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ANA JÚLIA PERROTTI GARCIA
Alternando
o perfil dos entrevistados, hoje teremos uma entrevistada. Ela é
formada em Odontologia pela FOUSP de São Paulo. Sempre trabalhou com
ensino de língua inglesa, e o Dental English (Inglês Odontológico),
uma área que foi surgindo naturalmente, a partir do pedido de alguns
alunos e editores. Proficiency in English pela Universidade de
Cambridge (Inglaterra). Mestre em Linguística Aplicada e Estudos da
Linguagem pela PUC-SP. Especialista em Tradução pela Universidade de
São Paulo (FFLCH-USP-SP). Bacharel em Tradução e Interpretação pela
UniFMU (São Paulo, Brasil). Traduziu mais de 25 grandes livros de
texto, médicos e odontológicos, para editoras brasileiras e
internacionais. Autora de 6 dicionários e de 3 cursos de inglês para
profissionais da área da saúde e de letras. Com certeza uma Cirurgiã
Dentista diferente!
Quem a
influenciou a fazer Odontologia?
Minha mãe
queria que eu fosse “doutora” (médica, na verdade). Minha tia
Margarida fez Odonto USP no tempo da Três Rios. Quando ela passou
pela Odontopediatria, eu tinha uns cinco ou seis anos e fui me
tratar com ela. Fiquei encantada com aquele prédio antigo, suas
histórias, os quadros dos diretores. Acho que essas imagens ficarão
para sempre.
Onde fez e
quais suas lembranças do tempo de faculdade?
Fiz Odonto na
USP, uma das primeiras turmas a não ter mais aulas na Três Rios (eu
achei uma pena!), mas já no primeiro ano, de xereta, eu e uma amiga
íamos à Emergência (que nessa época ainda era no Bom Retiro), então
pude “curtir” um pouco aquele prédio maravilhoso. Fomos praticamente
os primeiros a usarmos as clínicas no HU (Hospital Universitário),
um privilégio! Era como se tivessem dado um carro top de linha, todo
equipado, para um aluno de auto-escola rsrsr.
Como foi
seu início na profissão?
Sempre digo que
minha vida na prática clínica foi maravilhosa: meus pacientes eram
super queridos, a maioria pessoas do bairro paulistano da Lapa (onde
nasci e morei praticamente a vida toda). Eu tinha um convênio com a
União Fraterna da Lapa, cujos associados eram em sua maioria pessoas
residentes no bairro há décadas. Tive muitos pacientes acima de 60
anos, naquela época, o que me fez até pensar em me especializar em
Odontogeriatria (que, aliás, era uma especialidade existente apenas
no exterior).
Lembra quem
foi seu primeiro paciente?
Muitos parentes
diziam que, assim que eu me formasse, iriam ao consultório. Pensei
até que formaria fila (risos). Eles até vieram a ser sim meus
pacientes, mas só depois de uns seis meses. Os primeiros mesmo foram
Norma e Jacó Beckers, que já eram amigos da minha mãe, e passaram a
ser grandes amigos da gente. Foram até meus padrinhos de casamento.
Qual foi o
seu atendimento mais difícil?
Certa vez fui
extrair um terceiro molar de uma menina linda, que ia se formar no
curso de modelo dali a uma semana. Eu já havia feito diversas exos,
e cirurgias em dentes retidos de outros pacientes, então achei que
nada mais pudesse ser novidade. E quem disse que o dente saiu? Na
radiografia não parecia anquilosado, mas nada tirou o “bichinho” de
lá. O pai dela era dono da gráfica em frente ao consultório, e eu
fiquei pensando como ia dizer para ele que não tinha conseguido
fazer a cirurgia. Não tinha jeito, era melhor saber por mim do que
pela filha. Ao “final” do procedimento, chamei-o e comecei a
explicar a técnica, a dificuldade que é tirar um dente que está
dentro do osso, etc. Ele, só me olhava. E eu, suando, e pensando
onde ia arrumar outra gráfica para fazer meus cartões (naquele tempo
a gente só fazia cartões em gráfica). Nisso, quando por fim falei
que o dente continuava lá, ele me olhou sério, fez uma pausa
(segundos que pareceram horas), sorriu e exclamou “Ela deve ter
puxado a mim”. “O que?”, perguntei, “Como assim?”. E ele me disse
que nunca um dentista conseguiu “tirar” um dente dele em uma sessão
só. Que sempre era preciso tentar umas duas ou três vezes para
conseguir tirar os dentes dele, etc. Aliviada, aprendi mais uma:
passei a perguntar sobre a história dentária dois pais, quando fazia
a anamnese de pacientes mais jovens.
Sim, ela ficou
com o rosto um pouquinho inchado no dia da formatura do curso de
modelo, mas me disse que ninguém notou.
E um que
tenha sido o mais gratificante?
A filha do meu
contador estava descendo a rua e escorregou na areia, bateu a boca
no chão e quebrou o incisivo central em três pontos. Era um feriado,
e eu só havia ido ao consultório para dar aquela geral nas fichas,
planejar a próxima semana, e surge a mocinha, com os pedaços de
dente na mão, misturados com uma areia grossa, de cor clara, o que
me levou a ficar um tempo definindo o que era dente e o que era
areia. Ela tinha mordida topo a topo, o que tornava bastante
improvável que a colagem dos pedaços fosse ter vida longa.
Entretanto, a reconstrução estética ficou perfeita, e durou muitos
anos. Ela formou-se em contabilidade e assumiu o escritório do pai,
então passei a vê-la com mais frequência, e sempre que ela sorria,
eu pensava "isso “ficou muito bom”.
Sabe o nome
da sua primeira atendente / auxiliar?
Neiva, primeira e
única, trabalhou comigo durante muitos anos, e só parou quando eu
mudei de São Paulo para o interior. Foi uma parceria muito legal.
Lembra de
algum caso pitoresco acontecido no consultório?
Acredito que a
coisa mais pitoresca que acontecia no meu consultório era a maneira
como, entre uma conversa e outra, eu ia transformando meus pacientes
em amigos, e de amigos em alunos do meu curso de inglês.
Qual foi o
marketing que usou para começar?
O fato de estar
em um bairro há muitos anos, acredito que tenha sido meu principal
cartão de visitas. O convênio com a União Fraterna também alavancou
muita coisa, pois apenas partes das famílias tinham o convênio. Os
demais familiares vinham indicados pelos associados, e eram
particulares.
Tem algum
filho ou parente Cirurgião Dentista?
Tudo começou com
minha tia Margarida. Dela, uma filha é dentista e a outra é casada
com um CD. Ontem mesmo estávamos em uma festa de família,
aniversário de um ano do filhinho da minha irmã (ela e o marido
também são Cirurgiões Dentistas), e eu conversava com um primo
(Dentista, claro) e notei haviam mais oito Dentistas na festa (sendo
cinco parentes e os demais colegas dos pais do aniversariante). Foi
inevitável exclamar: “Gente, esta é a festa em família com mais
Dentistas por metro quadrado que já se viu!”
Quem é seu
maior ídolo na Odontologia?
Tem muita gente
boa na nossa profissão, seria bem difícil escolher um, pois estaria
desmerecendo outros igualmente excepcionais. Sendo assim, vou
plagiar o programa musical, e falar de alguns “Ídolos” que tenho: Em
termos de amizade, e competência, não tenho como deixar de citar o
Prof. Waldir Maluf, da disciplina de Materiais Dentários da USP, que
foi um grande amigo durante a faculdade; por sua seriedade e amor às
aulas e aos alunos, além de ser um ótimo clinico; O Prof. Moacyr da
Silva, que por ser dentista e advogado foi um “norte” no momento em
que decidi fazer a segunda faculdade. Ele nem deve ser lembrar, mas
uma vez, quando era sua aluna na Odonto Legal, fui a um restaurante
com um amigo e o Prof. Moacyr estava em uma mesa, de terno, com um
monte de advogados. Eu nem poderia imaginar que ele, estando com
tanta gente “importante”, iria se levantar, vir até a minha mesa e
falar boa noite. Para mim, foi um exemplo de simpatia e humildade,
que só mesmo pessoas grandiosas como ele são capazes de dar.Em termos
clínicos, nosso Cirurgião Dentista (escolhido a dedo) é o Sergio da
Cunha Ribeiro, filho do Prof. Silas, irmão do Dr. Fernando (com quem
também me trato) e da minha querida e tão saudosa colega da FOUSP
Nicia, que nos deixou tão prematuramente. Ao falar de “ídolos”, não
tenho como esquecer deles, pois são um exemplo de união familiar,
superação pessoal, e competência profissional. Na parte acadêmica,
meu “ídolo” é o Daniel
Olszewer,
da FAPES (Fundação de Amparo a
Pesquisa e Ensino na Área da Saúde), que mesmo sendo tão jovem, é
extremamente responsável, dedicado e vem fazendo muito pela
divulgação científica da Odontologia, com seriedade e
profissionalismo.
E quem fez
mais pela classe nestes anos todos?
Acredito que
todos nós, na clínica, fora dela, dando aulas em faculdades, ou em
cursos de apoio. Acredito que todo dentista, esteja em grandes
capitais ou no interior, em clínicas luxuosas ou em instalações mais
simples, todos que trabalham com honestidade, dedicação, procurando
atualizar-se sempre, estarão fazendo com que o nome de nossa classe
seja respeitado pela opinião pública, pelos meios de comunicação e
pela classe política.
Como ve o
presente momento na Odontologia?
Olhando “de
fora”, fico um pouco assustada com o surgimento de certas clínicas
que vem com um marketing agressivo, anunciam curas milagrosas e
tratamentos a preços baixíssimos. Acho bastante estranho tudo isso,
mas realmente não sei dizer até que ponto o avanço dessas clínicas
não é mais um sintoma do que uma doença em si.
Qual
caminho vê como mais indicado para a profissão?
Se mais pacientes
puderem ter acesso ao tratamento, os valores serão mais acessíveis a
um maior número de pessoas. Acredito que, assim como está
acontecendo em alguns setores da educação, os colegas que se
voltarem às classes menos favorecidas estarão fazendo um bem social
e, ao mesmo tempo, terão um aumento substancial em seus
rendimentos.
A que
atribui o seu sucesso profissional?
Quando resolvi
deixar a clínica, e me dedicar apenas às traduções, livros e cursos
de inglês para dentistas (hoje também damos cursos para médicos e
demais profissionais da área da saúde) fui considerada “louca” por
alguns, “ingrata” por outros, e “esquisita” pela maioria (risos).
Naquela época,
carreiras híbridas era uma coisa rara, e quem fazia uma segunda
graduação, geralmente ficava em uma área bastante correlata (assim:
um dentista estudava medicina, ou um biólogo fazia odonto, em
administrado fazia economia, essas coisas assim bem “próximas”).
Vocês não
imaginam a felicidade que tive quando li, em 1998, um artigo sério
de um “visionário” que dizia que o cidadão médio, no século XXI,
mudaria pelo menos uma vez de profissão. Foi bom saber que, o que eu
estava tentando fazer, mesmo recebendo críticas de alguns, seria uma
tendência no “futuro”. E o futuro chegou, e estamos aqui, agora
também dando aulas em faculdades, em cursos de extensão.
Um momento que considero “ponto alto” na minha
carreira foi quando fui entrevistada pelo Antonio Abujamra no
programa Provocações da TV Cultura, em que falei sobre Odontologia,
dicionários, e vida acadêmica. Quem não teve a oportunidade de ver,
a entrevista encontra-se no You Tube, e pode ser acessada pelo link
http://www.youtube.com/watch?v=t5BmGJgEM5k
E, para
responder sua pergunta, a que atribuo meu “sucesso”?
Persistência,
disciplina, coragem de ter acreditado naquilo que eu considerava ser
o meu caminho, mas sempre tendo como mantra a frase do poeta
sevilhano António Machado“:
caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.
Como espera
ser o futuro da profissão?
Dependerá do
esforço de cada um, mas também seria muito bom se tivéssemos
políticas que nos ajudassem a levar o tratamento odontológico a um
maior número de pessoas.
Deixe uma
sugestão para os mais novos:
Não desistam dos
seus sonhos.
Obrigado,
Ana Julia por sua entrevista e saiba que admiro seu trabalho
diferente e pioneiro com as traduções. Gostaria que deixasse seu
e-mail para os interessados em contato tivessem como fazê-lo.
Com prazer
receberei e responderei e-mails dos colegas nos e-mails:
drajulia@terra.com.br e
drajulia@gmail.com. Quem quiser saber mais
sobre nossos livros e publicações, podem acessar nossa webpage http://www.scientiavinces.com/ana/
Antônio Inácio
Ribeiro
ribeiro@odontex.com.br
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