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ODONTO ENTREVISTA Nº 29 |
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PROFESSOR ARTÊMIO LUIZ ZANETTI
Nosso entrevistado da semana é Professor Titular do Departamento de Prótese Dental da FOUSP, Professor Titular da Disciplina de Prótese da UNICID, Professor Coordenador dos cursos de especialização em Prótese e Implante UNICID, Coordenador do CEIO (Centro de Estudos de Implantes Osseointegrados), Professor Responsável pelo curso de mestrado profissionalizante em Prótese da SLMANDIC e Professor Orientador de mestrado e doutorado da SLMANDIC, com uma vida dedicada ao ensino e à Odontologia, tanto que seus dois filhos, Raquel e Randal, seguiram os caminhos do pai na escolha da profissão.
Quem o influenciou a fazer odontologia? Foi o acaso! Peço a permissão para justificar esse acaso. Nasci e morava na Vila Prudente, em São Paulo, um bairro na época pouco saneado sujeito a enchentes. A minha casa que, felizmente, ficava em local mais alto não estava sujeita as cheias. Quando tinha 11 anos de idade tive uma crise de asma muito forte (sou asmático desde criança) e fui internado no Hospital Humberto Primo, na região da Avenida Paulista. Melhorei e voltei para casa, mas o médico que me atendeu quis conhecê-la. Quando viu a várzea na frente de casa, pediu ao meu pai que se mudasse o mais rápido possível (naquele tempo associava-se asma a insalubridade, um engano). Meu pai teve que abandonar a casa que era própria e alugar uma casa, e por influência de um compadre, mudamos para o alto do bairro do Ipiranga, lugar mais salubre. O compadre do meu pai tinha um filho com 12 anos de idade, a mesma que eu tinha, pois nascemos no mesmo dia, mês e ano. Este filho que trabalhava em um laboratório de prótese dentária na Rua Barão de Itapetininga, rua e local mais nobre de São Paulo nos anos de 40-50, que sabia da necessidade de um office boy em um laboratório no mesmo prédio. Foi assim que eu comecei em prótese, varrendo chão, servindo café e fazendo entregas.
Onde fez faculdade? Após muita luta, trabalhando durante o dia e estudando a noite, consegui ingressar na F.O.U.S.P., curso noturno, isto no ano de 1955. As lembranças desse tempo são as melhores possíveis, pois sendo um curso noturno, todos os colegas eram altamente disciplinados, porque estudavam e trabalhavam, tinham consciência do que era disciplina e pontualidade.
Como foi seu inicio na profissão? Tive duas profissões correlatas: a de técnico, que no meu tempo simplesmente chamava-se protético, que comecei como já dito acima, com 12 anos de idade. Aos 17 anos, em exame na F.O.U.S.P. realizado em 1947, obtive o certificado que possibilitava formar meu próprio laboratório. Isso ocorreu somente no ano de 1954 e o nome do primeiro laboratório era: Laboratório de Prótese Do Art. Posteriormente, adquiri junto com um sócio, um dos maiores laboratórios de São Paulo na época, que se chamava Laboratório de Prótese Bandeirantes. A segunda profissão de Cirurgião Dentista começou com a instalação do primeiro consultório na Rua Bom Pastor Ipiranga, ao lado do Museu do Ipiranga. Mas continuava com o laboratório e já nesta ocasião, formado ao final de 1957, fui convidado pelo Professor Catedrático Carlos Aldravandi a permanecer na faculdade como assistente voluntário. Resumindo: A partir de 1958 tinha três atividades simultâneas: Protético, Cirurgião Dentista e Professor Assistente de Prótese da F.O.U.S.P.
Lembra quem foi seu primeiro paciente? Se lembro! Meu primeiro consultório ficava próximo ao Museu do Ipiranga e havia um pronto socorro médico público. Um paciente com um abscesso do tamanho de um ovo de galinha e com dor, se dirigiu ao P.S. e os médicos sugeriram que ele fosse ao meu consultório. Já era noite, hora de fechar, quando ele e mais um acompanhante adentraram no consultório. Eu afoito e querendo ajudar, drenei o abscesso e enchi quase um gral de borracha de pus, de graça, pois era indigente. Nunca mais esqueci, pois nem jantei naquela noite.
Qual foi seu caso mais difícil? Também não me esqueço. Foi também no inicio, primeiro ou segundo ano de formado, o fracasso na tentativa de remover um terceiro molar inferior incluso. Neste dia me convenci que a minha missão era construir e não extrair.
E um que tenha sido mais gratificante? São vários, mas um deles, esposa de um senador, eu realizei uma reabilitação total com próteses fixas articuladas e partes removíveis (na época ainda não havia implantes) boca toda, e na hora do acerto final o senador mostrou-me sua Mercedes maravilhosa e disse: “A boca da minha mulher esta mais cara que minha Mercedes”.
Quais foram os seus maiores e melhores momentos? Meus maiores e melhores momentos são inúmeros, mas destacaria com certeza a minha primeira contratação como professor de prótese da minha querida F.O.U.S.P. e todos os degraus conseguidos, doutoramento, livre-docência, professor adjunto até finalmente professor titular e decano da F.O.U.S.P. Isto é rotina de uma carreira docente na U.S.P., mas para aquele menino que começou varrendo chão de um laboratório de prótese foi muito mais emocionante.
Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório? Lembro! Paciente muito distraído, após enxaguar a boca, pedi que cuspisse, e ele assim fez, só que para frente, na bandeja de instrumentos esterilizados, não na cuspideira.
Tem algum parente Cirurgião Dentista? Os mais próximos são os meus filhos que muito me orgulham, Randal Luiz Zanetti que hoje é um grande empresário e Raquel V. Zanetti mestre e doutora que muito me auxilia nos cursos de pós-graduação.
Quem é o seu maior ídolo na odontologia? Citar um é muito difícil. Gostaria de citar aqueles que tiveram participação direta na minha vida: Palmiro Fava, Dioracy Fonterrada Vieira ambos da U.S.P. e infelizmente já falecidos; o professor Mario Martignoni da Itália, também já falecido, e Aníbal Alonso, da Argentina.
Quem são seus grandes amigos na profissão? São muitos, seria impossível citar todos os seus nomes, professores que colaboraram comigo (em torno de 25), tanto no curso de graduação, especialização da UNICID, mestrado e doutorado na São Leopoldo Mandic, aos quais eu aproveito para homenagear e agradecer. Aos colegas da Sociedade Brasileira de Reabilitação Oral (S.B.R.O.) da qual cheguei a ser presidente, e tantos outros mais, muito obrigado pelo apoio e amizade.
E quem fez mais pela classe nestes anos todos? Difícil responder, pois são muitos: Miguel Nobre, do Conselho Federal de Odontologia, Emil Razuk, do Conselho Regional de São Paulo, Carlos de Paula Eduardo, diretor da F.O.U.S.P. São tantos, mas há uma pessoa que gostaria de mencionar: José Luiz Cintra Junqueira, que nos últimos anos fez de uma “escolinha” E.P.O. (Escola Paulista de Odontologia) o maior instituto de pesquisa e ensino odontológico, a São Leopoldo Mandic.
Qual seu livro e autor preferido na profissão? Com certeza é o livro Precisão em Prótese Parcial Fixa de Mario Martignoni que eu tive a honra de fazer sua tradução para o português, honra que engrandeceu quando fizemos o lançamento oficial com a presença do próprio Mario e tive a satisfação de autografar junto com ele uma centena de livros, durante um evento da S.B.R.O. em São Paulo.
Qual a revista odontológica que mais gosta de ler? Por força de ser professor orientador de mestrado e doutorado sou obrigado a manter contato com todas, ou quase todas as publicações, principalmente as Qualis A internacionais, mas destacaria o Journal Prothetic Dentistry por estar mais voltada para a Prótese Dental.
Como está vendo o presente momento na Odontologia? Com muita preocupação. Os ingressados ao curso estão muito despreparados em conhecimentos gerais, os professores e as faculdades não conseguem mais formar o Cirurgião Dentista, mas simplesmente, informá-los do que é esta ciência. Isto é muito preocupante. Enquanto as autoridades não conseguem cursos de primeiro e de segundo graus mais eficazes, cada vez mais, os alunos entrarão despreparados nas universidades. Estas passarão simplesmente a informar, necessitando cada vez mais cursos de pós-graduação, latus, stricto senso para tentar formá-los.
Qual caminho vê como mais indicado para a profissão? Para melhor formação, talvez uma residência de 1 ou 2 anos após a formatura. Como exercício, o agrupamento de vários profissionais. Explico: nossa profissão está ficando muito cara para o exercício individual, e assim como os médicos, a associação de vários colegas poderia minimizar.
A que atribui o seu sucesso profissional? Várias razões: 1º talvez por ter sido protético o meu enfrentamento clínico tenha ocorrido com mais desenvoltura desde o inicio das atividades clínicas. 2º com certeza permanecer dentro da faculdade logo após a minha formatura executando trabalhos protéticos para os alunos: “é ensinando que se aprende”. 3º ter mantido na faculdade o contato com professores mais experientes. 4º a paixão pela profissão!
Quem o ajudou no crescimento profissional? Destaco dois grandes professores que me antecederam e muito me orientaram tecnicamente no campo de prótese, o professor Palmiro Fava, e cientificamente meu orientador da tese de doutorado professor Dioracy Fonterrada Vieira, ambos infelizmente já falecidos.
Sente-se realizado profissionalmente? R: Sim! Se Deus me der nova vida, faço tudo de novo.
Como espera ser o futuro da profissão? Cada vez mais tecnológica e menos científica.
Deixe uma sugestão ou mensagem para os mais novos: Para os mais novos, gostaria de dizer que a nossa profissão é linda, nos da à faculdade de criar, de embelezar, mas ela também é muito desgastante, portanto tem que ser assumida com paixão, se não for assim, vem à frustração. Para encerrar vou me aproveitar daquela expressão: Odontologia ame-a ou deixe-a.
Professor Zanetti, sua vida é uma história de amor pela Odontologia e o sucesso de seus filhos, a certeza de que o exemplo foi bem passado. Estou certo que muitos dos que lerem sua entrevista terão mais motivos para esperar um futuro melhor, seguindo seus exemplos e ensinamentos. Foi um privilégio esta entrevista, pelo que muito lhe agradeço.
Antônio Inácio Ribeiro ribeiro@odontex.com.br
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