Longe da minha vontade, o causar polêmica. Move-me o interesse pela reflexão. O
pensar ainda é a melhor solução para todos os problemas. E escolher temas que
estão por merecer trocas de opiniões e outros pontos de vista, é minha intenção.
Sempre que possível, motivando com alguns dados de interesse.
Aproveito no assunto parte do título de um dos maiores
best sellers: Alvin Toffler, que já emplacara outro recordista de vendas: Choque
do Futuro, também dando sua visão para problemas que afligem pessoas, negócios,
povos e civilizações, por imaginarmos que algumas coisas existem em comum.
Para dar uma idéia das ondas a que queremos nos referir,
a primeira foi a das faculdades, que a partir dos anos oitenta, explodiram as
estatísticas dos recém formados, virando um bom negócio, para seus donos e uma
dor de cabeça para todos os que já estavam na profissão, pela avalanche de novos
profissionais que adentram ao mercado.
A segunda onda, não menos importante e impactante foi a
das especialidades. O que poderia ser a solução para a primeira onda, está se
constituindo em problema, haja vista que em quase todas as especialidades estão
se saturando de profissionais, quase eliminando o diferencial de ser
especialista e suas vantagens.
A terceira onda ainda está se armando no mais profundo
dos oceanos, sem que se percebam seus abalos, mas que poderá vir com a força das
tsunamis, que alarmaram o mundo na passagem do ano. Mas suas origens já começam
a dar sinais de que se iniciou o processo de algo que pode mudar a Odontologia.
Em função do como for encaminhado, para melhor ou para
pior. Isto porque as ações democráticas, quando conduzidas pelas quantidades, na
maioria das vezes não prezam a qualidade, da mesma forma que quando oriundas da
qualidade, nem sempre direcionam para a quantidade.
Para tornar a situação mais clara e sair um pouco das
profundezas do oceano, chegando à situação de verdade e momento, vou relatar o
que acontece somente com uma clínica que se dedica à Ortodontia no Paraná e que
por seus números e envolvimentos, merece ser analisada e interpretada de forma
mais ampla e detalhada.
Ela tem aproximados 300 funcionários, dos quais cerca de
30 Cirurgiões Dentistas. Cada um chefia um grupo de 5 a 6 atendentes, não
obrigatoriamente ACD’s, que fazem um “curso básico de aparelhos” dentro da
própria clínica, como condição para serem admitidas e começarem a praticar na
especialidade.
Elas costumam a atender de 30 a 50 pacientes por dia,
sob a supervisão de um Cirurgião Dentista e a clínica, não raro, supera os 1.000
pacientes dia. Quem enxerga já viu onde a terceira onda vai passar. Quem ainda
lembra das imagens da tsunami, sabe como e onde vai ser o seu efeito
avassalador. E seus estragos.
Há cerca de meio ano atendi a um e-mail me pedindo um
livro que coordenei a edição, ACD-Atendente de Consultório Dentário, para uma
entidade que era aproximadamente Associação Brasileira de Auxiliares
Odontológicas, comentando que depois iriam precisar de muitos deles. Passaram-me
os dados e mandei o livro.
Como uma das nossas funcionárias havia elaborado uma
monografia para conclusão de seu curso de administração, sobre o relacionamento
Cirurgião Dentista Implantodontista / Atendente de Consultório Dentário, liguei
alguns dias depois para comentar que tinha disponível a monografia e saber do
interesse, para enviá-la.
Para minha surpresa, ao ligar para a presidente desta
nova entidade, não atendeu nenhuma clínica dentária ou consultório e sim alguém
que identificou: gabinete do Senador X. Fiquei surpreso na hora, mas não
relacionei os fatos, o que só veio a acontecer quando li na matéria de capa do
Jornal da APCD, sobre a regulamentação da ACD e THD pelo projeto 1140 / 2003.
Nesta matéria o presidente da APCD, Guido Maltagliati,
deixa claro que “nada existe previsto no projeto que com sua aprovação, os
governos e as clínicas, não irão contratar um Cirurgião Dentistas que poderão
supervisionar 10 THD’s ou ACD’s” e que estas poderão realizar profilaxia;
inserir, condensar, esculpir e polir substâncias restauradoras, conforme consta
da amplitude das funções no seu artigo 5º.
Não quero ser alarmista, mas colocar minha posição de
quem analisa de fora e isento. Aquela situação da clínica de ortodontia do
Paraná, que já foi combatida como exercício ilegal da profissão, em breve poderá
se estender para outras especialidades e proliferar com o respaldo legal de uma
profissão regulamentada e independente.
Seus reflexos poderão ser bem mais amplos, pois suas
conseqüências se farão sentir logo a seguir na prevenção, na radiologia e até na
prótese, principalmente se os protéticos reivindicarem os mesmos direitos e
também se organizarem da mesma forma e passarem também a ter as liberdades que
lhe facultará a regulamentação.
Aos que imaginam que isso está longe de acontecer, o
referido projeto já foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social da Câmara
Federal em dezembro de 2004 e agora foi encaminhado para a Comissão de Trabalho,
Administração e Serviço Público, motivo pelo qual as mobilizações necessárias se
fazem urgentes.
Talvez isso esteja acontecendo por que parte da classe
não esteja sabendo respeitar e valorizar os que a ela servem. Eu mesmo com toda
minha formação e dedicação de uma vida pela Odontologia, ainda luto todos os
dias para receber o que me é de direito e muitas vezes não o consigo. De
reconhecimento, nem pensar.
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