sua vida como securitário.
JAO- Quando pensou pela primeira vez em fazer Odontologia?
Todo o meu aprendizado que antecedeu ao Curso de Odontologia, foi obtido
no Colégio Santa Maria. Os Irmãos Maristas realmente foram marcantes na
minha formação e me proporcionaram o ingresso na Universidade Federal do
Paraná, no ano de 1967.
A minha intenção em 1966, era fazer o Curso de Medicina e era tido, junto
com alguns de meus colegas de científico, como vaga certa ao ingresso na
Universidade. Não passei no vestibular, tendo sido o único do grupo que
ficou para trás. Foi uma amarga experiência. Fiquei perdido e até cheguei
a fazer um vestibular em Direito na Faculdade Católica, porém não passei
novamente. No ano seguinte, por questões de honra eu estava decidido.
Tinha que ingressar em alguma Faculdade. Estava inscrito para o vestibular
de Medicina, Odontologia e Agronomia na Universidade Federal do Paraná e
Medicina na Universidade Católica.
Os concursos para o vestibular na Universidade Federal do Paraná não eram
coincidentes.
O primeiro vestibular realizado foi o de Medicina na Universidade Federal
do Paraná. O segundo, foi o de Odontologia. Simultaneamente, saíram os
dois resultados e eu fui aprovado somente no vestibular de Odontologia.
Que alegria senti, pois havia passado em 2º lugar e assim, resolvi ser
cirurgião-dentista, não tendo comparecido aos dois outros concursos em que
estava inscrito.
Entretanto, ainda pairava uma dúvida sobre a minha vocação. Seria mesmo a
Odontologia o meu caminho? Por um capricho do destino, foram publicados os
resultados do vestibular em uma listagem computadorizada e eu era o nº 173
da lista para o ingresso em Medicina na Universidade Federal do Paraná. O
número de vagas era de 160.
Nas normas para o concurso vestibular daquele ano, existia um item que
dizia mais ou menos assim: “terá direito ao ingresso no curso de Medicina,
todo candidato que obtiver média igual ou superior a quatro, desde que não
tenha sido reprovado em nenhuma das matérias envolvidas no concurso
vestibular”.
Sendo assim, surgiu um advogado, do qual eu não me recordo o nome, que
entrou na justiça com um pedido de garantia de vaga e todos os alunos que
se encontravam qualificados ganharam o direito ao ingresso na
Universidade.
Como não seria possível o ingresso de tantos candidatos (eu era o 13º da
lista), foram abertos novos cursos de Medicina em três cidades
brasileiras, das quais me recordo de duas, Campos no Estado do Rio de
Janeiro e Manaus no Estado do Amazonas. Coube-me uma vaga na cidade de
Campos e eu não fui, preferi continuar a Odontologia que me encantava
profundamente e assim, pude dizer “não” à Medicina.
JAO- Como foram os seus anos na Universidade?
Foram fantásticos. Encontrava-me plenamente realizado. Fui sempre um aluno
interessado, empenhando-me ao máximo em todas as disciplinas do curso. Não
tive nenhuma reprovação e fui aprovado sempre por média, nunca tendo que
fazer nenhuma prova final. Para ser aprovado por média era exigida uma
nota igual ou superior a sete.
JAO- Onde foi o seu primeiro consultório?
Foi na Rua Marechal Deodoro em Curitiba. Meu pai me fez uma grande
surpresa. Comprou-me uma sala comercial e nela instalamos um equipamento
DABI-TM, que era um luxo da época. Quando tudo estava pronto, isto 6 meses
antes de me formar, meu pai marcou um encontro comigo nas dependências do
mesmo e disse-me: “meu filho, eu investi tudo o que tinha neste
consultório. Tenho, além de você, mais três filhos. Passo para você a
partir de hoje a responsabilidade de que na minha falta você faça o mesmo
por eles. Espero entretanto, que eu possa fazer por eles o que fiz por
você”. E ele conseguiu. Formou os três outros filhos, um em Medicina,
outro em Odontologia (por minha influência) e o terceiro em Direito, dando
condições à todos para o início de suas profissões.
Dois anos depois eu ampliei o meu consultório com mais uma sala e mais um
equipamento, frutos de um grande início e de muito trabalho.
JAO- O que o levou ao magistério?
Com certeza o amor que eu tinha e tenho pela Odontologia e o exemplo de
dedicação que encontrei na grande maioria de meus ex-professores. Tive
durante a minha formação, fantásticos mestres.
Tão logo me formei no curso de Odontologia, voltei à Faculdade para
realizar estágio de aprendizado e desde esta época (1971) encontro-me
envolvido com o ensino. Meu ingresso oficial como Professor Auxiliar de
Ensino foi no ano de 1973 na Universidade Federal do Paraná. Fui Professor
Titular na Universidade Católica do Paraná e atualmente, sou Professor do
Curso de Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná.
JAO- Quantos Cursos já ministrou?
Recebi o grau de Cirurgião-Dentista no dia 20 de Dezembro de 1970. Neste
final de ano vou completar 30 anos no exercício da Odontologia. Acredito
que devo estar próximo de cerca de 200 cursos ministrados, sem contar com
as conferências, participação em seminários e simpósios.
No exterior, ministrei cursos e conferências em várias cidades argentinas
- Buenos Aires (três vezes), Córdoba, Tucuman, Ascochinga e San Martin de
Los Andes. No Chile, estive duas vezes em Santiago. No Uruguai, estive em
Montevidéo. Na Bolívia - Santa Cruz (2 vezes). No equador - Guayaquil (2
vezes). No Peru - Lima (2 vezes). No México - Cidade do México.
JAO- Algum fato deu impulso à sua carreira?
Acredito que tenha sido talvez a edição de meu primeiro livro entitulado
“Atlas de Prótese Parcial Fixa e Removível”, editado pela Livraria Santos
em 1982, por indicação de meu nome à esta Editora pelo saudoso Professor
Antonio Fernando Tommasi.
JAO- Quais são os seus outros livros publicados?
O segundo livro foi publicado em 1984, também pela Editora Santos e tem
como título “Atlas de Reabilitação Bucal”. Este livro foi reeditado por
cinco vezes num total, segundo a Editora, de 10 mil volumes.
O terceiro livro leva como título “Atlas de Reabilitação Bucal: Núcleos
Metálicos”. editado pela Quintessence e Editora Santos em 1994.
O quarto livro tem como título “Preparo e Moldagem em Prótese Fixa
Unitária”, que faz parte da coleção da série EAP-APCD, editado pela
Editora Artes Médicas.
Além destes, tive participação em capítulos sobre Prótese Fixa nos livros
de Atualização na Clínica Odontológica da APCD, nos anos de 1992-1996 e
2000, assim como também, no livro de Odontologia Integrada, Livro Oficial
do 14º Congresso Internacional de Odontologia do Rio de Janeiro em 1999.
JAO- Como é ser casado com uma Cirurgiã-Dentista?
É realmente bastante interessante, pois comungamos de uma mesma filosofia
de trabalho e desta forma nossa produção triplica. A Elza Maria, além de
me completar de uma forma conjugal, completa-me também profissionalmente,
tendo sido, em todos os sentidos, a grande estimuladora de minhas
atividades profissionais. Participou e participa de todos os meus
trabalhos de Reabilitação Bucal Protética, assim como também na elaboração
de todos os meus livros e trabalhos clínico-científicos.
JAO- O fato de ter dois filhos odontólogos, significa que o exemplo foi
bom?
Com certeza, sim. A minha dedicação e o amor à minha profissão, fizeram
com que eles também amassem a Odontologia. A Daniele já é especialista em
Odontopediatria e o Marcelo realiza Cursos de Atualização em Implantes
para na seqüência, ingressar na Especialidade.
JAO- Conte-nos um pouco sobre sua função de Coordenador do Curso de
Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná:
Segundo o pensamento “um homem para cumprir o seu objetivo na vida, deverá
ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore”, digo que tenho
quatro filhos, dois dos quais cirurgiões-dentistas, já escrevi quatro
livros e em cinco outros, cinco capítulos. Já plantei dezenas de árvores e
as vi crescerem majestosas.
Tive a responsabilidade de construir um Curso de Odontologia em 1992 e o
coordeno até os dias de hoje, vendo-o crescer majestoso e respeitado mesmo
por aqueles que tentaram de todas as formas denegrí-lo.
O Centro Acadêmico do Curso de Odontologia da Universidade Tuiuti do
Paraná, para minha satisfação e pelo carinho de todos os meus alunos, leva
o meu nome.
Mesmo assim, ainda acredito que tenho muito por fazer pela nossa
Odontologia.
Coordenar um Curso de Odontologia não é nada fácil, porém tive de todos os
meus superiores plena liberdade em realizar aquilo que sempre me pareceu
correto.
JAO- Qual é o futuro traçado para a PCL, a nossa revista de Prótese?
O mais promissor possível. O primeiro número foi publicado em maio de 1999
e totalizamos 4 edições trimestrais neste período, tendo passado a ser
bimestral a partir de Janeiro de 2000, devido à grande quantidade de
trabalhos científicos que chegam para serem publicados. Sua tiragem tem
sido de 8.000 volumes. Caminha a passos largos e é assinada por milhares
de cirurgiões-dentistas de norte ao sul do País. Orgulho-me muito de ser o
Diretor Científico da PCL que ora divido com um dos maiores protesistas do
Brasil o Dr. Marco Antonio Bottino. A sua qualidade tem sido elogiada em
todos os sentidos.
JAO- Como é a sua ligação com o grupo Gnatológico Latino Americano?
A Academia Internacional de Gnatologia foi fundada na Califórnia no ano de
1927, mas por alguma circunstância e desmotivação de seus membros,
permaneceu na obscuridade nos anos 30. Passado este período, ocorreu um
fato importante que a tornou extremamente atuante. Foi quando os Drs.
MacCollum, Stallard e Charles Stuart introduziram na Odontologia os novos
conceitos gnatológicos, inspirados em uma filosofia toda especial e
idealista do Dr. Harvey Stallard, que viria revolucionar aqueles até então
empregados na reabilitação oral. Baseados nestes conceitos, surgia na
época o primeiro articulador com princípios gnatológicos construído pelo
Dr. MacCollum. Nesta mesma época, o Dr. Charles Stuart começava a fabricar
o seu famoso articulador STUART, utilizado até os dias de hoje. E a
Academia continuava a crescer em todos os sentidos. No período de 1962 a
1964 ela já contava com cerca de 300 membros que se reuniam a cada 2 anos,
quando novos conceitos eram somados aos já firmados em outros encontros
anteriores. Em 1971, estimulados pelo progresso que vinha sendo alcançado,
os europeus fundaram a Secção Européia da Academia, composta por 275
membros de 9 países distintos da Europa.
O Prof. Ripol dirigiu a nova secção até o ano de 1983, quando passou o
bastão da presidência ao Dr. Leslie Belmont, do Peru, que preside até os
dias de hoje, com cerca de 300 membros. Nesta mesma década, precisamente
em 1976 e estimulados pelos constantes conhecimentos transmitidos pelo
saudoso Dr. Peter K. Thomas e o Dr. Sumiya Hobo, era fundada a Secção
Asiática da Academia, com 1300 membros de 7 países asiáticos. Após alguns
anos de constantes trocas de informações científicas foi criada em 1995 a
Secção Australiana da Academia, inicialmente com 35 membros.
OS CONGRESSOS
A cada dois anos, sempre no 2º semestre, a Academia Latino-Americana
realiza o seu congresso, cujos fundamentos básicos são o científico e o
social. No científico são programados os chamados cursos pré-congresso,
conferências seqüenciais a cargo da maioria dos participantes dos diversos
países, mesas clínicas onde são premiados os melhores trabalhos, sempre
dando-se ênfase aos de pesquisa.
No Brasil, são três os diretores Dr. Walter Eddy Rohefs de Belo Horizonte,
Dr. Reynaldo Todescan de São Paulo e eu que estarei presidindo o XI
Congresso desta Academia que realizar-se-á em Curitiba de 14 a 18 de
Novembro do corrente ano.
A primeira impressão que se tem desta entidade é que a mesma só enfoca
atividades gnatológicas, o que não é verdade. Ela envolve todas as
especialidades pertinentes a uma Reabilitação Bucal. Neste Congresso, o
princípio é gnatológico, porém além da forma e função são discutidos todos
os meios disponíveis para a reconstrução dos dentes ausentes e dos que
perderam parte de suas estruturas. A Implantodontia, a Prótese Fixa, a
Prótese Removível, a Dentística, a Cirurgia Periodontal e tantas outras
especialidades são os carros chefes dos cursos, conferências e mesas
clínicas que far-se-ão presentes.
JAO- Que objetivos e resultados o motivaram a organizar e presidir um
Congresso da Academia Internacional de Gnatologia - Secção Latino
Americana?
Este Congresso, promovido pela Sociedade Brasileira de Reabilitação Oral
S.B.R.O. e pela Sociedade Paranaense de Prótese Dentária S.P.P.D., será
realizado pela primeira vez no Brasil e em especial por ser em Curitiba,
não deixando de ser um prêmio à minha pessoa em poder presidí-lo. Como já
participei de muitos deles em diferentes países latino americanos, o meu
objetivo é premiar a Odontologia Paranaense e Brasileira com um evento de
alto nível clínico-científico. O trabalho vem sendo árduo e espero,
juntamente com o apoio de meus colegas, que tenhamos o sucesso pretendido.
Há muitos anos venho participando dos mesmos e sem dúvida venho
enriquecendo a minha cultura odontológica. Devo sem dúvida nenhuma a esta
Academia, grande parte do meu conhecimento em benefício da Odontologia que
ofereço à meus pacientes e quero dividir esta condição com meus colegas
cirurgiões-dentistas.
JAO- Existe algo especial programado?
Já estão confirmados três cursos internacionais. Um deles sobre Cerâmicas,
que será ministrado pelo Professor Nasser Borgui - D.D.S, M.A. - San
Antonio - Texas, num total de 4 horas. Também com 4 horas de duração o
Curso de Prótese sobre Implantes, a ser ministrado pelo Professor Eduard
Eisenmann, D.D.S., PhD - Berlim - Alemanha. E o terceiro curso de 8 horas
de duração com o Professor William H. McHorris, D.D.S., - Menphis -
Tennessee, sobre Oclusão e ATM. Nos demais dias teremos aproximadamente 40
conferências internacionais seqüenciais de 30 em 30 minutos.
Além da parte científica, estão programados jantares com música e dança,
no sentido de uma grande confraternização com os colegas e suas
respectivas esposas e/ou maridos. Maiores informações podem ser obtidas
através do telefone (41) 342-1247, Ekipe Eventos.
JAO- Qual o tipo de profissional que não deve faltar a este evento?
Este evento está direcionado à todos os clínicos-gerais, aos
Periodontistas, aos Implantodontistas, aos Protesistas, aos que realizam
Dentística e aos Ortodontistas, sugerimos o curso de Oclusão que realmente
é maravilhoso.
Neste Congresso, aqueles que assim o desejarem poderão fazer
exclusivamente os cursos ou então participar por adesão às demais
atividades.
JAO- Quem são os seus ídolos na Odontologia?
Todos os professores que participaram da minha formação, em especial os
Professores Narcizo José Grein e Edson Tetu que me incentivaram a dar os
primeiros passos na carreira de Professor Universitário. O Professor
Luciano Loureiro de Melo incansável nas orientações endodônticas; o
Professor Omar Seiler de Camargo, pela sua postura e competência em suas
atividades odontológicas, o que tentei imitar; Waldir Antonio Janson e
Eoloir Passanesi que me abriram os olhos e me fizeram enxergar plenamente
todos os princípios da Oclusão e da Prótese.
Diria ainda, que todos os professores dos cursos e conferências que
contribuíram de uma forma ou de outra para o meu exercício profissional,
em especial aquele mestre do dia-a-dia, o Professor Narcizo José Grein a
quem considero “meu pai” na Odontologia. Com ele muito aprendi, sendo-lhe
eternamente grato por me fazer entender, pensar e executar a Odontologia.