Conte-nos sobre seu início
na Odontologia.
Filho de pai Cirurgião Dentista e com
dois irmãos Cirurgiões Dentistas, entusiasmei-me pela Odontologia e
graduei-me aos 21 anos de idade, em 1963, pela Universidade Católica
de Campinas, onde nasci. Durante este mesmo ano fui estagiário da
disciplina de Periodontia, cujo Professor Titular era o Dr. A. Césio
de Pádua Lima. Identificado-me profundamente com a especialidade e
contando com o apoio da família, decidi especializar-me durante o
ano de 1964 com o Prof. Fermin Carranza Jr., então professor de
Periodontia da Universidade de Buenos Aires.
Ao final deste mesmo ano, estando
desenvolvendo projetos de pesquisa com o Prof. Romulo Luis Cabrini,
professor de Patologia da mesma universidade, consegui uma bolsa de
estudos da Organização dos Estados Americanos para continuar os
estudos e pesquisas durante o ano de 1965. Neste período fui
convidado a fazer parte do corpo docente das disciplinas de
Periodontia e de Anatomia Patológica da referida universidade. No
início de 1966 defendi minha tese de doutoramento, tendo conseguido
o título de “Doutor da Universidade de Buenos Aires”.
De volta ao Brasil, instalei meu
consultório particular dedicando-me a atender meus pacientes, como
faço até os dias de hoje e também fui convidado para ser professor
assistente da disciplina de Patologia da Faculdade de Odontologia da
Universidade de São Paulo, cujo professor titular era o Prof. Dr.
José Barbosa.
Tendo sido meu
título de “Doutor em Odontologia” reconhecido pela Congregação da
USP, ocupei o cargo de Professor Assistente Doutor e o de Professor
Regente do curso noturno da referida disciplina, durante 15 anos. O
título de Doutor permitiu-me que de 1977 até 1980, fosse professor
titular de Periodontia da Faculdade de Odontologia de Bragança
Paulista, de 1981 até 1985, da Faculdade de Odontologia da OSEC,
atual UNISA, de 1983 até 2003, da Faculdade de
Odontologia da Zona Leste, atual UNICID e de 2002 até 2004, da
Faculdade de Odontologia da FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas,
onde também exerci o cargo de Diretor.
Quem
o influenciou a fazer Odontologia?
Foi
uma influência familiar. O grande Guru do clã foi meu pai Sylvino
Dotto que sem dúvida alguma foi o meu maior ídolo, não só na
profissão, mas também na vida. Além dele e de dois irmãos, existiram
mais 14 “Dottos”, entre tios, sobrinhos, primos e cunhados,
exercendo a Odontologia.
Quais suas lembranças do tempo de
faculdade?
Éramos 80 alunos, 70
homens e 10 mulheres. Eu era o mais jovem da turma e portanto não me
casei com nenhuma delas. Eu morava a meia quadra da faculdade e
mesmo assim consegui ficar reprovado por faltas em Fisiologia no 1˚
ano. A aula era ás 7:00 horas da manhã. Impossível levantar-me tão
cedo. Era a primeira vez que alguém foi reprovado nesta matéria. O
professor, Arlindo Girardi Jacó, quase chorou por isto. Entre
outros, tivemos como grandes professores o Dr. A. Césio de Pádua
Lima, na Periodontia, o Dr. Mario Graziani, na Cirurgia, o Dr. Mario
de Francisco, na Anatomia, o Dr. Francisco Degni, em Materiais
Dentários, o Dr. Eugênio Zerlotti, na Endodontia e o Dr. Joaquim
Ferreira Lima, na Dentística.
Como foi seu início na profissão?
O início da minha
atividade clínica só ocorreu após o retorno do curso de pós
graduação e doutoramento, em 1966. Aluguei duas salas de um conjunto
do Dr. Penteado, na Rua Marconi 31. Neste edifício também trabalhava
o Dr. Quintela e outros profissionais importantes da época.
Qual foi o marketing que usou para
começar?
Eu fiz um pequeno marketing boca a boca, junto aos colegas da região central da cidade
(Praça Dom José Gaspar e Rua Barão de Itapetininga), amigos do meu
pai (que era bem relacionado em São Paulo), para receber indicações
de clientes para periodontia. Não funcionou. Era um problema de
“geração”. Resolvi começar a divulgar o que eu aprendi na pós
graduação, insinuando-me na APCD, com conferências, propostas de
cursos e também ajudando na organização dos congressos de
Odontologia. Começou a dar resultados.
Qual a marca do seu primeiro
equipamento?
As opções eram poucas.
Escolhi um da Atlante, orientado pelo vendedor Moisés (que até hoje
é um grande amigo), antes funcionário da Odontopan, loja de
materiais dentários na Avenida Ipiranga, quando esta tinha duas mãos
de direção e canteiro central. A Atlante foi posteriormente comprada
pela Dabi de Ribeirão Preto, hoje Dabi Atlante.
Lembra quem foi seu primeiro
paciente?
Na faculdade, ainda como
aluno do terceiro ano, foi o Claude Paquay, um belga, com quem
estudei, desde o primário até o colegial. Ele não tinha nenhuma
cárie e eu supondo que as fissuras oclusais de um primeiro molar
inferior pudessem ser causa de futura cárie, fiz um preparo oclusal
com extensão para prevenção, como mandava a Santa Madre Igreja na
época, restaurando-o com amalgama de prata. 45 anos após, sem
nenhuma cárie, ele continua com a única mesma restauração, meio
opaca e expandida no volume. Talvez nunca tivesse tido a cárie que
eu pensei que teria.
No consultório, foi o Sr.
Alberto Valério, um português rico, dono de inúmeros prédios na
região central. Foi indicado pelo Dr. Kurt Faltin, contemporâneo meu
de faculdade em Campinas, que fazia correção ortodôntica no filho
dele.
Qual foi o seu atendimento mais
difícil?
A extração de um siso
inferior cujas raízes, como se fosse um anel, envolviam o nervo
dentário inferior. Foi necessário um bom estudo tomográfico para que
eu pudesse dimensionar exatamente as áreas do dente que necessitavam
ser cortadas, sem lesionar o nervo. Muita adrenalina e bom
instrumental me ajudaram.
E um que tenha sido o mais
gratificante?
São muitos. A
gratificação, dentre outros casos, vem quando conseguimos restaurar
a estética de dentes anteriores de pacientes jovens, principalmente
dos acidentados.
Sabe o nome do seu primeiro
protético?
Como eu sempre fui
periodontista e depois implantodontista cirúrgico, nunca precisei de
protéticos. Entretanto quando montei minha clínica atual, onde
começamos também a fazer próteses, foi o laboratório do Euripedes
Vedovato o primeiro a me socorrer, através do Sérgio que ali
trabalhava.
E da sua primeira atendente /
auxiliar?
Srta. Genê Sallum, em
1966. Posteriormente a Srta. Dirce Parada, que trabalhou comigo
durante 30 anos, até sua aposentadoria. Melhor que ela, impossível.
Tem algum filho Cirurgião Dentista?
Tenho dois filhos: a
Silvana que vive de artes plásticas e o Bruno que se forma em
Direito neste final de ano. Casos semelhantes de Cirurgiões
Dentistas que não tem filho CD, acontecem com frequência. Entre
outros, o Dr. João Humberto Antoniazzi, Dr. Marco Antonio Bottino,
Dr. Cesar Anauate, Dr. Riad Gorab, Dr. Raphael Baldacci Filho e Dra.
Carolina Mancuso, só para citar os que lembro agora. Acho que este
dado é suficiente para a realização de um simpósio sobre este
assunto.
Como está vendo o presente momento
na Odontologia?
O momento atual é
nebuloso. Cirurgiões Dentistas reclamando da falta de clientes e do
alto custo para a manutenção de seus consultórios. Clientes
reclamando dos custos dos Cirurgiões Dentistas particulares e
recorrendo a convênios odontológicos ou de planos de saúde
odontológicos que, por sua vez, não prestam um bom serviço e nem
pagam adequadamente o colega que aí trabalha. Inclusive grandes
instituições bancárias estão investindo neste segmento de negócios,
após a saturação do mercado na área médica e atuam da mesma forma
que qualquer plano de saúde: pagam mal o profissional.
Qual é a causa desta situação
enfrentada hoje?
Número exagerado de
faculdades de Odontologia. Número exagerado de Cirurgiões Dentistas
que foram atraídos para elas, com a idéia de que a Odontologia era
um bom negócio. Falta de qualificação de muitas das faculdades e dos
próprios Cirurgiões Dentistas. Falta de saber lidar com a
Odontologia, como se fosse uma empresa. Falta de conhecimentos de
propaganda e marketing, que deveriam existir nas faculdades.
Que solução vê mais indicada para a
profissão?
A imagem clássica do
Cirurgião Dentista particular sozinho, sem praticar algumas
especialidades, uma enfermeira, uma secretária, um conjunto de duas ou
três salas, uma linha de telefone e uma vaga na garagem, está em extinção.
Nos dias de hoje este modelo é de um custo muito alto, que obriga o
profissional solo, a praticar preços que vão ficando altos para o
cliente, sem poder oferecer a comodidade e o conforto que eles
querem. As exigências de novos equipamentos e novos materiais ajudam
muito neste custo. A competitividade atual para o recrutamento de
novos pacientes, devido aos custos de propaganda e marketing, são
outro fator impeditivo de uma atuação solo do Cirurgião Dentista.
Não tem saída. Somente um
novo arranjo, um novo reagrupamento dos Cirurgiões Dentistas é que
terá sucesso. Isto se dará sem nenhuma sombra de dúvida, através de
clínicas particulares com características empresariais. Várias
formas de se associarem existirão, desde o condomínio entre clínicas
já existentes, com uma administração profissional unificada, além
do marketing único, ou uma só clínica com alguns sócios
colegas de turma, de diversas especialidades e o mesmo empenho na
administração e marketing. Até a compra de uma franquia poderá ser
considerada.
A que atribui o seu sucesso
profissional?
Talvez ao fato de ter me
dedicado, logo após formar, a buscar uma formação profissional mais
específica, onde pude me especializar em Periodontia e Patologia
Oral. Esta formação e doutoramento, deram-me a segurança para
relacionamento com os clientes, assim como para a atividade docente
que iniciei em 1966.
Como espera ser o seu futuro
profissional?
Meu futuro é hoje. Quando
iniciei uma grande clínica de tratamentos odontológicos em 2005, eu
já sabia que o sucesso seria grande. Sei claramente o que deve ser
feito para repetir o mesmo modelo, inclusive para se evitar os
pontos negativos que nela ocorreram. Nada é diferente do que falamos
acima.
Deixe uma sugestão para os mais
novos:
Esqueçam a idéia de ser
Cirurgião Dentista solo. Unidos vencerão!
Foi um privilégio esta entrevista.
Nos encontraremos na festa dos 20 Anos da Osseointegração, da qual
somos pioneiros, este um outro motivo para a nossa afinidade. Saúde
e sucesso!