ODONTO ENTREVISTA Nº 17

Conhecendo e reconhecendo colegas

 

ANA JÚLIA PERROTTI GARCIA

 

Alternando o perfil dos entrevistados, hoje teremos uma entrevistada. Ela é formada em Odontologia pela FOUSP de São Paulo. Sempre trabalhou com ensino de língua inglesa, e o Dental English (Inglês Odontológico), uma área que foi surgindo naturalmente, a partir do pedido de alguns alunos e editores. Proficiency in English pela Universidade de Cambridge (Inglaterra). Mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Especialista em Tradução pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP-SP). Bacharel em Tradução e Interpretação pela UniFMU (São Paulo, Brasil). Traduziu mais de 25 grandes livros de texto, médicos e odontológicos, para editoras brasileiras e internacionais. Autora de 6 dicionários e de 3 cursos de inglês para profissionais da área da saúde e de letras. Com certeza uma Cirurgiã Dentista diferente!

 

Quem a influenciou a fazer Odontologia?
Minha mãe queria que eu fosse “doutora” (médica, na verdade). Minha tia Margarida fez Odonto USP no tempo da Três Rios. Quando ela passou pela Odontopediatria, eu tinha uns cinco ou seis anos e fui me tratar com ela.  Fiquei encantada com aquele prédio antigo, suas histórias, os quadros dos diretores. Acho que essas imagens ficarão para sempre.  

Onde fez e quais suas lembranças do tempo de faculdade?
Fiz Odonto na USP, uma das primeiras turmas a não ter mais aulas na Três Rios (eu achei uma pena!), mas já no primeiro ano, de xereta, eu e uma amiga íamos à Emergência (que nessa época ainda era no Bom Retiro), então pude “curtir” um pouco aquele prédio maravilhoso. Fomos praticamente os primeiros a usarmos as clínicas no HU (Hospital Universitário), um privilégio! Era como se tivessem dado um carro top de linha, todo equipado, para um aluno de auto-escola rsrsr. 

Como foi seu início na profissão?
Sempre digo que minha vida na prática clínica foi maravilhosa: meus pacientes eram super queridos, a maioria pessoas do bairro paulistano da Lapa (onde nasci e morei praticamente a vida toda). Eu tinha um convênio com a União Fraterna da Lapa, cujos associados eram em sua maioria pessoas residentes no bairro há décadas. Tive muitos pacientes acima de 60 anos, naquela época, o que me fez até pensar em me especializar em Odontogeriatria (que, aliás, era uma especialidade existente apenas no exterior). 

Lembra quem foi seu primeiro paciente?
Muitos parentes diziam que, assim que eu me formasse, iriam ao consultório. Pensei até que formaria fila (risos). Eles até vieram a ser sim meus pacientes, mas só depois de uns seis meses. Os primeiros mesmo foram Norma e Jacó Beckers, que já eram amigos da minha mãe, e passaram a ser grandes amigos da gente. Foram até meus padrinhos de casamento. 

Qual foi o seu atendimento mais difícil?
Certa vez fui extrair um terceiro molar de uma menina linda, que ia se formar no curso de modelo dali a uma semana. Eu já havia feito diversas exos, e cirurgias em dentes retidos de outros pacientes, então achei que nada mais pudesse ser novidade. E quem disse que o dente saiu? Na radiografia não parecia anquilosado, mas nada tirou o “bichinho” de lá. O pai dela era dono da gráfica em frente ao consultório, e eu fiquei pensando como ia dizer para ele que não tinha conseguido fazer a cirurgia. Não tinha jeito, era melhor saber por mim do que pela filha. Ao “final” do procedimento, chamei-o e comecei a explicar a técnica, a dificuldade que é tirar um dente que está dentro do osso, etc. Ele, só me olhava. E eu, suando, e pensando onde ia arrumar outra gráfica para fazer meus cartões (naquele tempo a gente só fazia cartões em gráfica). Nisso, quando por fim falei que o dente continuava lá, ele me olhou sério, fez uma pausa (segundos que pareceram horas), sorriu e exclamou “Ela deve ter puxado a mim”. “O que?”, perguntei, “Como assim?”. E ele me disse que nunca um dentista conseguiu “tirar” um dente dele em uma sessão só. Que sempre era preciso tentar umas duas ou três vezes para conseguir tirar os dentes dele, etc. Aliviada, aprendi mais uma: passei a perguntar sobre a história dentária dois pais, quando fazia a anamnese de pacientes mais jovens.
Sim, ela ficou com o rosto um pouquinho inchado no dia da formatura do curso de modelo, mas me disse que ninguém notou. 

E um que tenha sido o mais gratificante?
A filha do meu contador estava descendo a rua e escorregou na areia, bateu a boca no chão e quebrou o incisivo central em três pontos. Era um feriado, e eu só havia ido ao consultório para dar aquela geral nas fichas, planejar a próxima semana, e surge a mocinha, com os pedaços de dente na mão, misturados com uma areia grossa, de cor clara, o que me levou a ficar um tempo definindo o que era dente e o que era areia. Ela tinha mordida topo a topo, o que tornava bastante improvável que a colagem dos pedaços fosse ter vida longa. Entretanto, a reconstrução estética ficou perfeita, e durou muitos anos. Ela formou-se em contabilidade e assumiu o escritório do pai, então passei a vê-la com mais frequência, e sempre que ela sorria, eu pensava "isso “ficou muito bom”. 

Sabe o nome da sua primeira atendente / auxiliar?
Neiva, primeira e única, trabalhou comigo durante muitos anos, e só parou quando eu mudei de São Paulo para o interior. Foi uma parceria muito legal. 

Lembra de algum caso pitoresco acontecido no consultório?
Acredito que a coisa mais pitoresca que acontecia no meu consultório era a maneira como, entre uma conversa e outra, eu ia transformando meus pacientes em amigos, e de amigos em alunos do meu curso de inglês. 

Qual foi o marketing que usou para começar?
O fato de estar em um bairro há muitos anos, acredito que tenha sido meu principal cartão de visitas. O convênio com a União Fraterna também alavancou muita coisa, pois apenas partes das famílias tinham o convênio. Os demais familiares vinham indicados pelos associados, e eram particulares. 

Tem algum filho ou parente Cirurgião Dentista?
Tudo começou com minha tia Margarida. Dela, uma filha é dentista e a outra é casada com um CD. Ontem mesmo estávamos em uma festa de família, aniversário de um ano do filhinho da minha irmã (ela e o marido também são Cirurgiões Dentistas), e eu conversava com um primo (Dentista, claro) e notei haviam mais oito Dentistas na festa (sendo cinco parentes e os demais colegas dos pais do aniversariante). Foi inevitável exclamar: “Gente, esta é a festa em família com mais Dentistas por metro quadrado que já se viu!” 

Quem é seu maior ídolo na Odontologia?
Tem muita gente boa na nossa profissão, seria bem difícil escolher um, pois estaria desmerecendo outros igualmente excepcionais. Sendo assim, vou plagiar o programa musical, e falar de alguns “Ídolos” que tenho: Em termos de amizade, e competência, não tenho como deixar de citar o Prof. Waldir Maluf, da disciplina de Materiais Dentários da USP, que foi um grande amigo durante a faculdade; por sua seriedade e amor às aulas e aos alunos, além de ser um ótimo clinico; O Prof. Moacyr da Silva, que por ser dentista e advogado foi um “norte” no momento em que decidi fazer a segunda faculdade. Ele nem deve ser lembrar, mas uma vez, quando era sua aluna na Odonto Legal, fui a um restaurante com um amigo e o Prof. Moacyr estava em uma mesa, de terno, com um monte de advogados. Eu nem poderia imaginar que ele, estando com tanta gente “importante”, iria se levantar, vir até a minha mesa e falar boa noite. Para mim, foi um exemplo de simpatia e humildade, que só mesmo pessoas grandiosas como ele são capazes de dar.Em termos clínicos, nosso Cirurgião Dentista (escolhido a dedo) é o Sergio da Cunha Ribeiro, filho do Prof. Silas, irmão do Dr. Fernando (com quem também me trato) e da minha querida e tão saudosa colega da FOUSP Nicia, que nos deixou tão prematuramente. Ao falar de “ídolos”, não tenho como esquecer deles, pois são um exemplo de união familiar, superação pessoal, e competência profissional.  Na parte acadêmica, meu “ídolo” é o Daniel Olszewer, da FAPES (Fundação de Amparo a Pesquisa e Ensino na Área da Saúde), que mesmo sendo tão jovem, é extremamente responsável, dedicado e vem fazendo muito pela divulgação científica da Odontologia, com seriedade e profissionalismo. 

E quem fez mais pela classe nestes anos todos?
Acredito que todos nós, na clínica, fora dela, dando aulas em faculdades, ou em cursos de apoio. Acredito que todo dentista, esteja em grandes capitais ou no interior, em clínicas luxuosas ou em instalações mais simples, todos que trabalham com honestidade, dedicação, procurando atualizar-se sempre, estarão fazendo com que o nome de nossa classe seja respeitado pela opinião pública, pelos meios de comunicação e pela classe política. 

Como ve o presente momento na Odontologia?
Olhando “de fora”, fico um pouco assustada com o surgimento de certas clínicas que vem com um marketing agressivo, anunciam curas milagrosas e tratamentos a preços baixíssimos. Acho bastante estranho tudo isso, mas realmente não sei dizer até que ponto o avanço dessas clínicas não é mais um sintoma do que uma doença em si. 

Qual caminho vê como mais indicado para a profissão?
Se mais pacientes puderem ter acesso ao tratamento, os valores serão mais acessíveis a um maior número de pessoas. Acredito que, assim como está acontecendo em alguns setores da educação, os colegas que se voltarem às classes menos favorecidas estarão fazendo um bem social e, ao mesmo tempo, terão um aumento substancial em seus rendimentos. 

A que atribui o seu sucesso profissional?
Quando resolvi deixar a clínica, e me dedicar apenas às traduções, livros e cursos de inglês para dentistas (hoje também damos cursos para médicos e demais profissionais da área da saúde) fui considerada “louca” por alguns, “ingrata” por outros, e “esquisita” pela maioria (risos).
Naquela época, carreiras híbridas era uma coisa rara, e quem fazia uma segunda graduação, geralmente ficava em uma área bastante correlata (assim: um dentista estudava medicina, ou um biólogo fazia odonto, em administrado fazia economia, essas coisas assim bem “próximas”).
Vocês não imaginam a felicidade que tive quando li, em 1998, um artigo sério de um “visionário” que dizia que o cidadão médio, no século XXI, mudaria pelo menos uma vez de profissão. Foi bom saber que, o que eu estava tentando fazer, mesmo recebendo críticas de alguns, seria uma tendência no “futuro”. E o futuro chegou, e estamos aqui, agora também dando aulas em faculdades, em cursos de extensão.
Um momento que considero “ponto alto” na minha carreira foi quando fui entrevistada pelo Antonio Abujamra no programa Provocações da TV Cultura, em que falei sobre Odontologia, dicionários, e vida acadêmica. Quem não teve a oportunidade de ver, a entrevista encontra-se no You Tube, e pode ser acessada pelo link http://www.youtube.com/watch?v=t5BmGJgEM5k

E, para responder sua pergunta, a que atribuo meu “sucesso”?
Persistência, disciplina, coragem de ter acreditado naquilo que eu considerava ser o meu caminho, mas sempre tendo como mantra a frase do poeta sevilhano António Machado“: caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.
 

Como espera ser o futuro da profissão?
Dependerá do esforço de cada um, mas também seria muito bom se tivéssemos políticas que nos ajudassem a levar o tratamento odontológico a um maior número de pessoas.

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Obrigado, Ana Julia por sua entrevista e saiba que admiro seu trabalho diferente e pioneiro com as traduções. Gostaria que deixasse seu e-mail para os interessados em contato tivessem como fazê-lo.

Com prazer receberei e responderei e-mails dos colegas nos e-mails: drajulia@terra.com.br e drajulia@gmail.com. Quem quiser saber mais sobre nossos livros e publicações, podem acessar nossa webpage  http://www.scientiavinces.com/ana/

 

Antônio Inácio Ribeiro   ribeiro@odontex.com.br

 

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