Saí com a certeza de que seria uma viagem perfeita em todos os sentidos. Um
curso no 4º Congresso Internacional do Oeste do Paraná na 5ª a tarde, uma
conferência no Salon Dental de Chile na sexta a noite e um curso de oito horas
em Santiago no sábado. Aproveitei para fazer um jogo novo de slides, em
espanhol, para adaptá-lo ao novo programa que estou ministrando e estudei-o bem
durante um fim de semana e três noites.
Terno novo, malas prontas e boa leitura preparada para
tantos vôos, saí para o aeroporto. O que era para ser a primeira experiência
positiva, voar no ATR, transformou-se na primeira surpresa negativa. Ao chegar
no balcão da companhia, fui informado que o vôo havia sido cancelado e, portanto
iriam me passar para um vôo à tarde, da Varig, para Foz do Iguaçu e de Van me
levariam a Cascavel. Argumentei que teria um curso à tarde e fui colocado num da
TAM, e que com a ajuda de um táxi cheguei à sala do curso às 14:00 em ponto, sem
ter ido ao hotel e sem trocar de roupa.
Depois do curso fui convidado a participar da solenidade
de abertura do congresso e de um animado coquetel. Fui ao hotel e depois de um
relaxante banho, coloquei o terno e voltei. Um bom papo com o João Carlos Gomes
(sempre presente com seu ótimo curso "Estética do Sorriso") e um encontro com um
amigo que havia muito tempo não encontrava: Adriano Perini, (que está
ministrando um interessante curso sobre "Informática em Odontologia") e uma
mordomia: ser levado no carro do prefeito a Foz do Iguaçu, onde no horário me
apresentei para embarque rumo ao Chile.
A atendente me informou que o vôo estava atrasado, por
que o avião ainda não havia saído de Buenos Aires e que iria chegar às 14 horas
ao invés das 10, como estava previsto. Meia hora depois anunciam que o vôo havia
sido cancelado e que iríamos embarcar no dia seguinte. Expliquei minha
necessidade, já sabendo que não chegaria a tempo para a conferência, mas que ao
curso não poderia faltar, até porque bolei na hora introduzir o assunto da
conferência no curso e fazê-la aberta aos congressistas na primeira hora da
manhã de sábado.
Com bastante negociação consegui que me passassem para
um vôo da Varig a Santiago, para o qual tive que retornar a São Paulo e seguir
às 22:30 para a capital chilena, onde finalmente cheguei à 1:30 da madrugada.
Imigração, bagagens, aeroporto distante e às 2:30 estava dormindo, para acordar
às 6:30.
Cansado depois de uma tarde e uma noite de aeroporto,
aviões e de quatro horas mal dormidas, comecei o curso, com um adicional de
concentração, por que além de estar falando em espanhol, tinha o roteiro das
falas slides igualmente no idioma de "Don Quijote", que não eram os meus
habituais, os quais já conhecia de cor e salteado. Além de ter incluído dois
temas novos. Com muito em contra, seguia normalmente o curso, tendo obtido da
maioria uma unanimidade de entendimento, quando ao final da primeira parte
perguntei se haviam entendido tudo ou se tinham perguntas a fazer. Sem
perguntas, só elogios, inclusive ao idioma, tanto me empolguei para o segundo
tempo.
Quando tudo ia muito bem no curso, inclusive com algumas
piadas e tiradas de bom humor, a ponto de, para demonstrar o que era
determinação, tirar uma nota de 10 dólares do bolso, perguntar quem a queria e
depois de muitos levantarem a mão, perguntar quem iria ficar com os dólares, ver
um dos cursantes se levantar e vir tomá-la da minha mão. Os demais apenas
queriam, ele a pegou. A seguir, para exemplificar que o cliente de hoje percebe
quando alguém está querendo por a mão no seu bolso, coloquei a mão no bolso de
um dos participantes, que para minha surpresa tinha dinheiro. O tomei e mostrei
como fazem os mágicos, para espanto e delírio geral. Ele confirmou que sentiu !
Tinha decididamente o auditório nas minhas mãos, quando
subitamente minhas pernas começaram a tremer. De início desordenadas, para a
seguir balançarem descontroladamente. Como sou hipertenso, pensei se havia
tomado o remédio e olhei para os mais próximos para ver se estava com a vista
turva, mas nenhuma destas suspeitas se confirmava. Apoiei-me no encosto em uma
cadeira e continuei falando para que não percebessem minha dificuldade, quando
meu amigo chileno, Rodrigo Jofre, perguntou-me se eu estava sentindo o sísmico.
Naquele momento me caiu a ficha. Era um tremor de terra, que como todos estavam
sentados, o sentiam menos e eu com as pernas bambas da viagem, do curso do dia
anterior e até das três horas em pé no coquetel, sentia mais, a ponto de ser
perceptível e incontrolável.
Lembro de ter perguntado ao Rodrigo se não era um
terremoto ao que ele me acalmou, dizendo ser só um abalo sísmico, que acontecem
três a quatro vezes por ano no Chile e que aquele era só de quatro a cinco na
escala Richter, portanto não haveria problema. Como o local do congresso era
térreo e seu nome Casa Piedra, dando-me a sensação de segurança, decidi
continuar o curso, não sem antes pedir às doutoras presentes, para em caso deste
se transformar em terremoto de verdade, me abraçarem e assim morrer rodeado das
lindas doutoras chilenas. Depois da gargalhada geral o terremoto para mim, abalo
sísmico para eles, parou e a única vibração que sentia era a emoção que eles
sentiam a cada nova idéia que lhes passava para conquistar novos e manter
antigos clientes.
Para mostrar que precisamos fazer algo urgente no
controle de horário de nossos vôos, o avião partiu de Santiago exatos dez
minutos antes, com todos a bordo, sem correrias. Como Santiago é hoje a cidade
mais primeiro mundo da América Latina, pensei: isso é coisa de país adiantado.
Trocamos de avião em Assunção e pensei, no meio de quase mil pessoas embarcando
em quatro vôos praticamente ao mesmo tempo: vai atrasar. Errei! Saiu
britanicamente no horário, como eu fiz às quatorze em ponto em Cascavel e às
nove em Santiago. Isso é respeito para com o cliente, consumidor ou cursante,
que deveria ser obrigação de todos. E dizer que não ministrei a conferência por
conta de dois vôos cancelados, por duas companhias diferentes em dois dias
contíguos. Isso tem que mudar. Ou breve perderemos nossa credibilidade e
turistas.
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