ODONTO ENTREVISTA Nº 81

Um reconhecimento a quem merece!

 

Prof. Dr. DAVID HARARI 

 

Nosso entrevistado da semana é graduado em Odontologia pela Universidade Federal Fluminense (1983), cursou especialização em Prótese Dentária pela Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (1985), pós-graduação em Implantes Osseointegrados pela Universidade de Lund, Malmö, Suécia (1987), curso de especialização em Implantologia Oral pela Faculdade de Odontologia da Universidade Gama Filho (1997), e doutorado em Clínica Odontológica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002). Atualmente é Professor Adjunto Doutor 1 da Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO), ministrando disciplinas na graduação, especialização e mestrado em implantologia oral. Fundador e desenvolvedor do curso de prótese sobre implantes pela internet “Protimplant Online®”.

 

 Quem o influenciou para fazer Odontologia?

Como muitos adolescentes na época do vestibular, em 1979, não tinha muita noção da profissão que gostaria de abraçar. Por influência do meu pai, que é comerciante, fui convencido a escolher uma carreira que para ele não exigiria um “patrão para ter que dar satisfações”. Depois de relutar um pouco, decidi encarar e, para minha sorte, fiz a escolha correta para mim. Simplesmente adoro o que faço. Considero minha profissão uma diversão remunerada. Apesar disso, claro que muito cedo descobri que meu pai estava enganado sobre a Odontologia: cada cliente é uma espécie de patrão.

 

Onde fez a faculdade e quais suas lembranças desse tempo?

Formei-me pela Universidade Federal Fluminense em 1983. Bons tempos em que fiz muitos amigos e onde tive a oportunidade da 1ª experiência com ensino. Por quase três anos fui responsável pela monitoria da disciplina de anatomia de cabeça e pescoço, chefiada pelo querido Prof. Gilberto Vargas no ciclo básico do curso de Odontologia. Além disso, não poderia deixar de mencionar que muitos caminhos me foram abertos por algumas pessoas que me influenciaram bastante na minha maneira de pensar e trabalhar: minha então namorada e esposa (Sonia Groisman) e seu irmão (Mario Groisman), com os quais convivi intensamente por muitos anos.

 

Como e onde foi seu início na profissão?

Trabalhando junto com essas pessoas tanto em Niterói e depois em Ipanema, sempre buscando me aprimorar na minha principal paixão na profissão que é a prótese e a reabilitação oral. Não demorei nada para, em 1985, ingressar no curso de especialização em Prótese Dentária, comandado pelo saudoso Prof. David Felix Balaciano na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Durante o ano de 1987, tive a oportunidade de começar meus estudos e treinamento em prótese sobre implantes osseointegrados em Malmö, Suécia. Já naquela época percebi a grande revolução que essa especialidade traria para os rumos da Odontologia do planeta. Com o passar desses últimos 24 anos, pude vivenciar toda a transformação que a profissão experimentou, e tenho muito orgulho de poder ter sido um dos introdutores da técnica no Brasil. Essa sorte em relação ao pioneirismo de uma filosofia de trabalho trouxe como resultado algumas centenas de profissionais a quem tive a honra de apresentar o que hoje é rotina dos nossos consultórios. Tendo tido a chance de ministrar tantos cursos e palestras durante todos esses anos, hoje sinto-me ainda mais orgulhoso quando vejo o quanto muitos desses profissionais se destacam nessa especialidade.

 

Lembra quem foi seu primeiro paciente?

Lembro-me da minha primeira experiência em clínica, quando atendia na faculdade a uma moça que precisava de uma restauração classe I de Black num pré-molar superior. Como era comum na época, além de atendermos sem luvas, trabalhávamos em um equipamento extremamente antigo que não permitia com que a cadeira do paciente ficasse deitada. A lei da gravidade e a inexperiência não permitiam com que o amalgama de prata, único material disponível na época, permanecesse na cavidade preparada com tanto capricho. Ele simplesmente ficava caindo esfarelado sobre a língua da paciente a cada tentativa de levá-lo a cavidade com o porta-amalgama, antes que eu pudesse calcá-lo.

  

Qual foi o caso que lembra como mais difícil?

O início de qualquer profissão e/ou a adoção de novas técnicas trazem experiências que às vezes são marcantes pelas dificuldades que temos quando não as dominamos. Isso acontecia muito nos primórdios da osseointegração, principalmente porque não dispúnhamos dos meios de diagnóstico que hoje são tão rotineiros. Fazíamos o planejamento protético–cirúrgico apenas com radiografias panorâmicas e periapicais. Por causa disso, muitas “surpresas” aconteciam no momento da reabertura dos implantes, e o protesista precisava ser muito criativo juntamente com os técnicos de laboratório. Essa criatividade também pode ser interpretada como improvisação, e muitos procedimentos eram realizados na base da tentativa e erro. O fato é que muitas dificuldades vivenciadas se refletiam na marcação da agenda. Detestava olhá-la e lembrar que a dona “Fulana” estava marcada naquele dia. Sabia o quanto eu e ela sofreríamos à medida que o tratamento se arrastava enormemente até a sua finalização. Claro que isso fazia parte do aprendizado de que precisávamos, e serviu como bagagem para que hoje possamos estar de “lua de mel” com nossa agenda. Serviu também para nos aproveitarmos disso quando ensinamos a filosofia e a técnica de trabalho com implantes. Se hoje estamos à frente de uma plateia ávida por conhecimento, é porque tivemos a chance de errar muito mais do que essa plateia provavelmente irá errar.

 

E um que tenha sido o mais gratificante?

Por mais simplório que seja no sentido técnico, uma das maiores gratificações que tive foi com uma de “minhas noivas”. Por causa do seu complexo que a fazia evitar o sorriso diante das pessoas e das fotografias, em função de diastemas anteriores generalizados, ela se deu conta que tinha que resolver seu problema quando contratava fotografo e filmagem para registrar seu casamento. Solucionamos o caso com procedimentos simples de restaurações com resinas compostas. A reação de satisfação dela com o resultado se tornou uma das mais marcantes para mim, tanto que registrei isso num depoimento que publiquei no youtube no link http://www.youtube.com/watch?v=7HDuPeSo2jQ.

 

Lembra-se de algum caso pitoresco acontecido no consultório?

Era uma coroa total definitiva de um incisivo central, pronta para ser cimentada e para a finalização do tratamento. Escorregou da minha mão e caiu no chão. Quicou uma vez e desapareceu... Procuramos eu, a auxiliar, a secretária e a paciente... Só faltou chamar o porteiro e zelador... Como ninguém achava, tive que reinstalar a coroa provisória. Toda a agenda atrasou mais de uma hora e meia por causa disso. Acabou o expediente, e nada de achar o trabalho. Fui para casa triste e cabisbaixo. Ao chegar, e tirar a roupa para tomar um banho, vejo a coroa cair no chão depois de se desprender da barra da calça que eu costumava dobrar para fora. Não sabia se ria ou se chorava...

 

Quais foram os seus maiores ou melhores momentos?

No campo pessoal foi o nascimento de minhas filhas, Bianca e Larissa, minhas princesas que amo e que hoje estão com 22 e 19 anos, respectivamente. No profissional, estou vivenciando justamente neste ano de 2011, quando depois de muito trabalho consegui conjugar duas grandes paixões com as quais convivo há muitos anos: o ensino da prótese sobre implantes com a internet. Como você até já divulgou na sua coluna online Odonto Notícias, lancei no último Congresso Internacional de Odontologia do Rio de Janeiro um curso diferenciado de prótese sobre implantes que batizei de Protimplant Online®. Até onde eu sei, trata-se do primeiro curso do gênero no mundo. Como explico em mais um vídeo que postei no youtube, (http://www.youtube.com/watch?v=gVZcU3dTA0s). Ele tem a proposta de permitir que o participante faça seu treinamento no próprio consultório, trabalhando com manequins de simulação e componentes protéticos, e assistindo a vídeo-aulas cujo acesso se dá a partir do meu site www.protimplant.com.br. Julgo que essa é uma excelente oportunidade que estou tendo de atingir um público-alvo carente de informações básicas na matéria. Isto é, para aqueles colegas fora dos grandes centros que não têm a oportunidade de se ausentar dos seus consultórios por longos períodos em cursos mais aprofundados.

 

Como você vê o marketing na Odontologia hoje?

Como muitos da minha geração, eu tinha preconceitos em relação ao marketing em Odontologia. Achava, erroneamente, que isso era um procedimento dispensável, pensando que bastava a habilidade técnica e a pontualidade. Claro que os tempos mudaram e nossas cabeças também. Dando um salto para os anos 2000, encaro o assunto de uma maneira completamente diferente. Tanto que desde 2006 desenvolvi uma abordagem em que o conceito de nicho de mercado passou a ser fundamental no movimento de meu consultório. Paralelo ao trabalho constante com implantes, ao qual a partir do início dessa década passei a me dedicar também à fase cirúrgica, procurei dar ao sorriso um enfoque de sonho. E não há ninguém que sonhe mais do que as noivas. Criei o Programa Sorriso de Noiva® que se transformou num marco na minha vida profissional. www.sorrisodenoiva.com.br

 

Tem algum parente Cirurgião Dentista?

Somos quatro irmãos e o do meio, Renato Harari, é CD e exerce sua profissão em Toronto no Canadá há vinte anos. Está extremamente feliz lá com a sua família, e comandando uma equipe de oito profissionais contratados de sua clínica.

 

Quem é seu maior ídolo na Odontologia?

Apesar de não ser Cirurgião Dentista, o Prof. Brånemark. Vê-lo ministrar uma palestra é uma experiência impar. Fora isso já tive e tenho vários ídolos com quem convivi durante meu amadurecimento pessoal e profissional, cada um deles na sua respectiva época.

 

Quem são os seus grandes amigos na profissão?

Hoje meus grandes amigos e ídolos são pessoas com quem, na profissão, transcende o que podemos chamar de colegas: toda a equipe do Centro de Estudos Orall-Rio (Miguel Monteiro de Carvalho Filho, Miguel Monteiro de Carvalho Neto, Lucio Macedo de Menezes Filho, Carlos Frederico Marinho); as pessoas incríveis com quem participo na Faculdade de Odontologia da UNIGRANRIO, onde leciono na disciplina de implantodontia (Guaracilei Maciel Vidigal Junior, Marcio Baltazar Conz, Oldemar Brito, Marcelo Correa Manso, Rupert Machado, Luís Roberto Figueiredo Dantas) e os companheiros de sempre, Irênio de Oliveira, Luiz Antônio (Toni) Eberienos, Luiz Antônio Soares, Alber Barbara, Jose Henrique Cavalcante, Rita Mangaravite, e os TPDs Renan Bela e Cilso Oliveira.

 

Qual seu livro ou autor preferido na profissão?

Atualmente o livro de Mauro Fradeani: “Análise Estética: Uma abordagem sistemática para o tratamento protético” publicado pela Quintessence Editora.

 

Qual a revista odontológica que mais gosta de ler?

International Journal of Maxillofacial and Implants, ImplantNews, Journal of Clinical Implant Research, Practical Procedures & Aesthetic Dentistry.

 

Quais entidades a que pertence ou participa?

Atualmente, a Sociedade Brasileira de Reabilitação Oral, que nos próximos dias 14 e 15 de outubro realiza o seu XVII ENCONTRO NACIONAL: imperdível.

 

Como está vendo o presente momento na Odontologia e qual caminho vê como mais indicado para a profissão?

Num importante período de decisão em relação ao nicho de clientela que ela deverá abraçar nos próximos anos. E da escolha que nós profissionais devemos fazer entre os clientes “desejados” e os clientes “necessitados”. Desejamos muito tratar de clientes que tenham um potencial econômico excelente e que não reclamam do nosso plano de tratamento e orçamento. Mas esquecemos de que esses estão se tornando raros. Mais comuns e acessíveis são aqueles que, como você aborda muito bem em seus livros e palestras, Ribeiro, fazem parte de uma camada da população que agora tem maior acesso aos bens de consumo, e dentre eles, necessitam de tudo que envolve um belo sorriso. Acho que precisamos abrir os olhos para isso.

 

A que atribui o seu sucesso profissional?

Trabalhar com paixão e, acima de tudo, conseguir me divertir com isso.

 

Quem o ajudou no crescimento profissional?

Como mencionei antes, todos os meus ídolos, cada um a sua época, que exerceram influências sobre minhas mãos e/ou sobre a minha forma de pensar.

 

Sente ter se realizado profissionalmente?

Na escolha da carreira, plenamente. Se já realizei tudo com, e por ela, acho que ainda não.

 

Como espera ser o futuro da profissão?

Medidas preventivas contra as doenças orais estão há muitos anos na pauta da ciência e da prática odontológica. Muitos de nós têm conseguido implementá-las nas escolas de Odontologia e nos consultórios. Acho que no futuro muito distante seremos como na Suécia. No início dessa década, quando fui participar de um congresso da Nobel Biocare em Estocolmo, visitei a cidade de Malmö, onde residi em 1987. Descobri que a faculdade de Odontologia onde fiz meu curso pós-graduação em implantes só abria novas turmas de 2 em 2 anos. Isso porque, já naquela época, havia cada vez menor necessidade de profissionais cujo número se reduzia simplesmente por falta das doenças orais. Não é a toa que, no Brasil, cada vez mais nos voltamos para a abordagem da estética oral que atinge a camada da população que não necessita mais substituir seus dentes perdidos. Daí a necessidade de olharmos com outros olhos para aquela faixa da população que ainda não se beneficiou das medidas preventivas, e que ainda criam demanda para nossos tratamentos reabilitadores.

 

A palavra é sua para suas considerações finais, deixando uma sugestão ou mensagem para os mais novos:

A Odontologia é uma profissão maravilhosa que exige dedicação e estudo constante. Não digo aqui nenhuma novidade, e claro que isso sempre foi assim. Mas vivemos numa época em que a informação e a inovação nunca foram tão rápidas e ao mesmo tempo tão acessíveis. Acompanhar isso constantemente pode virar motivo de prazer ou de estresse e devemos escolher qual dessas emoções sentir. Apostar na qualidade técnica do seu trabalho é tão importante quanto nas suas relações interpessoais. Devemos nos dedicar a todos esses fatores para que sejam exalados pelas pessoas que saem dos nossos consultórios podendo falar melhor, comer melhor, sorrir melhor.

 

Que pergunta gostaria de fazer ao entrevistador?

Há mais de 20 anos nos conhecemos e na época de meu preconceito tinha receios ao teu trabalho de marketing em Odontologia. Não percebia o teu pioneirismo nessa matéria que hoje lota suas salas de palestras pelo Brasil, e lá fora. Como foi que você, há tantos anos, intuiu isso?

 

Na época que fostes para a Suécia, eu passei a representar o Sistema IMZ, que estava subordinado a uma empresa americana. Com isso ia todos os anos aos Estados Unidos. Em cada viagem sentia a sensação de ir ao futuro e voltar com gosto amargo ao passado. Não conforme, decidi que muito do que aprendia fora, poderia implantar aqui. Com estudo e criatividade fui desenvolvendo uma maneira própria de conduzir o marketing e a gestão em Odontologia. Que com tuas palavras e outros que comentam, vejo que estava no caminho certo.

 

Especificamente no teu caso, como teu grupo foi um dos pioneiros no Rio de Janeiro, esta constatação é gratificante. Fico feliz em ter colaborado com o crescimento da Odontologia, tanto quanto no dia que ao entrar em sala para ministrar um curso no Rio, tive a surpresa e alegria de te ver entre os presentes. O ídolo David Harari ali na minha frente a escutar-me. Foi uma glória, assim como poder hoje te entrevistar. Te parabenizo por todo o sucesso e coloco teu e-mail para os que quiserem mais informações do Protimplant ou te felicitar pelo sucesso alcançado.  dharar@terra.com.br

 

RECONHECENDO QUEM FAZ MAIS PELA ODONTOLOGIA

 Antônio Inácio Ribeiro        ribeiro@odontex.com.br

 

Crie o hábito de sempre encaminhar estas notícias para a sua lista de amigos DENTISTAS
Se não quiser mais receber esta coluna, nos retorne com um REMOVER