ODONTO ENTREVISTA Nº 92
Um reconhecimento a quem merece
PROFESSOR ORIVALDO TAVANO
Nosso entrevistado da semana é graduado em Odontologia no ano de 1966, possui os títulos de mestrado e Doutorado pela FOB/USP, em Diagnóstico Bucal, especialista pelo CFO, Livre Docência e Associado pela Universidade de São Paulo. Professor Titular aposentado de Radiologia pela FOB/USP. Professor e Coordenador de vários Cursos de graduação, especialização, Mestrado e Doutorado em Radiologia na FOB/USP, UNIP, FMU e na São Leopoldo Mandic. Autor de vários trabalhos científicos nacionais e internacionais, capítulos de livros e do livro Curso de Radiologia para a Odontologia, que se encontra em sua 5ª edição. Foi responsável pela triagem clínica da FOB/USP e coordenador do atendimento do SUS, da mesma instituição. Primeiro Editor Científico da Revista da ABRO (Associação Brasileira de Radiologia Odontológica) de 2000 a 2004 e revisor científico de livros de Radiologia Odontológica. Consultor e Pesquisador da Capes, CNPq, Fapesp e de empresas ligadas á Radiologia Odontológica. Membro ativo da ABRO e IDMFR.
Quem o influenciou para fazer Odontologia?
O meu tio Odorante influenciou os membros da família Tavano a vontade de seguir carreira na Odontologia, sendo um profissional altamente capacitado, habilidoso e querido por seus pacientes. Essa influência levou a formação de vários Cirurgiões Dentistas na família inclusive seus três filhos. Foi citado por vários autores da história da Odontologia como o primeiro profissional a usar o rádio para acalmar o paciente na consulta. Após a formatura trabalhei alguns anos na clínica dele e depois segui como professor de Radiologia na FOB/USP, com dedicação exclusiva até a aposentadoria em 1998, ao completar meu tempo de serviço. Continuo fazendo consultorias, diagnósticos á distância, ministro cursos e participo ativamente da melhoria das técnicas e equipamentos relacionados á Radiologia nas áreas de controle de qualidade, biossegurança, proteção, resíduos e da parte operacional das clinicas de Radiologia Odontológica.
Como e onde foi seu início na profissão?
Iniciei a carreira como Clínico Geral, fazendo tratamento de crianças principalmente e de Dentística Restauradora, já que fui monitor da disciplina nos dois últimos anos da graduação, com o Professor José Mondelli. Fui professor voluntário de Radiologia convidado pelo Prof Luis Casati e por José Alberto de Souza Freitas, até ser contratado em definitivo com dedicação integral á docência e pesquisa. Como sou da segunda turma a FOB, participei da formação do Departamento e pude trabalhar com equipamentos de ponta para a época inclusive da operação do Orthopantomograph da Siemens, o primeiro panorâmico a operar em curso de graduação em Odontologia no Brasil. Inúmeros trabalhos de pesquisa, o apoio para as clínicas da faculdade o avanço científico da área de Diagnóstico Odontológico, partiram deste núcleo inicial; pois além disso possuíamos desde o início da disciplina modernas instalações, equipamentos utilizados com segurança e controle de qualidade da imagem radiográfica.
Lembra quem foi seu primeiro paciente?
A experiência mais gratificante como profissional foi de poder documentar os primeiros pacientes do Centrinho, hoje Hospital de Reabilitação de Bauru, por meio do exame clínico, radiográfico e de fotografias, antes das instalações próprias como é hoje desta importante instituição de pesquisa e reabilitação dos defeitos da face. Não posso esquecer também da Triagem da FOB que sob nosso comando, após o atendimento na Radiologia/Semiologia com confecção do prontuário (executados por alunos, estagiários e ou pós-graduados), convocávamos o paciente para ser avaliado por professores das clínicas da faculdade quanto ás necessidades e prioridades de atendimento clínico, para serem incluídos no nosso arquivo central de pacientes. Esta atividade era muito importante, pois todos os pacientes das clínicas de adultos da faculdade passavam por esta triagem odontológica, ao mesmo tempo auxiliávamos as disciplinas de Odontopediatria, Ortodontia e a Emergência da FOB a examinar radiograficamente e laudar as imagens assim obtidas.
Qual foi o caso que lembra como o mais difícil?
As disciplinas de Radiologia e Semiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru atuavam juntas desde os primórdios do curso de graduação, sendo a mesma clínica e os mesmos professores. Este fato possibilitou a que os alunos da graduação e posteriormente os pós-graduados tivessem um ensino de diagnóstico padronizado e que permitiram ainda a formação da Triagem com os mesmos princípios de atendimento inicial ao paciente com problemas simples ou mais complexos da Odontologia. A integração com a Cirurgia e a Patologia principalmente permitia dar encaminhamento a casos especiais oriundos de todos os estados do Brasil para diagnóstico e tratamento especializado. Eram tratados na FOB aqueles de ambulatório, nos hospitais da cidade e ou encaminhados para o Hospital do Câncer, por exemplo, os mais complicados.
Você chegou a abandonar a prática clínica da Odontologia, para ser Radiologista?
A Radiologia na Odontologia está sempre presente no dia a dia do clínico, da mesma maneira o radiologista que não fez ou faz um atendimento clínico ao paciente conhecendo pelo menos o fundamental de cada especialidade odontológica não consegue interpretar corretamente o que o paciente necessita. A minha formação em Diagnóstico Bucal, o curto período que trabalhei junto como meu tio como CD, a avaliação das necessidades de tratamento dos pacientes das clínicas da FOB na Triagem, o atendimento que fiz junto com os alunos na emergência, além do contínuo aprendizado sobre outras especialidades odontológicas frequentando cursos e seminários não me deixaram abandonar a clínica.
Tem algum arrependimento ou alguma frustração?
Posso afirmar que não me arrependo de ser CD, nossa importante e difícil profissão, o mesmo digo da especialidade que pertenço, pois ela tem características e habilidades um pouco diferente da rotina do atendimento do paciente, mas sem ela fica tudo mais difícil. Posso ter tido alguma frustração, mas que foi passageira e a transformei em outras conquistas na carreira docente.
Quais foram seus maiores ou melhores momentos?
Dentro da Universidade de São Paulo fui um dos poucos que passaram por todos os cargos e funções da carreira desde monitor, assistente voluntário, instrutor, mestre, doutor, livre-docente, adjunto, associado e finalmente professor titular em Radiologia, passando por concursos de títulos e provas. Ajudar a formar em Radiologia e Semiologia dezenas de turmas de CD, orientar e formar centenas de especialistas e pós-graduados foi outra vitória, que ainda continua acontecer. Receber as comendas da Radiologia, como a medalha Roentgen e outras honrarias da Odontologia foi muito gratificante.
Qual foi o marketing que usou para começar?
Gostaria de ter usado mais o marketing para divulgar os meus cursos e habilidades na especialidade. Apesar de nunca conseguir ficar parado sem atividade como cursos, consultorias, assessorias em diagnóstico, editando revista, como da ABRO (Associação Brasileira de Radiologia Odontológica). A minha participação nos dias de hoje junto às franquias Topdent e a DIA, clinicas de diagnóstico radiológico digital, mostraram como é importante esta ferramenta na nossa profissão, principalmente na coleta de pacientes.
Como está vendo o presente momento na Odontologia?
A Odontologia passa por um difícil momento, são inegáveis os avanços científicos e nos equipamentos para nosso trabalho, mas a disputa por pacientes e a baixa remuneração de nossos serviços é preocupante, além da carga fiscal sobre os ombros de todos os brasileiros. Nada que uma gestão correta, trabalhar com ética, sustentabilidade, respeitar as normas vigentes e ser dignamente remunerado dá conforto aos pacientes e ao profissional.
Qual a sua opinião sobre essa situação?
A meu ver a deficiência de formação da faculdade ensinando o aluno com um currículo fora da realidade de mercado, preparando o mesmo para uma Odontologia que não se encontra aqui fora, além da grande concorrência dos próprios colegas, muitas vezes desleal e aética. Os profissionais após a formatura deveriam se submeter a provas de suficiência, como ocorre com outras profissões, que deveriam ser repetidas rotineiramente enquanto clinicar. As normas e regulamentos são complicados e a fiscalização falha e despreparada para orientar primeiro multando apenas quando necessário. As Associações os Conselhos e Sindicatos deveriam dividir a atuação em áreas não superpostas entrando em conflito entre eles e muitas vezes atrapalhando o que uma entidade realiza, sem trabalhar harmonicamente para a classe.
Você teria alguma idéia para esse plano estratégico?
Não cabe a mim como especialista tentar resolver os problemas da Odontologia, mas da Radiologia me sinto á vontade para opinar. A disciplina na graduação deve se voltar para a biossegurança, proteção, resíduo e controle de qualidade principalmente, pois elas se dedicam bastante ás técnicas e a interpretação radiográfica. As aulas de efeitos biológicos causadas pelas radiações ionizantes não deveriam ser ministradas por amadores e sim por profissionais da área, físico, por exemplo, ou habilitar corretamente o professor de Radiologia para esta parte da disciplina, pois os CD são despreparados neste quesito. No mínimo o profissional que quiser ter um aparelho de raios X em seu consultório deve ser sabatinado a respeito da portaria 453, da Anvisa, continuamente, junto com as inspeções de rotina dos equipamentos, acessórios e da proteção dos pacientes, profissionais e do ambiente do consultório odontológico.
Poderia dar mais detalhes da formação do especialista em Radiologia Odontológica?
Tudo o que foi explanado no item anterior serve para o ensino da especialidade, pois deveriam ter uma excelente formação no uso da radiação ionizante na graduação, sendo que como especialista usarão equipamentos de maior potência, expõem estruturas anatômicas mais nobres e importantes do paciente. Os especialistas devem conhecer a Anatomia, Histologia, Fisiologia, Patologia da boca e estruturas anexas, bem como técnica e interpretação radiográfica, além de correlacionar os achados com dados semiológicos para fazer um laudo descritivo da imagem. O laudo é obrigatório e não opcional como entendem alguns profissionais, pois devemos avaliar a imagem quanto á qualidade e só após opinarmos sobre os achados. Muitas vezes o requisitante do exame por ter pressa pode assumir a responsabilidade do laudo, desde que ele tenha conhecimento suficiente e que assine a requisição com esta ressalva, pois em função disto o erro eventual do diagnóstico é de quem assumiu a responsabilidade, que era do Radiologista e foi assumida por outro profissional.
Quais seriam os pontos básicos para iniciar a discussão de um plano estratégico para melhorar o desempenho do Radiologista?
A formação do Radiologista Odontológico do terceiro milênio deve passar pela Administração, Psicologia, Ética, Marketing, Mercado e noções de liderança, pois deve comandar uma equipe de profissionais, logicamente além de conhecer Radiologia em profundidade. São fundamentais o conhecimento e a compreensão da legislação e das normas do uso da radiação ionizante, dos meios de proteção e da biossegurança, além de utilizar os princípios de ergonomia para um trabalho confortável e seguro.
O especialista deve conhecer a atividade de todos os componentes da equipe para poder cobrar os erros eventuais, dar condição de trabalho apropriado, fornecer manuais de procedimentos e treinamento contínuo de capacitação para a sua equipe. O profissional deve entender que a aquisição de um equipamento novo, analógico para digital, mesmo que semelhante ao antigo exige treinamento para capacitar o especialista para usá-lo corretamente. Finalmente deve saber quais as suas limitações e de sua clínica para não tentar fazer o que não capacitado, além de conhecer a indicação e as limitações das técnicas radiográficas.
Como está vendo o presente momento da Radiologia Odontológica?
Sinto que a especialidade está se valorizando no que se refere ao uso de equipamentos digitais e de alta complexidade, mas ainda é refém de uma minoria de especialistas de outras áreas da Odontologia que tentam impor suas necessidades de atendimento ao paciente para os Radiologistas. Esquecendo que estes arcam com os custos financeiros de aquisição e manutenção de equipamentos, funcionários, encargos e taxas e não se impõem como um empresário, muitas vezes por não terem um marketing mais eficiente. Tudo isto por falta de conhecimentos básicos de Administração, Economia, Gestão, Marketing e de falta de união e de diálogo entre os CDs da especialidade Radiologia que só entendem a guerra de preços, além das instituições como o CFO, Associações e Sindicatos que não balizam as competências e as áreas de influência das especialidades odontológicas.
Sente ter se realizado profissionalmente?
Atualmente em função de participar de uma empresa que pretende dar gestão, administração, instalação ergonômica segura, monitoração, operação funcional, padronização e controle de qualidade aos serviços de Radiologia, portanto considero completo o ciclo de ensino, pesquisa e de extensão á comunidade como propõe a minha Universidade e a sociedade. A sensação é de que tudo que estudei, pesquisei, aperfeiçoando ou inovando está sendo proposto para ser utilizado pela Radiologia Odontológica, mas longe de mim a pretensão de ser porção mais importante do sistema, pois sou apenas um elo da corrente, seguramente o mais seguro e firme nas convicções.
Deixe uma sugestão ou mensagem para os mais novos.
A nossa profissão é um sacerdócio e como tal deve ser encarada, promove satisfação quando promovemos a cura e muitas vezes nos deprime por que não fazemos o melhor para nosso semelhante ou não conseguimos a remuneração pretendida pelo serviço executado. Não desanimem façam o seu melhor para o seu semelhante, mas não se esqueçam com segurança e ética que a recompensa vai chegar.
A palavra é sua para as considerações finais.
Agradeço a oportunidade que a Odontex na pessoa do amigo Antonio Inácio Ribeiro proporcionando este espaço para que pudesse relatar o que entendo da Radiologia Odontológica, uma importante especialidade da Odontologia, muitas vezes incompreendida pela sociedade pela sua especificidade e complexidade, mas importante para o atendimento correto na clinica odontológica.
Conheci o Professor Tavano nos congressos, de início como vendedor de livros, em especial o best seller Curso de Radiologia Odontológica e posteriormente ministrando cursos, ele como um dos ministradores mais requisitados para os de Radiologia. Por seu trabalho e história dentro da especialidade, esta homenagem é mais do que justa.
RECONHECENDO OS QUE FAZEM A ODONTOLOGIA MAIOR E MELHOR
Antônio Inácio Ribeiro ribeiro@odontex.com.br
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