ODONTO ENTREVISTA Nº 03

Conhecendo e reconhecendo

 

 

O entrevistado de hoje é um dos meus grandes amigos. Durante dez anos tive loja em frente à APCD e SOESP, época em que o Dottore Dotto, como o chamo carinhosamente, era professor de um dos primeiros cursos de especialização em Periodontia do Brasil. Quase todas as quintas feiras ele passava pela loja, antes de entrar em aula, para ver as novidades e contar as suas. Aprendi muito de relações internacionais e nacionais em Odontologia, com um dos maiores mestres que conheço. Tanto como professor,  como amigo.

E assim, aqui  agradeço.

 

DR. CARLOS ALBERTO DOTTO

 

Conte-nos sobre seu início na Odontologia.

Filho de pai Cirurgião Dentista e com dois irmãos Cirurgiões Dentistas, entusiasmei-me pela Odontologia e graduei-me aos 21 anos de idade, em 1963, pela Universidade Católica de Campinas, onde nasci. Durante este mesmo ano fui estagiário da disciplina de Periodontia, cujo Professor Titular era o Dr. A. Césio de Pádua Lima. Identificado-me profundamente com a especialidade e contando com o apoio da família, decidi especializar-me durante o ano de 1964 com o Prof. Fermin Carranza Jr., então professor de Periodontia da Universidade de Buenos Aires.

 

Ao final deste mesmo ano, estando desenvolvendo projetos de pesquisa com o Prof. Romulo Luis Cabrini, professor de Patologia da mesma universidade, consegui uma bolsa de estudos da Organização dos Estados Americanos para continuar os estudos e pesquisas durante o ano de 1965. Neste período fui convidado a fazer parte do corpo docente das disciplinas de Periodontia e de Anatomia Patológica da referida universidade. No início de 1966 defendi minha tese de doutoramento, tendo conseguido o título de “Doutor da Universidade de Buenos Aires”.

De volta ao Brasil, instalei meu consultório particular dedicando-me a atender meus pacientes, como faço até os dias de hoje e também fui convidado para ser professor assistente da disciplina de Patologia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, cujo professor titular era o Prof. Dr. José Barbosa.

Tendo sido meu título de “Doutor em Odontologia” reconhecido pela Congregação da USP, ocupei o cargo de Professor Assistente Doutor e o de Professor Regente do curso noturno da referida disciplina, durante 15 anos. O título de Doutor permitiu-me que de 1977 até 1980, fosse professor titular de Periodontia da Faculdade de Odontologia de Bragança Paulista, de 1981 até 1985, da Faculdade de Odontologia da OSEC, atual UNISA, de 1983 até 2003, da Faculdade de Odontologia da Zona Leste, atual UNICID e de 2002 até 2004, da Faculdade de Odontologia da FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas, onde também exerci o cargo de Diretor.

Quem o influenciou a fazer Odontologia?
Foi uma influência familiar. O grande Guru do clã foi meu pai Sylvino Dotto que sem dúvida alguma foi o meu maior ídolo, não só na profissão, mas também na vida. Além dele e de dois irmãos, existiram mais 14 “Dottos”, entre tios, sobrinhos, primos e cunhados, exercendo a Odontologia.

Quais suas lembranças do tempo de faculdade?
Éramos 80 alunos, 70 homens e 10 mulheres. Eu era o mais jovem da turma e portanto não me casei com nenhuma delas. Eu morava a meia quadra da faculdade e mesmo assim consegui ficar reprovado por faltas em Fisiologia no 1˚ ano. A aula era ás 7:00 horas da manhã. Impossível levantar-me tão cedo. Era a primeira vez que alguém foi reprovado nesta matéria. O professor, Arlindo Girardi Jacó, quase chorou por isto. Entre outros, tivemos como grandes professores o Dr. A. Césio de Pádua Lima, na Periodontia, o Dr. Mario Graziani, na Cirurgia, o Dr. Mario de Francisco, na Anatomia, o Dr. Francisco Degni, em Materiais Dentários, o Dr. Eugênio Zerlotti, na Endodontia e o Dr. Joaquim Ferreira Lima, na Dentística.  

Como foi seu início na profissão?
O início da minha atividade clínica só ocorreu após o retorno do curso de pós graduação e doutoramento, em 1966. Aluguei duas salas de um conjunto do Dr. Penteado, na Rua Marconi 31. Neste edifício também trabalhava o Dr. Quintela e outros profissionais importantes da época.

Qual foi o marketing que usou para começar?
Eu fiz um pequeno marketing boca a boca, junto aos colegas da região central da cidade (Praça Dom José Gaspar e Rua Barão de Itapetininga), amigos do meu pai (que era bem relacionado em São Paulo), para receber indicações de clientes para periodontia. Não funcionou. Era um problema de “geração”. Resolvi começar a divulgar o que eu aprendi na pós graduação, insinuando-me na APCD, com conferências, propostas de cursos e também ajudando na organização dos congressos de Odontologia. Começou a dar resultados.

Qual a marca do seu primeiro equipamento?
As opções eram poucas. Escolhi um da Atlante, orientado pelo vendedor Moisés (que até hoje é um grande amigo), antes funcionário da Odontopan, loja de materiais dentários na Avenida Ipiranga, quando esta tinha duas mãos de direção e canteiro central. A Atlante foi posteriormente comprada pela Dabi de Ribeirão Preto, hoje Dabi Atlante.

Lembra quem foi seu primeiro paciente?
Na faculdade, ainda como aluno do terceiro ano, foi o Claude Paquay, um belga, com quem estudei, desde o primário até o colegial. Ele não tinha nenhuma cárie e eu supondo que as fissuras oclusais de um primeiro molar inferior pudessem ser causa de futura cárie, fiz um preparo oclusal com extensão para prevenção, como mandava a Santa Madre Igreja na época, restaurando-o com amalgama de prata. 45 anos após, sem nenhuma cárie, ele continua com a única mesma restauração, meio opaca e expandida no volume. Talvez nunca tivesse tido a cárie que eu pensei que teria. No consultório, foi o Sr. Alberto Valério, um português rico, dono de inúmeros prédios na região central. Foi indicado pelo Dr. Kurt Faltin, contemporâneo meu de faculdade em Campinas, que fazia correção ortodôntica no filho dele.

Qual foi o seu atendimento mais difícil?
A extração de um siso inferior cujas raízes, como se fosse um anel, envolviam o nervo dentário inferior. Foi necessário um bom estudo tomográfico para que eu pudesse dimensionar exatamente as áreas do dente que necessitavam ser cortadas, sem lesionar o nervo. Muita adrenalina e bom instrumental me ajudaram.

E um que tenha sido o mais gratificante?
São muitos. A gratificação, dentre outros casos, vem quando conseguimos restaurar a estética de dentes anteriores de pacientes jovens, principalmente dos acidentados.

Sabe o nome do seu primeiro protético?
Como eu sempre fui periodontista e depois implantodontista cirúrgico, nunca precisei de protéticos. Entretanto quando montei minha clínica atual, onde começamos também a fazer próteses, foi o laboratório do Euripedes Vedovato o primeiro a me socorrer, através do Sérgio que ali trabalhava.

E da sua primeira atendente / auxiliar?
Srta. Genê Sallum, em 1966. Posteriormente a Srta. Dirce Parada, que trabalhou comigo durante 30 anos, até sua aposentadoria. Melhor que ela, impossível.

Tem algum filho Cirurgião Dentista?
Tenho dois filhos: a Silvana que vive de artes plásticas e o Bruno que se forma em Direito neste final de ano. Casos semelhantes de Cirurgiões Dentistas que não tem filho CD, acontecem com frequência. Entre outros, o Dr. João Humberto Antoniazzi, Dr. Marco Antonio Bottino, Dr. Cesar Anauate, Dr. Riad Gorab, Dr. Raphael Baldacci Filho e Dra. Carolina Mancuso, só para citar os que lembro agora. Acho que este dado é suficiente para a realização de um simpósio sobre este assunto.

Como está vendo o presente momento na Odontologia?
O momento atual é nebuloso. Cirurgiões Dentistas reclamando da falta de clientes e do alto custo para a manutenção de seus consultórios. Clientes reclamando dos custos dos Cirurgiões Dentistas particulares e recorrendo a convênios odontológicos ou de planos de saúde odontológicos que, por sua vez, não prestam um bom serviço e nem pagam adequadamente o colega que aí trabalha. Inclusive grandes instituições bancárias estão investindo neste segmento de negócios, após a saturação do mercado na área médica e atuam da mesma forma que qualquer plano de saúde: pagam mal o profissional.

Qual é a causa desta situação enfrentada hoje?
Número exagerado de faculdades de Odontologia. Número exagerado de Cirurgiões Dentistas que foram atraídos para elas, com a idéia de que a Odontologia era um bom negócio. Falta de qualificação de muitas das faculdades e dos próprios Cirurgiões Dentistas. Falta de saber lidar com a Odontologia, como se fosse uma empresa. Falta de conhecimentos de propaganda e marketing, que deveriam existir nas faculdades.

Que solução vê mais indicada para a profissão?
A imagem clássica do Cirurgião Dentista particular sozinho, sem praticar algumas especialidades, uma enfermeira, uma secretária, um conjunto de duas ou três salas, uma linha de telefone e uma vaga na garagem, está em extinção. Nos dias de hoje este modelo é de um custo muito alto, que obriga o profissional solo, a praticar preços que vão ficando altos para o cliente, sem poder oferecer a comodidade e o conforto que eles querem. As exigências de novos equipamentos e novos materiais ajudam muito neste custo. A competitividade atual para o recrutamento de novos pacientes, devido aos custos de propaganda e marketing, são outro fator impeditivo de uma atuação solo do Cirurgião Dentista.
Não tem saída. Somente um novo arranjo, um novo reagrupamento dos Cirurgiões Dentistas é que terá sucesso. Isto se dará sem nenhuma sombra de dúvida, através de clínicas particulares com características empresariais. Várias formas de se associarem existirão, desde o condomínio entre clínicas já existentes, com uma administração profissional unificada, além do marketing único, ou uma só clínica com alguns sócios colegas de turma, de diversas especialidades e o mesmo empenho na administração e marketing. Até a compra de uma franquia poderá ser considerada.

A que atribui o seu sucesso profissional?
Talvez ao fato de ter me dedicado, logo após formar, a buscar uma formação profissional mais específica, onde pude me especializar em Periodontia e Patologia Oral. Esta formação e doutoramento, deram-me a segurança para relacionamento com os clientes, assim como para a atividade docente que iniciei em 1966.

Como espera ser o seu futuro profissional?
Meu futuro é hoje. Quando iniciei uma grande clínica de tratamentos odontológicos em 2005, eu já sabia que o sucesso seria grande. Sei claramente o que deve ser feito para repetir o mesmo modelo, inclusive para se evitar os pontos negativos que nela ocorreram. Nada é diferente do que falamos acima.

Deixe uma sugestão para os mais novos:
Esqueçam a idéia de ser Cirurgião Dentista solo. Unidos vencerão!

Foi um privilégio esta entrevista. Nos encontraremos na festa dos 20 Anos da Osseointegração, da qual somos pioneiros, este um outro motivo para a nossa afinidade. Saúde e sucesso!

 

Antônio Inácio Ribeiro   ribeiro@odontex.com.br

Crie o hábito de sempre enviar estes e-mails para a sua lista de amigos Dentistas
Se não desejar mais recebê-los, apenas responda com um REMOVER.

 

20 Anos
Últimas vagas!
Ainda não garantiu sua presença no mais importante acontecimento da Implantodontia em 2009?
 

Então não perca mais tempo. Faltam poucas vagas para o congresso “Osseointegração – 20 Anos da Experiência Brasileira”, que vai oferecer, durante os dias 3, 4 e 5 de setembro, no Anhembi, em São Paulo, uma incomparável programação científica e social.

 
Clique aqui e participe do encontro que vai entrar para a história da Implantodontia nacional. Já são mais de 3000 inscritos!
 
 
20 Anos